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Por
CLÓVIS
ZIMMERMANN
Doutor em Sociologia pela Universidade
de Heidelberg e assessor de políticas públicas e direitos humanos
da Ong FIAN-Brasil em Goiânia |
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Corrupção,
mudanças institucionais e participação política: erros do
governo Lula
O
governo Lula está passando por uma crise política sem precedentes,
problemas esses que tiveram seu ápice com as denúncias de corrupção
envolvendo ministros, empresários e parlamentares, num esquema que
se tornou conhecido como o mensalão.
O objetivo desse artigo é demonstrar que a atual crise política é,
em menor escala, resultado de uma tentativa golpista
da direita contra a esquerda brasileira, mas antes de tudo, que
a crise tem um caráter endógeno, ou seja, causada pelos próprios
erros da condução política e da definição da agenda do governo
Lula. No contexto político, o governo Lula cometeu vários equívocos,
destaco aqui três básicos, quais sejam:
1. Política de Alianças:
Desde o princípio, um dos grandes problemas do governo Lula têm
sido sua política de alianças. Em seu estudo clássico sobre as
formas mais eficazes de manter-se no poder, Maquiavel afirma que o
fundamental não é contar com o apoio de falsos aliados: “Ora,
um homem que de profissão queria fazer-se permanentemente bom não
poderá evitar a ruína, cercado de tantos que não são”.
O ministro das Cidades, Olívio Dutra
expressou muito bem essa afirmação de Maquiavel,
ao declarar que a atual crise é resultado das más companhias
causadas pelas más escolhas feitas pelo partido e pelo governo. Além
disso, o processo de constituição de alianças revela que o PT
optou por construir a governabilidade quase que exclusivamente via
parlamento, ou seja, com as instituições representativas elitistas
do país. Mais uma vez Maquiavel
discordaria desse tipo de política, pois, segundo ele, é necessário
ter o povo ao seu lado, já que com a ajuda dos poderosos as
dificuldades em manter-se no poder são bem maiores. Estando ao lado
do povo, conforme Maquiavel, um
governante jamais será atraiçoado. Não há dúvidas que o
parlamento é uma instituição de grande relevo no cenário político,
responsável pela elaboração das leis. Mas, muitos estudiosos
do legislativo brasileiro enfatizam que a existência de muitos
partidos políticos com representação no congresso dificultaria o
processo de tomada de decisões. Além
disso, a divisão interna do PMDB atrapalharia ainda mais o processo
de alianças no parlamento. Entretanto, tudo indica que a estratégia
de alianças montada pelo PT e principalmente por José Dirceu,
ex-ministro da Casa Civil, visava muito mais a manutenção do
partido no poder - as eleições de 2006 - do que a governabilidade,
a participação da sociedade civil e da população em geral.
Aliado à política econômica, os escândalos de corrupção
revelam que o governo Lula andou, sobretudo, de mãos dadas com os
grandes e poderosos do país do que com a população pobre.
2.
Mudanças institucionais. Relacionado
com a questão da política de alianças está o pífio desempenho
do governo Lula em promover mudanças institucionais. O jogo político
com a direita estava funcionando bem e por isso não haveria a
necessidade de realizar alterações substanciais nas regras do
jogo. Desde o início, o PT adotou a concepção de que o câmbio
dos atores políticos por si só resolveria os problemas
administrativos do país. Esqueceu, porém, que as instituições
também influenciam, ou até mesmo, determinam a conduta dos atores
políticos. O principal motivo pelo qual um partido disputa o poder
é realizar mudanças nas instituições, já que as mesmas, via de
regra, possuem durabilidade maior do que a permanência do próprio
partido no poder. De forma idêntica, diversos cientistas sociais têm
destacado o papel central das instituições, pois segundo March/Olsen,
„the organization of political life makes a difference” (o que
faz a diferença é a organização da vida política).
O próprio Karl Marx ressaltava que “as
circunstâncias fazem os homens assim como eles fazem as circunstâncias”
(cf. a Ideologia Alemã).
Infelizmente,
a mudança da organização política não tem sido a prioridade do
governo Lula. A disputa por cargos de confiança e o uso dos mesmos
para finalidades eleitoreiras
e de arrecadação financeira, continua sendo um dos grandes dilemas
institucionais da administração pública brasileira. A maioria dos
partidos políticos brasileiros é o retrato do que Max Weber chama
de partidos que se dedicam à caça
de empregos, que modificam seus programas em função dos votos
que poderão conseguir. Uma das soluções apontadas por Weber é a
utilização cada vez maior de “trabalhadores intelectuais
especializados”, altamente qualificados e que se preparam, por
muito tempo, para o desempenho da sua tarefa profissional. Isto
significa diminuir os cargos de confiança e substituí-los
gradativamente por profissionais especializados.
Da
mesma forma, a distribuição dos recursos públicos através do Orçamento
da União continua efetivando-se via parlamentares da base aliada,
mudando apenas os atores, permanecendo, porém, as mesmas práticas.
Regras e critérios claros e transparentes para a distribuição dos
recursos públicos não chegaram nem mesmo a serem idealizados. Mais
uma vez, nota-se que o processo de elaboração do Orçamento deu-se
quase que exclusivamente
via parlamento, sem
a participação popular. Também,
parecia não haver motivos para tal atitude, uma vez que a reeleição
já era tida como fato consumado, mesmo quando alguns grupos mais à
esquerda não se intimidassem em demonstrar insatisfações com as
regras do jogo adotadas.
3.
Participação política. Aliado
às duas questões acima relatadas, fica evidente que a estratégia
de governo da equipe de Lula não previa e nem precisava da
participação popular. Tem sido bem mais cômodo para os
integrantes do governo de Lula e dirigentes do PT negociar com
parlamentares em Brasília, em reuniões secretas nos espaçosos
apartamentos dos parlamentares, do que ir para o interior do Brasil
discutir com a população. Além disso, a política de alianças
parecia estar dando certo, até a não revelação pública do escândalo
do mensalão. Após tal
revelação, a solução proposta é a reforma política, com a
introdução do voto em listas partidárias (fechadas),
financiamento público de campanhas, cláusula de barreiras etc.
Percebe-se que a reforma política não visa nada mais do que
reformular o processo representativo vigente, marcado pelo voto de
cabresto e, sobretudo, pela eleição de políticos sem
representabilidade social, sistema esse um dos principais responsáveis
pela manutenção da desigualdade social vigente no Brasil. Os
movimentos sociais reivindicam, com muita razão, a inclusão da
participação popular na reforma política, pois sem pressão
social, os nossos parlamentares nunca irão cumprir suas promessas
de campanha eleitoral. Neste sentido, a
reforma política não deve ficar restrita ao parlamento, mas
ampliar nosso modelo de democracia representativa. Temos que
aproveitar essa fase para efetuar uma ampla reforma no Estado
brasileiro, com a realização de mudanças nos processos decisórios
para além dos partidos políticos e das atuais estruturas de poder
estabelecidas. Em termos normativos, a possibilidade de influência
direta nas decisões do país está claramente formulada no primeiro
artigo da constituição federal, onde consta que “todo
o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes
eleitos ou diretamente”. Em outros termos, os mecanismos
constitucionais para implementar uma maior participação política
estão explicitamente constituídos, falta uma regulamentação
específica. Ou seja, o direito humano à participação política
direta está previsto em nossa Carta Magna. No
que se refere à ocorrência quase que constante da corrupção no
cenário político brasileiro, torna-se evidente que o monopólio
exclusivo dos partidos, dos mandatos e do parlamento resulta na
falta de transparência e conseqüentemente corrupção, a exemplo
das diversas crises que surgiram no passado (Collor, Anões do Orçamento
entre outras). Se não houver reformas políticas profundas, outras
crises hão de aparecer. Não se trata aqui de extinguir a
democracia representativa, o parlamento, mas em aperfeiçoá-la com
mecanismos de participação direta, exatamente como prevê nossa
Constituição. Em se tratando da reforma política, circula
a absurda proposta de inclusão dos atuais deputados no topo das
listas
para a próxima eleição, o que quase automaticamente garante a
reeleição dos mesmos. O ponto mais crítico é que o PT parece não
ter aprendido a lição com o sucesso da participação política de
suas administrações municipais, através do processo do orçamento
participativo.
Os mencionados processos, que, além de garantir o direito à
participação política, contribuem para uma maior transparência
nos procedimentos administrativos, bem como na melhor aplicação
dos recursos públicos, com uma gradativa diminuição do grau de
corrupção, além de evitar acordos com políticos mal
intencionados. Uma das grandes contribuições dos processos
participativos é que a compra de apoio político, como ocorrido no
caso do mensalão, torna-se desnecessária e irrelevante, uma vez que a
pressão popular e a transparência necessária nesses processos
impedem a realização de tais atos ilícitos.
Resumindo,
os equívocos do governo Lula começaram pela não introdução de
mecanismos de participação popular, gerando conseqüentemente a
necessidade da criação de alianças parlamentares amplas, as quais
têm constituído grandes obstáculos no processo de reformas
institucionais profundas. Essas três questões constituem-se num
efeito dominó na política brasileira. Sem mudanças profundas
nesses três aspectos da vida política do país, em especial, sem a
criação de uma nova engenharia
institucional, que tenha um alcance para aquém da esfera
representativa, não conseguiremos resolver os históricos dilemas
da política brasileira, caracterizados pela manutenção dos
interesses da elite e desigualdade social.
À
guisa de conclusão, tanto a política econômica, bem como as
reformas institucionais e sociais do governo Lula têm se destacado
pela timidez, falta de ousadia e principalmente pela ausência da
participação popular. Concordo com Max Weber, de que a política
é um esforço tenaz e “enérgico
de atravessar grossas vigas de madeira”. Mesmo assim, esse
autor destaca que “não se teria jamais atingido o possível, se não se houvesse tentado o
impossível”.
March, James G. / Olsen, Johan P. (1989). Rediscovering
Institutions. The Organizational Basis of Politics. New York:
The Free Press, p. 159. Existe toda uma corrente de estudos nas
ciências sociais que destaca a relação entre instituições e
atores políticos chamada Neo-Institucionalismo (v. Théret,
Bruno. As
Instituições entre as Estruturas e as Ações).
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