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Por
SILVIA BEATRIZ
ADOUE
Nasceu
em Buenos Aires, Argentina. É
Mestre em Integração na América Latina, pelo
PROLAM-USP, doutoranda em Literatura
Hispano-americana, pela FFLCSH - USP, e professora do
curso de Letras do CEUCLAR
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Duas Casas, uma mesma
solidão:
Casa tomada,
de Julio Cortázar e A casa de Asterión,
de Jorge Luis Borges
“Algum dia (penso em momentos de
ira) irei procurá-la. [...] Se a encontrar, refrescantes altas
ondas de cólera, medo e frustrado amor se levantarão, poderosas
vingativas ondas, e por um momento já não me sentirei sozinho, já
não me sentirei como uma arrastada, amarga, esquecida sombra.”
(WALSH in WALSH, 1986: p.10.)
No contexto do ambiente literário
argentino dos anos 40, Borges, escritor já consagrado, e Cortázar,
então jovem professor de Literatura e tradutor, partilhavam da mesma
atitude em relação à plebe. A produção de ambos escritores registra
na época o pânico da classe média frente à irrupção massiva dos
pobres no espaço público urbano, resultante de um processo de
migração interna que vem dos anos 30 e que se afirma, legitimada
pela ascensão do peronismo ao governo, em 1946.
“[...] todos [os
escritores] confiam na oposição sémica civilização-barbárie para
entender a realidade Argentina; e todos se referenciam num mesmo
sistema hegemônico de prestígio [...]. A oposição entre peronismo
e antiperonismo percebe-se como continuação ou clausura de uma
etapa que tinha começado no fundo do século dezenove, motivo pelo
qual muitos desses escritores chegam à conclusão –para Borges
melancólica, para Julio Cortázar misteriosa, para Ezequiel
Martinez Estrada apocalíptica-, de que o peronismo constituía um
fechamento e balanço, depois do qual nada ia ser o mesmo.”
(AVELLANEDA in NAVARRO, 2002: p.105.)
Em 1946, Borges publica na revista “Los
Anales de Buenos Aires”, que dirige, o conto “Casa tomada”, de Julio
Cortázar. Um ano depois, faria a mesma coisa com “Bestiario”, do
mesmo autor. Em 1949, os dois contos seriam publicados numa
coletânea com o nome de “Bestiario” (1977) . No mesmo ano, Cortázar
também colaboraria na revista “Sur”, junto com Borges. E é nesse
mesmo ano de 1949 que Borges publica o conto “La casa de Asterión”
na coletânea “El Aleph” (1957).
Podemos pensar, talvez, em “Casa tomada”
e em “La casa de Asterión” como duas versões invertidas de “O
coração das trevas”, de Joseph Conrad (in: BORGES, 1999), autor
admirado por Cortázar e Borges. No relato de Conrad, é o rio que
conduz o narrador para o coração mesmo da barbárie.
“Casa tomada” é narrado em primeira
pessoa por um dos habitantes da residência: um casal de irmãos de
meia idade que sobrevive da renda “dos campos”, propriedade
familiar. Moram na casa seguindo uma rotina morna e estéril: ele, o
narrador, lê e ela tece. Papéis invertidos: o homem é um receptor, a
mulher produz. Ambos, porém, lidam com a linha, da escrita e do fio
de lã. A casa é descrita com minúcia e apresentada como justificação
para a vida, a rotina e a solidão dos irmãos. Mas invasores quebram
a tranqüilidade familiar ocupando a parte dos fundos. Os irmãos
conseguem trancar uma porta e resguardar a parte da frente para si.
Uma noite, ouvem ruídos, percebem que os invasores franquearam a
fronteira. Fogem pela porta afora, deixando dentro o novelo de lã do
tecido da irmã que o abandona uma vez na rua. Trancam a porta, não
seja que o coitado de um ladrão entre para roubar “nessa hora e com
a casa tomada”.
“La casa de Asterión” é um jogo de
esconde-esconde com o leitor avisado. Uma paródia do mito do
Minotauro, narrada em primeira pessoa pelo monstro singular que,
porém, nos mostra a face monstruosa do “rebanho”, o povo
aterrorizado que por sua vez lhe provoca repugnância. O conto breve
apresenta, aqui e ali, dicas que permitem identificar o relato
original, que só é revelado completamente nas últimas quatro linhas,
onde aparece a voz de um narrador em terceira pessoa e a fala de
Teseo para Ariadna, que relata em poucas palavras os últimos
momentos do monstro.
Nos dois casos, podemos reconhecer a
característica apontada por Andrés Avellaneda: “o topos de
invasão, obsessivo na literatura desses anos, vincula-se fortemente
com esse modo de perceber a realidade social e cultural da época”
(in NAVARRO, 2002: p.104). O tratamento do monstruoso é, porém,
diferente no conto de Borges e no de Cortázar. Os invasores de “Casa
tomada” não têm rosto e nem nome. O animalesco em “La casa de
Asterión” está no povo, na perspectiva do monstro que nos relata a
história. A adoção do ponto de vista, como nas narrações góticas,
humaniza o Minotauro, provocando a nossa compaixão.
Asterión deseja alguém como ele, com
quem poder brincar de esconde-esconde e a quem mostrar sua casa.
Assim também, Borges deseja ardentemente encontrar um leitor que o
compreenda, um igual que descubra atrás dos seus artifícios
literários as suas misérias humanas, a solidão do labirinto das suas
leituras. Lendo o conto, podemos imaginar Jorge Luis criança, sem
amigos da sua idade para brincar na biblioteca familiar. Em “Casa
tomada”, Irene, a irmã do narrador, é o seu duplo feminino. A sua
presença é garantia e sublinhado da solidão do narrador. Um duplo
que, assim como o duplo desejado de Asterión, não interpela, não
desestabiliza, mantém o equilíbrio calmo de uma existência sem
contradições: “Não encontrarão luxos femininos aqui e nem o bizarro
aparato dos palácios, mas a quietude e a solidão”
(p.67). O afeto é, para ambos autores, um amor narcísico. O desejo
do espelho. O Outro é sempre assustador. O “redentor” de Asterión,
Teseo, consegue sair da casa graças ao fio de Ariadna, mas não há
referências ao truque no relato de Borges. O fio, no mito grego, é
metáfora do amor que salva do labirinto da solidão. No caso do conto
de Cortázar, o fio de lã não une os amantes. E não é um recurso de
salvação. Irene observa a sua inutilidade e abandona o tecido.
Se Cortázar parte para Paris, o exílio
voluntário, fugindo da “vulgaridade” que toma conta da produção
cultural durante o peronismo, Borges pratica a autoironia: é ele o
monstruoso, o singular, o diferente, e está fadado à morte. Em
momento algum esconde sua condição agressiva e vingativa: “[...] eu
castigarei no seu tempo [...]”
(p.67)Em 1947 havia escrito “La fiesta del monstruo” (in OLGUÍN,
2000), junto com o seu amigo Bioy Casares. Nesse conto, a loucura, a
brutalidade da plebe, tinha tomado conta da cidade. Em “La casa de
Asterión”, o único impedimento para entrar no palácio do Minotauro é
o terror que este inspira na grey: “[suas portas] estão abertas dia
e noite para os homens e também para os animais. Quem quiser, que
entre”
(p.67).
Em Paris, porém, Cortázar recolheu a
linha que Irene tinha deixado cair. O fio da memória permitiu ao
escritor re-tecer o país na sua escrita. Depois deu nome e rosto e
voz e razões àqueles de quem tinha fugido. Já em “Las puertas del
cielo”, outro dos relatos de “Bestiario” (1977), o medo dá lugar à
fascinação pelo Outro, ainda que apresentado como animalesco,
monstruoso, abjeto.
Esta chave de leitura do conto “Casa
tomada” como “alegoria do sentimento de invasão” da plebe foi
apontada por primeira vez por Juan José Sebreli em 1964 em “Buenos
Aires, vida cotidiana e alienação” (in SEBRELI, 2003: p.102). Porém,
já em 1962, Germán Rozenmacher publicava “Cabecita negra”
(1967), releitura do conto de Cortázar. No relato de Rozenmacher, um
casal de irmãos, humilhados e ofendidos, invade a casa de um homem
de classe média para cobrar o que julgam que lhes é devido. Os
invasores têm nome e rosto e voz e razões. “A operação de inverter o
topos implicava a substituição de um campo semântico por
outro, mas isso impunha, por sua vez, a aceitação da existência dos
dois níveis por separado. Por exemplo, a operação de inverter o sema
‘cabecita negra’ para incluí-lo no semema ‘civilização’ apenas foi
possível porque civilização e barbárie eram pensados ainda
como campos semânticos válidos.”
(AVELLANEDA in NAVARRO, 2003: p.111.) A
inversão não resolve a tensão, apenas a explicita, dá nome aos bois.
A partir dos anos 60, junto com Cortázar
e Rozenmacher, outros autores, como Walsh, recolheram o fio de
Ariadna numa proliferação de alegorias do amor ao povo que salva o
intelectual do labirinto da solidão. De todas elas, a alegoria do
amor carnal é a mais freqüente. Borges, em troca, fez dos seus
últimos gestos, alegoria daquela procura pelo duplo igual, pelo
espelho: o seu casamento quase póstumo com Maria Kodama assim o
atesta.
Original: “[sus puertas] están abiertas día y noche a los
hombres y también a los animales. Que entre el que quiera.”
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Referências bibliográficas
AVELLANEDA,
Andrés. “Evita: cuerpo y cadáver de la literatura” in: NAVARRO,
Marysa (org.). Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2002.
BIOY CASARES, Adolfo e BORGES,
Jorge Luis. “La fiesta
del montruo” in: OLGUÍN, Sergio (org.). Perón Vuelve. Cuentos sobre
peronismo. Buenos Aires: Norma, 2000.
BORGES, Jorge
Luis. “La casa de Asterión” in:________. El Aleph. Buenos Aires:
Emecé, 1957.
CONRAD, Joseph.
“El corazón de las tinieblas” in: BORGES, Jorge Luis (org.). Cuentos
Memorables según Jorge Luis Borges. Buenos Aires: Alfaguara, 1999.
CORTÁZAR, Julio.
“Bestiario” in: Bestiario. 18ª. Edição. Buenos Aires: Sudamericana,
1977.
________. “Casa
tomada” in: Bestiario. 18ª. Edição. Buenos Aires: Sudamericana,
1977.
________. “Las
puertas del cielo” in: Bestiario. 18ª. Edição. Buenos Aires:
Sudamericana, 1977.
ROZENMACHER, Germán.
"Cabecita negra", in: Cabecita negra. Buenos Aires:
CEAL, 1967.
SEBRELI, Juan José.
“Buenos Aires, vida cotidiana y alineación” in: Buenos Aires, vida
cotidiana y alineación, seguido de Buenos Aires, ciudad en crisis.
Buenos Aires: Sudamericana, 2003.
WALSH, Rodolfo.
“Esa mujer” in: Los oficios terrestres. 4ª. Edição. Buenos Aires: de
la Flor, 2000. |
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