50
Anos de Fundação do ISEB
No
dia 14 de julho de 2005, o Instituto Superior de Estudos
Brasileiros completaria 50 anos de fundação. Criado no
tumultuado ano de 1955, o Instituto foi
a continuidade do Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia
e Política, entidade civil que congregava intelectuais e técnicos
governamentais. Além de promover, desde 1952, seminários sobre a
conjuntura político-econômica do país, o IBESP editou, na
cidade do Rio de Janeiro, cinco números da revista Cadernos de
Nosso Tempo.
Paradoxalmente,
a fundação do ISEB – instituição que se tornou possível em
virtude das iniciativas de intelectuais e setores governamentais
progressistas (entre os quais estavam Cândido Motta Filho,
ministro da Educação e Cultura, e Anísio Teixeira) –, foi
concretizada através de um decreto assinado por um político
conservador, o presidente Café Filho. Desde sua fundação, o
ISEB esteve subordinado ao Ministério da Educação e Cultura,
funcionando sempre com dotações orçamentárias bastante
incertas e limitadas.
A
estrutura administrativa do Instituto era constituída por um Conselho
Consultivo (50 membros indicados pelo Ministro da Educação),
mas que, na prática, tinha apenas uma “função decorativa”;
abaixo dele estava o Conselho Curador – órgão de direção
do Instituto –, formado por oito membros, também designados
pelo MEC. Os cinco Departamentos criados – responsáveis por
pesquisas internas, conferências, formação de quadros e cursos
regulares – desempenhavam as funções e os papéis mais
significativos e relevantes na vida instituição. À época de
sua criação, eram eles: Ciência Política, chefiado por
Hélio Jaguaribe, Economia, Ewaldo Correia Lima,
Filosofia, Álvaro Vieira Pinto; História, por Candido
Mendes de Almeida e Sociologia, Alberto Guerreiro Ramos.
Desde
seus primeiros anos, além da publicação de livros e da realização
de seminários e debates públicos, o ISEB se notabilizou por
oferecer cursos regulares a oficiais das Forças Armadas, empresários,
sindicalistas, parlamentares, funcionários públicos, burocratas
e técnicos governamentais, docentes universitários e do ensino médio,
profissionais liberais, religiosos, estudantes etc.
Distinguindo-se de uma instituição acadêmica foi, precipuamente,
um centro de formação política e ideológica, de orientação
democrática e reformista.
Pode-se
afirmar que o ineditismo da experiência isebiana consistiu no
fato de intelectuais, de distintas orientações teóricas e ideológicas,
se reunirem não apenas para debater e refletir sobre “os
dilemas e os problemas cruciais da realidade brasileira”. De
forma deliberada, o Instituto foi criado para servir de
instrumento para uma ação eficaz no processo político do país.
No Brasil contemporâneo, o ISEB foi a instituição cultural que
melhor simbolizou ou concretizou a noção (e a prática) do
engajamento do intelectual na vida política e social de um país.
Quando
de sua criação, o Instituto teve as características de uma
grande frente intelectual e política. Nele conviviam liberais,
comunistas, social-democratas, católicos progressistas (alguns
deles, recém egressos do integralismo) etc. Do ângulo das
afinidades teóricas, pode-se dizer que nele se confrontavam
simpatizantes do marxismo, do existencialismo de cristão e de
Sartre, da fenomenologia de Jaspers, da sociologia do conhecimento
de Mannheim, do historicismo de Dilthey, do culturalismo de Ortega
y Gasset e de outras correntes filosóficas e sociológicas. No
entanto, apesar de expressarem uma multiplicidade de orientações
teóricas e políticas, esses intelectuais convergiam na convicção
de que, através do debate e do confronto das idéias, seria possível
formular um projeto ideológico comum para o Brasil. O nacional-desenvolvimentismo
foi então concebido como essa ideologia-síntese capaz de levar o
país – através da ação estatal (planejamento e intervenção
econômica) e de uma ampla frente classista – à superação
do atraso econômico-social e da alienação cultural. Uma Nação
desenvolvida e soberana estava, assim, no horizonte ideológico de
alguns desses intelectuais.
O
ISEB passou por diferentes fases. Sem entrar na controvertida
caracterização destes períodos, entendo que dois momentos –
pela relevância das questões debatidas e enfrentadas – se
distinguem na vida do Instituto: o da criação, que praticamente
coincide com o “período desenvolvimentista” de JK
(1955-1960), e o último ISEB que acompanha os anos de João
Goulart na presidência da República.
Embora
não possa ser rigorosamente identificado como um aparelho ideológico
a serviço do chamado desenvolvimentismo de JK, é certo que –
particularmente nos primeiros anos dessa administração – há
uma nítida sintonia entre os intelectuais do Instituto e o
projeto industrializante do governo. Alguns proeminentes isebianos
chegaram, inclusive, a apoiar a candidatura de JK e também a
participar de grupos de trabalho que elaboraram os planos
governamentais do candidato presidencial vitorioso do PSD.
Nesse
primeiro momento conviviam no Instituto posições teóricas e políticas
divergentes e conflitantes – nacionalistas, socialistas e
liberais progressistas (mas também, em posição minoritária,
defensores do capital estrangeiro e antinacionalistas, como era o
caso notório do economista Roberto Campos). Esta frente político-ideológica
– que convergia na defesa do nacional-desenvolvimentismo –
enfrentará um abalo decisivo após dois anos e meio da fundação
do Instituto. Em dezembro de 1958 uma acirrada discussão se
instalou no seio do Conselho Curador. Setores nacionalistas
mais ortodoxos fora do ISEB, com o pleno apoio e incentivo de
Guerreiro Ramos, questionaram abertamente formulações que eram
defendidas no livro de Helio Jaguaribe, O nacionalismo na
atualidade brasileira. Na obra, que ainda se encontrava no
prelo, Jaguaribe, ao defender a tese do “nacionalismos de
fins” (em oposição ao chamado “nacionalismo dos meios”),
admitia, por razões de “eficácia técnica”, a privatização
de setores básicos da economia brasileira – entre elas, a do
setor petroquímico. Depois
de tumultuadas e calorosas, discussões que foram noticiadas e
exploradas pela imprensa conservadora, a cisão se estabeleceu de
forma definitiva no seio do Instituto. No final de 1958, Guerreiro Ramos dele se afastou; em março
de 1959, Helio Jaguaribe, o principal idealizador do ISEB, dele se
retirou.
O
chamado “último ISEB” foi a fase em que se procedeu a uma
revisão crítica das teses nacional-desenvolvimentistas.
Decorridos os cinco anos do governo desenvolvimentista de JK,
verificou-se que o país cresceu economicamente – com a
consolidação do capitalismo industrial –, mas não resolveu em
profundidade suas graves e históricas desigualdades sociais e
regionais. Na formulação de um destes críticos, o desenvolvimentismo
– pela qual o ISEB se empenhou com o melhor de suas energias e
inteligência – revelou ser a “ideologia da classe
dominante”.
Durante
este último período, o ISEB esteve sob a direção política e
intelectual do filósofo Álvaro Vieira Pinto – autor de uma
extensa obra, Consciência e Realidade Nacional – e do
historiador marxista Nelson Werneck Sodré; com estes dois
diretores, colaboravam jovens professores universitários,
politicamente de esquerda. Nesta fase haverá uma intensa politização
e homogeneização ideológica do Instituto que, a partir de então,
privilegiará o debate das reformas sociais e econômicas –
defendidas pelo governo Goulart e pelo movimento nacionalista.
Passados
50 anos, o ISEB – apesar de seus equívocos
teóricos, políticos e ideológicos – deve ser lembrado como
uma instituição cujos intelectuais se comprometeram com a defesa
de causas reformistas e de caráter democrático. Em contraposição
aos cientistas sociais da USP – avessos e contrários ao
engajamento político –, os isebianos sintonizavam-se com a dinâmica
das lutas sociais e políticas presentes na sociedade brasileira
dos anos 1950 e 1960. Neste sentido, não se limitaram a atuar no
âmbito da casa da rua das Palmeiras, na cidade do Rio de Janeiro,
ministrando aulas e conferências. Escreveram pequenos livros
dirigidos aos setores populares (como, por exemplo, os Cadernos
do Povo Brasileiro); assinavam também artigos em jornais e
revistas progressistas reivindicando a realização das reformas
estruturais e, durante os nove anos de existência do Instituto,
se posicionaram ativamente contra as constantes ameaças ao regime
democrático brasileiro.
Identificado
com a esquerda “subversiva”, o ISEB foi objeto da sanha
golpista. Nos dias seguintes à “revolução” vitoriosa, a
biblioteca os arquivos e os móveis da sede do Instituto foram
destruídos por manifestantes ensandecidos. A ditadura militar ali
se manifestou por inteiro; através do ato de vandalismo, a
inteligência era repudiada e o pensamento crítico passaria a ser
reprimido no país por mais de 20 longos anos.