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Por
ANTÔNIO
INÁCIO ANDRIOLI
Doutorando em
Ciências Sociais na Universidade de Osnabrück – Alemanha
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O
Roundup, o câncer e o crime do “colarinho verde”
É
surpreendente como, diante da expansão do cultivo da soja transgênica,
vem sendo construída uma imagem positiva do herbicida Roundup e de
seu ingrediente ativo, o glifosato. Em recente pesquisa de campo
realizada com agricultores no Rio Grande do Sul, chamam a atenção
a forma como o agrotóxico vem sendo considerado pelas pessoas que
estão em contato direto com o produto e, sobretudo, os argumentos
que estão sendo difundidos com a clara intenção de amenizar seus
possíveis efeitos à saúde e ao meio ambiente.
A
opinião difundida é de que o glifosato seria menos prejudicial em
comparação aos herbicidas anteriormente utilizados. Este é um dos
principais argumentos criados pela Monsanto para propagandear as
vantagens da soja transgênica, baseado na classificação toxicológica
do produto no Brasil como “faixa verde”, a classe IV. Na
linguagem dos agricultores entrevistados, o Roundup chega a ser
caracterizado como não sendo tóxico ou como o “bom veneno”. Há
agricultores que afirmam ter ingerido, acidentalmente, o produto e
que as conseqüências teriam sido “apenas” vômito e diarréia.
Alguns entrevistados relataram que agrônomos e técnicos agrícolas
lhes garantiram que o Roundup não é tóxico e que poderia ser,
inclusive, ingerido pelo ser humano sem maiores conseqüências à
saúde. Outros afirmam ter presenciado demonstrações provando que
o Roundup não é tóxico a vertebrados: vendedores do produto
teriam despejado o produto em um balde contendo água e pequenos
peixes e o resultado teria sido positivo, ou seja, os peixes
continuaram vivos.
Mais
absurdos, porém, são os relatos de agricultores explicando como
aprenderam a produzir soja transgênica na sua propriedade. Dois
procedimentos são relatados: a) despejar o Roundup em um recipiente
com soja até cobrir toda a semente, misturar bem e deixar por um
dia, até que a semente “convencional” se transforme em semente
“transgênica”; b) aplicar uma superdose de Roundup sobre a
soja, quando as plantas estão pequenas, com o objetivo de
“acostumá-las desde cedo” ao herbicida. Curioso também é
ouvir que haveriam agricultores vizinhos comprando essa soja,
acreditando na forma “caseira” de produzir semente de soja “transgênica”.
Outro relato curioso é com relação ao “ritual de queima de
enxadas”, conduzido por vendedores de Roundup e soja transgênica.
Os agricultores são convidados para uma exposição sobre as
vantagens da soja transgênica e devem trazer uma enxada para o
encontro, onde, após farta comida e bebida patrocinada pelo
vendedor, ocorre uma queima simbólica das enxadas, das quais os
agricultores estariam livres, pois elas seriam desnecessárias com o
advento do Roundup e a possibilidade de usá-lo em pós-emergência
para o combate dos inços em combinação com a soja transgênica.
Os
relatos demonstram a agressividade de uma estratégia de vendas
reforçada pela euforia dos resultados iniciais da soja transgênica
com relação à facilidade no controle dos assim chamados inços em
lavouras no Rio Grande do Sul e à redução da penosidade do
trabalho em função da substituição da atividade da capina pelo
uso intensivo de herbicida. Diante de tais práticas e métodos de
“insistência técnica”, quando extensionistas rurais assumem a
função de vendedores de agrotóxicos e são remunerados
proporcionalmente à venda do produto, a recusa e a desconfiança de
muitos agricultores com relação à tecnologia “moderna” é
compreensível. Em muitos casos, essa desconfiança e a falta de
acesso à informação científica conduzem os agricultores ao uso
indiscriminado e inadequado de agrotóxicos, um dos diagnósticos
mais comuns quando se procura identificar as causas do problema. O
que raramente se discute é a razão pela qual os agricultores
aplicam agrotóxicos, e como têm acesso aos produtos e às informações
com relação à sua utilização. Se a exposição de seres humanos
a altas doses de agrotóxicos é um problema real na agricultura,
seria sensato alertar os agricultores para os efeitos nocivos dos
produtos ao invés de propagandear seus benefícios. Nesse aspecto,
o caso da soja transgênica é ilustrativo, pois o uso
indiscriminado de glifosato vem sendo estimulado de forma criminosa
com o objetivo de aumentar suas vendas, sob a alegação de que ele
é “inofensivo à saúde humana e ao meio ambiente”. Mas, até
que ponto essa informação é verdadeira?
O
glifosato, N-(fosfonometil) glicina, é um herbicida secante, com
largo espectro de ação sistêmica. Ele atua na planta inibindo a
enzima EPSPS (5-enolpiruvilshiquimato-3-fosfato-sintase), o que
impede a elaboração de aminoácidos fundamentais para o
crescimento e a sobrevivência vegetal. Como o metabolismo de
animais é diferente, a toxicidade aguda do glifosato é baixa e os
sintomas de intoxicação só são registrados em contato com uma
dose elevada do produto. Isso não significa que não haja interferência
crônica do glifosato sobre o metabolismo animal e, é preciso
considerar, que na formulação do Roundup constam outros produtos
que, em consonância com o glifosato e outras substâncias no solo,
meio ambiente e organismos vivos, acabam tendo diferentes efeitos
colaterais. Para aumentar a eficácia do herbicida e facilitar sua
penetração nos tecidos vegetais, a maioria das suas formulações
comerciais possui
uma substância química surfatante (um composto químico que reduz
a tensão superficial
do líquido).
A formulação Roundup, que é a mais utilizada, é composta de
surfatante polioxietileno-amina, ácidos orgânicos de glifosato
relacionados, sal de isopropilamina e água. Em função dessa
composição, o Roundup possui uma toxicidade aguda maior que o
glifosato puro, testado em laboratório pelas principais agências
regulatórias do produto nos EUA. O surfatante presente no Roundup
está contaminado con 1-4 dioxano, um agente causador de câncer em
animais e potencialmente causador de danos ao fígado e aos rins de
seres humanos. Em decorrência da decomposição do glifosato
registra-se uma substância potencialmente cancerígena conhecida, o
formaldehido. E a combinação do glifosato com nitratos no solo ou
em combinação com a saliva, origina o N-nitroso glifosato, cuja
composição também é potencialmente cancerígena e para a qual não
há um nível de exposição seguro. Um estudo realizado na Suécia
concluiu que há uma associação do contato prolongado com
glifosato e o linfoma non-Hodgkin, outra forma de câncer, e os
pesquisadores alertam para o caso, considerando o exponencial
aumento no consumo do herbicida a nível mundial.
Um
problema sério nesse debate é que a maioria dos estudos sobre os
efeitos do glifosato e seus derivados sobre a saúde e o meio
ambiente são realizados pelos próprios fabricantes do produto,
interessados em aprovar seu uso e impulsionar as vendas. Soma-se a
isso a dificuldade de realizar estudos independentes sobre o
produto, uma vez que são poucos os laboratórios no mundo que
possuem os recursos, equipamentos e técnicas necessárias a uma
efetiva avaliação dos seus impactos e, além disso, a formulação
do herbicida e os produtos dele derivados estão protegidos pelo
princípio do sigilo e segredo industrial e comercial. A história
dos processos de registro e liberação do uso de agrotóxicos
revela que não são poucos os casos em que práticas fraudulentas,
como a falsificação de dados, a omissão de informações e a
manipulação de equipamentos conduziram a resultados falsos em
benefício da estratégia industrial e comercial e em prejuízo de
milhões de pessoas que sequer são informadas sobre os possíveis
efeitos de sua utilização. Após um período em que a indústria
de herbicidas havia priorizado o desenvolvimento de produtos
seletivos, com menor impacto às demais espécies, mas com um alto
custo embutido, atualmente há um retorno à produção e ao
incentivo ao consumo massivo da formulação sistêmica de ação
total criada na década de 1960. A carência de estudos
independentes e a dificuldade de detectar objetivamente os efeitos
desse produto sobre a saúde humana têm dificultado sobremaneira
uma avaliação segura acerca dos riscos e perigos que estão
diretamente imbricados com o aumento do seu uso em combinação com
culturas transgênicas a ele resistentes.
Na
Argentina, por exemplo, onde a soja transgênica vem sendo cultivada
desde 1996, o consumo de glifosato aumentou em 270%. O professor
Jorge Kaczewer,
da Universidade Nacional de Buenos Aires, alerta para os riscos
desta expansão do consumo de herbicida, que pode afetar não
somente os agricultores, mas também o conjunto da população, uma
vez que a sua presença no meio ambiente, na água e nos produtos
derivados da soja, que venham a conter resíduos de glifosato,
aumenta proporcionalmente os seus efeitos. Conforme Kaczewer, o NCAP
(Northwest Coalition for Alternatives to Pesticides) identificou
efeitos prejudiciais do glifosato à saúde em todas as categorias
padronizadas para o estudo toxicológico (subcrônicos, crônicos,
carcinogênicos, mutagênicos e reprodutivos). Os estudos de
toxicidade realizados demonstraram os seguintes efeitos: toxicidade
subaguda (lesões em glândulas salivares), toxicidade crônica
(inflamação gástrica), danos genéticos (em células sangüíneas
humanas), transtornos reprodutivos (diminuição de espermatozóides
em ratos e aumento da freqüência de anomalias espermáticas em
coelhos), e carcinogênese (aumento da freqüência de tumores hepáticos
em ratos e de câncer tireóide em ratas). Na Itália, pesquisadores
das universidades de Urbino e Perugia constataram, em 2004, alterações
nas células do fígado de ratos alimentados com 14% de soja transgênica
na ração,
o que também poderia estar relacionado aos possíveis resíduos de
Roundup, tendo em vista as intensivas aplicações sobre as plantas
em desenvolvimento vegetativo.
O
efeito do glifosato no organismo humano é cumulativo e a
intensidade da intoxicação depende do tempo de contato com o
produto. Os sintomas de intoxicação previstos incluem irritações
na pele e nos olhos, náuseas e tonturas, edema pulmonar, queda da
pressão sangüínea, alergias, dor abdominal, perda de líquido
gastrointestinal, vômito, desmaios, destruição de glóbulos
vermelhos no sangue e danos no sistema renal. O herbicida pode
continuar presente em alimentos num período de até dois anos após
o contato com o produto e em solos por mais de três anos,
dependendo do tipo de solo e clima. Como o produto possui uma alta
solubilidade em água, sua degradação inicial é rápida, seguida,
porém, de uma degradação lenta. Suas moléculas foram encontradas
tanto em águas superficiais como subterâneas. A acumulação pode
ocorrer através do contato das plantas com o herbicida (folhas,
frutos) e seus efeitos mutantes podem ocorrer tanto em plantas como
nos organismos dos consumidores. As plantas podem absorver o produto
do solo, movendo-o e concentrando-o para partes utilizadas como
alimento, com grandes variações.
No
Brasil, o glifosato é o principal causador de intoxicação,
apresentando 11,2% das ocorrências entre 1996 e 2002. Segundo o
Centro de Informações Toxicológicas do Rio Grande do Sul, o número
oficial de atendimentos de pessoas apresentando intoxicações com o
glifosato vem aumentando nos últimos anos: em 1999 foram
registrados 31 casos e em 2002 as ocorrências já aumentaram para
119. O herbicida passou de 4% em 1999 para 12,6% do total das ocorrências
oficiais de intoxicação em 2002, um período que coresponde à
expansão do cultivo de soja transgênica no Rio Grande do Sul,
onde, conforme o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
Recursos Naturais Renováveis), as vendas do produto aumentaram
significativamente de 3,85 toneladas para 9,13 toneladas de
ingrediente ativo.
A
Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), considerando o
potencial aumento de resíduos do herbicida na soja, determinou o
aumento de 50 vezes no LMR (limite máximo residual) do glifosato na
soja transgênica, de 0,2 mg/kg para 10 mg/kg. Assim, a Anvisa
demonstra que os argumentos da Monsanto anunciando uma diminuição
do uso de herbicida com o advento da soja transgênica não são
verificáveis na realidade, o que já estava previsto com a expansão
da indústria de Roundup no Brasil. Afinal, se houvesse uma diminuição
na aplicação de herbicida com a introdução da soja transgênica,
como isso seria compatível com os interesses de expansão das
vendas do produto? Por que expandir sua fabricação? E por que
aumentar o limite máximo residual do produto na soja
comercializada?
Ao
aumentar o limite máximo residual, a Anvisa está autorizando, também,
mesmo que de forma indireta, o aumento de resíduos dos demais
ingredientes da composição do Roundup, mais tóxicos ao ser humano
que o glifosato. Os consumidores de produtos à base de soja ou
derivados de animais alimentados com soja transgênica têm uma razão
concreta para se preocupar, independente da existência ou não de
prejuízos à saúde ocasionados pela modificação genética.
Estudos nesse sentido poderiam, inclusive, barrar as exportações
de soja transgênica.
O
Roundup, mesmo em forma de resíduos, pode inibir a síntese de
esteróides, ao interromper a expressão da proteína StAR (steroidogenic
acute regulatory protein), ocasionando distúrbios reprodutivos em
mamíferos.
O produto atua também como desregulador de enzimas essenciais à
produção de espermatozóides, ocasionando a produção anormal de
esperma. No Rio Grande do Sul, a pesquisadora Eliane
Dallegrave
detectou,
em 2004, a toxicidade reprodutiva do Roundup em ratos Wistar, como o
aumento no percentual
de espermatozóides anormais em puberdade e a redução da produção
diária e do número de espermatozóides em idade adulta. Além
disso, foram verificados distúrbios de desenvolvimento e alterações
nos tecidos testiculares dos ratos.
Se
essas conclusões podem ser generalizadas para outras espécies
animais e aos seres humanos, isso continua uma incógnita que carece
de estudos. O cuidado no manuseio e na aplicação do Roundup, por
parte dos agricultores, entretanto, e suas conseqüências aos seres
humanos e ao meio ambiente, certamente, merecem mais atenção. Do
contrário, ficamos iludidos pelos mitos criados por alguns
pseudo-cientistas maravilhados com a transgenia e cegos para os
riscos que estão implicados neste debate, repetindo falsas
garantias da mesma forma como as que observamos no caso da energia
nuclear e da vaca louca. As conseqüências desse “fanatismo
tecnológico” de alguns cientistas conduzem a um maior descrédito
da população com relação à ciência. Em contraposição aos
interesses das multinacionais e seus mercenários teóricos de plantão,
resta a resistência conjunta de agricultores e consumidores, ambos
atingidos pelos efeitos nefastos do Roundup, em defesa de um meio
ambiente saudável e uma melhor qualidade de vida para todos.
KACZEWER, Jorge. Toxicologia del glifosato: riesgos para la
salud humana. En:
La Producción Orgánica Argentina.
Buenos
Aires, N.º 60,
p. 553-561, 2002. http://www.vet-uy.com/articulos/artic_sp/001/sp_001.htm.
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