Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil

 

O PT pode ser a salvação do Brasil

 

Com o perdão dos leitores pelo título sumamente irônico, numa conjuntura na qual o ex-partido da “ética na política” nos dá shows diários de técnicas inovadoras em matéria de sustentação heterodoxa de campanhas eleitorais – ademais de cenas explícitas de pornografia financeira –, gostaria, ainda assim, de demonstrar como e por que esse mesmo partido, que parece agora vir ao termo de sua fabulosa parábola política, pode ajudar a salvar o Brasil de uma catástrofe anunciada.

É sabido de todos os leitores bem informados o estado lamentável das finanças públicas brasileiras, assim como é conhecida nossa caminhada lenta e segura para o brejo de uma inadimplência fatal e irrecorrível. Não é preciso ser nenhum gênio das estatísticas econômicas para identificar a raiz do problema. Trata-se de uma história de insolvência anunciada e mais do que antecipada pelos estudiosos das contas nacionais, sobretudo em função do peso crescente das despesas obrigatórias – que aumentam vegetativamente e compulsivamente, como por exemplo os gastos previdenciários, estes à velocidade das trepadeiras – e de outras transferências determinadas constitucionalmente (mas quase todos os nossos gênios da política encontraram uma maneira de constitucionalizar algum “direito” para seus grupos especiais de interesses). Quem quer que se tenha debruçado sobre as projeções e estimativas feitas a partir dos encargos do Estado – união e entidades federadas – não pode deixar de ficar apavorado com o tamanho da conta que estamos deixando para nossos filhos e netos, ou, provavelmente, para nós mesmos, pois já não teremos, nesta geração, os recursos suficientes para cobrir o regime geral da previdência num horizonte mais do que previsível.

Pois bem, onde entra exatamente o PT nessa história, um partido que, quando na oposição, não se cansava de denunciar a “deriva neoliberal” de um Estado que pretendia repudiar os direitos dos trabalhadores a uma aposentadoria decente? Ele entra justamente para nos dizer como e por onde encontrar os recursos necessários para fazer face ao desastre mais do que iminente. Já explico logo como, mas, antes, uma pequena lição de economia doméstica talvez nos ajude a compreender o drama do PT e a solução genial que ele acaba de encontrar para se livrar de algumas de suas agruras financeiras (se ele sobreviver ao trator implacável da justiça eleitoral, obviamente).

Imagine o dileto leitor que ele tenha rendimentos mais ou menos fixos – como a maioria de nós, simples assalariados do Estado ou do setor privado – e despesas mais ou menos elásticas, como as que podem ocorrer num acidente com o carro sem cobertura de seguro, numa despesa médica inesperada, ou num desses eventos fortuitos da vida: um casamento, um aniversário de casamento ou férias bem tiradas no exterior com alguma desvalorização cambial no intervalo. A conseqüência mais visível será algum número vermelho na conta bancária, com o que será necessário entrar no cheque especial e pagar juros extorsivos ao seu banqueiro muito solícito com esse tipo de situação. Compreende-se: quem incorre em despesas extraordinárias, acaba entrando em déficit temporário e aí tem duas escolhas, uma pela via do ajuste rápido e doloroso, a outra pela assunção de dívidas, sobre as quais incorrem juros e outras comissões bancárias.

Pois o PT pecou por excesso de despesas; dizem seus responsáveis financeiros que foi por causa das campanhas eleitorais, embora muitos desconfiem de mesadas mais do que generosas pagas a personagens tidos e havidos como indispensáveis ao sucesso político do seu projeto de poder. Que seja: por uma razão ou por outra, o partido, que antes repudiava o pagamento da dívida externa e até propunha uma “renegociação” da dívida interna, se vê agora a braços com uma dívida que ele julga impagável, mas que terá de honrar por portar a assinatura de seus dirigentes mais notáveis. Não, não me refiro aos cento e tantos milhões de “contribuições não contabilizadas”, no curioso linguajar do seu ex-tesoureiro, mas apenas e tão simplesmente aos pouco mais de R$ 20 milhões de dívida oficialmente reconhecida, segundo os próprios dirigentes partidários.

Como se diria: “devo, não nego, mas pagarei quando puder”. Em outros termos, aquela parte da dívida do PT que foi devidamente contabilizada em algum instrumento bancário terá de ser paga, e será paga, afirmam seus dirigentes, o que coloca o partido em maus lençóis em face de seus muitos fornecedores ou simples empregados. Parece que os tempos de aluguel de jatinhos e helicópteros e de hospedagem em hotéis cinco estrelas, quando viajavam esses mesmos dirigentes, vão ficar definitivamente para trás, uma vez que os novos tempos são duros, e prometem assim ficar pelo futuro previsível (como já ocorre no caso do Brasil, aliás).

E o que promete fazer o PT, que justifique o título salvacionista do meu artigo e que antecipe, hipoteticamente a redenção do País? Algo que ele nunca fez em vida (quero dizer, na sua vida pregressa): economia, stricto et lato sensi. O PT (um novo PT?) diz que vai fazer economia, e mostra como. Isso é surpreendente, e mesmo extraordinário, uma vez que jamais, em sua vida pregressa (em todas as que teve) o partido se pautou pela sensatez em matéria econômica, na sua própria economia e na dos outros, isto é, do País.

Anunciam os arautos do partido que para enfrentar os novos tempos, o PT fará exatamente aquilo que qualquer um de nós, ou qualquer empresa em situação similar, faria em uma conjuntura de receitas reprimidas e despesas exageradas: reduzir os gastos e adotar um novo estilo de vida. No seu caso, as medidas anunciadas pelos novos dirigentes são as seguintes: demitir servidores (não disseram quantos), vigiar os aumentos salariais dos que ficam, rebaixar os salários da cúpula, rever a necessidade de espaço físico para funcionar, fechar escritórios, enxugar a frota de carros, além, é claro, de interromper a já referida utilização de jatinhos e helicópteros, além da hospedagem em hotéis de luxo quando do deslocamento dos dirigentes.

O leitor já se deu conta da enormidade da revolução econômica prometida pelo PT? Eles estão prometendo fazer agora tudo aquilo que, na vida pregressa do partido, nunca pregaram, ao contrário, e que, uma vez no governo, nunca praticaram. Trata-se de uma reviravolta copernicana em matéria econômica, um gesto de anti-keynesianismo explícito, uma adesão incontida e totalmente transparente às normas do maldito consenso de Washington que esses mesmos dirigentes – e seus militantes bem intencionados –condenavam nos bons tempos de inacreditável prodigalidade econômica e de sorridente irresponsabilidade política.

Houve um tempo, acredite o leitor, durante o qual o PT acreditava que dinheiro crescia em árvores e que a recusa dos governos burgueses em aumentar o salário mínimo se devia única e exclusivamente à falta de vontade política (na melhor das hipóteses) ou à perversidade econômica dos responsáveis financeiros (na pior delas). Esse tempo foi largo, durou pelo menos vinte anos de longa espera na trajetória do poder e representou uma dura travessia no deserto das expectativas eleitorais de um partido que acreditava na cornucópia econômica dos recursos estatais infindáveis. É verdade que, antes de chegar ao poder, uma parte do PT, pelo menos, já tinha se convertido a algumas regras simples de boa gestão econômica, mas foram poucos, muito poucos esses realmente convertidos. Talvez o encarregado principal da redação da “Carta ao Povo Brasileiro”, de junho de 2002, e um ou outro petista desgarrado (e isolado), mas esses eram poucos, muito poucos para colocar o partido numa trajetória de real conversão aos bons princípios de uma gestão econômica responsável. Agora, eles podem ser muitos, finalmente!

Se não fosse o pequeno acidente do “mensalão” e outros episódios de notório conhecimento do público leitor – e que me eximo de referir aqui para guardar o caráter econômico deste artigo –, talvez não teríamos conhecido essa inacreditável conversão de alguns dirigentes do PT às regras do consenso de Washington e à ortodoxia financeira, que eles sempre condenaram nos velhos tempos. Pois agora, que ele parece próximo da extinção, o PT, finalmente, traz sua incontida adesão à saudável economia que poderá, teoricamente, retirar o Brasil de sua trajetória em direção ao desastre orçamentário e à inadimplência financeira. O Brasil também precisa reduzir despesas, o Estado apertar sua cintura larga demais, despedir empregados e provavelmente terceirizar alguns serviços públicos, privatizar agências e empresas públicas que se prestam particularmente às vis manipulações de dirigentes venais, tirar carros e aviões de aparatchiks mal acostumados e colocar seus salários em regime de vigilância. Enfim, o trivial costumeiro em tempos de vacas magras, mas de que o Brasil necessita por muitos e muitos anos.

Se o PT conseguir limpar suas estrebarias de Augias e recolocar suas finanças em ordem, dentro do mais estrito respeito às regras de boa gestão econômica, ele ganhará credenciais para administrar as contas do País numa direção contrária à que ainda agora caracteriza nossa história financeira recente. Mesmo que ele desapareça, o que depende, obviamente, do curso tomado pelas investigações e do rigor mais ou menos dedicado de algum procurador da República, o PT terá deixado um último legado de responsabilidade econômica que muito enriquecerá nosso sistema partidário, historicamente permissivo em relação à boa gestão da coisa pública. Por incrível que isso possa parecer agora, o PT ainda pode ser a salvação (econômica) do País: basta que ali aplique a si mesmo, e ao governo ao qual ele ainda está teoricamente ligado, as regras que seus dirigentes acabam de definir para redimi-lo de uma iminente catástrofe financeira. Inch Allah!

 

 

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