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Brasil e China
A comparação entre os dois países
impõe-se como um exercício crítico dos caminhos e estratégias de
desenvolvimento seguidos pelas duas sociedades nos últimos vinte e
cinco anos. A visita do presidente da China, Hu Jintao, à Brasília,
DF, na segunda metade de novembro de 2004, enseja a oportunidade de
uma avaliação comparativa da situação e das perspectivas dos dois
países nesse limiar do século 21.
Durante sua visita o presidente chinês
exigiu o reconhecimento de status da China como economia de mercado,
o que facilitaria seu ingresso à Organização Mundial de Comércio –
OMC. Sem fazer promessas acenou com o fechamento de contratos
comerciais e a viabilização de investimentos chineses no Brasil,
particularmente em infra-estrutura. Ouviu o pleito do Brasil para
obter apoio da China, quando da reorganização das Nações Unidas, por
um assento permanente no Conselho de Segurança, sem manifestar-se a
respeito.
Há mais de duas décadas a economia
chinesa cresce à taxa anual superior a 9%, medida pelo produto
interno bruto – PIB para assombro e inveja de economistas e
políticos ocidentais. Junto com o crescimento econômico ocorreu um
acelerado processo de urbanização que transferiu dezenas de milhões
de camponeses para as cidades, a um ritmo superior a qualquer outro
país na História recente. Junto com a população expandiu-se o
processo de desenvolvimento em direção ao interior por milhares de
quilômetros ao longo dos grandes rios Yang-Tse e Huang-Ho acumulando
ininterruptamente capital e investindo mais de 40% do PIB, além de
absorver mais da metade dos foreign direct investment – FDI
dos investimentos estrangeiros do Mercado Mundial. Com uma ampla
oferta de mão-de-obra relativamente qualificada e o acesso à
tecnologia de ponta, a China conseguiu exportar e abarrotar os
mercados externos com seus produtos, ao mesmo tempo acumulando um
saldo superavitário em sua balança comercial de aproximadamente US$
200 bilhões.
A qualidade de vida de toda a população
melhorou nesse período, incluindo uma crescente e próspera classe
média. Seu coeficiente de GINI – parâmetro de distribuição desigual
da renda – é igual ao dos Estados Unidos. Apesar de previsões
pessimistas que afirmam a insustentabilidade do presente crescimento
do PIB e das exportações, os avanços na transformação e expansão do
mercado interno reforçam a tendência ao crescimento da economia
chinesa, atualmente já a terceira do mundo.
Sem dúvida, a China enfrenta enormes
problemas sociais e sobretudo, ambientais cujo equacionamento e
solução exigirão investimentos e esforços adicionais de planejamento
da expansão econômica e social. Nesse período de vinte e cinco anos
a China conseguiu incorporar à sociedade entre duzentos e cinqüenta
a trezentos milhões de pessoas como membros produtivos, mais do que
todos os países “emergentes” ou em desenvolvimento em seu conjunto.
A liderança chinesa, o partido e o governo estão confiantes e
decididos em levar a dinâmica do processo de desenvolvimento da
costa para o interior onde se encontra a população mais pobre do
país.
O Brasil arrasta-se por mais de vinte
anos numa recessão econômica – as duas décadas perdidas – durante as
quais ficou exposto a políticas macroeconômicas e cambiais
irresponsáveis e ruinosas que deixaram o Tesouro Nacional exaurido e
o país endividado.
Os sucessivos governos foram obrigados a
recorrer ao Fundo Monetário Internacional – FMI a fim de evitar o
desmoronamento financeiro e o calote aos seus credores nacionais e
internacionais. Como o saldo dessas políticas macroeconômicas
tivemos um aumento do número de milionários e também dos excluídos,
desempregados, sem-terra e sem-teto. O nível das dívidas externa e
interna alcançou patamares inéditos em nossa História, o que
contribuiu para a elevação da taxa de risco para o país e da taxa de
juros estrangulando qualquer possibilidade de um crescimento
econômico sustentado. É verdade, tivemos nos últimos dois anos –
2003 e 2004 – um saldo positivo na balança comercial com o exterior
devido ao aumento das exportações, commodities e produtos
semi-elaborados de baixo valor agregado cujos resultados serviram
para cumprir com os compromissos contraídos com o FMI e os bancos
nacionais e internacionais. Pagamos anualmente somas astronômicas a
título de juros e amortização do principal. À vaidade dos
governantes por terem honrado os compromissos com os credores devem
ser contrapostos os custos ambientais e sociais dessa política que,
obviamente, não foram contabilizados.
O avanço da economia brasileira para o
interior foi comandado pelo agronegócio que deixou em seu rastro um
imenso vazio demográfico, expulsando as populações nativas, caboclos
e índios. Ao mesmo tempo possibilitou a formação e novos
latifúndios – vide o “rei” da soja, ocupando sucessivamente as
terras do cerrado e do sul da Amazônia, constituindo uma verdadeira
ameaça aos ecossistemas, à biodiversidade, ao clima e à população do
país. As tão apregoadas vantagens para o incremento das exportações
brasileiras são ilusórias e precárias, devido ao pouco valor
agregado e a volatilidade dos preços das commodities no
mercado mundial.
Façamos um rápido balanço social e
político a partir da reconquista da democracia com o fim do Regime
Militar, em 1985. O aumento de graus de liberdade, sobretudo para a
classe média, foi acompanhado por desemprego, queda da massa
salarial e o empobrecimento de um número crescente de brasileiros.
Para os pobres, os sem-teto, os sem-terra, a liberdade significa
poderem dormir debaixo de pontes e viadutos ou nas ruas, ainda assim
expostos às agressões de capangas contratados por latifundiários ou
por assassinos profissionais como recentemente ocorreu em São Paulo
e no Rio de Janeiro.
O quadro político durante os governos
pós-militares permaneceu praticamente inalterado, em que pese a
vitória eleitoral do Partido dos Trabalhadores – PT nas eleições de
2002. O Congresso continua dominado pelos representantes das
“elites” (os famigerados trezentos picaretas, segundo o atual
presidente) que defendem os interesses de uma coalisão difusa, mas
sempre alerta, de proprietários de terras, grandes empresas
industriais nacionais e transnacionais, da tecnoburocracia civil e
militar e da mídia controlada por um oligopólio estreitamente
associado aos grupos dominantes. O PT, ou melhor, sua cúpula,
acabou sendo cooptado pelo rolo compressor da “elite”, endossando
seu discurso e suas políticas econômico-financeiras. Assim
ampliou-se o fosso entre os have and have not, ricos e
pobres, moradores de mansões luxuosas e das favelas.
Como explicar a discrepância no ritmo e
na intensidade do desenvolvimento de dois gigantes territoriais com
imensos recursos naturais e humanos?
A China passou nos anos sessenta pelo
movimento da Revolução Cultural, sob a liderança do presidente Mao
Tse Tung, mobilizando e despertando politicamente dezenas de milhões
de camponeses, trabalhadores e estudantes. Ao mesmo tempo foram
varridas do cenário social e político as “elites” tradicionais que
arrastaram a China durante séculos pela mais abjeta miséria e por
guerras intermináveis entre generais feudais.
No Brasil, as “elites” se perpetuam e
continuam intocáveis mesmo após a abolição da escravidão e a
proclamação da República ocorridas sem qualquer participação das
massas populares. Permanecemos assim, apesar da urbanização e
industrialização no século 20, uma sociedade profundamente dividida,
desigual e injusta.
Por outro lado, apesar das aparentes
crueldades e das injustiças cometidas durante a Revolução Cultural,
a China emergiu dela como uma sociedade mais coesa e solidária e
seus membros mais conscientes de seu legado histórico e de sua
identidade nacional e cultural.
Na fase de transição para uma sociedade
industrial moderna, a presença do Estado com sua capacidade de
planejar, orientar e regulamentar os investimentos produtivos teria
sido o fator fundamental para o surgimento da potência hegemônica
chinesa no cenário internacional, à semelhança do Japão no século
19.
E a ação do poder público, apoiado em
amplo consenso da população, cria oportunidades para planejar e
fiscalizar a aplicação de recursos materiais, humanos e financeiros
que garantem o êxito na condução do processo de desenvolvimento. |