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Por
MARCOS ANTÔNIO LOPES Docente
do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de
Londrina (UEL) |
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Maquiavel:
Os Exemplos da História
O
resultado é que os que se dedicam a ler a história ficam
limitados à satisfação de ver desfilar os acontecimentos sob os
olhos sem procurar imitá-los, julgando tal imitação mais do que
difícil, impossível. Como se o sol, o céu, os homens e os
elementos não fossem os mesmos de outrora; como se a sua ordem,
seu rumo e seu poder tivessem sido alterados.
Maquiavel
(Discursos)
A
concepção de Historia
magistra vitae soa-nos como uma dessas excentricidades culturais
perdidas nas profundezas abissais dos séculos. É verdade. O gênero
é algo que não compreendemos direito, algo exótico e improvável,
quando avaliado apenas pelo prisma de nossos valores. Como seria
possível pensar, depois de Heráclito e de sua teoria do movimento,
que as circunstâncias se repetem, se não em idênticas, ao menos
em condições semelhantes? A imagem de um homem cruzando as águas
de um rio também nos chega de um passado distante, e ainda hoje
define a nossa concepção de história. Isto parece demonstrar que
não somos tão originais quanto pensamos. A metáfora de Heráclito
que interiorizamos — mesmo sem nos darmos conta disso —, marca,
por contraste, a nossa posição contra o gênero Historia
magistra vitae. Acreditamos na irreversibilidade do tempo e a idéia
de alteridade ajuda-nos a estabelecer a diferença qualitativa do
que compreendemos como a dinâmica dos “tempos históricos”,
segundo a definição de Reinhart Koselleck. Deste modo, o comércio
das idéias, representado pela natureza transmissível da experiência,
remete-nos a uma idéia de continuidade que reúne num bloco monolítico
as três dimensões do tempo.
Assim
é que a idéia de se reproduzir efeitos positivos no presente
mirando em ações ocorridas no passado coloca-nos diante de um
objeto — quero dizer, de uma concepção de história — que
exerce a estranha atração de um imã. Então, uma lição que
podemos extrair da idéia de um movimento não-linear da história,
de uma espécie de eterno retorno do mesmo, é a de que devemos
evitar a atitude a-histórica de considerar a ausência de uma idéia
de progresso como um elemento que diminui e/ou barateia a relevância
da história pensada por Maquiavel.
Contra
esta tendência, que sabemos não ser sempre consciente entre seus
comentadores, seria mais apropriado identificar as especificidades
deste modelo de compreensão do tempo histórico, que dá origem a
desdobramentos centrais no nível de uma teoria da ação em
Maquiavel. De onde vem esta matriz de pensamento histórico, em
quais circunstâncias históricas o modelo foi gerado, quais os seus
traços distintivos, os elementos de suas transformações e por
quais vias este gênero atinge o século XVI, e bem mais além. Para
recordar R. Koselleck, numa excelente definição do gênero, e numa
avaliação de sua longevidade, “... l’histoire nous laisse
libres de répéter les succès du passé au lieu de tomber présentement
dans vielles erreurs. C’est ainsi que l’histoire a fait figure
pendant deux millénaires d’école (...). Jusqu’au XVIIIe siècle,
l’emploi de notre expression (Historia
magistra vitae) est um indice infaillible de la permanence de la
nature humaine dont les histoires se prêtent parfaitement à servir
de preuves toujours réutilisables d’enseignement moraux, théologiques,
juridiques et politiques”.
Os exemplos do passado formam um conjunto de lições necessárias e
um útil campo de aprendizagem. No século XVIII Voltaire — que é
notado hoje como expressão incontestável de historiador moderno
— afirmava que a sua História de Carlos XII serviria para mostrar o que deveria ser o
exemplo de um príncipe. Neste caso, ele utilizaria as ações do
rei da Suécia como fonte de inspiração para demonstrar a todos,
mas principalmente aos poderosos de seu tempo, quais eram os vícios
a serem evitados pelo príncipe ideal. Mais tarde ele escreveu a História
da Rússia sob o império de Pedro, o Grande, obra na qual
aprofundou as contradições do anti-herói Carlos XII.
O
fato é que se aponta, com freqüência, a falta de “sentido histórico”
no pensamento de Maquiavel. Mas, a rigor, o que significa isto? Ora,
esperar encontrar na obra de Maquiavel uma idéia desenvolvida de
progresso é uma atitude anacrônica. Debitar esta “falha” como
atestado de insuficiência da perspectiva do autor o é igualmente.
Se a natureza humana é igual em toda parte — como ele acreditava
—, e se esta é a ferramenta analítica que faz a cadência de seu
tempo cíclico, aí já se encontra implícita a sua noção de
sentido histórico, o que freqüentemente se tem negado a Maquiavel.
A diferença pura e simplesmente está na evidência de que o seu
sentido histórico não se assemelha ao nosso. E não é isto o que
importa saber quando se pretende compreender idéias em contexto?
Mais importante do que lamentar a ausência de tais elementos é
tentar identificar as razões de sua ausência, o que ocorre com bem
menor freqüência.
Extrair
a concepção cíclica do tempo da teoria da ação política de
Maquiavel é como retirar o ar que ele respira. O resultado prático
é que o seu pensamento histórico e político — e é bom lembrar
que Maquiavel foi sobretudo historiador e não propriamente filósofo
político — ficaria sem atmosfera. Então, a dita falta de sentido
histórico na obra do autor dos Discursos não deve ser vista como uma limitação ou uma barreira,
mas como o leito natural por onde tem curso livre as suas idéias, tão
circunstanciais quanto a visão mecânica de Hobbes ou a de qualquer
outro autor igualmente marcado pelas contingências de seu tempo.
Aliás, é de se pensar qual teria sido a fortuna crítica de
Maquiavel se ele tivesse pensado a história fora dessa moldura rígida
de uma natureza humana eterna. Uma resposta plausível, dentre
outras, é que ele não seria o Maquiavel que se conhece e,
certamente, seria bem menos interessante do que é de fato.
A
história exemplar de Maquiavel nos coloca frente a uma noção
conservadora, a de que as tradições são uma conquista dos homens
e que é preciso conservá-las. Mais do que isto, as tradições
formam a base para a estabilidade da ordem pública. Há nesse
argumento princípios de sua teoria do conhecimento: ter acesso aos
móveis reais dos grandes vultos, compreender os seus autênticos
desígnios, eis uma fonte segura para se aproximar do melhor modelo
de República. A vida fugaz das formas políticas no tempo de
Maquiavel cobrava rapidez e objetividade nas decisões. Era preciso
aprender rápido e cercar as ações de uma margem de segurança.
Somente os grandes exemplos asseguram esta posição confortável.
Para Maquiavel, os mestres do passado representam esta base empírica
inestimável para uma avaliação correta da realidade no tempo
presente que, devido ao instável contexto de Florença e da Itália,
podem selar o destino de todos. Mas, se de fato os exempla são fonte segura do aprendizado político, é preciso que o
sujeito do conhecimento possua virtudes para aplicar corretamente as
lições do passado. Não basta apenas a sabedoria dos mestres em
meio à estrada tortuosa e escorregadia da realidade:
“L’exortation de Machiavel à admirer les Anciens mais aussi à
les imiter, donna toute sa force à la résolution de continuer à
tirer profit de l’histoire, parce qu’elle liait en une nouvelle
unité pensée exemplaire et pensée empirique”.
A nau da República é uma engrenagem complexa e requer pulso, além
de sabedoria. Se faltar energia ao timoneiro o navio passa a
circular em zona perigosa, navegando numa margem estreita entre os
rochedos e o abismo. Assim é que será preferível um tirano
resoluto a um governo misto confuso.
Maquiavel
viveu numa época de notáveis realizações da pesquisa histórica.
Como analisa George Huppert em seu The Idea of Perfect History, o século XVI fundou a preocupação
com a crítica rigorosa das fontes de pesquisa e o intercâmbio com
outras disciplinas, com ênfase sobre a filologia, que permitiu a
Lorenzo Valla desbaratar a fraudulenta Doação de Constantino.
Maquiavel foi tocado por este movimento de renovação da história
que, inclusive, nasceu nas cidades-Estado italianas do Renascimento.
Mas não é verdade que esta idéia de uma história perfeita se
insurge contra as lendas e os mitos? Então, como explicar que
alguns personagens de Maquiavel são figuras lendárias? Isto tem
chamado a atenção de seus comentadores. De fato, Rômulo e Teseu
aparecem como figuras modelares de príncipes. É razoável supor
que estas criaturas mitológicas são abstrações intelectuais
utilizadas pelo autor para ensinar o exemplo da virtude, ou seja,
aquilo que se espera de personagens de carne e osso. Neste caso,
importa mais o exemplo do que a corporificação histórica do
modelo. Parte-se do princípio de que, em todas as épocas, os príncipes
vivem os mesmos dramas e dilemas. Portanto, sempre será possível
reutilizar as atitudes bem sucedidas dos outros
Contudo,
se Maquiavel acreditou nas possibilidades de uma história perfeita,
segundo o modelo humanista, quais são os traços predominantes de
seu método de análise? A crítica de sua documentação — os
textos clássicos com Cícero, Políbio e Tito Lívio à frente —
combinam as técnicas disponíveis em seu tempo com uma visão
idiossincrática da realidade. É dessa idiossincrasia que surgem as
cenas realistas dos espelhos de príncipes que encontramos tanto nos
Discursos quanto em O Príncipe. É realmente impossível passar por cima das máximas e
preceitos que, no limite, fazem recordar Plutarco e suas Vidas Paralelas. Trata-se dos exempla
tão característicos deste gênero antigo de literatura em relação
ao qual Maquiavel é seguidor e re-criador paradigmático. Há de
fato quem tenha pensado que seus dois livros mais importantes não
passem de uma obra característica do gênero.
Existem
autores que reduzem os textos de Maquiavel a um espelho do príncipe,
a um mero eco modernizado do passado, com a diferença apenas de
terem sido concebidos com mais vigor, atualidade e talento. Apesar
disso, o “estilo, o conteúdo e a intenção” não seriam
diferentes da tradição. É uma tentação pensar dessa forma,
porque há muitas evidências destes traços em seus textos. Mas, se
assim fosse, a tradição interpretativa de Maquiavel não teria
chegado ao ponto que chegou. Há realmente algo mais em Maquiavel,
um algo mais que o transformou numa galáxia do conhecimento, em
contínua expansão. Mas, retornando ao método de análise
empregado por Maquiavel, é preciso incluir nele as leis gerais, que
remetem à idéia de uma natureza humana fixa no tempo e no espaço,
conforme o cristalino exemplo da metáfora natural que citamos em epígrafe.
Este modelo culmina com alguns vigorosos golpes de retórica,
aplicados estrategicamente como expediente de arrebatamento do
leitor. Estes golpes de retórica são as máximas extraídas dos clássicos,
que carregam em si o valor moral insofismável dessa ou daquela ação
exemplar.
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