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Por
JÚLIO CÉSAR BURDZINSKI Prof.
do Depto. de Filosofia e Psicologia da Unijuí (RS) |
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O
valor da ignorância
Pseudo-conhecimento
“Só
sei que nada sei”. Esta talvez seja a mais famosa sentença da
História da Filosofia. Quem já não a ouviu?
E quantos já não a
pronunciaram em alguma ocasião? A sentença é originalmente atribuída
a Sócrates, o filósofo seminal da Filosofia clássica grega. Sócrates
não registrou em texto seus ensinamentos, mas o mais famoso de seus
discípulos, Platão, nos legou uma extensa obra. Esta obra é
majoritariamente composta por diálogos. Também majoritariamente,
estes diálogos têm em Sócrates seu personagem central. Se os diálogos
platônicos estão mais próximos de ser uma exposição literal das
palavras de Sócrates, ou uma criação filosófica e literária de
Platão, não é importante aqui. O que sim importa é que Sócrates
nos aparece como alguém que busca o conhecimento, alguém que
questiona os supostos sábios sem se considerar sábio ele mesmo.
É
a esse caráter ao mesmo tempo crítico e despretensioso de Sócrates
que a sentença “Só sei que nada sei” se refere: crítico em
relação ao suposto conhecimento alheio; despretensioso em relação
ao que ele próprio conhece. Pois um conhecimento que não se
sustenta diante da investigação racional não é de fato um
conhecimento. É apenas algo que se parece com o conhecimento sem de
fato o ser. É um pseudo-conhecimento. E, como Sócrates não cansa
de nos lembrar, nada nos afasta mais do conhecimento do que o
pseudo-conhecimento.
Ocorre
que não é preciso buscar aquilo que já temos. Assim, se pensamos
ter o conhecimento, também pensamos
não precisar buscá-lo. Daí porque, se estamos iludidos a esse
respeito, essa ilusão é o maior bloqueio para a obtenção do
conhecimento. Como já disse alguém, não há melhor prisão do que
aquela que não se parece com uma prisão. Para que tentemos nos
libertar de nossas amarras, antes devemos nos dar conta de que
estamos amarrados. Para que tentemos alcançar o conhecimento, antes
devemos nos dar conta de que somos ignorantes. É somente na seqüência
dessa descoberta, da descoberta de nossa própria ignorância, que
podemos nos colocar no caminho da busca do conhecimento. Se
estivermos aprisionados, todo adereço acrescentado à prisão
servirá apenas para esconder ainda mais a natureza dessa prisão.
Nenhum enfeite afixado nas paredes que nos encadeiam servirá para
derrubá-las, nenhum ornamento nos libertará. A liberdade precisa
começar pelo desnudamento de nossas cadeias, pelo desmascaramento
das ilusões que nos confundem, pela denúncia de todo
pseudo-conhecimento.
Mas
já basta de metáforas. Que tipo de prisão é exatamente essa prisão
formada pelo pseudo-conhecimento? É uma prisão mental. É o nosso
espírito, são as nossas idéias e o nosso raciocínio que estão
neste caso encarcerados. Como se chama essa prisão? Há várias
delas, de fato, e muitas nos são familiares. Preconceito,
estreiteza de espírito e indolência são alguns de seus nomes.
Como podemos escapar de tais prisões? Pela crítica atenta e ativa
dos preconceitos, pelo esforço consciente e incessante para
ampliarmos os limites de nosso espírito, questionarmos nossas próprias
idéias e aguçarmos nosso raciocínio.
E
esta tarefa não é fácil nem simples. Muitas vezes ouvi a sentença
“Só sei que nada sei” ser empregue como se ela fosse uma espécie
de mantra, uma expressão mágica que muito fácil e rapidamente nos
permitisse o acesso a um mundo maravilhoso de riquezas e
esplendores. De fato, algumas pessoas parecem acreditar que essa
expressão proporcione uma experiência parecida com a que acontece
naquela história infantil em que as palavras “Abre-te, Sésamo!”
automaticamente abrem as portas de uma caverna repleta de tesouros.
A diferença seria que, no caso da sentença socrática, os tesouros
aos quais ela nos daria acesso seriam tesouros espirituais ao invés
de serem riquezas materiais. Porém, tanto num caso quanto noutro, o
acesso seria simples e imediato. Algumas palavras seriam
pronunciadas e prontamente um universo de maravilhas se
descortinaria diante de cada um de nós. Mas, no caso do
conhecimento, não é absolutamente assim que acontece.
Pseudo-ignorância
A
ignorância – ou, se preferirem, a consciência
de nossa própria ignorância - não nos é dada gratuitamente; a
ignorância tem um preço. Não a ganhamos, a conquistamos. E com
trabalho, com muito trabalho. Como tudo o mais que tem algum valor
na vida, também a obtenção da ignorância exige esforço, paciência
e dedicação. Pois ocorre que nos é muito mais natural crer do que
duvidar. Nossa tendência é crer que as coisas de fato sejam como
elas de início nos parecem ser. A dúvida acerca dessa aparência
primeira pode surgir de diversos modos, e um desses modos é o modo
filosófico. Neste caso, se trata de um esforço deliberado e metódico
para colocar em questão as aparências. E este esforço não é fácil
nem é simples.
É
possível colocar em dúvida mesmo aquelas verdades mais evidentes e
aparentemente inegáveis. Pensem, por exemplo, no gênio maligno de René Descartes – na suposição de que poderia
existir uma criatura supremamente poderosa e malévola que tivesse
por objetivo nos enganar inclusive a respeito daquelas coisas que
nos parecem mais obviamente verdadeiras (o supercomputador do filme Matrix
pode ser tomado como uma versão contemporânea de tal criatura). Não
raro, essa singular hipótese é tomada por uma simples brincadeira
filosófica. Mas ela é muito mais do que isto: ela é uma alegoria
de certas conseqüências dos limites e da natureza de nosso
conhecimento. Quem comete este equívoco talvez ignore que a invenção
de uma tal criatura pretende pavimentar o caminho da dúvida através
de uma imagem sugestiva. E isto porque a dúvida, e em particular, a
dúvida sobre fatos que nos parecem óbvios – fatos sobre a nossa
própria existência, por exemplo –, não é gerada sem que
empreendamos um diligente esforço para tanto. E o exercício da dúvida
é o instrumento indispensável que nos permite eliminar os
fragmentos de pseudo-conhecimento reunidos ao longo dos anos que
atulham nossa mente. É o exercício da dúvida que nos permite
alcançar a ignorância.
Parte
considerável dos esforços dos filósofos, portanto, é dedicada à
tarefa de obter essa autêntica ignorância. Pois a fonte do
pseudo-conhecimento é a pseudo-ignorância. A pseudo-ignorância é
o resultado da tentativa insuficiente e fracassada em eliminar as
crenças irracionais que se acumulam em nosso espírito. Diante
desse fracasso, continuamos a sustentar idéias infundadas e a guiar
nossas ações com base em pontos de vista que, ao fim e ao cabo, não
têm sustentação racional. E tudo isto porque desde o início
falhamos na tarefa de desmascarar nossa própria ignorância.
Enfim,
o valor da ignorância é extraordinário. Defrontar a autêntica
ignorância, único terreno sobre o qual o autêntico conhecimento
pode ser erigido, é um empreendimento indispensável e virtualmente
interminável. O mundo nos oferece constantemente idéias enganosas
das quais precisamos nos depurar e essa depuração não é um
trabalho do qual possamos dar conta sem esforço e método. Ter
constantemente presente a necessidade deste trabalho e lembrar aos
demais disto com uma persistência que beire a provocação – como
o fazia o próprio Sócrates – pode ser uma boa maneira de se começar
a filosofar.
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