Por RAYMUNDO DE LIMA

Psicanalista, professor do DFE da Universidade Estadual de Maringá (PR); doutorando em educação (FEUSP)

 

Sobre chatices e chatos (III)

Sobre a criança chata!

 

Li em algum lugar que “as crianças dos outros são chatas, as nossas apenas estão com sono”.

Fazer de conta que não vemos os nossos filho construindo uma imagem de chatinho é abusar do mecanismo de auto-engano. No fundo, estamos tentando esconder de nós mesmos que estamos falhando na sua educação. Mas, quem não falha no ato de educar? Que pai ou mãe não se sente chato nos dias de hoje ao exercer  sua função  (autoridade) de “pai” ou de “mãe”? Cada vez mais, fica evidente o pensamento de Freud: “educar” é uma tarefa verdadeiramente impossível, assim como também é o ato de “governar” e o de “psicanalisar”. 

O que é a educação senão tentar civilizar o pequeno selvagem? Que é educar senão um processo  cujo intento é reprimir os impulsos instintivos, diminuir as ‘naturais’ chatices, infantilidades, manhas, birras, desrespeitos, etc? O traço de personalidade – ou a imagem social adquirida – de “chato” existe a partir do momento em que reconhecemos se tratar aí de uma ‘falta de educação’. Na verdade, “má formação” porque hoje se entende que a educação acontece sempre, pelo ‘direito’ ou pelo ‘avesso’, pelo ‘certo’ou pelo ‘errado’. Ou seja, acontece educação através de relações humanas que se desenvolvem no lar ou nas ‘febens’, nas escolas ou assistindo televisão ou jogando videogames, etc.  E, o que isso tem a ver com a criança chata? Ora, tudo.

Entendo que uma criança é chata mais por aprendizado cultural do que por ‘natureza’ própria. Entendo que uma pessoa adulta cujo traço é ser chata é alguém que fundou uma solução de compromisso com o seu ambiente de convivência, este, não necessariamente chato, mas ‘gatinho’que dispara o que está latente no sujeito. Também entendo que, existencialmente, uma pessoa (adulta) se faz de chata, como opção racional pela não razoabilidade da convivência social. Ao que parece, quanto mais um sujeito faz opção pela racionalidade, mais ele tende a se afastar da razoabilidade[1], caminho ‘natural’do desenvolvimento do jeito chato de ser-no-mundo. 

Que criança chata!

Crianças consideradas chatas geralmente são birrentas, irritantes, teimosas, desrespeitosas, invasoras, choramingas, malcriadas, manhosas. Perdem facilmente o autocontrole. Parecem gostar de transgredir regras de convívio social.

Respeito ao outro é regra necessária para sustentar a civilização; a chatice que é reforçada desde criança pelos pais omissos, ou ausentes, no fundo, acentua a falta de sensibilidade que a criança demonstra em relação ao outro.

Não é chata a criança desrespeitosa para com os mais velhos? Não é chata uma criança que tende a confundir brincar com brigar quando está com as outras? E aquela que sempre resiste a fazer tarefas escolares e domésticas, como arrumar seu quarto pelo menos uma vez por mês? Como não achar chata uma criança ‘folgada’, ou um adolescente “aborrescente”? Como não ficar constrangido ao ver criança  que fala palavrão fora de hora e de lugar, que teima em interromper conversa dos adultos? Será falha da educação recebida ou falta de referência positiva que leva a criança a ser considerada chata?

Especialistas observam que pais mal posicionados em seu papel de pais aumentam a probabilidade de desenvolver um filho com dificuldades de convivência social. Embora toda criança passe pela fase egocêntrica, espera-se que ela amplie sua consciência no sentido de incluir o outro como referência para se relacionar e respeitar. Uma criança é considerada chata quando, por atitudes e palavras, se mostra como centro do mundo, um passo para se tornar mandona ou autoritária.

Criança pode ser peralta sem ser chata. Mesmo sendo transgressão, a peraltice não causa mal ou dano a alguém, porque a intenção precípua é extrair prazer. Já a chatice afeta o bem estar do próximo, muitas vezes causando constrangimento e afastamento das pessoas que convivem com ela. Ela não é uma pessoa má; não possui uma estrutura psíquica necessariamente perversa, mas seu jeito de ser é de uma pessoa chatinha, só isso.  

Machado de Assis achava que uma pessoa chata suga nossa energia vital. Chato, cansa! As chateações constantes causam cansaço, desgastam as relações humanas, criam desequilíbrio afetivo-emocional entre as pessoas. Como não queremos perder energia em vão, intuitiva e preventivamente, procuramos nos afastar dos chatos. No fundo, a criança chatinha também termina sendo vítima de seu próprio jeito chato de ser, porque ninguém quer saber dela.

Educação é prevenção

Penso que uma criança se torna chata quando os pais permitem tudo, não corrigem a tendência a fazer “má-criações”. Hoje os pais sentem-se impotentes para chamar a atenção dos filhos. Com isso vão “malcriando” os filhos quando deveriam educá-los. Existe criança que respeita mais a empregada, que passa com ela todos os dias da semana, do que com a mãe, vista como ausente. Mas, também existem mães e avós que superprotegem os filhos a tal ponto que não conseguem sinalizar os excessos e erros deles. Pior faz a mãe que desautoriza o esforço do pai de fazer a criança ou adolescente respeitar uma regra. Nesse caso, superprotegido pela mãe, o filho sente-se “autorizado” a ir em frente, rompendo com os limites da tolerância, tomando os seus erros como acertos, ou até mesmo concebendo-os como virtudes. Nesse momento, nasce um estilo cínico de ser no mundo.

Pais que, em vez de corrigir, superprotegem filhos chatos podem levá-los a se tornar adultos irritantes e socialmente inconvenientes. Não é mera coincidência que nova geração da China, nascida na política governamental de um filho por família, numa época de crescimento econômico e consumismo ascende, está desagradando àquela sociedade. Tradicionalmente, a família chinesa vivia no campo, tinha muitos filhos sob a autoridade dos pais que desde cedo ensinavam as crianças a dividirem o pouco que tinham. Hoje, o filho único daquele país é chamado de “pequeno imperador”, porque é mandão, intolerante e, por isso mesmo, é considerado chato.

Na China ou no Brasil, embora a família tenha ficado pequena, e urbana, os pais perderam o domínio sobre os filhos. Há muito tempo, os antropólogos e psicanalistas vem analisando os efeitos do declínio da autoridade do pai na modernidade. A luta para destituir o poder do pai repressor – o “pai-patrão” – das décadas de 60 e 70, virou na nova geração uma atitude de egoísmo, insensibilidade, individualismo, e falta de qualquer compromisso com o outro.

Os professores reclamam hoje do aumento do número de alunos que a todos irritam. Desrespeitam colegas que querem estudar e o professor que precisa trabalhar. Descomprometem-se com qualquer tipo de reflexão, sobretudo, reflexão política. Quando é chamada para usar o pensamento crítico e a reflexão, “parece ter a pilha sempre descarregada”, disse uma educadora. O celular nas escolas particulares de classe média e rica fez pioras as coisas, porque se interessam mais em consultar o visor e enviar ‘torpedos’ do que em participar da aula. Soube que alunos usam esse instrumento para delatar à direção da escola o professor que lhes chamou a atenção. Soube também de casos de alunos que ameaçam professores através de e-mails anônimos. A reportagem da revista Veja  de 11/ 05/2005 (edição 1904) relata alguns casos muito chatos ocorridos em várias escolas. Como não ficar chateado com alunos chatos?

Na busca do porquê da chatice das crianças de nossa época não devemos buscar ou privilegiar uma causa única: personalidade, criação, ambiente de convivência, cultura, etc. O todo da educação, o contexto de suas relações deve ser reconhecido e analisado como conjunto de causas múltiplas da chatice de criança, adolescente ou adulto. Está condenada ao fracasso a antiga proposta educativa comeniana de fazer uso de um único método para ensinar tudo a todos.

É necessário reavaliar a vida cotidiana considerada chata; deve ser levada em conta a totalidade de seu cotidiano, que provavelmente é efeito ou sintoma das contradições dos pais, colegas, vizinhos, de sua relação com as telas eletrônicas, etc. Acredito que o excesso de horas que uma criança ou adolescente passa diante de uma tela, jogando ou se relacionando virtualmente, aprofunda o traço de chatice dela.

Uma criança jamais é chata, mas responde com chatices o ambiente chato em que é obrigada a viver. Parafraseando S. Beauvoir: não existe criança chata, mas sim “criança que está se tornando chata” como reação ao todo cultural contraditório, muitas vezes insuportavelmente inautêntico, tagarela, vazio, e, por isso mesmo, infeliz.

 

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[1] S. Toulmin (2004) distingue a “razoabilidade” da  “racionalidade”. A  razoabilidade “combina a força intelectual do conteúdo com uma moderação no estilo”. É razoável uma pessoa que demonstra a sensibilidade para com uma determinada situação, bem como equilíbrio e serenidade na ação prática ou política. A pessoa que usa apenas de racionalidade é insensível e de julgamento parcial das coisas, podendo terminar desenvolvendo uma ação precipitada e afobada. Tenderia a agir “irracionalmente” porque é mais inata do que adquirida. O hábito de agir de uma forma que ofende, sem necessidade, que, por exemplo, faz afastar os amigos e aumentar o número de inimigos, demonstra que muita gente não presta atenção uma atenção razoável a sua própria conduta: e este é um defeito adquirido, não uma marca de irracionalidade inata. (TOULMIN, S. “Como a razão perdeu o seu equilíbrio” In: Conhecimento Prudente para uma Vida Decente (Org.: Boaventura Sousa Santos). São Paulo: Cortez, 2004, pp. 269-289.

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