Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA

Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos sobre relações internacionais e política externa do Brasil

 

A Inviabilidade da Réplica:  

resposta a um opositor que se diz de esquerda

 

 

Ao ler a crítica, “Para Uma Réplica Inviável”, oferecida por Bruno Moretti a meu artigo publicado no mês de abril de 2005, “A cultura da esquerda: sete pecados dialéticos que atrapalham o seu desenvolvimento” (ele se esqueceu do “dialéticos”), que vai transcrita neste mesmo número da Espaço Acadêmico, confesso que minhas reações foram de duas ordens, talvez antinômicas, mas não excludentes: primeiro, simplesmente acatar todos os seus argumentos e enquadrá-los na sigla latina QED – isto é, quod erat demonstrandum, ou “eis o que era preciso demonstrar” – e proclamar que sua longa peroração marxista encaixa-se perfeitamente naquele tipo de “raciocínio” da cultura de esquerda que eu desejei criticar; em segundo lugar, formular um oitavo “pecado”, desta vez pouco dialético e mais característico de uma certa confusão metodológica, que consiste em retornar um argumento pelos pés, colocá-lo de ponta-cabeça e, a partir daí, construir um “monstro metafísico” que guarda muito poucas conexões com a realidade ou, numa fórmula curta, o equívoco da “desconstrução da realidade”.

A “réplica inviável” de Bruno Moretti oferece ambas as possibilidades, mas não pretendo estender-me em demasia sobre cada uma delas, pois temo que correria o risco de cansar o leitor se tentasse fazer longas digressões sobre a cultura marxista-acadêmica que ele representa tão bem. Trata-se de uma cultura típica do “mercado acadêmico”, que é o espaço de convivência e de reprodução de seres ativos e pensantes como ele mesmo e o meu primeiro crítico, Robinson dos Santos (a quem já ofereci minha tréplica neste mesmo espaço e lugar). Ambos se encaixam perfeitamente nessa cultura aparentemente inocente que se compraz em rodar em círculos em torno de si mesma, que nada mais é do que o universo conceitual-abstrato dos livros e das perorações acadêmicas, onde tudo é permitido e o público é paciente (pois que formado, na maior parte dos casos, por uma platéia passiva de estudantes cativos). Eu disse “aparentemente”, porque essa inocência tem algo a ver com o “pecado original”, isto é, trata-se de algo imaginário, que se move em torno de sua aceitação sem provas pela própria audiência que constitui os clientes desse mercado: estudantes e alguns outros colegas de academia.

Deixo à paciência (e tempo) do leitor confortar-se (ou não) nos longos e repetitivos “argumentos” oferecidos por Moretti nesta sua “réplica inviável” para contestar sabe-se lá o quê em meu artigo original. Em lugar de contestar cada um de meus “pecados dialéticos”, ele simplesmente expressa a mesma “perplexidade” que já tinha atingido seu colega Robinson dos Santos e decreta que não vê muito sentido em dedicar-se ao “inglório exercício de oferecer críticas a um texto cujo objeto se encontra exclusivamente na cabeça de seu próprio autor”, isto é, na minha própria. Como meus “objetos” estavam perfeitamente expostos e debatidos, com exemplos retirados da vida diária que integram a agenda corrente, nacional e internacional, de um país como o Brasil, só posso concluir que meus críticos atuam segundo um tipo de reflexão absurda, que consiste em expor suas próprias perplexidades aos olhos do público leitor.

Moretti, na verdade, não oferece nenhuma réplica aos leitores deste “espaço”: ele simplesmente se compraz, com base numa leitura abstrata dos Grundrisse de Marx, em tentar “provar” que eu produzi uma “reificação” – ou “coisificação” na sua leitura – do entendimento marxista do conceito de mercado. Como meu artigo original não se ocupava desse tipo de discussão filosófica – eu pretendia simplesmente demonstrar como a esquerda atual continuava a ostentar seu desapreço ou mesmo oposição ao mercado concreto, e como isso tinha raízes intelectuais mais antigas, em Marx, mas como também derivava de experimentos, bolchevistas, absolutamente desastrosos do ponto de vista da organização econômica e social do mundo moderno –, não pretendo agora, por ser algo totalmente inútil, retornar cada um dos cansativos “argumentos” de Moretti sobre essa coisa abstrata – da qual ela parece derivar um imenso prazer intelectual – que seria interpretar o “verdadeiro” pensamento de Marx.

De acordo com meu segundo crítico, “compreender Marx pressupõe capturar a simultânea historicidade e objetividade de determinações sociais, predicadas a (pressupostas pela) pela agência humana intencional”, algo que supostamente eu não saberia fazer (talvez pour cause). Como pretendo poupar o leitor de um debate tão abstrato quanto inútil, desejo simplesmente complementar a primeira fórmula latina do QED por uma segunda, que poderia ser transcrita como QEF, isto é, quod erat faciendum, ou “eis o que era preciso fazer”, mas que nem ele, nem meu primeiro crítico fizeram, o que significaria, para ser concreto e objetivo, discutir e refutar meus argumentos sobre a cultura da esquerda. Eles simplesmente proclamaram que o problema estava em minha própria cabeça, que eu não ofereci uma exposição cabal do que seria “cultura de esquerda” e que eu estava totalmente enganado na exposição dos “pecados dialéticos” que eles se eximem de comentar ou refutar.

O meu “quod erat faciendum” – ou, se preferirem uma tradução “leninista”, seria esta a fórmula: “que (se deve) fazer?” – indica, portanto, que meus dois críticos deveriam retomar o dever de casa, refazer sua argumentação e, em lugar de cansar os leitores com longas digressões retiradas de Marx – o que nada mais constitui senão uma tentativa canhestra de escapar ao esforço de pensar com a própria cabeça, refugiando-se na “autoridade” do surrado mestre – e procurar debater questões concretas, como estas por exemplo: a esquerda “gosta” ou não do mercado?; ela acha que a “mão visível” do Estado sempre faz melhor do que a velha “mão invisível” de Adam Smith?; que o governo faz bem em tentar corrigir as “distorções” do mercado por medidas regulatórias que restringem a formidável “anarquia” dos mercados livres? Estes são os problemas tocados no meu primeiro “pecado dialético” da cultura da esquerda – algo tão real e visível que ela é perfeitamente encarnada pelos meus dois críticos – que nenhum deles se ocupou sequer de arranhar com argumentos contrários ou “desconstrucionistas”.

Termino aqui a minha primeira reação “demonstrativa”, não sem antes agregar que eu teria, sim, apreciado muitíssimo, que outros colunistas, colaboradores eventuais ou os muitos leitores deste “espaço acadêmico” pudessem debater aqueles “pecados dialéticos”, por certo provocadores e estereotipados – mas feitos exatamente com essa intenção, a de “exagerar” na configuração do “tipo ideal” para incitar à discussão – com vistas a, justamente, refletir sobre algumas das características desta “cultura de esquerda” que meus dois críticos dizem não saber do que se trata, por eu supostamente não ter pretendido oferecer dela uma demonstração cabal.

Pois bem, faço-o agora, sob risco de decepcionar não só esses críticos como todos os demais leitores eventuais: a cultura de esquerda, sem aspas agora, é exatamente a que escreve, lê e freqüenta este espaço: este veículo é um típico representante da cultura que eu me permiti criticar, sem maiores esforços demonstrativos, pois que isto é tão óbvio que só não consegue perceber quem apenas convive neste ambiente universitário feito de muitos conceitos e poucas realidades, de muitas digressões retiradas de livros e artigos e poucas demonstrações empíricas retiradas do mundo concreto, exatamente como fizeram meus dois primeiros críticos, isto é, “contestar-me”, não com dados do mundo real, mas pela transcrição de raciocínios tortuosos e torturados retirados de maneira acrítica da obra desse mestre irrefutável que seria São Marx.

Vejamos agora o que poderia constituir um oitavo “pecado dialético”, este bem mais pertencente ao universo metodológico dos exercícios acadêmicos, do que ao mundo concreto dos problemas que existem lá fora (e que constituíam o objeto real dos meus sete primeiros pecados, quais sejam: mercado, igualdade, democracia, Estado, direitos individuais, populismo e voluntarismo em lugar de ação). Eu chamaria este pecado de “desconstrução da realidade”, e ele também é típico de uma certa cultura, que não é necessariamente de esquerda (pois que igualmente partilhada por várias outras correntes de pensamento), mas é certamente típico do que poderíamos chamar de “cultura universitária”.

Este meu oitavo pecado da “desconstrução da realidade” poderia ser formulado da seguinte maneira: “quando você não consegue atingir de fato o objeto de suas preocupações, ou quando estas, por seu caráter externo à sua própria cultura e sua experiência concreta de vida, são inatingíveis pelas tradicionais ‘armas da crítica’, refugie-se na ‘crítica das armas’, ou seja, esgrime alguns argumentos de autoridade (Marx é imbatível nisto) que tendem a desqualificar os argumentos do seu oponente, ‘demonstrando’ como ele não consegue, de verdade, penetrar na sutil realidade dos conceitos etéreos que freqüentam sua própria realidade”.

Este tipo de raciocínio abstrato e obtuso é típico de uma certa cultura acadêmica ou universitária – não de toda, obviamente, pois a maior parte dos acadêmicos se pauta pelos velhos métodos baconianos e galileanos da prova empírica e da demonstração em laboratório –, daquela cultura que se move em torno dos livros, exclusivamente em meio a conceitos, teses, antíteses, sínteses e outras brilhantes “demonstrações” de sua própria irrefutabilidade. Daí a inanidade de eu sequer tentar refutar meu segundo crítico, Bruno Moretti, uma vez que ele paira nas alturas inatingíveis – para a maior parte dos estudantes cativos – dos Grundrisse de Marx, como se isso constituísse, em qualquer tempo e lugar, uma prova empírica de que meus “pecados” – agora em número de oito – sejam simplesmente descartáveis pelo fato de não se conformarem à suposta santidade, irrefutabilidade e intangibilidade de um tipo de pensamento, o marxismo abstrato da cultura universitária, repetido de maneira mecânica como se tratasse de um verdadeiro argumento ad hominem.

O pensamento marxista por certo constitui um dos mais importantes fundamentos da cultura universitária em qualquer tempo e lugar da moderna sociedade ocidental, especialmente neste tempo e neste lugar da nossa cultura universitária. Não preciso tampouco demonstrar esta afirmação, pois este “espaço acadêmico” é a prova (irrefutável?) do que digo. Mas, ele não pode ser tomado como alavanca abstrata de qualquer debate que se pretenda legitimamente conduzir nos cenáculos normalmente bocejantes de uma certa cultura universitária, aquela das ciências ditas “humanas”. Digo “bocejante” porque nestes meios cada um se move em torno de suas próprias preocupações conceituais, sem maiores cuidados com o mundo ao redor, como normalmente ocorre nas chamadas hard sciences, que precisam oferecer a demonstração cabal de suas afirmações (o teste em laboratório ou os dados do mundo empírico são barreiras intransponíveis a qualquer artigo publicável no mundo das ciências físicas e biológicas, o que normalmente não ocorre com os “produtos” das humanidades). É esta permissividade da “cultura acadêmica” – no mau sentido, por certo – que permite a “críticos” como meus dois oponentes pretenderem refutar meus “pecados” sem sequer arranhar um único argumento pertencente ao mundo real, apenas refugiando-se na suposta autoridade de São Marx.

Esse “desconstrucionismo da realidade” é particularmente grave, na medida em que ele não faz avançar minimamente o estado do debate sobre questões reais que foram colocadas em meu artigo e que estão na agenda de qualquer sociedade real e concreta, como a nossa. O Brasil se debate, neste mesmo momento, com questões cruciais de definição de políticas públicas: quanto de Estado ou quanto de mercado seria importante assegurar no “mix ideal” da política econômica; quanto de “igualitarismo” ou de “mérito pelo trabalho” deve ter a política setorial de redução das imensas desigualdades sociais que ainda caracterizam seu tecido societário; deve-se privilegiar os “direitos coletivos” em detrimento dos individuais?

Estes eram os problemas concretos – entre vários outros – que eu pretendi debater em meu ensaio sobre as “deficiências” da cultura da esquerda em sua equação e encaminhamento, e que não foram sequer tocados pelos meus dois críticos na suposta resposta a meu artigo. Como eles se movem na circularidade de seus próprios argumentos acadêmicos, é óbvio que não conseguiram ater-se aos dados da realidade, mas procederam à sua “desconstrução”, ao tentar contestar-me, não pela discussão dos problemas reais, mas pela repetição de velhos e surrados argumentos que remetem ao que Moretti sintetiza como sendo meus “equívocos de interpretação com relação ao pensamento marxiano”.

Para ser absolutamente sincero com o meu segundo crítico, não estou minimamente preocupado com equívocos ou não equívocos meus em relação ao pensamento marxiano, pois não acredito, e de fato não ocorre assim, na realidade, que esse pensamento (aliás passível de interpretações diversas) seja o centro unificador de respostas possíveis a problemas concretos da humanidade. Marx, de forma muito poderosa reconheço, ofereceu algumas respostas possíveis aos desafios da sociedade de mercado e do capitalismo de sua época. Ele foi genial em certas coisas, romântico e sonhador em muitas outras, e totalmente equivocado em várias outras, entre elas a concentração e a oposição irredutíveis de poder e de renda na sociedade de classes e as supostas tendências autodestrutivas do capitalismo.

As respostas oferecidas teoricamente por Marx e concretizadas canhestramente por Lênin são essas, conhecidas, a que assistimos na curta trajetória de setenta anos de ascensão e queda do modo de produção socialista. Mas, eu tampouco estou preocupado com o destino teórico dos modos de produção, capitalista ou socialista, que nos são oferecidos de modo involuntário nos supermercados da história. Minha preocupação era outra: a de demonstrar como a cultura de esquerda, sem aspas, está singularmente desadaptada – e meus críticos não conseguiram provar o contrário – para discutir problemas concretos da moderna sociedade capitalista (na verdade, de mercado, já que o capitalismo ainda está imperfeitamente realizado, como a trajetória incompleta do capitalismo “manchesteriano” chinês bem o demonstra). Eles se refugiaram em Marx e esqueceram a realidade lá fora (mas, enfim, todo mundo tem direito de viver seu pequeno mundo de ilusões).

Com tais exercícios de “desconstrução da realidade”, como esses realizados nas duas “críticas” que recebi a propósito dos meus sete (agora oito) “pecados dialéticos”, eu retomo minhas fórmulas latinas: QED e QEF. Acho que eles confirmaram, de modo cabal, tudo aquilo que eu queria demonstrar, e eles ficam nos devendo aquilo que deveria ser feito: a discussão concreta e direta dos argumentos sobre os “pecados”, não a repetição cansativa e bocejante de velhas afirmações de Marx sobre alguns desses problemas, que justamente estão na origem dos pecados que desvelei na cultura da esquerda universitária.

O debate continua aberto, mas acredito – ou pelo menos espero – que ele possa vir balizado, doravante, por argumentos concretos sobre problemas reais, que podem ser aqueles (ou outros) aludidos em meu ensaio original sobre os sete pecados (pouco) dialéticos da cultura (universitária) de esquerda. O que seria decepcionante seria ter, mais uma vez, frases recortadas de Marx, ou de algum outro autor (como Adorno e Horkheimer, do meu primeiro crítico), como substitutivos de um debate real. Talvez seja pedir muito de meus dois críticos, certamente dois jovens universitários ávidos por provar seu conhecimento de Marx e, dessa maneira, se qualificar no mercado universitário público.

Se ninguém se apresentar para contestar meus sete (agora oito) pecados da cultura da esquerda, talvez eu tenha de concluir pela impossibilidade de se ter um real debate de tipo acadêmico e formular, então, um nono “pecado”: o de que a esquerda é autista e só consegue circular no seu próprio terreno, o das frases importadas de São Marx, que são utilizadas como escudo (ou como lanças, dependendo do combatente), mas que, em nenhum momento, consegue escapar da sua “gaiola de ferro” conceitual para lançar-se ao terreno real dos problemas deste mundo, hic et nunc.

Este novo pecado, auto-infligido (como, aliás, quase todos os outros), eu chamaria de “auto-consumação”. Enquanto seus protagonistas circularem no universo universitário – aliás muito pouco universal, pois que restrito aos cenáculos das perorações unilaterais para um público cativo, normalmente isentas de contestações “de mercado” – não há nenhum perigo de choque com a realidade: os estudantes raramente contestam os professores e não há nenhuma sanção imediata, isto é, de mercado, aos argumentos absolutamente circulares que são esgrimidos nesse tipo de ambiente. Quando (e se) eles pretenderem sair para a realidade dos mercados, aí, sim, o retorno seria imediato: nenhum valor é realizado no mercado que não tenha algum comprador interessado. Duvido que as contestações dos meus críticos tenham qualquer valor de mercado no mundo das relações reais de produção e consumo. Mas, isto não chega a ser um problema para a cultura da esquerda: ela vive de seu próprio “auto-consumo”.

Por fim, e isto vale como uma retomada do debate inicial em meu ensaio original, todos os problemas factuais, metodológicos e substantivos, que eu tive o cuidado de apontar nos “argumentos” de meus críticos, têm muito pouco a ver com a esquerda, propriamente dita, uma categoria e uma classificação que eu não recuso absolutamente, à qual inclusive atribuo conotações positivas e à qual disse igualmente pertencer, pelo menos em intenção, alguns valores e propósitos sociais (maior igualdade distributiva, chances e oportunidades iguais para todos os membros da sociedade, justiça social como princípio, democracia efetiva, etc.). Os problemas, na verdade, parecem residir na “cultura” (ou falta de), ou seja, no aparato factual, conceitual e metodológico mobilizado para tentar alguma “explicação” da realidade. Acredito haver sérios erros de raciocínio, graves distorções metodológicas e importantes equívocos conceituais em muitos dos argumentos mobilizados pela esquerda para analisar, acolher e eventualmente atuar sobre algumas realidades refratárias às suas interpretações simplistas e simplificadoras.

Esses “enganos culturais” podem se referir aos “modos de produção” (concedamos essa forma provavelmente enganosa de organizar a diversidade dos sistemas produtivos), à natureza dos regimes políticos (que a esquerda pretende fazer cumprir determinadas funções, como a da igualdade, por exemplo, que não são e não podem ser as suas) e vários outros elementos da realidade contemporânea – como os mercados capitalistas (mas nem todos o são), a globalização assimétrica (ela sempre o será), a real igualdade de chances (sempre falha em alcançar todos os desprovidos de chances), etc. Não há soluções simples a muitos dos problemas sociais, políticos e econômicos com que nos debatemos, mas uma certa “cultura de esquerda” já decretou que os mercados, o capitalismo, a falta de democracia “real” e de igualdade “efetiva” são os suspeitos de sempre, devem ser declarados culpados e condenados no tribunal da história e, portanto, escorraçados do convívio humano para todo o sempre.

Olhando os registros históricos, até onde a vista alcança no passado e sobretudo o desenrolar de tragédias civilizacionais e humanas no último século e meio, não me parece que esses diagnósticos “condenatórios” de uma certa cultura de esquerda, como revelados nas críticas de meus dois opositores, por exemplo, possam se prevalecer de justeza prescritiva e de correção exemplar dessas iniqüidades sociais. Um pouco de modéstia analítica e tolerância em relação às críticas fariam bem a essa cultura, para ajudá-la, talvez a superar o autismo em que ela vive, para desgosto de seus muitos militantes bem intencionados.

Terminando, de verdade, desta vez, deixo mais uma provocação: o autismo não sou eu quem proclama, mas a própria esquerda que se inflige a si mesma. Uma prova?: quantas vezes, nos últimos dois séculos em que ela existe conscientemente, foi a esquerda colocada no poder de modo democrático, em países importantes, e por quanto tempo políticas econômicas ditas “de esquerda” prevaleceram no cômputo geral de políticas públicas? Outra prova?: quem se considera de esquerda pode afirmar, tranqüilamente, que o atual governo do Brasil aplica, de modo claro, uma política econômica de esquerda? Respostas tentativas podem ser dirigidas a este mesmo espaço acadêmico, por favor...

 

 

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