Microcrédito:
na prática, a teoria é outra
-
MICROCRÉDITO
e a tentativa de agenda de desenvolvimento alternativa
Há
indícios de tentativa de rearranjo do discurso do governo federal
a partir da possibilidade real de retomada do crescimento econômico
do país. A tentativa mais nítida até o momento é a de
alinhamento do discurso a partir de uma agenda “positiva”, que
encontros mais técnicos é denominada de
“neodesenvolvimentismo”. Academicamente, este conceito se apóia
em alguns princípios que retomam a agenda keynesiana:
a) Estado capaz de regular a economia;
b) Mercado forte e sistema financeiro funcional;
c)
Crescimento econômico sustentado, com equidade social.
Esta
intenção aparece ainda de maneira pouco acabada e articulada no
interior do governo, indicando lacunas e descompassos
significativos como o que ocorre entre o discurso do Ministro Luiz
Gushiken e o Secretário Nacional de Economia Solidária, Paul
Singer (para citar dois expoentes que esboçam esta perspectiva em
suas elaborações).
Um
dos instrumentos de indução desta perspectiva muito citado na
atual conjuntura é a política de microcrédito. Nesta análise
de conjuntura, pela intenção inovadora aqui apontada, faremos
uma breve análise das ações governamentais em relação ao
tema.
O
microcrédito foi lançado oficialmente em 2003, através de
medida provisória, onde se estabelecia que 2% dos depósitos em
conta corrente dos bancos teriam que ser aplicados em operações
de microcrédito, à taxas de juros não superiores a 2% ao mês.
Em 2005, governo federal anunciou que este seria o “ano do
microcrédito”:
voltado para população de baixa renda e microempresários. No último
ano eram previstos empréstimos nesta modalidade que totalizariam
R$ 1,4 bilhão. Contudo, os empréstimos oferecidos pelos bancos não
ultrapassaram R$ 600 milhões (43% do previsto).
Segundo
Gilson Bencourt, assessor especial desta área no Ministério da
Fazenda, os recursos em sete bancos: Banco do Brasil, Caixa Econômica
Federal, Bradesco, Unibanco, Itaú, ABN e Santander. Os outros
bancos alegam que não possuem estrutura para realizar empréstimos
deste porte.
Mesmo entre os grandes, apenas o Bradesco chegou a emprestar os 2%
dos depósitos à vista. O Banco do Brasil emprestou R$ 385 milhões
e o Banco Popular (em operação desde 2004) emprestou R$ 40 milhões
em microcrédito.
Em
2004, a média de empréstimos foi de R$ 500 milhões (do conjunto
de instituições bancárias), equivalente a 38% do recurso
previsto para o programa. Mesmo os bancos estatais (Banco do
Brasil e CEF) não conseguiram atingir a meta no ano passado.
Há
um início de pressão do mercado para que o teto de 2% de juros
seja liberado em função dos gastos com muitas operações de
valores reduzidos que o programa compreende. Nos primeiros 18
meses de funcionamento de programas foram contabilizadas 800 mil
operações de microcrédito com valor médio de R$ 500.
Uma
segunda crítica refere-se ao sistema de atendimento. O Banco
Popular do Brasil (BPB) instalou 6 mil pontos de atendimento
(denominados de correspondentes) em lojas, mercadinhos, farmácias
e grandes varejistas da periferia de regiões metropolitanas.
Muhammad Yunus, economista fundador do Grameen Bank (a iniciativa
de microcrédito mais famosa do mundo, localizada em Bangladesh,
cujo 90% dos clientes são mulheres de baixa renda residentes em
aldeias, de onde se origina o nome do banco), contesta tal política
de atendimento, sugerindo um foco maior nos pobres. Para tanto,
propõe a superação dos pontos de atendimento por visitas às
residências dos futuros clientes. O Grammen Bank possui 2,4 milhões
de clientes e já disponibilizou crédito para 75% das famílias
pobres de Bangladesh, tendo como taxa de inadimplência índice
inferior a 5%.
Ivan
Guimarães, presidente do BPB,
sugere que o microcrédito deve ser compreendido como expansão do
mercado para as instituições financeiras. Avalia que exista um
segmento não saturado de 15 milhões de pessoas das classes C e D
que nos próximos dez anos poderá estar vinculada aos sistemas de
crédito. A projeção do BPB é que em dois anos o banco atingirá
8,5 milhões de clientes com este perfil.
Há,
ainda, uma terceira polêmica, talvez a mais significativa do
ponto de vista da proposição neodesenvolvimentista, que é o
objetivo do microcrédito, enquanto fomento ao consumo ou fomento
à micro e pequena empresas. A ampliação do mercado bancário,
que sustenta Ivan Guimarães, parece estar focada na primeira
possibilidade. Neste caso, não há necessariamente alteração da
lógica e estrutura de mercados atuais, apenas a expansão do
acesso a bens, através de taxas de juros abaixo das praticadas no
mercado. Nesta modalidade estariam a “conquista” dos
aposentados e pensionistas do INSS. Em meados de março deste ano,
o Unibanco tornou-se a primeira grande instituição bancária
privada a entrar nesta disputa pela oferta do crédito consignado.
Onze bancos atuam nesta modalidade de crédito, tendo na liderança
a CEF (R$ 1,5 bilhão, ou 43% do total ofertado) e BMG (R$ 1,4
bilhão, ou 42% do total). Os outros grandes bancos preferem
estabelecer acordos ou financiar as carteiras dos bancos pequenos,
que fazem o trabalho de contato e atração dos clientes. Estudos
recentes (como o realizado pela consultoria Partner) projetam um
crescimento de 26,7% do crédito pessoal em 2005 por conta do
microcrédito consignado.
Em
fevereiro, a taxa de juros praticada pelo comércio para o
consumidor atingiu 6,1% ao mês e 103% ao ano. Os juros de cartão
de crédito atingiram 10% e o dos cheques especiais 8,1%. Assim, o
microcrédito praticado a juros baixos (o empréstimo consignado
pratica juros de 1,75% a 3,5% ao mês) cria um contrabalanço em
relação às taxas de juros praticadas no comércio. O potencial
do microcrédito é ainda significativo em relação à concentração
do consumo nacional: o Estado de São Paulo é responsável por
32,6% do consumo de despesas básicas e supérfluas (e pagamento
de impostos diretos) do país.
O
fato é que não existe nitidez nos objetivos e foco do microcrédito
até o momento, possivelmente sendo fruto dos embates internos e
ideológicos da composição ministerial do governo Lula.
Com
efeito, o Grameen Bank teve uma origem muito distinta da motivação
que faz emergir a modalidade do microcrédito no Brasil. Yunus
relata que, como professor de economia, ao visitar as residências
de trabalhadores pobres de Bangladesh, na aldeia de Jobra, próxima
do campus onde lecionava, percebeu que muitas famílias contraíam
empréstimos com comerciantes que adiantavam a compra da colheita
vindoura. O credor definia o preço da colheita por uma média
abaixo do valor de mercado, tornando a dívida quase que eterna.
Ao fazer as contas, Yunus percebeu que por 22 cents
uma família poderia se livrar do fardo da dívida que se
realimentava a cada empréstimo com seu credor. Para um grupo todo
que entrevistara nesta aldeia faltavam apenas 27 dólares para se
livrarem da dívida mensal. A pergunta que o economista se faz é
mais que reveladora:
Por
que minha universidade, meu departamento de economia, todos os
departamentos de economia do planeta e os milhares de professores
de economia inteligentes que há no mundo não tinham tentado
compreender essas pessoas e socorrer aqueles que mais precisam de
ajuda?
Paul
Singer em artigo recente
procura destacar o que denomina “programas emancipatórios” do
governo Lula. Além de destacar a reforma agrária, o fomento ao
associativismo e cooperativismo e o Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), como iniciativas
tipicamente emancipatórias, cita o microcrédito e a abertura de
contas bancárias a partir de medida provisória que criou depósitos
simplificados. Indica a abertura de 3,8 milhões de contas
envolvendo cinco bancos federais (CEF, BB, BPB, BNP e Basa). Como
inovação maior, sugere que a política de microcrédito
constituiu uma rede de executores que incorpora organizações não-governamentais,
OSCIPs, Sociedades de Crédito ao Microprodutor e cooperativas de
crédito.
Como
se percebe, há uma forte intenção de parte do governo federal,
em alçar o microcrédito à categoria de instrumento inovador do
fomento ao desenvolvimento sustentável e eqüitativo. Contudo, os
resultados até aqui colhidos não são muito promissores. Uma
possibilidade a ser ainda conferida é a aberta pela MP 226/04,
voltada para geração de renda entre microempreendedores
populares (de pequeno porte, com faturamento bruto menor que R$ 60
mil anuais). A instituição financeira monitorará, durante o período
do contrato, a aplicação dos recursos pelo tomador, além de
orientar o planejamento do negócio. Os recursos serão originários
do FAT e depósitos à vista destinada pelos bancos comerciais e
cooperativas de crédito de pequenos empresários.
-
REFORMA
MINISTERIAL
Praticamente
2/3 do mês de março foi dedicado, pelo governo federal, à
anunciada reforma ministerial. Esta pauta ganhou urgência e projeção
pública a partir da eleição de Severino Cavalcanti como
presidente da Câmara Federal. Ficava claro para o governo Lula
que a simples tentativa de recomposição da base parlamentar a
partir da transferência de deputados federais dos partidos
oposicionistas para os governistas alimentou ainda mais o jogo de
barganha no interior do Congresso Nacional. A situação ficou
ainda mais aguda com as disputas palacianas pela coordenação política
do governo federal. O estilo Lula, de divisão de forças políticas
no interior do governo, inaugurada desde o anúncio de seu
primeiro ministério, também parecia questionada pelos fatos políticos
de fevereiro e início de março.
Até
o dia 20 de março, as negociações promovidas pelo Palácio do
Planalto foram intensas e revelaram o equilíbrio (ou desequilíbrio)
de forças entre ministros e partidos políticos. Os nomes mais
ameaçados na reforma foram o de Olívio Dutra (Cidades) e
Humberto Costa (Saúde), seguido por Aldo Rebelo (Coordenação
Política). Os nomes mais prestigiados como novos ministros foram
o de Ciro Gomes (que seria transferido para o Ministério da Saúde),
Roseana Sarney (indicada como uma espécie de “coringa” da
reforma ministerial) e José Dirceu (que parecia retornar ao
centro do processo de negociação política).
No
dia 22, Lula anuncia publicamente o fim das negociações e o
cancelamento da reforma ministerial. O pretexto teria sido a
afirmação de Severino Cavalcanti que seu partido, o PP, sairia
da base governista (o que de fato ocorreu, no início de abril)
caso não recebesse dois ministérios de peso como contrapartida
do governo Lula. A movimentação nos bastidores da política na
capital federal, contudo, indicaram que as dificuldades de
remontagem do mapa ministerial foram extremamente desgastantes
para Lula.
Os
entraves foram, em especial, três:
a)
a própria pressão interna do PT, que saiu em defesa de Olívio
Dutra e José Dirceu (provocando uma reação, neste último caso,
do PC do B, que vazou para toda imprensa nacional);
b)
o embate interno do PMDB e, deste, com o PP;
c)
a indicação de Roseana Sarney. Neste último caso, houve
especulação em Brasília sobre confidências de Lula a respeito
da pressão pela nomeação de Roseana, imposta pela pauta da
grande imprensa. Em outras palavras, Roseana não ampliaria a base
parlamentar do governo federal, mas a sua não nomeação poderia
fragilizar a relação amistosa com José Sarney. Parte da grande
imprensa chegou a questionar a real força política da família
Sarney neste momento da vida política nacional.
Ao
final, foram nomeados apenas dois novos ministros: Paulo Bernardo,
para o Ministério do Planejamento (vaga ocupada interinamente por
Nelson Machado) e Romero Jucá (assumindo a vaga ocupada pelo também
peemedebista, Amir Lando). Jucá sofreria, logo após sua nomeação,
fortes acusações pela grande imprensa.
Os
desencontros e condução errática da reforma ministerial por
Lula revelaram dificuldades crescentes no campo político e
sugerem esta dimensão como a mais importante na atual conjuntura,
superando os desafios ou impasses econômicos. Com efeito, o
ministro Palocci foi o que saiu mais prestigiado nesse processo,
principalmente pela manutenção de Aldo Rebelo na coordenação
política (enfraquecendo se contraponto no ministério, o ministro
José Dirceu) e projetando a pauta das reformas microeconômicas,
além de retomada do crescimento econômico como eixos do discurso
governamental. A negociação da MP 232 (que corrigia a tabela de
imposto de renda de pessoa física em 10% mas, por imposição da
área econômica do governo, exigia como contrapartida maior taxação
sobre a agricultura e prestadoras de serviços) e reforma tributária
2 desqualificou as promessas de Severino Cavalcanti junto aos
prefeitos. Lula passou a definir, a partir do encerramento das
negociações sobre a reforma ministerial, sua agenda: melhoria da
gestão da Previdência, transposição das águas do São
Francisco, conclusão da Ferrovia Transnordestina, Projeto
Biodiesel, reforma tributária 2 e criação do FUNDEB (ampliação
do Fundef, incorporando a educação infantil e ensino médio).
Este último item recebeu fortes críticas do ministro Palocci,
informando a restrição orçamentária após o anúncio da não
renovação do acordo com o FMI. Enfim, a força política de
Palocci após a frustrada tentativa de reforma ministerial se
consolidou.
-
OPOSIÇÃO
E PRESIDENCIÁVEIS
Março
consolidou a disputa eleitoral entre as principais forças e
personalidades políticas que deverão monopolizar as atenções
no próximo ano. PT e PSDB continuam a presidir os principais
embates públicos, tendo PFL, PP e PMDB como fiéis da balança
política.
Há,
ainda, correntes políticas de menor expressão que iniciam, também,
articulações preparatórias para as eleições de 2006. Este é
o caso do PSTU e P-SOL, que se movimentam para o lançamento de
candidaturas do que denominam “bloco de esquerda”,
objetivando, nas palavras da senadora Heloísa Helena, marcar posição
no cenário nacional e definir uma alternativa para o eleitorado.
Os
personagens centrais, no momento, além do presidente Lula são:
a)
Fernando Henrique Cardoso. Paulatinamente, o ex-presidente
vai tomando as páginas de jornais, figura em inúmeros encontros
com formadores de opinião e escreve análises sobre tendências
políticas e teóricas em periódicos especializados. É cada vez
mais freqüente a opinião pública que emite sobre ações do
governo federal, procurando se posicionar como um árbitro geral.
Em alguns momentos chega a defender iniciativas do governo federal
(como na compra da nova aeronave presidencial) ou fazer reparos ao
que considera exageros ou deslizes governamentais. Mesmo
declarando-se fora do jogo eleitoral, é evidente que constrói
seu nome como “reserva moral” do sistema partidário;
b)
José Serra e Geraldo Alckmin. A vitória eleitoral de 2004
destacou as duas lideranças tucanas. Contudo, o governo federal
iniciou uma reação que vem demonstrando eficiência. José
Dirceu, um possível candidato petista ao governo estadual, vem
articulando nos bastidores várias reações que procuram criar
obstáculos aos governantes de São Paulo. As eleições das mesas
diretoras da Câmara Municipal e Assembléia Legislativa de São
Paulo, além do corte de energia de órgãos públicos pela
Eletropaulo (que deveria favores políticos ao BNDES), foram os
lances mais significativos até o momento. Pesquisa do DATAFOLHA
divulgada em 10 de abril revelava as dificuldades crescentes do
prefeito José Serra. Após três meses de governo, a gestão
Serra é a pior avaliada no mesmo período, desde 1986: 70% dos
pesquisados afirmaram que o que o prefeito fez pela cidade é
muito menos do que esperavam (Marta Suplicy, no mesmo período, não
ultrapassou 49% de expectativa frustrada dos eleitores). Serra, em
três meses, aumentou a tarifa de ônibus, enfrentou greve de
perueiros e coordenou uma desgastante renegociação de dívidas
com fornecedores da prefeitura paulistana;
c) No campo petista, Lula procura fortalecer e ampliar a base
política que poderá levá-lo à reeleição, mas suas
dificuldades são crescentes com vários partidos aliados. Perdeu
o apoio do PPS e foi ameaçado a perder o apoio do PP em sua última
reunião da cúpula partidária. PMDB e até mesmo o PC do B
revelam desconforto com as incertezas do governo federal em
garantir ou ampliar espaços no ministério para esses dois
partidos. Um exemplo concreto é a disputa peemedebista pela direção
da Eletronorte, Banco do Nordeste e Fundação dos Correios,
Infraero de Brasília. Com a indicação de um irmão para a
presidência da Eletronorte, senadores peemedebistas declararam
rejeição a qualquer projeto enviado pela ministra Dilma Roussef.
Mesmo internamente, muitas lideranças petistas engalfinham-se
desde o início do ano. A disputa do governo paulista envolve vários
pesos pesados da corrente majoritária petista (Marta Suplicy, Aloísio
Mercadante, João Paulo e José Dirceu) acelera articulações e
acusações que freqüentemente vazam para a grande imprensa. Por
seu turno, a corrente majoritária petista realizou encontro no
dia 9 de abril para referendar os termos da Carta ao Povo
Brasileiro, divulgada pela então candidatura Lula em junho de
2002, tendo à frente a articulação e pressão do ministro
Palocci. A reação da esquerda petista e do ministro José Dirceu
acabou por amenizar a declaração final, que poderia alterar
profundamente o ideário do PT. O documento final é um nítido
arremedo que abre espaço, contudo, para a defesa do ajuste fiscal
e a estabilidade monetária. O documento final deste encontro,
intitulado “Bases para um Projeto para o Brasil”, altera
pontos significativos do programa partidário, como é o caso da
definição de 2001 que indicava uma “ruptura necessária com o
modelo econômico”. Os atenuantes ao ideário palocciano ficaram
por conta dos juros básicos da economia, que o documento do campo
majoritário sugere que seja declinante;
d) A pauta do Congresso. Surpreendentemente, a pauta do
Congresso definida pelo governo federal vem se revelando um
componente importante na disputa eleitoral de 2006. No mês de março,
as negociações da MP 232 (sobre correção da tabela de imposto
de renda que, segundo o Ministério da Fazenda, podem gerar um
rombo orçamentário da ordem de R$ 2,4 bilhões)
e a retomada da reforma tributária transformaram-se em combustível
para a disputa entre caciques e futuros candidatos. As votações
envolvem prefeitos e governadores, o que articula todo o campo político
nacional e fazem desta pauta uma imensa arena de negociações,
capitulações, artimanhas e chantagens. Os elementos centrais
desta grande negociação envolvem o aumento do repasse do Fundo
de Participação de Municípios (de 22,5% para 23,5%), a unificação
das cotas de ICMS e aumento do volume de recursos destinados ao
Fundo de Desenvolvimento Regional, além da retirada do
enquadramento da cesta básica, remédios e insumos na alíquota mínima
(de 7%);
e) Banco Central. As denúncias contra o presidente do Banco
Central (que sugerem sonegação de impostos) e as posições públicas
do diretor Afonso Beviláqua, sustentando maior aperto fiscal em
virtude do impacto inflacionário dos novos investimentos em
infraestrutura (Ferroban, Novoeste, Ferronorte, além das concessões
às rodovias, entre outros), colocaram no cenário político e no
centro das disputas eleitorais esses dois personagens.
-
PRESSÃO
COMERCIAL NORTE-AMERICANA
A
Rodada de Doha, da Organização Mundial do Comércio (OMC) vem
elevando o tom das disputas comerciais entre países ricos e em
desenvolvimento. Em reunião realizada em Genebra no dia 14 de março,
empresas norte-americanas apresentaram uma lista de 53 produtos
que será utilizada como referência na pressão ao Brasil para
corte de tarifas de importação. A barganha apresentada tem como
contraface o maior acesso ao mercado global.
A
lista inclui produtos farmacêuticos, químicos, equipamentos de
construção, equipamentos agrícolas, eletrônicos, aparelhos médicos
e produtos de higiene pessoal. A escolha dos produtos coube ao
Conselho Nacional de Comércio Exterior (NFTC) dos EUA, que
representa 300 das maiores empresas do país, envolvendo
Microsoft, Caterpilllar, Texaco, Colgate-Palmolive, Wal-Mart, IBM,
Pepsi Cola, Citibank, entre outras. Segundo a vice-presidente de
comércio exterior deste Conselho, “o ano é do tudo ou nada na
Rodada Doha”.
A
pressão se deve à análise realizada pelo NFTC que identifica
apenas 3,7% dos produtos norte-americanos exportados tiveram como
destino o Brasil, Egito, Índia, Malásia e África do Sul (o
Brasil importou 2/3 do total que envolve esses 5 países). A
reduzida cota de exportação para esses países, ainda segundo o
NFTC, tem como obstáculo as alíquotas de proteção praticadas,
que envolvem 70% da pauta de exportação norte-americana e que
chega a 20% de taxação (como é o caso do Brasil).
A
proposta apresentada é clara: os EUA exigem corte de 75% nas alíquotas
praticadas.
Por
sua vez, a Confederação Nacional das Indústrias (CNI)
brasileiras rejeitou enfaticamente a negociação setorializada. A
proposta apresentada na OMC, segundo avaliação dos empresários
brasileiros, objetiva eliminação total das alíquotas dos
setores considerados alvo para os norte-americanos.
Tabela
1
Prioridades
da Indústria norte-americana
|
Produto
|
Exportações
para o Brasil
(US$
milhões)
|
%
nas exportações dos EUA
|
Tarifa
consolidada em %
(2004).
|
Proposta
de redução entre tarifas, em %
|
|
Leitores
ou gravadores de cartões magnéticos
|
31,4
|
5,0
|
2
a 16
|
94
|
|
Máquinas
para construção e aparelhos mecânicos
|
21,9
|
0,6
|
0
a 18
|
100
|
|
Tratores
de lagartas
|
11,4
|
5,1
|
14
|
53
|
|
Tratores
e outros
|
10,7
|
1,1
|
0
a 14
|
100
|
|
Dumpers
(caminhões)
|
46,6
|
6,8
|
0
a 14
|
100
|
|
Agulhas,
sondas, cateteres, cânulas
|
22,7
|
1,0
|
0
a 16
|
100
|
|
Etilenoglicol
|
30,5
|
8,0
|
12
|
-
|
|
Medicamentos
contendo alcalóides
|
12,0
|
2,2
|
0
a 14
|
100
|
|
Tinta
preta para impressão
|
14,2
|
6,8
|
14
|
-
|
|
Turbinas
a gás
|
28,6
|
2,0
|
0
|
100
|
|
Peças
de reposição para turbinas a gás
|
48,9
|
1,9
|
0
|
100
|
|
Carregadores
mecânicos
|
37,7
|
13,0
|
0
a 14
|
100
|
|
Carregadoras
e pás-carregadoras
|
24,6
|
3,2
|
0
a 14
|
100
|
Fonte:
NFTC
-
POLÍTICA
SOCIAL E MOBILIZAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL
A
área social continua gerando debates intensos e já consolida uma
quase unanimidade nacional em relação às parcas conquistas
alcançadas pelo governo federal.
O
diretor do Departamento do Hemisfério Ocidental do FMI, Anoop
Singh, embora tenha elogiado a política econômica do governo
federal (em final de março) reabriu o debate iniciado pelo Ministério
da Fazenda no primeiro ano do governo Lula: o problema não
estaria na política de estabilidade econômica, mas na distribuição
de benefícios, “que não chegam aos pobres”. No mesmo período,
o diretor de Política Econômica do Banco Central, Afonso Beviláqua,
anunciou que o impacto dos gastos com projetos de infraestrutura
(previsão de investimentos da ordem de R$ 3 bilhões para os próximos
3 anos) nos índices de preços definirá o aperto fiscal ao longo
de 2005. Segundo seu depoimento:
Nos
últimos anos, o que se verificou foram valores sempre maiores do
que as metas oficiais de superávit primário. Se olharmos para os
dados dos últimos três ou quatro anos, a execução fiscal tem
sido de tal forma que o superávit primário tem ficado sempre
acima das metas programadas.
Este
depoimento sugere, portanto o corte de despesas para controle
inflacionário percebido pelo BC.
Paralelamente,
foram divulgados vários indicadores e pesquisas que revelam
impacto nos gastos de famílias de classe média e irregularidades
em programas sociais.
Os
gastos sociais, que hoje giram ao redor de R$ 72 bilhões
(despesas previdenciárias, assistenciais, benefícios da
Bolsa-Família, seguro-desemprego e rendimentos pagos a idosos e
deficientes), foram projetados pelo Ministério da Fazenda para R$
85 bilhões em 2005.
Articulação
de empresários do segmento comercial organizam-se em todo o país
para baixar o aumento de impostos que, em tese, financiaria este
aumento de gastos públicos na área social. Em 10 anos, a carga
tributária saltou de 28% do PIB para 36%. As despesas sociais
aumentaram 122%, segundo dados do Ministério da Fazenda. Ainda
segundo cálculos do ministério, o aumento do valor do salário mínimo
impactou em R$ 35 bilhões os gastos com a Previdência Social.
Este
pano de fundo é a pauta que orienta os debates internos do
governo federal e que fazem colidir as intenções do ministro
Patrus Ananias com toda equipe econômica do governo federal. A
previsão de gastos com a Bolsa-Família para 2005 é de R$ 6,5
bilhões, e deverá saltar para R$ 8 bilhões (beneficiando 11,4
milhões de famílias).
O
debate que vincula gastos sociais com focalização e impostos,
protagonizado pelos empresários e Ministério da Fazenda, tende a
se manter ao longo do ano (em especial, a partir da votação da
PEC Paralela no Senado e reforma tributária), podendo emergir
como tema da campanha do próximo ano. A Fecomercio vem procurando
alimentar esta discussão patrocinando muitos estudos sobre
impostos. O último, divulgado em meados de março, revelava que
os brasileiros gastam, por mês, R$ 2,9 bilhões com impostos
diretos, equivalendo-se ao gasto com educação (R$ 2,1 bilhões).
Os brasileiros, segundo o levantamento, gastam mensalmente R$ 18,2
bilhões com habitação, R$ 10,5 bilhões com alimentação, R$
9,6 bilhões com transporte, R$ 3,4 bilhões com saúde e R$ 1,2
bilhão com cultura e recreação.
Na
outra ponta deste tema, pesquisa inédita realizada no Cadastro Único
do governo federal revelou que 14,5% das famílias beneficiadas
com programas de transferência de renda têm emprego formal. No
caso da Bolsa-Família, foram 896 mil famílias beneficiadas que
possuem responsável com emprego formal. Destas, 286 mil famílias
apresentam indícios de irregularidade, já que o rendimento é
maior que R$ 100 reais per capita (teto definido pelo programa).
Este
debate, contudo, não atrai a sociedade civil brasileira e muito
menos a parcela mais organizada. Neste segmento social, o
desconforto com a política social do governo parece se
materializar, aos poucos, em reação mais estruturada. Na liderança
desta mudança de comportamento dos movimentos sociais e organizações
populares aparece, mais uma vez, o MST, anunciando uma marcha para
o dia 17 de abril que deverá marcar o que denominou em março de
“abril vermelho”: uma série de ocupações em todo território
nacional, tendo como ápice uma manifestação pela reforma agrária
estimada em 15 mil pessoas. As pastorais sociais do país estão,
também, envolvidas no apoio a esta marcha.
Finalmente,
e seguindo a trilha de maior controle e influência sobre a pauta
social do governo federal, vale destacar a iniciativa de elaboração
da Lei de Responsabilidade Social. Esta lei apóia-se em dois
pilares: definição de “mínimos sociais” a serem definidos
no âmbito dos legislativos e que devem orientar ações para os
próximos 4 anos de governo (à exemplo do Plano Plurianual), a
partir de uma lista de indicadores sociais; e a constituição de
um sistema de conselhos municipais, assessorados por comitês técnicos,
que deverão medir os resultados obtidos periodicamente. O não
cumprimento das metas de “mínimos sociais” abriria um
processo administrativo contra o governo responsável (prefeito,
governador ou ministros). Esta proposta é dirigida pelo Fórum
Brasil do Orçamento (www.forumfbo.org.br
) e já começa a repercutir no Senado Federal. Por iniciativa da
senadora Lúcia Vânia (PSDB) está tramitando a PEC 29 que
institui a Lei de Responsabilidade Social no país.
No
governo federal, o IPEA vem elaborando o que intitularam “Radar
Social” que tem como objetivo definir e acompanhar 50
indicadores sociais (agregados em 22 problemas a partir de cinco
“dimensões sociais”: renda, trabalho, moradia, saúde,
segurança e educação) e relacioná-los com programas sociais do
governo federal. A estudo, a ser concluído, no final de abril,
deverá consolidar o desenho desta PEC 29, pois possibilita o
acompanhamento das ações governamentais e resultados sociais
obtidos, uma das pontas da lei de responsabilidade social.