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Por RAIMUNDO SANTOS
Professor da UFRRJ. |
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Em
defesa do Congresso e dos Partidos
A
crise de Collor, como dias atrás observou Fernando Henrique
Cardoso, foi uma crise que convergia para o ponto presidencial,
nisso diferindo desta crise de agora que seria “mais espalhada”
e, segundo o ex-presidente, pode deixar Lula na sua margem. Os escândalos
que atingiram Collor não envolveram a classe política que, pelo
contrário, se uniu à opinião pública e as ruas e processou o
impeachment. A observação de Fernando Henrique Cardoso, feita no
início do “affaire” Jefferson, pragmática e cautelosa, no
entanto, não alude a todas nossas apreensões quanto aos
desdobramentos das denúncias do Mensalão de conseqüências
altamente destruidoras, apontadas para o Congresso e os partidos,
com o perigo da desmoralização da política.
I
– Nesta hora da apuração dos fatos de corrupção já se pode
dizer que nunca em tempo democrático os partidos se viram tão
abalados como agora no governo Lula.
Em
primeiro lugar, o “affaire” Jefferson e o Mensalão já erodiram
quatro partidos. Se três deles (o PP, o PL e o PTB) têm escassa
vida política interna, representam, no entanto, setores consideráveis
de um mundo, principalmente no que diz respeito aos dois últimos,
demasiado pouco organizado. O troca-troca propiciado pelo governo
fez crescer aqueles partidos artificialmente e levou tensão e
fratura para dentro do PMDB, do PPS e outras legendas menores. Com o
seu envolvimento no Mensalão, a cúpula petista, igualmente, abalou
o PT, já dividido ante o próprio evento histórico de tornar-se
Presidência da República sendo um partido de vocação social,
marcado por uma cultura avessa à política institucional-democrática.
O
segundo impacto corrosivo do “affaire” Jefferson e do Mensalão
é o descrédito na política de alianças. É uma conseqüência
que agora se explícita com força e que já vinha se desenhando
desde o momento em que se formou o governo com enorme predomínio
petista, sem Lula adotar a configuração pluripartidária por ele
prometida ao país no segundo turno. Caso tivesse o ministério sido
articulado em termos politicamente plurais, é possível pensar que
teria tido curso mais intenso no governo o espírito da tradição
de alianças entre forças de centro e de esquerda – do MDB, do
PMDB (espírito emedebista que acompanharia o próprio PSDB, como no
emblema Covas); espírito do PCB, inclusive continuado no PPS de
Roberto Freire. Mesmo sendo uma conjectura, registre-se que, sob a
compulsão à política dessa tradição aliancista, a continuidade
da política econômica no governo Lula – fazendo aqui uma imagem
de 2002 – lembraria a candidatura “cepalina” de Serra:
oficial, mas para corrigir Fernando Henrique Cardoso. Com essa
centralidade na política, outro poderia ter sido o rumo da própria
condução das coisas governamentais (cargos, etc.). A relação com
o Congresso ter-se-ia dado a partir de uma mentalidade muito menos
autocentrada; enfoque hegemonista este inábil e desastroso, como
agora se vê. Ou seja, diversamente da auto-suficiência, o estilo
da política propriamente dita – tal como aprendida nos piores
anos da resistência à ditadura e praticada nos tempos da transição
democrática – possivelmente teria ajudado a evitar que se
chegasse a este resultado que hoje muito debilita a importância
estratégica das coligações partidárias para o processo
governativo reformista neste país.
Com
os grupos dissociados daquela raiz pecebista-emedebista hoje hegemônicos
no campo das esquerdas militantes, são acrescidas restrições –
e cada vez maiores – à política de amplas alianças – bem
preocupantes os discursos das reuniões petistas promovidas nas últimas
semanas pela cúpula do partido –; política de alianças à qual
agora se quer imputar culpa pela corrupção simbolizada no Mensalão.
Permanece ofuscada a questão principal do modo como a política de
alianças até aqui foi praticada pelo PT, ou seja, mediante forte
“externalidade”, os operadores petistas ainda conservando, em
todo esse período em que a ela se recorreu pragmaticamente, desde o
segundo turno de 2002, boa dose de um estilo diverso do da classe
política que se afirmara nos tempos da resistência à ditadura e
na época mais recente da transição democrática.
O
terceiro efeito perigoso que essa crise vem trazendo resume os dois
impactos anteriores numa conseqüência maior: a descrença na própria
política. Há uma tentativa de deslocamento das denúncias da
corrupção da Presidência visando sediá-las no Congresso e nos
partidos (Jefferson ultimamente vem falando no elevado número de 80
“picaretas” do PP e do PL que teriam recebido o Mensalão no
Congresso). Quer-se que a crise deslize da Presidência em direção
ao Congresso, o governo tentando salvar-se, mas sem assumir
claramente a defesa da função insubstituível da política e dos
partidos; defesa que fica à deriva desprestigiando as eleições
aos olhos do eleitor; com isso, como se sabe, alimentando os
messianismos. Inclusive dois deles estariam aí, o do popularismo, já
posto a um só tempo religioso e laico e, agora, um outro: um
eventual salvacionismo em torno do Presidente Lula, caso continuem
revoltas as águas partidárias em 2006.
II
– Quais vêm sendo as reações dos principais atores políticos
na cena pública do presente momento?
Dentre
os maiores e mais responsáveis partidos da oposição, temos no
PSDB a afirmação de uma atitude de defesa das instituições
democráticas. As declarações de Fernando Henrique Cardoso, ao
procurarem preservar a figura presidencial do “affaire”
Jefferson, sinalizam naquela direção. O PMDB, abrindo, como
instituição, a discussão com o governo e entrando todo ele no
ministério – com suas mais expressivas tendências – como partícipe
político do processo governativo, pode contribuir num sentido de
substantivação política do atual mandato presidencial.
Por
outra parte, o PPS e o PDT, ao tentarem no começo da crise
viabilizar a CPI do Mensalão falando a partir de um terceiro campo
despolarizado, mesmo sendo pequenos partidos, podem continuar agindo
como esquerda positiva, colocando o tema da defesa do Congresso, dos
partidos e da política como uma perspectiva a balizar as investigações
e a conseqüente correção dos desvirtuamentos, ilegalidades e
crimes referentes ao “affaire” Jefferson no âmbito do
Congresso, o que importará, sem dúvida alguma, em cassações de
mandatos, comprovadas as acusações.
Uma
terceira postura. Por ocasião da saída de José Dirceu da Casa
Civil, surgiu no PT e no governo, a proposição do que seria uma
“contra-ofensiva”, definida, por um lado, para dar combate a
Roberto Jefferson e, por outro – isso preocupa,como já observado
–, visando deslocar a arena dos contendores para a esfera dos
partidos e para dentro do Congresso, o governo escudando sua parte
– silêncio ou comprometimento – no “affaire” Jefferson nas
apurações promovidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público.
Em seus aspectos discursivos mais eriçados vistos nas reuniões
petistas das últimas semanas, a estratégia de guerra contra
Jefferson pretende assumir o caráter, como o chamou José Artur
Giannotti, de uma “luta de classes” e também se chegou a
denunciar um movimento golpista contra o governo. Procura-se definir
um quadro de luta que unifique forças internas ao partido, ficando
à deriva a questão principal da defesa do Congresso e dos
partidos; questão colocada para outras legendas que não o PT e o
governo Lula, aqui como quê se revivendo velha postura de reserva
ante aquelas instituições estratégicas.
Nos
últimos dias, nota-se ainda em alguns discursos da cúpula petista
– inclusive no ato em que o Presidente discursou para agricultores
– apelo à mobilização social, como se estivesse diminuindo no
PT e em Lula a convicção nos encaminhamentos no plano da política,
dando a impressão de que o próprio núcleo pragmático da dirigência
petista que se instalou na Presidência duvida do próprio caminho
que vinha trilhando rumo à plena valorização da política;
caminho intensificado, mesmo com ambigüidades, desde o começo do
governo, para o qual puxava o partido.
III
– Em defesa do Congresso, dos partidos e da política.
Acho
decisivo que, qualquer que seja o rumo que tome o “affaire”
Jefferson e seus escândalos, as esquerdas militantes precisam
divisar uma questão maior que vem tensionando sua cultura ideológica,
como outrora também a viveu o PCB e tentou resolvê-la, abraçando
como seu o tema da democracia política. A experiência do governo
Lula chega agora a um impasse por conta do não equacionamento de
tal questão, a saber: o social não configura um governo, muito
menos um governo reformista sob condições democráticas. Quem o
pode fazer é a política.
É
preciso lembrar que, no nosso caso, a valorização da política nas
esquerdas é uma conquista bem contemporânea. Podemos citar como
seus momentos mais altos – para o antigamente chamado campo democrático
de esquerda e centro-esquerda – os seguintes: a) como época
constituinte da cultura democrática nas esquerdas, a experiência
no MDB e no PMDB; e b) como exemplo substantivo maior do reformismo
pluriclassista, a Carta de 1988, aprovada sob a marca da negociação
interpartidária e da política, inclusive esta última definindo
relevantes aspectos da economia. Lembramos ainda do primeiro momento
de valorização da política passagens que trouxeram resultados
positivos para o país: a) a própria política de alianças com que
se construiu e, afinal, se iniciou a transição democrática com o
governo Tancredo/Sarney; e b) a superação do impeachment de Collor
e o funcionamento do governo Itamar. Em tempo mais recente, chama a
atenção a política de alianças praticada durante o governo
Fernando Henrique Cardoso, governo que aqui encaminhou as modernizações
da era globalista com apoio conservador (PFL), nessa empresa seu
defeito maior tendo sido o de ter enfraquecido a “interpelação”
da economia pela política (no início do neoliberalismo, Habermas
chegou a dizer que a economia não é um templo, mas um campo de
testes). Esse tipo de “interpelação” política presente
naquela nossa tradição também se verá muito mais aggiornada
em outros países, como à época do último governo tucano se
conheceu nos exemplos europeus do PDS e da coligação chamada
Oliveira na Itália e do PS francês com o seu governo plural. Foi
essa política de amplas alianças, enfim, que nos trouxe o governo
Lula, ou não foi?
IV
– Difícil desenhar cenários que nos levem a remontar a crise
É
preciso observar a ocorrência dos fatos em andamento. Talvez as saídas
já estejam sendo construídas: a) no governo, a aceitação de Lula
de uma coalizão efetiva com o PMDB a partir de sua incorporação
ampliada no ministério pode ser um deles; a saber, ainda, se essa
movimentação visa apenas sobrevivência pragmática e palanque; se
pouco sincera, mais tensões acumular-se-ão adiante; b) noutro espaço
de negociação interpartidária, não obstante os perigos de
instrumentalização e as desconfianças muitas de parte à parte, a
chamada agenda positiva, organizada em função dos interesses da
população, pode dar fôlego ao governo e constitui outra
possibilidade; e b) sob o signo da política, as CPIs dos Correios e
do Mensalão, ao contribuírem para sanear a vida política
nacional, preservam e abrem caminho para a revalorização do
Congresso e, mais que tudo, da própria política.
Neste
país já se desenvolveu um rico sistema partidário e há larga
tradição de política de alianças partidárias em áreas
tradicionais de centro-esquerda e de esquerda. Acredito que aqui não
terá eco a palavra-de-ordem que se escutou em outras latitudes,
quando a descrença na política e nas instituições democráticas
elevou-se dramaticamente e se dizia nas ruas: “que se vayan
todos!” Aqui, os três maiores valores da nossa democracia
republicana – o Congresso, os partidos e a política –
acrescentam a este país, além da sua reconhecida riqueza cultural,
mais uma riqueza já de grande dimensão: o funcionamento da
democracia política. São com aqueles três valores – o
Congresso, os partidos e a política – que o país vem se
modernizando e se reformando no tempo contemporâneo posterior à
anistia de 1979.
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