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Por
DANIEL AARÃO REIS Professor
de História - Universidade Federal Fluminense. |
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O
dragão da moralidade e a sociedade brasileira
Daniel
Aarão Reis
Os
mais velhos recordam quando o bicho atacou pela primeira vez: foi em
1954. Chafurdando em mares de lama, suicidaram o velho no Catete, não
porque houvera sido tirano, muito pelo contrário, mas por estar
lidando com demandas
sociais de um modo que já não agradava mais. Vargas matou-se com
um tiro no peito. Ponto para o dragão.
No
segundo ataque, em 1960, o bicho veio na forma de um líder histriônico,
com uma vassoura na mão. As maiorias, como os ratos da lenda,
seguiram aquele flautista quase até o abismo. O pesadelo não
chegou a durar oito meses.
O
bicho voltou à carga em 1964. Em baforadas quentes, veio defender o
país da podridão da corrupção e salvar a democracia. Não houve
São Jorge que o detivesse. Empolgou novamente as multidões e
venceu, impondo um reinado longo, onde se misturaram prosperidade
material, desigualdades escabrosas,
medo e tortura.
A sociedade custou a se livrar dele, mas, afinal, conseguiu.
O dragão saiu com o rabo entre as pernas.
Retornou
em 1989, com a velha cantilena: limpar o país da sujeira da corrupção.
Travestira-se então num caçador de marajás, esbelto, branco,
limpo, enérgico. Os olhos vidrados o traíam, mas a maioria
preferiu acreditar nas promessas mágicas que fluíam daquelas
ventas feridas pela quentura do fogo que passava normalmente por
ali. Prometia a limpeza, em vez da sujeira, o branco, ao negro, a
salvação, à perdição. A pátria, enfim, redimida e imaculada
como as botas lustrosas dos nazistas.
Venceu
uma vez mais o dragão, conduzindo as pessoas, convertidas em rãs,
ansiosas por um rei másculo, forte, salvador.
Foi
um desastre. Mais uma vez. O mágico fora uma fraude. O dragão saiu
corrido pela porta dos fundos, só escapou da cadeia graças a bons
advogados e a um deficiente sistema jurídico.
Agora,
o dragão reapareceu novamente. Para escarmento da sociedade, não
se metamorfoseou desta vez em nenhum príncipe. Preferiu vestir a
pele do sapo. De um sapo escroque. Que não nega as falcatruas
cometidas, ao contrário, afirma-as, e as mostra com vaidade
suicida, comprometendo a todos. E urra: sou horrendo, mas todos o são
também, da mesma forma que eu.
Em
torno dele reúnem-se senhoras e senhores honrados e de bom senso. E
ponderam as denúncias e as informações, revirando-as pelo avesso,
concordando com elas, incensando o escroque, tratando-o por excelência,
incentivando-o, tentando instrumentalizá-lo. Reúnem-se ali as
cores mais diversas, um verdadeiro congresso de fariseus: a
extrema-esquerda se faz representar por nossa St. Just de calça
jeans, sempre com a blusa branca, a cor da limpeza e da reação, a
todos ameaçando com o fogo purificador de sua ira. A direita
autoritária vem com os líderes tradicionais, habituados aos jogos
onde podem tudo perder, menos os
interesses e os privilégios. E ainda há personagens que se
querem novos, instauradores de sinistros marcos zeros. E discursam
mergulhados até o pescoço no charco: estamos todos mesmo muito
sujos, menos eu, é claro, diz cada um quando fala.
As
gentes assistem medusadas ao espetáculo. E vão tomando gosto pelo
circo da grande caçada aos corruptos, que
transbordam pelos bueiros e poros da pobre sociedade.
A
freqüência com que o dragão reaparece é um atestado de força
histórica e social. A rigor, Lacerda, Jânio, Collor e Jefferson, não
passam de ventríloquos, respeitada a eficácia de seus papéis, em
cada momento. Ganharam e ainda ganham notoriedade porque exprimem
sentimentos que vicejam nas águas profundas da sociedade: o
ressentimento, a inveja, o nivelamento por baixo, o conservadorismo,
a ânsia por salvadores da pátria que venham
tudo ordenar e redimir. As esquerdas brasileiras, desde os
anos 80, incentivaram estas tendências, às vezes por convicção,
outras, por puro oportunismo. Não sem razão, líderes petistas, e
o próprio Lula, foram
chamados de udenistas de tamanco. Hoje pagam o preço por terem
trilhado um caminho conservador.
Mas
o dragão, como evidencia a história, também já foi vencido.
Porque na sociedade há forças
que não engolem o falso moralismo, as puras vestais, os fariseus
imaculados, não pretendem cortar nós com a espada, nem matar a
inflação com um tiro. E desconfiam de pessoas hipócritas e
solenes, sem jaça e sem mácula.
As
pessoas hesitam.
Se
o dragão vencer, não haverá escapatória. Melhor hipótese: todos
comerão uma grande pizza, servida acompanhada de meia dúzia de
cabeças ilustres. E ficará na boca um sentimento amargo de frustração,
o caldo de cultura que o dragão aprecia, sinal certo de que
voltará. Pior hipótese: cairemos sob o domínio de algum
salvador da pátria, acompanhado ou não da Força Armada, esta
impoluta e virtuosa instituição que já nos brindou com
a tortura como política de estado duas vezes em menos de
cinqüenta anos.
A
alternativa é menos espetáculo, mais justiça, e a democracia: um
regime miserável, impuro, tortuoso e instável como a liberdade,
sem atalhos, de construção lenta, difícil e contraditória.
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