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Por
RAIMUNDO SANTOS
Professor da UFRRJ. |
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Jessé
Souza. A Construção Social da Subcidadania. Para uma Sociologia
Política da Modernidade Periférica. Belo Horizonte: Ed. UFMG
e Rio de Janeiro: IUPERJ, 2003, 207p.
Diálogo Instigante
com os Clássicos
Podemos dizer, sem muita extravagância,
que o livro de Jessé Souza A Construção Social da Subcidadania
constitui leitura proveitosa no campo do que se poderia chamar de
marxismo com gravitação militante entre nós. Um campo que, salvo
alguns ensaios em áreas pecebistas, se constituiu não apenas sem
interpelar os grandes nomes políticos da sua tradição (Lênin,
Gramsci, Togliatti-Berlinguer) como também se apresentou extrínseco
ao melhor do nosso pensamento social. Lembramo-nos deste tipo de
estilo quando vemos nesse seu novo livro Jessé Souza expor, em outro
registro, uma instigante leitura da contemporaneidade e das nossas
classes subalternas, justamente realizando um criativo diálogo com
as tradições intelectuais, primeiro, com Weber, Charles Taylor e
Bourdieu e, depois, com os clássicos da modernização brasileira.
Jessé Souza propõe que uma experiência
na “nova periferia" como a nossa é melhor tematizada quando
recorremos ao conceito de “esquematização” desenvolvido por Charles
Taylor em suas reflexões acerca das singularidades que as questões
culturais, morais e simbólicas assumem no mundo moderno. A esta
proposição o autor agrega a dimensão da dominação simbólica nas
sociedades avançadas do capitalismo tardio conforme Bourdieu. Na
primeira parte do seu livro (“A Reconstrução da Ideologia Espontânea
do Capitalismo”), Jessé expõe esses autores desdobrando perspectiva
weberiana já mobilizada em textos seus anteriores. A retomada
ampliada da tese weberiana do advento da modernidade capitalista
agora lhe permite equacionar a particularidade de uma revolução
burguesa na “nova periferia”, “esquematização” à qual ele associa a
noção de subcidadania, procurando dar conta do tema das debilidades
do nosso mundo popular.
Se em outros livros o nosso clássico
enfatizado havia sido Gilberto Freyre, Jessé realça agora Florestan,
tomando-o de dois textos bem escolhidos. Na seção II do seu livro
(“A Constituição da Modernidade Periférica”) tem centralidade
A Revolução Burguesa no Brasil (1975), obra da qual Florestan
é trazido como o “autor periférico” que, segundo Jessé, “mais se
aproximou da construção de um paradigma, o qual, a partir dele, é
possível vislumbrar uma concepção alternativa que permita dar conta
dos problemas ‘modernos’ de sociedades modernamente periféricas” (p.
130). Por sua vez, a terceira e última parte do livro apresenta A
Integração do Negro da Sociedade de Classes (1964) como um
diálogo estratégico para Jessé especificar sua tese da subcidadania
referida à problematização da “ideologia espontânea” do capitalismo
tardio e da construção social da desigualdade.
No primeiro Florestan, Jessé sublinha o
conceito de “padrão de civilização dominante” com o qual o sociólogo
disserta sobre o período da formação do “Brasil contemporâneo” –
pós-1822 –, desde quando o país politicamente independente evoluíra
conforme o “padrão ocidental moderno”. Jessé relembra que Florestan
argumentava que não se devia buscar esse padrão “nos fatores
exóticos e anacrônicos da paisagem”, distante o professor da USP da
propensão a considerar nossa modernização como um “fenômeno
superficial e epidérmico”. Florestan aprecia 1822 como quebra do
pacto colonial que viera dar lugar à estruturação do Estado Nacional
com grandes repercussões. O sociólogo paulista constrói o seu modelo
focalizando o “efeito multiplicador deste fato (1822) para o
desenvolvimento de sociedades urbanas”, contexto que viria alterar o
“sentido da colonização”, lembrando a fórmula de Caio Prado Jr. O
que acrescia Florestan era o valor que atribuía às conseqüências
socioeconômicas da montagem do Estado Nacional ensejando os novos
serviços e as novas funções, induzindo sentido homogeneizador,
promovendo maior ligação entre os mercados regionais e assim
dinamizando a vida nacional.
Jessé realça no modelo de Florestan o
fato de que o “burguês” surgiria entre nós como uma “realidade
especializada” e não como resultado “de toda uma visão
revolucionária da vida social em todas suas dimensões”. Produto
“circunscritamente econômico”, o nosso aburguesamento se
desenvolvera em resposta a estímulos concretos, agrega Jessé, “sem
que ocorra, pelo menos no curto e médio prazos, uma abstração dessa
circunstância para o contexto social maior” (p. 131). Déficit de
articulação que leva Florestan a falar de uma “revolução
encapuzada” entre nós, ou seja, uma revolução que se produz
“molecularmente, em pequeno, no dia-a-dia e nas práticas cotidianas”
– apresenta Jessé o conceito –, “mas sem articulação consciente e de
longo prazo de uma visão de mundo adequada a seus próprios
interesses” (p. 133). Essa apreciação não autoriza a ver o
liberalismo brasileiro – segundo o próprio clássico, índice que
expressava a ambigüidade do curso modernizador e ao mesmo tempo era
o seu “porta-voz” – como questão postiça, à medida que aqui ele
“disfarçava e exprimia o afã de expandir a ordem social
competitiva”. Como Gilberto Freyre, Florestan também realça a falta
de uma “reforma social” em complemento à obra da Abolição. Jessé
observa que, chamando-a de “revolução social de brancos para
brancos”, Florestan também se detém na questão do abandono secular
de uma “ralé despreparada”, tema de A Integração do Negro na
Sociedade de Classes, obra à qual Jessé Souza voltará, com muito
proveito, na última parte do seu livro.
Jessé lembra que, para Florestan, o
liberalismo funciona como uma “gramática mínima” operando um
verdadeiro “choque cultural” que vai progressivamente transformar a
formação social com relações cada vez mais impessoais. Vale dizer,
uma linguagem possível para tal processo de “abstração e
generalização”, continua Jessé, “permitindo a autocompreensão dos
próprios sujeitos imersos no processo” (p. 134). Mas esse
liberalismo não lograria um “alto grau de consciência”, como ocorreu
nos EUA e na Europa, países nos quais foram processos-chave do
modernismo a homogeneização e a generalização do tipo de
personalidade e a economia emocional burguesa. Diversamente, aqui
tivemos uma modernização, argumenta Jessé, na qual “as práticas
institucionais, como Estado e mercado, e suas conseqüências sociais
e psicossociais se impõem quase como realidade material bruta” (p.
134-35).
Jessé também irá observar que ao
clássico lhe faltara considerar a dimensão da sociedade
consubstanciada no tema dos grupos e classes suportes do processo de
modernização. A reconstituição do sociólogo da USP, quando o tema é
tratado, apresenta um hiato entre 1822 e a consolidação do Estado
Nacional; período dos 60 anos subseqüentes à Independência em
relação ao qual ganha relevância a questão dos agentes da
modernização. Florestan não levara na devida conta processos
emblemáticos da vida nacional, como as modernizações ocorridas
naquele interregno no Rio de Janeiro, em Salvador e no Recife e, por
conta disso, ele verá no fazendeiro do café e no imigrante os
protagonistas da modernização (p. 135) e não em figuras sociais e
articulações por excelência do mundo urbano, como registrado por
outro clássico.
Nessa passagem, Jessé inscreve o
professor da USP entre os que vêem a modernização como um processo
endógeno. O autor postula que, como nas interpretações
patrimonialistas, também em Florestan São Paulo aparece como uma
espécie de “Nova Inglaterra tropical”. Assim Jessé propõe que o
modelo anunciado em A Revolução Burguesa no Brasil se amplie
com a alusão à experiência de modernização estimulada de “fora para
dentro”, como no emblema freyriano da “reeuropeização”. Vale
recordar que, correlacionando cultura e estratos sociais, Gilberto
Freyre retrata o aburguesamento do século XIX (em Sobrados e
Mucambos) e os seus complementos ocorridos após a Abolição e nos
primeiros tempos do século XX em cores de uma revolução branca
inglesa e/ou como mudanças conservadoras, aqui sob uma República
positivista, conforme descrito em Ordem e Progresso.
É nessa reapresentação dos sociólogos de
São Paulo e de Pernambuco que Jessé traz mais uma tematização ao
sublinhar que a modernização de “fora para dentro” termina por
exigir, “como resultado do lento processo de conscientização e luta
política, um influxo endógeno de ‘dentro para fora’, ou seja, a
formulação consciente e refletida de um projeto modernizador
autônomo e nacional” (p. 145). Neste ponto, Jessé menciona
Sindicato e Liberalismo no Brasil (1976), de Luiz Werneck
Vianna, como um texto complementar – em “notável continuidade” à
tese da “revolução encapuzada” –, justamente pelo realce que esse
autor novo põe no papel dos grupos sociais e da política na
modernização, em curso mais emblemático ao assumir forma
industrialista a partir de 1930.
Vianna disserta sobre uma revolução
burguesa “irregular” em que um Estado, mesmo tendo sido capturado
por uma elite oligárquica, encaminhar-se-á como Estado reformador,
dando lugar a um impulso que ganharia inteligibilidade se pensado a
partir dos conceitos de modernização “pelo alto” e de “revolução
passiva”. Constitui ponto distintivo desse último autor a atenção
posta na oligarquia atrasada via-à-vis a oligarquia burguesa
mais moderna do café. Enquanto esta última, usando o aparelho
estatal de modo particularista, mostrava-se incapaz de generalizar
interesses para o conjunto da formação social, aquela, à frente de
um movimento revolucionário em aliança com grupos médios, logo
afeitos à missão saneadora do novel governo de 1930, ensejava um
processo de generalização do Estado e de ampliação da vida nacional
a partir do qual o industrialismo terminaria por se afirmar. Vianna
realça duas dimensões marcantes da formação social: a) por um lado,
devido ao seu modo “prussiano”, essa nossa revolução burguesa
interditaria a reforma do mundo rural e, por outro, dado o seu
andamento passivo, ela se caracterizaria pela “ênfase na negação do
conflito”, servindo-se de uma ideologia “que tem aversão a qualquer
forma de interesse que se revele como particular”. Em suma,
conhecemos aqui uma “revolução sem revolução”, esta noção variante
também lembrada por conta do tema da expansão dos valores
liberal-democráticos, essencial à conformação da ordem competitiva;
expansão contida entre nós, como voltará a aludir Jessé ao finalizar
seu livro, justamente em suas dimensões ideal e da esfera pública.
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Na terceira e última parte de “A
Construção Social da Subcidadania”, o autor retoma esse tipo de
modernização com “anterioridade de práticas institucionais e sociais
em relação às idéias e visões de mundo” e coloca o problema da
“formação de um padrão especificamente periférico de cidadania e
subcidadania”. Jessé sublinha em nossa experiência periférica
aquele déficit de “articulação” entre “práticas” e “idéias”, déficit
que significa duas ordens interligadas de conseqüências: a)
“ausência de perspectivas de longo prazo e ausência de adequada
compreensão da profundidade e da abrangência dos novos
comportamentos e papéis sociais que se desenvolviam” (p. 132-33) e
b) “naturalização da desigualdade” por meio de certos ancoramentos
institucionais, o autor radicando nessa “esquematização” da
modernidade brasileira débil sua tese da subcidadania.
Agora Jessé dialoga com A Integração
do Negro na Sociedade de Classes, estudo acerca do período
1880-1960, no qual Florestan disserta sobre o modo como o povo
emerge na história brasileira, concentrando sua atenção no negro e
no mulato por estes terem o “pior ponto de partida” na transição da
ordem escravocrata à competitiva. Florestan toca na questão da
atividade psicossocial, um pressuposto essencial à atividade
capitalista. Jessé lembra o realce de Florestan na ausência da
unidade familiar como “instância moral e social básica”, para ele,
tudo se somando para dificultar a adaptação do homem livre à ordem
competitiva (“Na realidade, a pauperização, acarretada pela
inadaptação social e a anomia, causada pela organização familiar
disfuncional, condicionam-se mutuamente”, cf. 154). A ênfase na cor
da pele leva Florestan a atribuir à constituição de um “habitus
específico” – conceito de Bourdieu – o fundamento da explicação da
marginalidade do negro. A cor da pele – em muito responsável pelo
preconceito no terreno da desigualdade e da sua naturalização,
prossegue Jessé – não esgota toda a questão, sendo necessário ver o
outro lado do problema e “que se refere a certo tipo de
´personalidade´, julgada como improdutiva e disruptiva para a
sociedade como um todo”, dimensão referida pelo que Bourdieu chama
de “habitus precário” (p. 159). Ainda segundo Jessé, embora o
tenha aludido ao falar das “precondições sociais da marginalidade
independentes da cor da pele”, Florestan não percebe todo o problema
apontado por Bourdieu, com o qual Jessé alude à reprodução como
“subgente” da população negra e mulata e dos despossuídos rurais
brancos constituintes da “ralé” nacional.
Foi o abandono secular do negro e do
dependente de qualquer cor à própria sorte, diz Jessé, que criou as
condições perversas da eternização do “habitus precário” que
os constrange “a uma vida marginal e humilhante à margem da
sociedade incluída”. A tarefa consistiria em ver como não se
constituíram as condições para que aqui se lograsse em medida
significativa, como nas sociedades modernas, homogeneizar e
generalizar um tipo humano transclassista como precondição de uma
“efetiva e atuante idéia de cidadania”. Patamar, aliás, que não se
conseguiu, nem mesmo na mais rica daquelas sociedades, os EUA, “como
efeito colateral unicamente do desenvolvimento econômico”, esclarece
Jessé interpelando agora as teorias economicistas defensoras do
desaparecimento dos “resíduos” do mundo marginal com o correr do
tempo modernizador. Improvável aqui esta hipótese, necessitaríamos
atentar para a redefinição moderna que reproduz a situação do negro
e do dependente como “imprestáveis” para exercer atividade
relevante. Jessé valoriza muito em Florestan a perspicácia de suas
observações acerca da dimensão psicossocial do problema (“padrões
familiares disruptivos” e sua associação com o pauperismo), mas
reconhece também que o sociólogo ainda se mantém ligado à discussão
dos “resíduos” e das “inércias” (p. 161).
Jessé contrasta nossa modernização
periférica para insistir em que aqui tivemos experiência marcada
pela ausência de precondições essenciais nos processos de cidadania
desenvolvidos em outros países. A singularidade brasileira consiste
na existência de uma gigantesca “ralé” de inadaptados às demandas da
vida produtiva e social modernas: “Enquanto a generalização de um ‘habitus
precário’ nas sociedades avançadas é um fenômeno circunscrito e
limitado, a sua generalização como fenômeno de massas em sociedades
periféricas, como a brasileira, é suficiente para condenar cerca de
1/3 de uma população de 170 milhões de pessoas a uma vida marginal
nas dimensões existencial, econômica e política” (p. 178).
Em suma, a “esquematização” da
modernização brasileira não está dada pelas heranças personalistas
pré-modernas, mas por ela ter-se processado aqui “em combinação com
uma ‘esquematização’ produzida pela ubíqua herança escravocrata”,
herança condicionante da “subgente” que vive “sob condições
especificamente modernas”. Essa “esquematização” evidencia uma
contradição que veio condicionar a “importação do capitalismo de
‘fora para dentro’”, processo levado a cabo mediante “práticas
institucionais” – Estado e mercado – sem aqui disporem do contexto
ideacional de fundo moral, religioso e cognitivo, que na Europa
converteu-se em fermento revolucionário, fez-se presente na
“entronização” da lógica econômica do capitalismo e, ao cabo,
generalizou um patamar de igualdade desconhecido entre nós. “Aqui, a
importação das ‘práticas institucionais’ foram meramente
acompanhadas de ‘ideologias pragmáticas’ como o liberalismo, o qual
funcionou como uma espécie de “graxa simbólica” destinada a
facilitar a introdução pragmática do mundo dos contratos e da
representação elitista no contexto primitivo e personalista anterior
mas que sempre encontrou seu limite em qualquer expansão realmente
generalizante desses mesmos princípios” (p. 185). Jessé completa o
ponto: “Essa circunstância também condiciona a dimensão limitada que
a ‘terceira instância do mundo moderno’, além de Estado e mercado, a
esfera pública, assume entre nós” (idem).
Nas últimas páginas do seu livro, Jessé
tece sugestões que acercam o argumento da tese da subcidadania aos
nossos dias. Sem menosprezar o avanço progressivo da participação
política e econômica no país, o autor observa que a “contradição de
classes mais importantes” na modernidade periférica parece dever sua
particularidade ao fato de que ela não articula entre nós
trabalhadores e burgueses como seus principais contendores, mas sim
uma “ralé” de excluídos, de um lado, e todos os grupos incorporados,
sejam trabalhadores, técnicos ou empresários, de outro. A própria
inclusão ao mercado e aos benefícios do Estado de grupos antes
excluídos não permitiria acalentar otimismos exagerados, como o de
que já teríamos uma esfera pública desenvolvida, dada a forte
segmentação que esta apresenta tanto quanto aquele acesso ao mercado
e à instância estatal; não se vendo nos novos instrumentos da luta
da classe trabalhadora organizada, prossegue o autor, a
representação dos interesses genericamente difusos da “plebe”
desorganizada. Ainda que a sua tese da subcidadania suscite
discussão e passe certo pessimismo, os traços da nossa formação
social nela realçados por meio da sofisticada construção que Jessé
oferece ao largo do seu livro trazem novidades instigantes acerca da
dinâmica entre “práticas” e “idéias” que vem refratando a
modernização da vida nacional. |
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