|
Por
PAULO ROBERTO
DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil

|
|
Dois
casos paradigmáticos de sucesso econômico: o anão e o dragão
A
Irlanda e a China são dois países que, ao que se saiba, nunca se
tocaram, ou seja, não possuem histórias entrelaçadas e nunca
estiveram em “confronto” um com o outro. Eles são muito
diferentes entre si e, no entanto, têm muitos pontos em comum, a
começar por extraordinárias experiências de crescimento econômico
sustentado, poucas vezes, ou talvez jamais igualadas na história
econômica mundial, com transformação produtiva e redução
significativa dos índices extremos de pobreza anteriormente
prevalecentes em cada um deles.
A
intenção aqui não é a de comparar esses dois países, mas
simplesmente a de ressaltar alguns pontos relevantes em suas trajetórias
respectivas, de maneira a extrair, quem sabe?, alguns ensinamentos
úteis para o nosso próprio país.
1.
Irlanda: o desconforto da riqueza
A
Irlanda foi um dos países que mais cresceu nos últimos vinte anos.
Partindo de patamares muito baixos de desenvolvimento – não
considerando aqui a tradição secular de “exportação” de
irlandeses por motivos de miséria econômica –, os progressos
econômicos obtidos pela Irlanda foram particularmente
impressionantes na última década do século XX, depois que o país
se organizou para enfrentar os desafios de sua integração à
Europa comunitária e à abertura de mercados prometida pelo Ato Único
de 1986, que previa um mercado unificado em 1992. Entre 1991 e 2001,
o PNB cresceu à média de 6,4% ao ano em termos reais, alcançando
a média européia em 2003 (em termos de PIB, o crescimento foi
ainda maior, pois o PIB per capita supera a média da UE em 15%, mas
é preciso considerar que a Irlanda é um país de atração de
investimentos estrangeiros, por excelência, o que diminui,
portanto, o seu PNB em relação ao PIB). Ao mesmo tempo, o
desemprego crônico, que existia anteriormente, foi sensivelmente
reduzido, passando de uma média de 15% da PEA a menos de 4% no
mesmo período.
Esses
resultados se devem, segundo a análise de
Marialuz Moreno Badia, do Departamento da Europa do FMI (boletim do
FMI de 31 de janeiro de 2005, disponível no link: http://www.imf.org/external/pubs/ft/survey/spa/2005/013105S.pdf),
à aplicação de políticas econômicas corretas, como a abertura
comercial, a participação na UE e ao contexto econômico externo
favorável. Em especial, o ingresso na união econômica e monetária
da UE suscitou um forte decréscimo das taxas de juros reais e
estimulou o investimento direto estrangeiro. A consolidação fiscal
reduziu a dívida pública, que passou de 100% do PIB em 1988 para
apenas 36% em 2001, e criou espaço para reformas tributárias que
ampliaram os investimentos e o emprego.
A
Irlanda pode estar vivendo hoje uma situação similar à da Holanda
no século XVI, segundo a análise histórica de Simon Schama (The Embarassment of Riches), quando os holandeses dispunham de
bastante conforto material, a ponto de poderem se entregar a luxos
antes proibitivos, como o investimento em arte, em conforto pessoal
e até em especulações em bolsa (como provado pela “febre das
tulipas”, que provocou um dos primeiros estouros de “bolha
financeira” já estudados pelos historiadores econômicos).
Segundo um artigo recente na
imprensa americana, os irlandeses poderiam estar vivendo uma
“crise de identidade”, pois nunca antes tinham desfrutado de tal
nível de vida.
Em
face dessa crise de identidade, como poderíamos situar o Brasil,
com o seu “desconforto da miséria”? Segundo o presidente, a miséria
atingiria algo como 44 milhões de brasileiros (ou 11 milhões de
famílias, aquelas mesmas que ele pretende alcançar mediante o
programa Fome Zero, englobado no Bolsa Família). A primeira providência
para uma comparação objetiva entre esses dois “desconfortos”
antitéticos seria analisar as causas da pobreza em ambos os países
e as estratégias adotadas para superá-la. Ao que se conhece, a
Irlanda não colocou em vigor nenhum programa de “alívio da
fome”, embora tenha conhecido, no passado, episódios dramáticos
de fome epidêmica, que determinaram a saída de centenas de
milhares de irlandeses para outros países, os Estados Unidos em
especial.
O
que a Irlanda fez, de verdade, foi ter decidido, pouco mais de duas
décadas atrás, tornar-se um país desenvolvido. Para fazê-lo, ela
tomou o caminho mais rápido, que não é o da distribuição de
dinheiro para quem é pobre ou dispõe de rendimentos mínimos. Ela
o fez, basicamente, pela via da educação nacional, a única rota
segura para a elevação dos padrões de produtividade do trabalho
humano, que por sua vez ainda é o caminho mais rápido para a elevação
dos níveis de renda e de bem estar material. O projeto nacional dos
irlandeses foi assim, tão simplesmente, dar uma educação de
qualidade a cada um dos seus filhos, prolongando a formação nas
etapas técnico-profissional e depois universitária. Por certo,
isto não foi tudo: eles também liberalizaram a economia e se
abriram ao capital estrangeiro: de fato a Irlanda foi um dos países
da Europa que mais recebeu investimento direto estrangeiro, em
proporção do PIB, nos três últimos lustros. Esse investimento
veio para a Irlanda porque tinha certeza de que iria encontrar um
ambiente de negócios favorável e de que a mão-de-obra seria
adequada para os empreendimentos relativamente sofisticados – geralmente
na indústria eletrônica – que iriam ser estabelecidos.
E
quanto ao Brasil, o que poderíamos dizer? O diagnóstico e,
sobretudo, os prognósticos não são os mais favoráveis. Nossa mão-de-obra
dispõe de escassos 4,3 anos de estudo, na média (contra algo como
9 anos para um operário coreano), o que é simplesmente inaceitável
do ponto de vista do capitalismo moderno. O ambiente de negócios não
é exatamente aquele que mais atrai investidores: segundo o Banco
Mundial, o prazo médio para se abrir uma empresa vai a mais de 150
dias, e o de fechamento então se perde no horizonte do tempo.
Encargos trabalhistas, contribuições previdenciárias, impostos
diretos e indiretos, custo dos serviços que devem ser
terceirizados, condições precárias de logística,
intervencionismo excessivo e regulacionismo estatal exagerado são
apenas alguns dos obstáculos que se antepõem a um ritmo sustentado
de crescimento e expansão para qualquer empresário que se arrisca
a tentar negócios no Brasil.
Temos,
ao que parece um longo caminho pela frente antes de nos livrarmos do
atual “desconforto da miséria”. Esta, em sua faceta mais
extrema, não é exatamente devida à ausência de condições
materiais para que a sociedade possa manter um processo sustentado
de redistribuição de renda, mas mais exatamente à falta de
qualificação geral de capacidade produtiva da maior parte da mão-de-obra,
o que vale dizer, em primeiro lugar, de ausência de formação
educacional dessa mesma população. O único projeto nacional que
faz sentido, no Brasil, é o de um pacto pela qualidade do ensino.
Assim, em lugar do “fome zero”, deveríamos estar pedindo
“educação dez”.
2.
A China: uma experiência única de crescimento econômico
A
China não tem e não quer ter parceiros, estratégicos ou de
qualquer outro tipo. A China é, para todos os efeitos, o seu próprio
e único parceiro; ela quer continuar assim e acha que se basta a si
mesma. Talvez ela tenha razão.
A
China sempre foi uma nação sozinha, isolada e solitária, tanto
nos contextos regional e internacional, como do ponto de vista de
seu próprio desenvolvimento econômico e social, historicamente
baseado num desperdício inacreditável de homens e de recursos
materiais, com a elite dirigente consumindo esses fatores sem
controle de ninguém e de nada, nem do próprio meio ambiente. Esse
processo continua e deve continuar a ocorrer do mesmo jeito, hoje
talvez até de forma ainda mais intensa, já que ela pode
“mobilizar” recursos de outros países.
A
China produziu, em eras passadas, algumas poucas e boas idéias,
teve um mandarinato relativamente eficiente, em termos de
“burocracia weberiana” e se tornou a maior economia planetária
com base numa espécie de entropismo míope. Mas até o século 18,
pelo menos, ela continuou a ser a maior economia planetária, não
tanto pelas interações (que eram poucas), mas pela sua própria
“massa atômica”. Quanto ela deixou de ter idéias, ou quando as
idéias dos outros foram mais poderosas, pois que apoiadas em
canhoneiras, ela foi humilhada, dominada e esquartejada. Isso feriu
fundo a auto-estima e o orgulho nacionais dos chineses.
Os
chineses conseguiram, depois de décadas de lutas (mais intestinas
do que contra os inimigos externos, pois que ninguém consegue
dominar a China), reverter a decadência e tomar novamente seu
destino em mãos. Não tem a mínima importância histórica, ou
estrutural, que essa retomada tenha sido feita sob o domínio do
comunismo, um modo de produção absolutamente “passageiro” na
história milenar da China. Com comunismo ou com o socialismo de
mercado, o novo mandarinato de burocratas e de membros da nova nomenklatura
trabalha para confirmar o destino secular da China, que é o de
novamente se tornar a maior economia planetária e ditar suas regras
para os “bárbaros” do exterior.
A
China está operando essa volta a um lugar de preeminência econômica
no planeta (a segurança militar é mera decorrência disso), mas os
atuais imperadores e mandarins têm consciência de que ela não
mais poderá fazer isso isoladamente, como ocorreu até o século
18, pois as condições do mundo mudaram. A China assumiu plenamente
o conceito de interdependência econômica global, mas como ocorre
com o famoso moto orwelliano, num mundo totalmente interdependente,
alguns são mais interdependentes do que outros.
A
China quer e vai ser interdependente à sua maneira, isto é,
acomodando-se a regras às quais ela não mais pode se furtar, mas
interpretando-as à sua maneira, e distorcendo-as para seu melhor
conforto e segurança. Isto se aplica em quase todos os terrenos de
interesse substantivo, mas especialmente às regras de comércio
internacional e de investimentos estrangeiros. A China não pretende
à dominação do mundo, mas ela não pretende mais que o mundo, ou
seja, o círculo das superpotências, a domine mais. Isso não vai
ocorrer e a China sabe que tem de conviver com as superpotências,
mas não quer se submeter às regras existentes (que aliás nem são
ditadas por essas superpotências, mas decorrem do processo de
globalização capitalista).
A
preocupação principal dos atuais imperadores e mandarins chineses
é assegurar emprego (e, portanto, comida) a meio bilhão de
chineses pobres, que podem, à falta de condições mínimas (mas mínimas
mesmo) de existência, perturbar a paz no Império do Meio, e com
isso afetar o poder e a dominação dos atuais dirigentes. Etapa
importante nesse processo é transformar a China na principal fábrica
planetária, aliás a única maneira de acomodar algo como 400 ou
500 milhões de chineses que precisam de emprego (e que não os terão
nem na agricultura nem nos serviços).
Como
ela só pode fazer isso construindo o seu próprio capitalismo
manchesteriano (que certamente deixaria Engels de queixo caído), a
China “precisa” destruir empregos no resto do mundo, pois essa
é a única condição de sobrevivência de algumas dezenas, talvez
centenas de milhões desses chineses “flutuantes”. Por coincidência,
essa é também a “missão histórica” que lhe foi assignada,
atualmente, pela globalização capitalista, um processo impessoal,
não controlado por nenhum país ou conjunto de corporações, mas
que corresponde à “lógica” do sistema atual de alocação de
investimentos e de organização espacial da produção de
mercadorias.
Como
a China trabalha com aportes ilimitados de homens e capital (com
alguma limitação em outros recursos produtivos, como os de know-how
e ciência básica), ela não terá nenhuma dificuldade em manter
esse ritmo alucinante de destruição de empregos em todo o resto do
mundo pelas próximas duas gerações pelo menos (ou seja, pela próximo
meio século). A China está ascendendo rapidamente na escala de
agregação de valor, não apenas publicando exponencialmente em
revistas científicas, mas passando da simples cópia e adaptação
tecnológica para a inovação completa, já tendo chegado também
ao design e marcas. Seu catch-up promete ser ainda mais
impressionante do que o do Japão e da Coréia do Sul e
provavelmente não haverá nada comparável na história econômica
mundial.
Com
tudo isso, a China vai agir exatamente como sempre agem os centros
da economia mundial: organizando sua própria periferia de
“abastecimento”, que ela espera poder controlar da forma como
fazem os imperialismos modernos: não pela via extrativista, mas por
redes de negócios centrados em circuitos financeiros próprios,
chineses. A China vê o Brasil como o abastecedor prioritário de
produtos alimentícios e de outras commodities
para sua gigantesca máquina industrial. Ela também pretende
inundar o Brasil (e já o está fazendo) de produtos manufaturados
correntes.
O
Brasil não conseguirá bater a China no terreno da indústria
tradicional, isto é, aquela da segunda revolução industrial: ele
será fragorosamente batido, como estão sendo todas as demais potências
industriais. As indústrias brasileiras, se desejarem sobreviver no
mundo manchesteriano-chinês, deverão fazer como todas as outras:
avançar na concepção e desenho e mandar fabricar na China. Só
assim elas conseguirão sobreviver enquanto empresas, do contrário
perecerão corpos e bens. Vão-se os operários e sobram os
engenheiros. Quanto mais cedo esse processo começar, tanto melhor
para as empresas brasileiras candidatas à sobrevivência no mundo
darwinista chinês.
Alguma
renda extra será possível obter nos projetos conjuntos de
fornecimento energético alternativo e nos produtos intensivos em
recursos naturais, como corresponde às vocações ricardianas do
Brasil. Países como o Brasil não devem alimentar grandes “planos
estratégicos” em relação à China: a China fará aquilo que ela
pretende fazer, segundo o seu interesse nacional, e não se deixará
demover por nenhuma promessa de “aliança estratégica” ou
qualquer outro arranjo que contemple interesses supostamente simétricos.
Melhor fazer o que corresponde ao interesse nacional, sem esperar
resposta ou gestos correspondentes de parceiros como a China.
Incidentalmente,
a concessão do status de
“economia de mercado” não deve alterar muito o panorama geral e
seu desenvolvimento inexorável: ela só atrapalha os desejos
protecionistas de alguns ramos da indústria brasileira, tendo uma
incidência setorial em mercados de trabalho específicos. Talvez
constitua um exercício útil do ponto de vista do cenário serial
killer que virá mais adiante, quando a China for plenamente
integrada ao regime gattiano normal (o que ocorrerá até 2015). A
concessão desse status
representou apenas uma antecipação do que ocorrerá
inexoravelmente no terreno econômico. Ela obriga as empresas
brasileiras a correrem um pouco mais rápido, o que talvez não seja
mau, pois elas estavam se acostumando com muita proteção e nenhum
desafio, desde 1995, pelo menos.
|
|

|