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Por HENRIQUE RATTNER
Professor
da FEA (USP), IPT e membro da Associação
Brasileira para o Desenvolvimento de Lideranças (ABDL)
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Aonde
vai a Venezuela?
O
relativo otimismo do século XXI, iniciado sob a hegemonia econômica
e militar inconteste dos EUA, ficou abalado com o atentado
terrorista contra as torres do World Trade Center de Nova Iorque, em
11 de setembro de 2001. Evento
que foi seguido de campanhas militares no Afeganistão e no
Iraque cujo desfecho permanece imprevisível.
No
mundo ocidental, assistiu-se a um enfraquecimento dos movimentos
sociais atrelados aos respectivos governos social-democratas (Reino
Unido e Alemanha) e ao canto da sereia da chamada Terceira Via,
proclamada por seus idealizadores – Tony Blair e Anthony Giddens
– como solução dos conflitos entre o Capital e o Trabalho, ou
entre o mercado e o Estado.
Na
América do Sul, após duas décadas de regimes autoritários, o pêndulo
político inclinou-se novamente para a esquerda. Numa seqüência impressionante, candidatos de
esquerda obtiveram vitórias em diversos países do subcontinente, a
primeira das quais aconteceu no Chile com a eleição do
social-democrata Ricardo Lagos. Logo se juntariam a ele o petista
Lula, no Brasil; o ex-peronista Nestor Kirchner, na Argentina; e,
por fim, Tabaré Vasquez, no Uruguai. Na
Venezuela, pudemos acompanhar a dramática ascensão de Hugo Chávez,
eleito em 98 e reeleito em 2002 – depois de ter tentado um golpe
no começo dos anos 90 – o atual presidente venezuelano foi
deposto, em 2002, por um golpe militar dado pelas elites econômicas
do país apoiadas de forma nada velada pelos EUA, mas voltou à
presidência e, recentemente, teve seu mandato confirmado num
referendo popular. Em cada um desses países, os atuais partidos
governantes herdaram
uma
pesada carga de desigualdades sociais e econômicas e a concentração
da riqueza e do poder nas mãos de minorias conservadoras que,
muito a contragosto e na falta de alternativa, concordaram com os
regimes de democracia representativa dominados por partidos de
centro-esquerda.
Contudo,
uma vez no poder, a “esquerda” parece ter esquecido
seu discurso
da véspera e não apresenta
programas
que a diferenciem
dos outros partidos e,
assim, representem
uma verdadeira opção política. Com exceção da Argentina que ousou desafiar a banca
internacional – por simples falta de alternativa – os governos
sul-americanos
vêm seguindo
os cânones da política econômico-financeira ditados
pelo FMI.
Os juros elevados, o superávit fiscal, o combate prioritário
à inflação com câmbio flutuante e ausência de controle de
movimentos de capitais são comuns aos países governados por
partidos da “esquerda”.
Até
o momento, Chávez é
o único que parece ser diferente,
centrando os esforços de seu governo no combate à pobreza
da maioria dos venezuelanos aos quais pretende proporcionar acesso
à saúde, educação, alimentação, emprego e habitação.
Entretanto,
cresce na mídia internacional um noticiário agressivo e freqüentemente
pejorativo dirigido contra o governo de Chávez.
Ele é
constantemente acusado de,
internamente, reprimir a democracia e, no campo da política
externa, fomentar ações que levariam à “desestabilização”
da América Latina. Órgãos
conservadores dos
EUA falam na
ameaçadora
possibilidade de Chávez substituir os EUA pela China como principal
comprador do petróleo de seu país – a Venezuela responde por 10%
de todo o óleo consumido nos EUA. Outros divulgam notícias
sobre o apoio de
Chávez às Forças Revolucionárias da Colômbia (FARC), aos socialistas liderados por Evo
Morales na Bolívia e aos sandinistas da Nicarágua
– esses dois últimos partidos legalmente constituídos que atuam de acordo com as normas de
seus respectivos países.
Mas
o que mais incomoda o Departamento de Estado norte-americano
é a aliança,
cada vez mais estreita,
entre a
Venezuela de Hugo Chávez e a Cuba de Fidel Castro, consolidada
através de acordos comerciais
e de cooperação nas áreas de educação e saúde. O que
Cuba poderia
oferecer em troca do
petróleo cedido pela
Venezuela a preços vantajosos? A revista “The Economist”,
em reportagem publicada na edição de 14/5/2005, fala em 16 mil médicos cubanos que praticam
cirurgias antes inacessíveis para a população carente e
organizam os serviços de saúde familiar
venezuelanos. Além de médicos, Cuba também envia
educadores e instrutores para atividades esportivas e recreativas. O mais novo susto entre os setores conservadores dos EUA
gerado por essa incômoda proximidade entre os dois países
“rebeldes” foi a proclamação conjunta de Fidel Castro e
Hugo Chávez a
respeito de uma integração alternativa a ALCA.
Já
os motivos da impopularidade de Chávez entre a burguesia e a classe média de seu próprio
país é decorrente de um conjunto de programas sociais,
financiados com os lucros da estatal petrolífera
PDVSA, decorrentes da elevação constante dos preços de
petróleo no mercado mundial, a partir do segundo semestre de 2004.
Essas atividades sociais, denominadas “missões”,
são orientadas para a mobilização e conscientização das
comunidades carentes
através de conselhos, consultas populares e orçamentos
participativos.
Entre
elas, se destacam atividades
educacionais que procuram resgatar, através de cursos de
alfabetização e de suplementação do ensino médio, os jovens que
não conseguiram freqüentar escolas e que recebem bolsas de estudos
para evitar sua evasão. Os alunos aprovados prosseguem em cursos do
programa de iniciação universitária (PIUNI).
Merece destaque especial a integração entre esta iniciativa e o
programa de preparação para a economia solidária e a formação
de cooperativas nas quais são aproveitados recursos humanos
previamente preparados pelas “missões” educativas e, em
seguida, orientados para o desenvolvimento local.
Outra
área contemplada – a da
saúde – dinamizada pela presença dos médicos cubanos,
atende a milhares de pessoas nos bairros e distritos mais carentes,
distribui remédios e constrói consultórios devidamente equipados
que servem de lugar para
reuniões de
formação dos
agentes de saúde comunitária.
Uma
outra “missão”,
batizada de Mercal, relaciona-se com as outras três anteriormente
destacadas ao procurar
assegurar o acesso da
população a uma alimentação básica sadia.
Isso se dá através da criação de uma
ampla rede de lojas que atendem milhares de consumidores de
baixa renda, com frutas e verduras plantadas em hortas comunitárias.
A melhoria da segurança alimentar – e conseqüentemente da saúde
- anda de mãos dadas com a geração de renda local. Essa preocupação
com a população desempregada e os jovens egressos das
escolas resultou também
na formação de cooperativas de costura, de fabricação de
calçados e de hortas para abastecer com verduras e frutas as
escolas e creches.
Tudo
isso qualifica, indubitavelmente, Chávez como
um representante
dos
excluídos, em detrimento da classe média e
elites tradicionais que se juntam
em coro
para acusar
o presidente legalmente eleito de “autocrata” e “exportador da ’revolução’
para a América Latina”.
Foi
essa união entre abastados e remediados que levou ao fracassado golpe
de 2002,
contornado
apenas depois do referendo popular realizado em agosto de 2004
e que confirmou a legalidade do mandato presidencial, até as eleições em dezembro de 2006. Depois
disso, o governo, num rompante populista, declarou a
“guerra aos latifúndios” que atingiria somente as terras não
produtivas ou com títulos de propriedade ilegais. Mais
recentemente, foi estabelecido um limite de 29% para a taxa de juros
e também o controle de preços e do câmbio. A economia venezuelana
cresceu 18%
em 2004, sustentada
graças aos elevados preços do
petróleo no
mercado mundial – o que,
por sua vez, permitiu
à PDVSA destinar US$ 3,7 bilhões aos programas sociais.
A
Venezuela continua sendo um país com mais da metade da população
extremamente pobre e cujo presidente pretende construir uma
“sociedade socialista do século 21” que transcenderia o sistema
capitalista para substituir-lo por uma “economia humana, igualitária
e solidária”. À parte do discurso, fato é que Chávez
representa a enorme massa de excluídos que desceram dos morros de
Caracas para exigir seu retorno após o golpe. Comparado por muitos
com caudilhos populistas ao
estilo do argentino Perón e do
peruano Velásquez, o atual contexto internacional e,
particularmente, o latino-americano permitem augurar a continuidade
do governo Chávez, possivelmente reeleito para um terceiro mandato
em 2006, embora em um clima de tensão interna crescente.
Tentando
avaliar a “Revolução Bolivariana” de Chávez, quais são suas
características e as chances de vingar? O programa de TV semanal de
quatro horas serve de fórum para o diálogo do presidente com a
população. Ademais, há um processo persistente de doutrinação
das forças armadas que apoiaram Chávez por ocasião do golpe e de
cujos quadros são recrutados os governadores, além de
administradores em posições chave no governo. Duas forças que
podem ser decisivas no confronto que se anuncia para
a hora e
o momento em que as elites tradicionais –
sentindo-se ameaçadas com a perda de seus privilégios históricos
– abandonarem de vez a hesitação e irão recorrer a meios extralegais para forçar
uma mudança política. |
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