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Por
LUIZ ALBERTO MONIZ
BANDEIRA
Luiz Alberto Moniz
Bandeira é cientista político, professor titular de História da
Política Exterior do Brasil na Universidade de Brasília
(aposentado) e autor de mais de 20 obras, entre as quais
Brasil, Argentina e Estados Unidos:conflito e integração na
América do Sul(Da Tríplice Aliança ao Mercosul), De Marti a
Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina, e Relações
Brasil-EUA no contexto da globalização, cujo vol. I é
Presença dos Estados Unidos no Brasil e o vol. II,
Brasil-Estados Unidos: a rivalidade emergente. |
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O
Sentido Social e o Contexto Político da Guerra de Canudos
Em
memória de Edmundo Moniz
Introdução
As
tensões sociais, que a estagnação econômica gerava e a
adversidade da natureza - clima e solo - engravescia, acumularam-se
durante três séculos de colonização, nos sertões da Bahia, como
em todo o nordeste do Brasil. De um lado, poucas famílias ricas e
poderosas, dominavam uma vastidão de terras, latifúndios
improdutivos, e se digladiavam entre si, a disputarem o poder político,
por modo a assegurar e expandir suas propriedades. De outro, uma
população de caboclos, sertanejos, na sua maioria índios mestiçados
com brancos ou negros - mamelucos e cafuzos - que perderam ou jamais
possuíram alguma terra e nada tinham, nem mesmo a possibilidade de
vender sua força de trabalho e a esperança de alcançar uma vida
melhor. A alguns não restava senão o descaminho do cangaço, fora
da lei, se lei havia, e bandoleiros se tornavam. Outros, para
sobreviverem, passavam a servir como jagunços, capangas dos
senhores de terra, os coronéis, assim denominados porque recebiam
do governo imperial a patente da Guarda Nacional, com a faculdade de
organizar batalhões, quando necessário, para defender a ordem e o
Estado. Em tais condições de atraso social e político, aquela
massa de oprimidos, pobres e miseráveis, quase completamente
isolada dos centros urbanos do litoral, devido à carência de
transportes e de outros meios de comunicação, só encontrava
esperança na religião, através da fé no “Bom Jesus”, que
pelos menos lhe abriria as portas do céu, a perspectiva de salvação
e recompensa por tantos sofrimentos. A religião, naqueles sertões
do nordeste, podia ser, como no conceito de Karl Marx, a “expressão
da miséria real”[1].
Podia ser o “suspiro da criatura aflita”, a “alma de um mundo
desalmado” e até mesmo o “Opium des Volks”[2].
Mas o cristianismo, naquelas circunstâncias históricas, constituía
o máximo de consciência possível, como utopia, e desvelava um
sentido revolucionário, na medida em que o nível de atraso econômico,
social e cultural do sertão faziam-no regredir à sua pureza
original, como na Palestina, ao tempo do domínio de Roma.
O
ambiente de religiosidade e misticismo favorecia o surgimento de
beatos e messias, cujas ações reais, modeladas por uma ética de
provação, tendiam a chocar-se contra a estrutura de classes da
sociedade, tal como aconteceu com Thomas Münzer, que tentou
organizar, na Alemanha do século XVI, uma completa comunidade de
bens e igualdade total, a antecipar sobre a terra o reino de Deus.
Por volta de 1877, ano da grande seca no nordeste, Antônio Vicente
Mendes Maciel, que como Antônio Conselheiro se notabilizaria, já
peregrinava pelos sertões, a fazer e a arrastar fiéis por onde
passava. Segundo Euclides da Cunha, em toda a região, cidade ou
povoado não havia onde ele aparecido não tivesse e sua entrada,
“seguido pela multidão contrita, em silêncio, alentando imagens,
cruzes e bandeiras do Divino, era solene e impressionadora”[3].
Em
1887, chegou a visitar a Vila do Conde, no litoral da Bahia, e
deixou, em quase todos os lugares, um traço de sua passagem, ou
seja, a reconstrução dos muros de um cemitério em ruína ou a
renovação de uma igreja ou uma capela erguida[4].
Sua popularidade aumentava assim cada vez mais e a abolição da
escravatura, em 1888, concorreu para aumentar-lhe as hostes, com
negros libertos, sem destino e sem ocupação, em meio de grave
crise econômica, que solapava as bases de sustentação do governo
imperial.
O
governo imperial efetivamente se debilitara, ao persistir na mesma
política de valorização do câmbio e de restrição ao crédito,
em que o contínuo endividamento externo completava a permanente
escassez interna de meios de pagamento. Essa política não atendia
às necessidades de circulação monetária do capitalismo
emergente, para a expansão de suas forças produtivas,
impulsionadas tanto pela acumulação da cafeicultura de São Paulo,
à base, já em grande parte, do trabalho assalariado, quanto pelo
crescimento do parque industrial do Rio de Janeiro, sob o impacto da
concentração comercial, que a crise financeira dos anos 70, após
a guerra contra o Paraguai, estimulara. A abolição da escravatura,
em uma tentativa de salvar a monarquia, lançara à liberdade quase
um milhão de escravos, no valor de dois contos de réis cada um, e
agravou ainda mais a situação, dado que à maior parte dos
senhores de terra, sobretudo do Rio de Janeiro e do nordeste,
faltava o meio circulante para alugar a força de trabalho, de que
necessitava para a produção das fazendas e dos engenhos de açúcar.
O desconforto e a insatisfação destarte aumentaram, a
generalizar-se entre os membros da nobreza e em todas as regiões do
país. No recôncavo da Bahia, a baronesa de Alenquer, proprietária
de vários engenhos de açúcar, observou, um ano após a abolição
da escravatura, que, “quanto ao nosso governo, e a miséria que
estamos passando, é uma calamidade! Deus nos acuda! Só vejo todos
se queixarem, há uma falta de dinheiro nunca vista"[5].
E
na mesma carta aduziu:
“Desde
que me entendo até hoje, nunca ouvi dizer que no Brasil se morresse
de fome e, há um ano para cá, só é o que se ouve dizer. Que
desgraça!”[6]
O
gabinete formado pelo Visconde de Ouro Preto ainda tentou, no
segundo semestre de 1889, aliviar a crise. Lançou no mercado o
triplo do capital em moeda metálica, elevando o câmbio ao par, e
facultou às empresas, com capital de 5000 e 10 000 contos de réis,
a emissão garantida, enquanto fixava tarifas de importação mais
altas, em base de 50% e 60%, para a proteção das indústrias[7].
Os efeitos da nova política logo se fizeram sentir. A mesma
baronesa de Alenquer, em outra carta, datada de 14 de agosto de
1889, comentou que
“O
novo Ministro tem já feito em benefício da lavoura (...) e o banco
(está) dando dinheiro a 6% ao ano e com o prazo de até 15 anos,
conforme as quantias”[8].
Porém,
muito tarde era para reverter a catarses. O processo político
afoitou-se e oficiais do Exército induziram o marechal de Campo
Manuel Deodoro da Fonseca a colocar-se à frente de um golpe de
Estado, que em 15 de novembro de 1889 derrubou a monarquia, visando
à instalação da república e ao estabelecimento da Federação.
Conforme o jornalista Aristides Lobo, primeiro Ministro da Justiça
do governo Provisório, constatou, em uma crônica publicada no Diário
Popular, de São Paulo,
“o
fato foi deles só, porque a colaboração do elemento civil foi
quase nula. O povo assistiu aquilo bestializado, atônito, supresso,
sem conhecer o que significava”.[9]
O
contexto político na república
Os
militares estavam isolados da nação e a tropa do Exército, que
desfilou pelas ruas do Rio de Janeiro, após o golpe de Estado de 15
de novembro, deparou-se com uma cidade aparentemente vazia, as ruas
desertas, o comércio fechado. Apesar da grave crise econômica e
social, que fermentava o descontentamento em vastas camadas das
classes dirigentes, a monarquia era ainda popular. As adesões ao
novo regime, entre as quais a dos antigos partidos monárquicos de São
Paulo, orientaram-se pelo pressuposto da inevitabilidade da república
e tiveram como objetivo, em larga medida, restabelecer a normalidade
política e evitar possíveis reações populares, consideradas inúteis
e que poderiam comprometer a própria integridade territorial do
Brasil. A possibilidade de desintegração do Brasil em duas ou mais
repúblicas, com a separação do Rio Grande do Sul, era aliás
prevista, desde 1880, pelo presidente do Uruguai, Máximo Santos,
para o qual a coesão daquele país somente se manteria enquanto o
Imperador D. Pedro II vivesse e governasse[10].
Com a proclamação da república, através do golpe militar de
1889, ela se afigurou ainda mais real, de tal modo que o Ministro
Plenipotenciário da Grã-Bretanha, George Hugh Wyndham, informou ao
Marquês de Salesbury, no Foreign Office, que complicações políticas
poderiam advir, a provocarem a secessão do Brasil em vários
Estados independentes, inclusive de São Paulo, onde o sentimento
separatista se manifestava e os investimentos britânicos somaram
mais de seis milhões de libras esterlinas[11]. O próprio Barão de Rothschild, agente
financeiro do Brasil e seu grande credor, não só telegrafou como
escreveu a Rui Barbosa, Ministro da Fazenda do governo Provisório,
a expressar o temor de que, no futuro período, a “desintegração
e o desmembramento” do Brasil a ocorrer viessem[12]. Não se aventurava a profetizar, Rothschild
acentuou, quando essas predições poderiam provar serem verdadeiras
ou de que maneira tal “grande calamidade” evitar[13].
De qualquer forma, na sua opinião como agente financeiro do Brasil
por muitos anos e sinceramente preocupado com seu bem-estar, ele
mais do que nunca estava convencido de que só mediante e, “se
possível”, por meio de maior consolidação ainda de suas
numerosas províncias, aquele país, no futuro como no passado,
“sustentar-se-ia entre as nações mais ricas e mais prósperas do
Hemisfério ocidental”[14].
A preocupação de Rothschild naturalmente se relacionava com a
questão da dívida externa do Brasil, do qual era o grande credor,
uma vez que a desintegração do país em dois ou três Estados
independentes complicaria a assunção da responsabilidade pelo seu
pagamento. As crescentes dissensões com que a nascente república
se debatia justificavam tais temores. Legitimidade faltava-lhe e o
Exército, da mesma forma que a Marinha, não reunia condições
para ocupar o vácuo do Poder Moderador, representado até então
pelo Monarca[15].
E a crise, a aprofundar-se, compeliu o marechal Deodoro da Fonseca,
eleito presidente da república, a dissolver o Congresso, em
novembro de 1891, conquanto a Constituição promulgada em fevereiro
daquele ano não lhe outorgasse poderes para tanto, e a ele, em face
da crescente revolta, que se alastrava pelo Rio Grande do Sul, não
restou alternativa senão a renúncia, entregando o governo ao seu
vice, o marechal Floriano Peixoto.
Essa
crise demonstrou que a república presidencialista, que substituíra
a monarquia parlamentar, significara para o Brasil um retrocesso
institucional. Inspirada no modelo dos EUA, a Constituição de 1891
implantara um regime em que o presidente da república,
simultaneamente chefe de Estado e chefe de governo, era na verdade
um autocrata, com mandato temporário e fixo, podendo até mesmo
influir na composição do Congresso, através da escolha dos seus
membros, mas sem a faculdade de dissolvê-lo, caso o conflito de
poderes se instalasse, o que convertia a crise da instituição em
uma instituição da crise. Assim, a república, instalada a manu
militari, não só obstou a democratização dos poderes, que
sob a monarquia parlamentar se processava, como reconcentrou-os. E o
golpe de Estado (quando não, como nos EUA, o assassínio dos
presidentes) passou a representar o outro verso da república
presidencialista, a desobstruir o caminho para a ditadura militar. E
foi em tais termos que o marechal Floriano Peixoto governou, ao
mesmo tempo em que o Brasil resvalava para a vala comum das
republiquetas latino-americanas. “Que é feito dessa pátria tão
calma, tão nobre, que nos enchia de orgulho no confronto com os
nossos vizinhos?” - esta pergunta angustiada do médico Ângelo
Dourado, residente em Bagé[16],
perpassava pela cabeça de muitos brasileiros e o Rio Grande do Sul,
com a sublevação federalista contra o governo provincial de Julio
de Castilhos, em 1893, empegou-se durante dois anos em sangrenta
guerra civil, que desbordou as fronteiras da Argentina, em Missões,
e, sobretudo, do Uruguai, de onde cerca de 10 000 a 12 000
refugiados mantiveram constante luta armada, por meio de incursões
de guerrilhas, sob o comando de Gumercindo Saraiva. As tropas legais
do Rio Grande do Sul, a fim de liquidarem em suas bases os
insurgentes, entre os quais muitos uruguaios e argentinos se
contavam, começaram então a ultrapassar as fronteiras do Brasil,
cometendo toda sorte de tropelias e violências, como assassínios,
saques, roubos de gado e de cavalos etc., o que levou o governo de Montevidéu, sob a Presidência de Julio Herrera y Obes, do Partido
Colorado, a protestar, várias vezes, e a ordenar que seu exército
reagisse[17].
À mesma época, a Marinha de Guerra do Brasil rebelou-se também no
Rio de Janeiro, sob o comando dos almirantes Custódio José de Melo
e Luiz Felipe Saldanha da Gama, e a guerra civil espraiou-se pelos
estados do Paraná e de Santa Catarina, para onde alguns navios da
esquadra - os cruzadores república e Pallas -
arribaram, aportando na localidade de Desterro (atualmente Florianópolis).
Rumores então circularam, inclusive em Washington, no sentido de
que o Barão de Rothschild instruíra August Belmont, seu agente nos
EUA, para que apoiasse a insurreição no Brasil[18]. A suspeita, agasalhada pelo governo de marechal
Floriano Peixoto, era efetivamente de que a Grã-Bretanha, Portugal
e outras nações da Europa instigavam a sedição, com o objetivo
de restaurar a monarquia e colocar no trono o Príncipe Leopoldo
Augusto. Algum fundamento aparentemente havia. O Tratado de
Reciprocidade Comercial de 1891, com que o Brasil, mediante reduções
tarifárias, favorecia a importação de manufaturas dos EUA,
alarmara a comunidade de negócios da Grã-Bretanha. As reservas
brasileiras em Londres não cessavam de baixar, atingindo níveis de
extrema depressão, devido à queda do câmbio para onze pence
e à continuação de notícias “very unsatisfactory”,
que chegavam do Rio de Janeiro, a indicarem o aumento de armamentos,
o aumento dos gastos e o aumento das dissensões políticas, através
da república, conforme o próprio Barão de Rothschild comunicou ao
Ministro da Fazenda do marechal Floriano Peixoto em meados de 1893,
antes mesmo de que a guerra civil no Rio Grande do Sul se alastrasse[19].
Não
obstante esses fatores, Rothschild negou que procurado houvesse
favorecer os insurgentes da Marinha, alegando que graças às suas
representações o governo britânico não permitiu o bombardeio do
Rio de Janeiro[20],
e, de acordo com o historiador Richard Graham, os interesses
comerciais da Grã-Bretanha realmente não apoiaram a insurreição
no Brasil[21]. Mas, assim como Portugal, Itália e Alemanha[22],
a Grã-Bretanha, se não favorecia, simpatizava, sem dúvida alguma
com os insurgentes, aos quais seu Ministro Plenipotenciário no Rio
de recomendou que o Foreign Office garantisse o status de
beligerância[23], enquanto os EUA sustentaram abertamente o
governo de Floriano Peixoto[24]. Joaquim Nabuco, político ao tempo do Império
e, posteriormente, Embaixador do Brasil nos EUA, observou que
“...
a presença de uma poderosa esquadrilha norte-americana,
desproporcionada com a força efetiva das outras potências, que
tinham muito maiores interesses no Brasil, dava corpo à idéia de
que os EUA estavam decididos a intervir, no momento oportuno, em
favor da legalidade”[25].
Os
EUA, ao que tudo indicava, dispunham-se a realmente intervir no
Brasil, caso a insurreição da Armada triunfasse e restabelecesse a
monarquia, e estavam prontos para o fazer a qualquer pretexto, se o
marechal Floriano solicitasse sua assistência[26].
Deste propósito, não só o Foreign Office, o Barão de Rothschild
recebera várias vezes a informação, através do seu representante
em New York, August Belmont, que, embora presumisse difícil a
intervenção dos EUA, a menos que se comprovasse a interferência
de outra potência para restaurar a monarquia, a afrontar a Doutrina
Monroe, adiantara-lhe, em caráter estritamente confidencial, que: 1°
- o marechal Floriano Peixoto “seria mantido no poder até o fim
do seu mandato”; 2° - “seria sucedido por um civil”; 3° - a
república seria mantida a “qualquer custo”[27].
Esta fora uma decisão tomada em Washington. E, assim, aconteceu. A
revolta da Armada fracassou. O coronel Antônio Moreira César, na
condição de governador militar de Santa Catarina, comandou a mais
feroz repressão, a degola e o fuzilamento de centenas de militares
e civis, “após um ataque epiléptico”"[28],
com o que restaurava a pena de morte, abolida pela Constituição
Federal[29].
Em 15 de novembro de 1894, como previsto por August Belmont na carta
ao Barão de Rothschild, Prudente de Moraes, um civil e
representante da burguesia cafeeira de São Paulo, sucedeu ao
marechal Floriano Peixoto na Presidência da república, para a qual
fora eleito. E os insurgentes do Rio Grande do Sul, derrotados foram
em 24 de junho de 1895, na batalha de Campo Osório, onde o
Almirante Saldanha da Gama tombara, em meio de enorme carnificina,
da qual apenas 29 dos 105 homens da Marinha que o acompanhavam
escaparam com vida, pois até os prisioneiros morreram degolados e a
vida ninguém se poupou, “nem mesmo às mulheres e às crianças
das cercanias”[30].
O
comunismo cristão
A
vitória da república não significou o fim dos problemas com que
ela interna e externamente se defrontava. A guerra civil no Rio
Grande do Sul ainda mal terminara, quando forças da Grã-Bretanha
transportadas pelo cruzador Barracowta, ocuparam a ilha da
Trindade (julho de 1895), no Oceano Atlântico, quase ao mesmo tempo
em que cerca de 250 a 300 soldados franceses desembarcavam do navio
de guerra Bengali e atacavam o território do Amapá, por
ordem do governador da Guiana Francesa, o que provocou a efervescência
do sentimento nacionalista e manifestações de protesto no Rio de
Janeiro e em São Paulo[31]. Esses conflitos evoluíram favoravelmente ao Brasil,
ao nível diplomático, mas a crise interna, social e política,
reacendeu-se nos sertões da Bahia, onde, à margem do rio Vaza-Barrís,
cujas águas só na estação das chuvas existiam, Antônio
Conselheiro fundara, em 1893, o arraial de Monte Belo, celebrizado
como Canudos, em que agremiava não apenas baianos, senão caboclos
oriundos de todos os Estados limítrofes, desde o tabaréu crendeiro
ao cangaceiro remido do crime pela religião de acordo com princípios
igualitários muito próximos do comunismo dos primitivos cristãos.
Os que para lá afluíam passavam a viver como na primeira
comunidade cristã de Jerusalém, descrita nos Atos dos Apóstolos:
“Entre
eles nenhum necessitado havia, pois todos os que possuíam terrenos
ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no ao
pé do Apóstolo. E a cada um era distribuído conforme a sua
necessidade"[32].
Muito
diferente a sociedade em Canudos não se afigurava, pois, como
Euclides da Cunha também descrevera,
“...
a propriedade tornou-se-lhe uma forma exagerada de coletivismo
tribal dos beduínos: a apropriação pessoal apenas dos objetos móveis
e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos
rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam
exígua quota parte, revertendo o resto para a companhia. Os recém-chegados
entregavam ao Conselheiro noventa e nove por cento do que traziam,
incluindo os santos destinados ao santuário comum. Reputavam-se
felizes com a migalha restante.” [33]
Mesmo
Mario Vargas Llosa, em seu romance La Guerra del Fin del Mundo,
historicamente incorreto, literariamente ruim e que, ao contrário
de Os Sertões de Euclides da Cunha, obra patética, é uma
patetice, cujos personagens, a cercarem Antônio Conselheiro, são
criaturas abjectas, aberrações humanas, físicas ou morais,
ressaltou que
“La
diversidad humana coexistía en Canudos sin violencia, en medio de
una solidaridad fraterna y un clima de exaltación que los elegidos
no habían conocido. Se sentían verdaderamente ricos de ser pobres,
hijos de Dios, privilegiados, como se los decía cada tarde el
hombre del manto lleno de agujeros. (...) Cuando se trataba del
Consejero esas mujeres y hombres que habían sido cientos y
comenzaban a ser miles se volvían un solo ser sumiso e reverente
(..). Pese a la multiplicación de habitantes, la vida no era caótica.
Los emisarios y romeros traían ganados e provisiones, los corrales
estaban repletos igual que los depósitos y el Vaza Barris
afortunadamente tenía agua para las chacras"[34]
Euclides
da Cunha caracterizou aquela sociedade como o “falanstério de Antônio
Conselheiro”[35], aludindo ao tipo de associação socialista
imaginado por Charles Fourier[36]. Edmundo Moniz, em seu importante estudo A
Guerra Social de Canudos, reconheceu, por sua vez, que a
sociedade comunitária de Antônio Conselheiro lembrava as doutrinas
e as tentativas de Fourier e Robert Owen, em que à agricultura e ao
pastoreio, organizados em forma comunal, ajustava-se, através da
exportação de couro, a participação no mercado mundial[37]. Embora acentuasse que, no “sertão semi-feudal
surgia uma nova experiência social, semelhante à de Fourier e Owen”[38],
ele sustentou ainda a tese de que Antônio Conselheiro, por citar
nas Prédicas o exemplo de Thomas More, o Chanceler de Henry
VIII, da Inglaterra, que preferira morrer decapitado a abjurar o
catolicismo, lera sua famosa obra, a Utopia, inspirada na
narrativa das comunidades indígenas do Brasil, de Américo Vespucci,
em Mundus Nouus, e nela “estava a origem histórica e ideológica
de Canudos[39].
"A utopia, ao voltar à América, não encontrou mais a
comunidade destes indígenas, mas a de descendentes destes indígenas,
esmagados e vencidos pelo feudalismo em decadência e a burguesia em
ascensão" – Edmundo Moniz arrematou[40].
De
fato, conforme Euclides da Cunha observou, aqueles povoados
sertanejos, no centro dos quais Canudos floresceu, formaram-se de
velhas aldeias de índios, espalhadas por uma vasta superfície de
terras, que "abusivas concessões de sesmarias subordinaram à
posse de uma só família, a de Garcia d'Ávila (Casa de Torre)” [41], e por onde os padres da Companhia de Jesus,
logo no século XVII, avançaram as suas Missões, tal como o
fizeram na região da Bacia do Prata. Os jesuítas, naquela época,
compreenderam que, para levar a Igreja aos índios, mais fácil
seria através do comunismo dos primitivos cristãos, que à sua
organização social e aos seus costumes se ajustava,
respeitando-os, e as Reduções, assim, não foram senão o
desenvolvimento de formas sociais preexistentes, nas quais o direito
de propriedade sobre a terra não existia. Nas Missões da Bacia do
Prata, as que mais progrediram e chamadas foram de república
Guarani, eles admitiram, inicialmente, a existência de terras
comuns a todos (tabambaé) e da área considerada como
propriedade de Deus (Tupambaé), sendo a produção
recolhida aos armazéns da comunidade, administrados pelos padres da
Companhia de Jesus, que a repartiam segundo a necessidade de cada
família. Mas o Rei de Espanha, sob a pressão dos colonizadores
assustados com aquela organização social, compeliu os jesuítas a
instituírem outro tipo de propriedade (abambaé),
estabelecendo uma gleba de terra junto a cada palhoça, na qual o
chefe de família, a possuí-la individualmente, trabalhava um ou
dois dias na semana, para entregar a colheita aos armazéns da
coletividade, em troca de víveres, sementes, roupas ou qualquer
outra coisa de que necessitasse[42].
Depois da celebração do Tratado de Madrid (1750), mediante o qual
Portugal e Espanha demarcaram os limites de suas possessões na América
do Sul, as tropas conjuntas dos dois países, a pretexto do
cumprimento, acometeram, no Alto Uruguai, os Sete Povos das Missões,
onde se defrontaram com rigorosa resistência dos indígenas,
chefiados pelos padres da Companhia de Jesus. Os jesuítas, em 1758,
tiveram de abandonar igualmente as Reduções ao longo do rio São
Francisco, no nordeste, expulsos do Brasil pelo Marquês de Pombal,
Sebastião José de Carvalho e Melo, encarregado da governação de
Portugal (1750-1777), durante o reinado de D. José I. Os habitantes
dos sertões da Bahia, descendentes dos indígenas aldeados pelos
padres da Companhia de Jesus, não tinham portanto forte tradição
de propriedade privada da terra, inclusive porque quase toda aquela
região ao longo do rio São Francisco, integrara até o século XIX
o morgado da Casa da Torre, e puderam adaptar-se plenamente ao
igualitarismo existente em Canudos a que se assentava não na
coletivização dos meios de produção e sim dos bens de consumo,
conforme o modelo comunista dos primitivos cristãos.
O
sentido político de Canudos
A
pregação de Antônio Conselheiro, cujo início datava dos anos 70,
não visava a impor uma reforma agrária nem encapava intuito político,
apesar de que ele confessadamente monarquista fosse. Euclides da
Cunha salientou, porém, que Antônio Conselheiro “viu a república
com maus olhos e pregou, coerente, a rebeldia contra as novas
leis”[43]. Certa vez, na cidade de Bom Conselho, reuniu o
povo, induzindo-o a acender uma fogueira e queimar, em meio de
gritos e estrepitar de foguetes, as tábuas onde o Prefeito,
decretada a autonomia do município, afixara os editais para a
cobrança de impostos[44].
Os trinta soldados da força de polícia, despachada para o prender,
atacaram-no em Masseté, localidade erma nas cercanias das serras do
Ovó, mas se depararam com a resistência dos seus seguidores e
desbaratadas foram, “precipitando-se na fuga, de que fora o
primeiro a dar o exemplo o próprio comandante”[45].
Mais tarde, ao frei João Evangelista, que o Arcebispado da Bahia
enviara com a missão de o fazer retornar com sua gente ao seio da
Igreja e obedecer às leis e às autoridades do país, Antônio
Conselheiro explicou que, no tempo da monarquia se deixara prender
porque reconhecia o governo. E acrescentou: “Hoje não, porque não
reconheço a república”[46].
Pouco antes do início da guerra, ao aumentar a pressão para que
ele desarmasse e dispersasse sua gente, assentada pacificamente em
Canudos, Antônio Conselheiro então se recusou a fazê-lo, uma vez
mais, e não só se manifestou contra a legitimidade da república
como defendeu a sucessão monárquica, declarando:
“É
evidente que a república permanece sobre um princípio falso e dele
não se pode tirar conseqüência legítima; sustentar o contrário
seria absurdo, espantoso e singularíssimo, porque ainda que ela
trouxesse o bem para o país, por si só é má porque vai de
encontro à vontade divina... Quem não sabe que o digno Príncipe,
D. Pedro III, tem o poder legitimamente constituído por Deus para
governar o Brasil? Quem não sabe que o seu digno avô, o senhor D.
Pedro II, de saudosa memória, não obstante ser vítima de uma traição
a ponto de ser lançado fora do seu governo, recebendo tão pesado
golpe, que prevalece seu direito e, conseqüentemente, só sua real
família tem poder para governar o Brasil? Negar estas verdades
seria o mesmo que dizer que a aurora não veio descobrir um novo
dia”[47].
Seu
pensamento, bastante simplório, pautava-se pela doutrina
legitimista do direito divino dos soberanos, com o que divergia do
próprio princípio da Constituição de 1824, que investira D.
Pedro I na condição de Imperador “por unânime aclamação da Nação”
(Art. 153) e sobre o qual a monarquia brasileira se consolidara.
Era, entretanto, coerente com a religiosidade do movimento por ele
liderado. De qualquer forma, conquanto pregasse contra a república,
na qual não reconhecia legitimidade, e assumisse, desde 1893, uma
“feição combatente inteiramente nova”, segundo a expressão de
Euclides da Cunha[48],
Antônio Conselheiro jamais pretendera promover uma rebelião
camponesa para a derrubar. Seu inconformismo configurou-se,
sobretudo, com a decisão de fundar, naquele ano, Monte Belo, em
Canudos, e lá organizar uma sociedade igualitária, de acordo com
os padrões do comunismo de consumo, adotados no cristianismo
original, apartando-se da heresia, como a república anti-cristã se
lhe afigurava. Antônio Conselheiro já fundara outro arraial, o de
Bom Jesus, mas o de Monte Belo assustou as classes dominantes na
região, ao avultar-se, com a sua insólita organização social,
atraindo milhares de camponeses do nordeste. Conforme o Barão de
Jeremoabo observou, alguns lugares daquela comarca e de outras
circunvizinhanças, e até do Estado de Sergipe, ficaram
desabitados, tal o aluvião de famílias, a subir para o Canudos, após
colocar à venda nas feiras extraordinária quantidade de gado
cavalar, vacum, caprino etc., além de outros objetos, “por preço
de nonada, como terrenos, casas etc., a fim de apurar algum dinheiro
e ir reparti-lo com o Conselheiro”[49]. A dimensão, que a cada dia o seu movimento
alcançava, tornou-se, durante a legislatura de 1894, objeto de
debate no Congresso Estadual da Bahia, onde um deputado chamou a
atenção dos poderes públicos para aquela “parte dos sertões
perturbada pelo indivíduo Antônio Conselheiro”[50].
E um simples mal-entendido ou, o que mais provável foi, uma
intencional deturpação do seu propósito, serviu como pretexto
para que sobre ele e o povoado de Monte Belo a repressão se
desencadeasse, a crise política da república, no desvão da qual a
facção mais retrógrada e reacionária do Exército, não
conformada com um “casaca” na Presidência, conspirava ainda
para instituir a ditadura militar.
As
guerrilhas sertanejas
Como
Antônio Conselheiro dispusera-se a buscar em Juazeiro, com a ajuda
de seus adeptos, o material de construção, comprado, pago mas não
entregue por falta de transporte, para terminar a igreja de Monte
Belo, o juiz de Direito, Arlindo Leone, que exercera a mesma função
em Bom Conselho, quando a queima dos editais do imposto ocorrera, e
não perdoara a sua atitude, telegrafou ao governador da Bahia, Luiz
Viana, pedindo providências no sentido de defender a cidade, ameaçada
de invasão pelos jagunços, segundo alegou. Dado que conflitos em
Lençóis e Lavras Diamantinas exigiam a presença de quase toda a
força policial do Estado e nenhum contingente disponível naquele
momento havia, Luiz Viana solicitou ao general Frederico Solón, então
no comando do Distrito Militar, o fornecimento de cem praças, que
seguiriam para Juazeiro, se necessário fosse. Entretanto, o general
Solón adiantou-se, ante nova mensagem a informar que “os sequazes
de Antônio Conselheiro” estavam distantes de Juazeiro pouco mais
ou menos dois dias de viagem, e despachou em trem expresso o
contingente, sob o comando do tenente Manuel da Silva Pires
Ferreira. Este não se conformou apenas em garantir a segurança
daquela cidade, aonde chegara em 7 de novembro de 1896. Uma vez que
Antônio Conselheiro e seus adeptos não apareceram, ele, apoiado
pelo juiz de Direito e de acordo com o general Solón, resolveu
enfrentá-los no seu reduto e investiu contra eles no povoado de Uauá.
Os sertanejos, a carregarem em procissão uma grande cruz de
madeira, bem como santos e outros símbolos religiosos, correram então
aos clavinotes, facões de folha-larga, foices, chuchos de vaqueiro
e outros rudes instrumentos de trabalho, que portavam, e os cem
soldados, em cruento combate, derrotados foram e em pânico
debandaram, saqueando e fazendo o arraial arder. A guerra contra
Canudos deflagrada estava. O general Frederico Solón percebeu a
derrota como uma afronta ao Exército, à sua autoridade e,
irritado, decidiu, contra a opinião do governador Luiz Viana,
enviar uma segunda expedição, composta de 543 soldados, 14
oficiais e armada com duas metralhadoras Nordenfeldt e dois canhões
Krupp 7,5, sob o comando do major Febrônio de Brito[51]. Ela também alcançar o objetivo não logrou.
Malogrou. Desbaratada foi na serra do Cambaio pelos seguidores de
Antônio Conselheiro, que se transformaram, nas palavras de Euclides
da Cunha, em “guerrilheiro-tugue, intangível”, não apenas
escondido, senão amparado pelas caatingas, “aliado incorruptível
do sertanejo em revolta”[52].
A
notícia alarmou os círculos políticos e militares do Rio de
Janeiro e alhures, traumatizados ainda pela revolta da Armada, a
guerra civil nos Estados do Sul e os graves litígios com a Grã-Bretanha
e a França, e os ânimos dos que almejavam uma ditadura militar
exacerbaram-se, ao antojar-se-lhes no movimento de Antônio
Conselheiro, que não se dobrava ante a autoridade policial nem se
rendia ao poder militar, porque não reconhecia a legitimidade da
república, o espectro da restauração da monarquia. O
vice-presidente Manuel Vitorino Pereira, assumindo interinamente o
governo da república em face da enfermidade de Prudente de Moraes,
concordou em mandar contra Canudos uma terceira expedição,
integrada por cerca de 1.281 soldados do Exército, sob o comando do
coronel Antônio Moreira César, que fora governador militar de
Santa Catarina e responsável pelo fuzilamento e degola dos
prisioneiros durante a guerra civil no Sul do país (1893-1895)[53].
Neste oficial brilhante e competente nos momentos de lucidez, mas,
segundo Euclides da Cunha, “epiléptico provado, encobrindo a
instabilidade nervosa do doente grave em placidez enganadora”[54], os militaristas, partidários radicais do
marechal Floriano Peixoto, cujo falecimento em 29 de junho de 1895
privara-os de um líder, depositavam suas esperanças e esperavam,
provavelmente, que ele, ao regressar vitorioso de Canudos, aceitasse
liderar um golpe de Estado contra o governo dos “casacas”, o
poder civil, considerado débil na defesa da república. Nem os
1.281 soldados, comandados pelo coronel Moreira César, a quem os
sertanejos deram o apelido de “corta-cabeças”, com quinze milhões
de cartuchos e setenta e três tiros de artilharia, conseguiram,
contudo, esmagar o movimento de Antônio Conselheiro. Completamente
desbaratada, em 3 de março de 1897, a terceira expedição também
foi, com o seu comandante, coronel Moreira César, morto por duas
balas, e a notícia desencadeou no Rio de Janeiro e em São Paulo
violenta agitação em que os radicais da república, os
florianistas, não só invadiram e depredaram os jornais
monarquistas como assassinaram um dos seus diretores, o coronel
Gentil de Castro e procuraram para matar até mesmo os liberais do
regime, como Rui Barbosa e Arthur Rios, contrários à ditadura
militar.
A
ameaça militarista
Prudente
de Moraes, que no dia 4 de março reassumira a Presidência,
arrostou uma "crise profundamente política", ao ver de
Rui Barbosa, "a mais grave em que já se encontrou o regime
republicano"[55].
Como José Maria Belo salientou, ele não tinha certeza sequer de
sua segurança pessoal e “seria sempre possível à audácia
crescente dos jacobinos um golpe de mão para depô-lo”,[56]
pois o que ameaçava a república, naquele momento, não era a
restauração da monarquia, mas a instauração da ditadura militar,
para a qual o movimento de Canudos servia como pretexto. Tanto esta
perspectiva se delineava que, no dia 26 de maio de 1897, a Escola
Militar do Rio de Janeiro amotinou-se, certos os cadetes de que com
o respaldo de outras forças políticas e militares contariam. O
levante abortou. Mas, mesmo sob a presidência de Prudente de
Moraes, a república, a diferenciar-se da monarquia que sempre se
mantivera essencialmente civil, militarizava-se. O número de
efetivos do Exército, da ordem de 14 109, em 1889, quando a república
se instalara, subira para 24.877, em 1891, e recrescera, em 1896,
para 28.160[57].
Destes, entre 6.000 e 10.000 soldados, cerca de 30 oficiais,
formando 30 batalhões do Exército, excluídos os corpos de outras
armas[58], contra Canudos mobilizados então foram, sob o
comando do general Artur Oscar de Andrade Guimarães, conhecido como
“florianista vermelho”[59], que se distinguira na campanha contra os
federalistas do Rio Grande do Sul e deixara “a degola campear à
vontade”, nem os feridos respeitando[60]. Como se estivessem em uma cruzada para defender
a república, contra suposta ameaça de restauração da monarquia,
eles, na maioria oriundos do Sul do país, porque os nordestinos
freqüentemente desertavam, acamparam no alto da Favela, morro
situado em frente de Canudos, cujas vivendas mal construídas, a
somarem mais de 5.200, compunham ruas tortuosas e formavam
verdadeiro labirinto. Àquela época, o movimento de Antônio
Conselheiro arrebatava o nordeste, onde outra figura messiânica, o
Padre Cícero, já incendeia, outrossim, a religiosidade popular,
tomava proporções de vasto levantamento camponês. Centenas de
sertanejos ainda continuavam a chegar a Canudos, ao tempo em que a
quarta expedição iniciava suas operações, sob incessante ataque
de guerrilhas. Os combatentes de Antônio Conselheiro, abastecidos
com armas e munições que apreenderam ou as expedições anteriores
abandonaram, ofereceram intrépida resistência. Sua tática se
caracterizava pela mobilidade, velocidade, surpresa e segurança com
que se emboscavam e acometiam as tropas do Exército. Se objetivo
revolucionário tivessem, orientado por uma doutrina política,
poderiam refluir para as caatingas, dispersando ou concentrando forças
segundo as conveniências táticas, e manter indefinidamente a luta,
sob a forma de guerrilhas, sem que tropas do exército, sob contínuo
desgaste, conseguissem-nas exterminar, dado que elas tinham profundo
esteio na população, da qual emanavam. O propósito de Antônio
Conselheiro e seus adeptos, no entanto, consistia pura e
simplesmente na defesa da sociedade por eles em Canudos constituída
e apenas com esta perspectiva, outra não se lhes configurava,
combateram até morrer, imolados, como o Cristo que os inspirava. A
derrota era, portanto, inevitável, diante daquela força, em torno
de 1/3 do Exército brasileiro, apetrechada com 18 canhões, que
submeteram a constante bombardeio o povoado de Canudos, com seus
20.000 a 30.000 habitantes, entre quais milhares de velhos, mulheres
e crianças. Antônio Conselheiro, enfermo, faleceu no dia 22 de
setembro, vendo sua obra - casas, santuários, a igreja - em
escombros. E a campanha da quarta expedição, que durava já três
meses, terminou quinze dias depois, quando três homens, um dos
quais velho, e uma criança mortos tombaram. Como Euclides da Cunha
ressaltou, “Canudos não se rendeu”[61].
E render-se não lhe adiantaria. As tropas do governo, que de acordo
com os cálculos, tiveram aproximadamente 5000 baixas, metade
pertencente à classe média[62],
não faziam prisioneiros. A todos degolavam. "Aquilo não era
uma campanha, era uma charqueada" - Euclides da Cunha verberou
e, a ressaltar que “não era a ação severa das leis, era a
vingança”, concluiu, indignado, que “a repressão tinha dois pólos
- o incêndio e a faca”[63].
Muitos
soldados, quando voltaram ao Rio de Janeiro, foram desmobilizados,
mas não tinham para onde ir nem onde morar com suas famílias.
Ergueram barracões, em um morro situado atrás do Ministério da
Guerra, no Campo de Santana, e o passaram a chamar de favela, como
lembrança do local onde instalaram a base das operações contra
Canudos. Depois, outros aglomerados de habitações pobres,
irregulares e sem condições higiênicas apareceram e espalharam-se
pelos morros do Rio de Janeiro, formados em grande parte por
sertanejos e ex-escravos, oriundos na maioria do nordeste, sem
emprego e sem terra, e o nome de favela generalizou-se, a simbolizar
a miséria extrema, a exclusão social, que o movimento de Antônio
Conselheiro expressara, ao empreender em Canudos a formação de uma
sociedade, orientada pelo comunismo de consumo, como a dos primeiros
cristãos, e segregada da república.
Arquivos
usados e suas abreviaturas
AA
- Arquivo do Autor
AGN-U
- Archivo General de la Nación - Uruguai
AMAE-F
- Archive du Ministère des Affaires Étrangères de France
PRO-FO
- Public Record Office - Foreign Office
|
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|
[1]
Marx, Karl - "Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie",
in: Marx, Karl - Engels, Friedrich - Werke, Band 1.
Berlin: Dietz Verlag1981, p. 378.
[3]
Cunha, Euclides - Os Sertões. São Paulo: Abril
Cultural, 1982, pp. 126 e 127.
[4]
Id., ibid.,., p. 126.
[5]
Carta de Francisca de Assís de Vianna Moniz Bandeira,
baronesa de Alenquer, ao seu filho Manuel Ignácio, Subaé,
02.05.1889. AA.
[7]
Calmon, Pedro - História do Brasil (século XIX),
vol. 5. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1961, p.
1816.
[8]
Carta de Francisca de Assís de Vianna Moniz Bandeira,
baronesa de Alenquer, ao seu filho Manuel Ignácio, Subaé,
14.08.1889. AA.
[9]
Apud Santos, José Maria dos - A Política Geral do
Brasil. S.
Paulo: J. Magalhães, 1930,
p. 204.
[10]
Despatch. n. 179, British Legation to Earl Granville, Montevideo,
10.08.1880. PRO-FO 505, Uruguai, 1880.
[11]
Despatch n. 138, George Hugh Wyndham to Marquis of Salisbury,
Rio de Janeiro, 18.11.1889. Despatch n. 149, Wyndham to
Salisbury, Rio de Janeiro, 23.11.1889. Private letter, Wyndham
to Sanderson, Rio de Janeiro, 17.12.1889. Despatch n. 201,
Wyndham to Salisbury, Rio de Janeiro, 30.12.1889. PRO-FO-13-658.
Manchester, Alan K. - Preeminência Inglesa no Brasil,
Brasiliense, São Paulo, 1973, p. 277.
[12]
Letter,
Rothschild to Minister of Finance, London, 4.12.1889 (copy). RAL
- XI/142/5. Despatch n. 149, Wyndham to Salisbury, Rio de
Janeiro, 23.11.1889. PRO-FO 13-658.
[13]
Letter,
Rothschild to Minister of Finance, London, 4.12.1889 (copy). RAL
- XI/142/5.
[15]
Moltmann, Bernhard - Militär zwischen Politik und Profession
(Die Brasilianischen Streitkräfte 1880-1910). Mettingen:
BrasilienkundeVerlag, 1981, p. 218.
[16]
Dourado, Ângelo - Voluntários do Martírio -
Narrativa da Revolução de 1893 (Reprodução fac-similar da
edição de 1896), 3a edição. Porto
Alegre: Martins Livreiro-Editor, 1979, p. 6.
[17]
Instrucciones para el Dr. José Vázquez Sagastume, E.E. y
Ministro Plenipotenciario en el Brasil, Montevideo, 19.5.1893,
a) Herrera y Obes/Manuel Herrero y Espinosa, in Instrucciones a
Enviados de la Rep´blica (1872-1906), Sección Archivo
Histórico - Diplomático - Memorandum
No. 3, Ministro Interino D. Alfredo Dupetti Ibarra - Ministerio
de Relaciones Exteriores del Uruguai - Biblioteca. Nota No. 9,
Jayme Estrágulas a Carlos de Castro, Montevideo, 13.3.1895;
Nota No. 61, Estrágulas a Carlos de Castro, Montevideo,
20.6.1985 - Notas y Telegramas del Ministerio de Relaciones
Exteriores del Uruguai a la Legación en Rio de Janeiro - Sección
Libros y Manuscriptos No. 134, Libro NO. 2, Año 1895-1896. AGN-U.
[18]
Letter, N. Rothschild to Minister of Finance of Brazil, London,
27.7.1984. RAL - XI/142/5.
[21]
Graham,
Richard - Britain & the Onset of Modernization in Brazil
1850-1914. Cambridge: Cambridge University Press, 1968, p.
308.
[22]
Id., ibid., p. 310. Sobre
a posição da Alemanha vide Brunn, Gerhard - Deutschland und
Brasilien 1889-1914. Köln-Wien: Böhlau Verlag,, 1971, pp.
22 a 52.
[23]
Graham, R., op. cit., pp. 309 e 310.
[24]
Sobre o tema vide Moniz Bandeira, L. A. - Presença dos
Estados Unidos no Brasil (Dois Séculos de História). Rio
de Janeiro: Civilização Brasileira, 1973, pp. 140 a 145.
Nabuco, Joaquim - A Intervenção Estrangeira durante a Revolta.
Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1896, pp. 41, 52, 57, 84 a 86,
91, 92 e 114.
[26]
Letter, August Belmont to N.
M. Rothschild, New York, 17.11.1893. RAL-II/SS/SA: 18931117.
letter, Belmont to Lord Rothschild, New York, 22.11.1893. RAL-II
SS/SA: 18931122. Sobre o tema vide também Bueno, Clodolado –
“A Diplomacia da Consolidação: A Intervenção Estrangeira
na Revolta da Armada - 1893-1894” in História, São
Paulo, 3:33-52, 1984, pp. 33 a 52.
[27]
Letter, August Belmont to Lord Rothschild, New York, 1.11.1893,
RAL - II/SS/SA: 18931101.
[28]
Vernalha, Milton Miró - Maragatos e Pica-Paus. Curitiba:
Editora Lítero-Técnica,1984, p. 355.
[29]
Belo, José Maria - A História da República - 1889 – 1945. São
Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956, pp. 175 a 176.
[30]
Thompson, Almirante Arthur - Guerra Civil no Brasil -
1893-1895 - Vida e Morte do Almirante Saldanha da Gama. Rio de
Janeiro; Editora Navarro, 1934, pp. 343 a 349.
[31]
Despacho, Consulat de France au Ministre des Affaires Etrangères, São
Paulo, 30.7.1895. Extrait d'une lettre du Consul de France a São
Paulo au Chargé d'Affairs de la Republique a Rio de Janeiro,
anexo ao Informe no 7, 10.12.1895. Despacho no 5,
Consulat de France ou Pará, Pará, 13.9.1895. Brésil -
Nouvelle Serie - Correspondence Politique des Consul, 1866-1895,
vol. 1. AMAE-F. Sobre o tema vide Carvalho; Delgado - História
Diplomática do Brasil. São Paulo Companhia: Editora Nacional,
1959, pp. 183 a 188 e 203 a 204.
[32]
"Denn kein Notleidender war unter ihnen. Alle nämlich, die
Grundstücke oder Häuser besaßen, verkauften sie und den Erlös
zum Verkauften und legten ihn zu den Füßen der Apostel, und es
wurde einem jedem zugeteilt, je nachdem einer bedürftig war".
"Apostelgeschichte", 4. Kapitel, 34, 35 - Das Neue
Testament, p. 159 in Die Heilige Schrift des Alten und Neuen
Testamentes, Aschaffenburg: Paul Pattloch Verlag, 1965.
[33]
Cunha, E. op. cit., p. 143.
[34]
Vargas
Llosa, Mario - La Guerra del Fin del Mundo. Barcelona:,
Editorial Seix Barral, Biblioteca de Bolsillo, 1993, p. 99.
[35]
Cunha, E., op. cit., p. 220.
[36]
Sobre o tema vide Bebel, August - Charles Fourier - Sein
Leben und seine Theorie. Leipzig: Reclam , 1778.
[37]
Moniz, Edmundo - A Guerra Social de Canudos. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. 31 e 73.
[39]
Id., ibid.,., pp. 92, 93, 252 e 253.
[41]
Cunha, E., op. cit., p. 82.
[42]
Garay, Blas - El Comunismo de las Misiones - La Revolución
de la Independencia del Paraguai. Asunción: Instituto
Colorado de Cultura,1975, pp. 47 a 48. Vide também Moniz
Bandeira, L.A. - O Expansionismo Brasileiro e a Formação
dos Estados na Bacia do Prata (Argentina, Uruguai e
Paraguai) - Da Colonização à Guerra da Tríplice Aliança, 2a
edição. São Paulo: Editora Ensaio,1995, p. 29. Lugon,
Clovis - A República Comunista Cristã dos Guaranis - 1610-1763. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968, pp. 90, 153,
167, 172 a 182. Mörner,
Magnus - Actividades Políticas e Económicas de los Jesuitas
en el Rio de la Plata. Buenos Aires: Paidos, 1968,
pp. 95 a 97.
[43]
Cunha, E., op. cit., p. 134.
[44]
Id., ibid.,., pp. 134 e 135.
[45]
Id., ibid.,., p. 135.
[46]
Moniz, E., op. cit., p. 48 e 49.
[47]
Apud Moniz, E., op. cit., p. 256.
[48]
Cunha, E., op. cit., pp. 134 e 152.
[49]
Apud Cunha, E., op. cit., p. 137.
[50]
Id., ibid.,., p. 137.
[51]
Id., ibid.,., p. 188.
[52]
Id., ibid.,., p. 176.
[53]
“Os fuzilamentos (...) alí se fizeram, com triste
aparato de imperdoável maldade (...)”. Cunha, E., op. cit.,
p. 216.
[54]
Id., ibid.,., p. 215.
[55]
Apud Moniz, E., op. cit., p. 154.
[56]
Belo, J. M., op. cit., p. 203.
[57]
Moltmann, B., op. cit., p. 32.
[58]
Moniz, E., op. cit., pp. 157, 214 e 220. Cunha, E., op.
cit., pp. 355, 359 e 363.
[59]
Belo, J.M., op. cit., p. 205.
[60]
Vernalha, M., op. cit., 156.
[61]
Cunha, E., op. cit., p. 433.
[62]
Moniz, E., op. cit., p. 263.
[63]
Cunha, E., op. cit., p. 404.
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