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Por ALTAMIRO BORGES
Jornalista,
membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate
Sindical e autor de “Encruzilhadas do sindicalismo” (Editora
Anita Garibaldi, 2005). |
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Golpe
tucano e movimentos sociais
Em
reunião realizada em 21 de junho último, em Brasília, os mais
representativos movimentos sociais do país concluíram que está em
curso um “golpe branco” no Brasil. Sob o disfarce do combate à
corrupção, o bloco liberal-conservador apeado do poder em 2002
estaria operando uma sórdida manobra para paralisar, desgastar e,
se possível, derrubar o governo Lula. Diante da gravidade da crise
política, CUT, UNE, MST, entre outras entidades, decidiram
deflagrar uma mobilização nacional em torno de quatro eixos:
contra a trama golpista do PSDB-PFL; pela apuração rigorosa de
todas as denúncias de corrupção; por mudanças urgentes na política
macroeconômica; e em defesa de uma reforma política democrática e
participativa.
Se
esta jornada de fato ganhar as ruas, envolvendo a militância avançada
e despertando o senso crítico da sociedade, a trama golpista da
direita terá, ironicamente, cumprido inestimável papel. Após um
período de “paz e amor” com o deus-mercado, a mídia e a elite
neoliberal, essa campanha explicitaria as antagônicas contradições
existentes no país – que o governo Lula tentou, em vão,
conciliar. Ela serviria para refrescar a memória e demonstrar os
reais propósitos dos tucanos rentistas, entreguistas e autoritários
e, ao mesmo tempo, para pressionar o governo Lula no rumo das mudanças
exigidas nas urnas em 2002. Não seria um cheque em branco concedido
ao presidente, mas sim um apoio condicionado à imperiosa correção
de rota!
Trama
golpista
A
decisão dos movimentos sociais de tomar às ruas com uma plataforma
nítida se justifica plenamente. O momento político é dos mais
graves e de efeitos imprevisíveis. Os demônios andam a solta no
Brasil, mas disfarçados com plumagem tucana! Diante das denúncias
de corrupção disparadas pelo sinistro deputado Roberto Jefferson
– um franco atirador que até agora não apresentou sequer uma
prova concreta do crime, mas ganhou as manchetes da mídia que tenta
transformá-lo de acusado em acusador –, o país está parado, em
estado de choque. Neste cenário inflamável, em que não faltam
posições erradas e erráticas da base do governo e é visível a
manipulação da mídia, o bloco liberal-conservador define sua tática
para a revanche.
Alguns
urubus carniceiros, camuflados de tucanos, pregam a morte prematura
do governo, o impeachment do presidente. “Cozinhar Lula em fogo brando até o início
da campanha eleitoral pode não ser boa receita. Se Lula chegar até
o palanque, ninguém o demoverá mais de nada”, orienta o portal E-agora,
um panfleto hidrófobo da direita. Já outros golpistas, vestidos de
cordeiros, propõem “sangrar” o presidente até 2006, evitando
abalos nos alicerces econômicos neoliberais e surpresas políticas.
“Não pense que se o Lula cair a sociedade vai nos chamar para
assumir. O povo não morre de saudade da gente”, conspira o hábil
FHC, segundo relatos da revista Época.
“Vamos deixar o Lula sangrando e vencer as eleições”, ordenou!
O
cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, um dos poucos
intelectuais que prenunciou o golpe
militar em 1964, tem razão quando adverte para o perigo de
um “golpe branco” incitado pela mídia. “A grande imprensa
levou Getúlio ao suicídio com base em nada; quase impediu
Juscelino de tomar posse, com base em nada; levou Jânio à renúncia,
aproveitando-se das maluquices dele; e tentou impedir a posse de
Goulart com base em nada. A grande imprensa em países em
desenvolvimento é a grande porca das instituições, a grande
emporcalhada”. Para ele, o PSDB só aguarda a evolução da
conjuntura, insuflada pela mídia venal, para definir sua tática.
“Se a chance aparecer, os tucanos vão apoiar esse golpe
branco”.
Disputa
de projetos
Na
essência, a atual crise política reflete a luta entre dois blocos
de poder e seus respectivos projetos para o Brasil. Não tem nada de
ética, a não ser para os que acreditam na postura anticorrupção
do PSDB-PFL, este condomínio neoliberal que se chafurdou na lama
nos oito anos de FHC. De um lado, encontra-se um governo resultante
do acúmulo de forças dos trabalhadores, que não criminaliza as
lutas sociais e adota uma conduta soberana nas relações
exteriores. O seu maior defeito não é ético, apesar das denúncias
feitas exigirem rigorosa apuração e o “corte na carne”. Seu
maior defeito foi o da ausência de nitidez do projeto, o da ausência
de ousadia política, o que deu brechas para a atual investida do
bloco liberal-conservador.
Ao
manter a política macroeconômica neoliberal, cedendo às pressões
do capital financeiro e fraturando a sua base social de apoio; ao
apostar todas as fichas no pantanoso terreno institucional,
costurando alianças pragmáticas e não programáticas para
garantir governabilidade; e ao subestimar os movimentos sociais na
definição dos rumos políticos do país, o governo perdeu impulso
e instigou a revanche neoliberal. Agora, para recuperar o apoio dos
setores populares e reanimar as esperanças do povo, precisará dar
sinais mais nítidos de que pretende mudar sua orientação. Do
contrário, ficará ainda mais refém do “deus-mercado”, que
exigirá uma recomposição ministerial de corte conservador e novas
medidas ortodoxas na economia.
Do
outro lado, encontra-se o bloco da elite, que controla o poder há séculos,
critica a “falta de autoridade” do presidente na repressão às
lutas sociais, em especial ao MST, e condena os “exageros retóricos”
da política externa atual. Seu objetivo já está bem definido. Sob
o falso invólucro do combate à corrupção e com a ajuda da mídia
venal, ele pretende paralisar, desgastar e derrubar o governo Lula.
A sua plataforma eleitoral também já está escrita. Prega o
retorno da Alca e da postura servil diante dos EUA, propõe dura
repressão ao “banditismo” do MST e exige a aceleração da
agenda neoliberal. “A reforma da previdência parou, o destino
institucional do Banco Central está nos escaninhos da política e
da reforma trabalhista (e não apenas sindical) nem se fala”,
criticou FHC recentemente, antecipando seu programa para a sucessão.
Diante
da gravidade da crise política e do risco iminente da revanche
tucana, os movimentos sociais não poderiam ficar parados. A omissão
seria um grave crime. Atentos à adversa correlação de forças e
cientes da natureza contraditória do governo Lula, eles se contrapõe
ao golpismo do bloco liberal-conservador, ao mesmo tempo em que
exigem sinalizações consistentes de mudanças nos rumos atuais. Não
adotam nem a postura inconseqüente de certos setores de esquerda,
que parecem excitados com as tramas golpistas, e nem caem na
conversa fiada da negação da política, da prioridade ao
movimentismo da “sociedade civil”. Sabem que é o futuro da luta
pela democracia, soberania e justiça social que está em jogo nessa
disputa.
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