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Por
PAULO ROBERTO
DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil

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Um
intercâmbio acadêmico:
a
cultura da esquerda em questão
O
debate acadêmico é sempre bem vindo, porque necessário à dimensão
crítica do trabalho intelectual e mesmo indispensável para o avanço
da racionalidade, stricto
sensu, de todo e qualquer esforço analítico. A produção em
circuito fechado é freqüentemente autista e auto-enganadora. Por
isso, apenas posso saudar que este “espaço acadêmico” tenha,
pela primeira vez, acolhido uma legítima resposta a um de meus
artigos, no caso o texto de Robinson dos Santos, intitulado “‘Milk-shake’
indigesto ou sete equívocos de uma crítica à esquerda?: Réplica
a Paulo de Almeida”, publicado no número 48, de maio de 2005.
De fato não foi a primeira reação a texto meu – houve um caso
anterior de comentários a minha dissecação da ideologia
afro-brasileira, por acaso por um ítalo-brasileiro, como eu, o que
certamente não diminuiu em nada o valor dos argumentos –, mas
este foi o primeiro de modo explícito e direto. Como o editor
ofereceu-me a possibilidade de réplica à réplica, pretendo nestes
curtos parágrafos submeter o texto de meu comentarista a uma análise
de forma e de substância.
Dispenso
comentar o título, “milk-shake indigesto”, pois isto vai das
preferências gastronômicas de cada um, e prefiro ater-me ao
complemento: “sete equívocos de uma crítica à esquerda?”. O
ponto de interrogação significaria que ele, o crítico, não tem
certeza de que meu texto contém, efetivamente, sete equívocos ou
de que ele comporta uma crítica ao conjunto da esquerda? Confesso
que não sei ao certo e caberia a meu crítico esclarecer este
ponto. Retenho, portanto, o subtítulo, afirmativo, “Réplica a
Paulo de Almeida”, o que promete um confronto direto com cada um
dos “sete pecados dialéticos” que identifiquei na cultura de
esquerda. Teria a promessa sido cumprida?
Creio
que não, como pretendo demonstrar abaixo. Aliás, para minha
frustração, a réplica não tem por objeto os elementos centrais
de meu artigo, mas o que supostamente estaria por detrás de meus
argumentos, isto é, “recalque”, “verborragia” e outros
aspectos de uma dimensão psicológica que escapam largamente ao
objeto desta minha “tréplica”. Eu, sinceramente, preferiria um
debate sobre os “equívocos” dos pecados apontados, em lugar de
uma diatribe sobre as supostas intenções ou motivações do seu
autor. Aprendi, com Machado de Assis, que a obra deve ser julgada em
seu mérito próprio, colocando-se em segundo (ou terceiro) plano
quaisquer motivações de seu autor.
Para
que o leitor destas linhas tenha uma idéia do objeto de meu artigo
(intitulado “A
cultura da esquerda: sete pecados dialéticos que atrapalham seu
desenvolvimento”, EA
47, abril 2005),
transcrevo aqui o sumário dos “pecados” por mim identificados
(e discutidos):
1.
A esquerda é estupidamente anti-mercado.
2.
Ela é (falsamente) igualitarista.
3.
Ela se posiciona contra a “democracia formal”, preferindo a
“democracia real”.
4.
A esquerda é geralmente estatizante (o que é, realmente, uma
pena).
5.
Ela é anti-individualista, preferindo os “direitos coletivos”.
6.
Ela é tristemente populista e popularesca.
7.
Também costuma ser voluntarística e anti-racionalista.
Meu
crítico, Robinson dos Santos, promete apresentar os “sete equívocos
de uma crítica à esquerda”, mas confesso que não consegui
identificar onde estariam os supostos equívocos de minha crítica
à cultura da esquerda. Vejamos.
1.
A esquerda e o mercado
Meu
crítico diz que meu “texto procura estabelecer uma crítica mas o
alvo está confuso”. Meu primeiro alvo, esclareço, é o
preconceito contra o mercado ostentado em geral por pessoas que se
auto-intitulam de esquerda.
Robinson
não responde a meus argumentos, mas comete um dos mais sérios equívocos
que freqüentam a cultura de esquerda em nosso país (e em vários
outros também): confundir o mercado com o capitalismo. O erro é
elementar e eu não precisaria aqui dar a um colega acadêmico uma
lição de história ou de antropologia.
As
sociedades humanas possuem uma cultura material, feita de artefatos,
técnicas e procedimentos para a produção e a distribuição de
bens; sobre esse substrato se agregam instituições dos mais
diversos tipos, entre elas, a divisão social (no início, sexual)
do trabalho (ou seja, especialização), os mercados e as moedas,
que são espaços e meios de trocas que quase todas as sociedades
humanas conhecidas desenvolveram (com exceção das sociedades muito
primitivas, geralmente do paleolítico inferior). Apenas em seguida,
e de forma historicamente determinada, aparecem e se desenvolvem
modos específicos de produção, entre eles, o capitalismo (que
todos conhecemos e não preciso explicar o que é) e o socialismo
(atualmente em regressão, mas nenhum fator estrutural impede, em
teoria, seu renascimento e futuro desenvolvimento).
Confundir
mercado e capitalismo é, portanto, um equívoco monumental, que me
dispensaria de maiores comentários se o meu crítico não
pretendesse dar-me uma “lição”, ao afirmar, por exemplo, que
“se não houver igualdade ou eqüidade, esta liberdade (dos
mercados) é pura falácia”. Meu crítico não nega que os
mercados existam, apenas coloca, para que eles funcionem, condições
ou requisitos que não têm absolutamente nada a ver com a natureza
essencial dos mercados.
Mercados
são espaços abertos – pelo menos quando não são ou estão
regulados e controlados por alguma entidade política – nos quais
produtores e consumidores de bens e serviços comparecem para vender
o que produzem e comprar aquilo de que necessitam. Ninguém é
obrigado a produzir nada, nem ninguém é obrigado a freqüentar
mercados. Meu crítico, por exemplo, é perfeitamente livre para
refugiar-se no alto de uma montanha ou no fundo de uma selva e ali
viver em perfeito isolamento dos mercados de bens e serviços do seu
entorno mediato, mercados que, diga-se de passagem, não precisam
ser “capitalistas” ou “socialistas”, pois que podem ser,
simplesmente, de “subsistência”, isto é, pequenos mercados
locais, eventualmente baseados na troca ou no escambo direto,
voltados para o auto-abastecimento dos moradores da própria região.
Igualdade
e eqüidade não são, para ser claro, fatores pertinentes ao
funcionamento dos mercados, que podem conviver tranqüilamente com
desigualdades e mesmo muita iniqüidade. Liberdade, sim, é uma
condição essencial para o funcionamento adequado dos mercados,
isto é, a inexistência de barreiras à entrada e a disponibilidade
de bens alternativos, cuja compra será decidida segundo as preferências
do consumidor. Meu crítico, por exemplo, se for muito crítico da
“ditadura dos mercados”, pode escolher ficar fora deles, não
consumir nenhum bem, ou preferir fazer ele mesmo seus sapatos,
roupas, plantar e processar seus alimentos, etc. Se sobrar um pouco,
pode até vender no mercado.
Meu
crítico, para tomar um exemplo bem concreto, pertence hoje a um
mercado muito particular: o dos estudantes universitários, que
disputam vagas ou bolsas com outros candidatos, em concursos abertos
ou seleções fechadas; trata-se de um mercado como outro qualquer,
onde existe uma oferta e uma demanda, e no qual a procura costuma
exceder o provimento, seja de vagas universitárias, seja de bolsas.
Sua subsistência é também provista pelo mercado, ainda que ele não
queira reconhecer: como bolsista do Serviço Alemão de Intercâmbio
Acadêmico, atualmente na universidade de Kassel, ele recebe um
estipêndio que vem diretamente do mercado, via intermediação pública.
No caso, o Estado alemão recolhe do conjunto dos produtores
privados e dos consumidores uma série de tributos, que depois serão
destinados a diferentes serviços públicos, entre eles o de bolsas
universitárias, neste caso uma de cooperação externa. Ele pode não
querer reconhecer, mas trata-se do mais puro mercado, pois não há
outra maneira de o Estado se prover de recursos que não avançando
no bolso dos contribuintes ou no caixa das empresas. Em última instância,
toda criação de riqueza, em qualquer sociedade, vem dos agentes
econômicos diretos, isto é, do mercado.
Quando
nosso bolsista se formar, ele ingressará em outro mercado, ou em
mais de um. Ele pode querer ser um servidor público, trabalhar numa
universidade do Estado, por exemplo, com o que ele estará freqüentando
um mercado não capitalista. Ou, não sendo isso possível, ele vai
provavelmente trabalhar para alguma universidade particular, com o
que ele estará diretamente num mercado de tipo capitalista, o da
“indústria” universitária privada. Ele pode combinar as duas
coisas, como muitos fazem, e participará assim de mais de um
mercado. Em qualquer hipótese, ele terá de entreter relações de
mercado, se desejar sobreviver na moderna sociedade econômica que
é a nossa, predominantemente (mas não inteiramente) capitalista.
Ele também descobrirá, como já ensinou Braudel, que o capitalismo
é, em grande medida, um “anti-mercado”, mas para isso ele pode
recorrer aos três volumes de Civilização Material, Economia e Capitalismo (1979).
Não
consegui identificar, no resto de sua diatribe contra os meus
argumentos neste primeiro item, nenhuma outra contestação de minha
afirmação de que as pessoas de esquerda, em geral, têm
preconceito contra o mercado. De inteligível na sua prosa, retiro
esta outra frase: “Sabemos e experimentamos no dia-a-dia o que
esta liberdade de mercado ocasiona e de quanta miséria ela é capaz
de produzir diariamente, tornando pessoas, objetos, idéias, o
ecossistema em algo para o simples consumo e para jogar fora na próxima
esquina”.
Creio
que aqui também existe um problema de compreensão do meu crítico
sobre o que seja o mercado, suas funções e seus resultados. O
mercado, efetivamente, torna pessoas, objetos, idéias e produtos
naturais, desde que extraídos do “ecossistema” (isto é,
oferecidos em algum mercado), em “algo para o simples consumo”.
Isto é básico e mesmo essencial nos mercados, sendo o consumo sua
finalidade precípua, e se o meu crítico percebeu esta função ele
já fez um enorme progresso na compreensão do que seja um mercado.
Se o comprador ou consumidor em questão desejar jogar fora o seu
“algo”, “na próxima esquina”, isto é também seu direito,
como consumidor, esperando-se apenas que ele não polua o
“ecossistema”.
Quanto
à alegação de que a liberdade de mercado produz miséria
diariamente, trata-se de uma afirmação totalmente gratuita, que não
vem embasada em nenhuma prova empírica ou comprovação histórica.
Se mercados livres produzissem miséria, como quer o meu crítico,
as sociedades sem mercado, como são em geral as socialistas (Cuba,
por exemplo), seriam exemplos de riqueza e de prosperidade, e as
sociedades que mais são conhecidas pela existência de mercados
livres (qualquer uma da Europa ocidental e da América anglófona)
seriam sociedades insustentáveis, recheadas de miseráveis por
todos os lados.
Qualquer
economista de bom senso sabe, desde Adam Smith pelo menos, que
mercados livres tendem a produzir mais riqueza, mais, em todo caso,
do que os regimes baseados no mercantilismo, no socialismo ou
qualquer outra forma que busque dispensar a “mão invisível” do
mercado e pretenda organizar a produção e a distribuição de bens
e serviços segundo critérios alternativos, pela “mão visível”
do Estado, por exemplo. Se colocarmos numa tabela a duas colunas
exemplos de países com mercados diversificados e suas respectivas
rendas per capita, veríamos uma perfeita simetria entre dimensão e
amplitude dos mercados e renda disponível; a mesma relação existe
– com a ressalva para os grandes mercados internos, como os EUA e
o próprio Brasil – entre coeficiente de abertura externa, isto é,
participação do comércio exterior na formação do PIB, e renda
per capita. Isto é mais uma prova de que os mercados, capitalistas
ou não, produzem prosperidade.
Meu
crítico não diz, mas seria permitido supor, de suas palavras, que
a “não-liberdade” de mercado seria capaz de produzir a “não-miséria”,
ou seja, a prosperidade, a riqueza, ou seja lá que outro valor de
“não-mercado” seja útil e beneficioso aos membros ou
participantes desse sistema social baseado em mercados controlados
(o contrário de livres, portanto). Dou um exemplo imediato de um
desses mercados controlados, e não capitalistas: o dos professores
universitários da rede pública. Trata-se de um mercado fechado,
cartelizado, com inúmeras barreiras à entrada, funcionando,
portanto, com muito pouco estímulo à concorrência, salvo a do
tradicional “publish or perish” (mas isso é ainda muito pouco
usual entre nós). Grande parte da atual “miséria universitária”
provém, justamente da não liberdade desse tipo de mercado: as
universidades não têm qualquer autonomia para remunerar
condignamente aqueles que se esforçam, que dão aulas de qualidade
superior, que conduzem pesquisas relevantes etc. Ou seja, o
resultado prático é o contrário do que pretende o meu crítico,
com sua condenação da “liberdade dos mercados produzindo miséria
diariamente”.
Termino,
portanto, formulando um simples desejo ao meu crítico dos mercados:
o de que quando ele se formar, que ele possa aceder a um mercado
verdadeiramente livre, no qual poderá demonstrar seus talentos e
receber sua justa paga por isso. Do contrário, se preferir adentrar
no mercado cartelizado do mundo universitário público, ele já tem
uma informação perfeita sobre a remuneração que lhe espera.
Vejamos
agora os seis outros “equívocos” de que eu seria culpado.
2.
A esquerda é falsamente igualitarista.
Sinto
decepcionar os leitores, mas não encontrei, no texto de Robinson
dos Santos nenhum comentário sobre algum “equívoco” meu nesse
particular. Talvez ele queira aprofundar suas reflexões e voltar ao
ataque em outra ocasião.
3.
A esquerda não quer a democracia formal, preferindo a democracia
real.
Tampouco
consegui descobrir, nos muitos parágrafos de meu crítico, qualquer
comentário sobre este terceiro “equívoco” da minha parte. Fica
para a próxima ocasião.
4.
A esquerda é geralmente estatizante.
Idem.
É uma pena, pois que se trata de um dos temas mais ricos para
debate público, sobretudo porque a cultura de esquerda no Brasil é
exageradamente estatizante.
5.
Ela é anti-individualista, preferindo os “direitos
coletivos”.
Ibidem,
como se diz nas notas de rodapé. Já são quatro “equívocos” a
propósito dos quais, apesar da promessa, meu crítico se exime de
comentários ou desmentidos.
6.
A esquerda é tristemente populista e popularesca.
Aqui
meu critico retoma as armas da crítica e passa ao ataque, apontando
não um, mas vários “equívocos” da minha parte. Tendo eu
condenado a mania, muito freqüente em certos meios, de exaltar o
que é (ou que aparenta ser) “popular” e de denegrir o que é
supostamente de “elite”, quando não a própria, meu crítico
proclama: “Não sei onde ele leu isto ou constatou, mas não está
errado porque para qualquer cidadão só há motivos para condenar
mesmo as elites. Neste trecho, mesmo caricaturado, ele demonstrou
uma grande verdade.”
Pois
bem, ficamos nessa concordância, pois de resto não consegui
extrair de seu texto um só argumento contrário ao maniqueísmo
praticado em certos discursos anti-elitistas. Ele apenas discorda de
minha afirmação de que a esquerda é dominante no establishment
universitário. Diz ele: “A ‘esquerda’ só não é mais forte
porque o monopólio ainda está com ‘as elites’, as quais só se
preocupam em se fortalecer e se firmar pois querem um mundo só para
poucos enquanto ‘a esquerda’ quer um mundo para todos.” Não
sei bem a que tipo de monopólio ele se refere, mas em se tratando
de maniqueísmos, estamos muito bem servidos: as elites querem um
mundo para poucos, a esquerda o quer para todos. Era exatamente o
que eu queria demonstrar: o populismo aqui não poderia ser mais
explícito. Grato ao meu crítico por concordar comigo.
7.
A esquerda costuma ser voluntarística e anti-racionalista
Não
há um traço sequer de desmentido a qualquer “equívoco” meu
perpetrado sob esta rubrica, com o que temos que, dos sete pecados
dialéticos que eu perpetrei, só fiquei sabendo de dois “equívocos”
cometidos. O meu crítico, sinceramente, deveria reintitular seu
trabalho, pois dos sete “equívocos” prometidos, ele só se
ocupou de míseros dois. Faço a dedução, do cômputo global, de
cinco “equívocos” do seu título e fico esperando que ele
cumpra o dever de casa da próxima vez.
Ele
aborda, certamente, outras questões, como a da educação, mas dela
eu não fiz nenhum dos meus “pecados”. Tratava-se apenas de
comentários finais que eu fiz sobre a importância da educação
fundamental para a correção das tremendas desigualdades e enormes
iniqüidades que ainda caracterizam a sociedade brasileira. Eu
dizia, e repito, que a esquerda dá muito mais importância à educação
de terceiro ciclo, que é por definição elitista e restrita (a
despeito do nome “universidade”), do que à educação de base,
fator relevante na correção das desigualdades distributivas, como
sabe qualquer economista.
Escreve
o meu crítico: “Outro ponto do texto que merece nota é a crença
no poder corretivo da educação ou numa educação como fator de
ascensão social e econômica. Isso já está mais do que
ultrapassado e é uma grande ingenuidade. A educação, sem dúvida,
pode ser um dos fatores de mudança sócio-cultural, mas isolada é
pouco eficaz e só faz reproduzir a desigualdade.”
Não
se sabe bem o que significa “isolada” neste contexto,
qualificativo que costuma requerer algum complemento explicativo. Eu
gostaria de reafirmar minha “crença” – é bem mais do que uma
“crença”, pois eu me baseio em inúmeros trabalhos sobre
economia dos recursos humanos, mas concedamos esse ponto – de que
a educação é, isolada ou “contextualmente”, parcial ou
totalmente, relativa e absolutamente de uma importância crucial
para a capacitação profissional de todos os brasileiros, em
especial os mais pobres. O único fator que distingue países ricos
e pobres – eu insisto no “único” – é o diferencial de
produtividade do trabalho humano, fonte de toda riqueza social, como
já afirmavam, aliás, Adam Smith e Karl Marx, ambos aqui em
absoluta concordância teórica e prática. A educação é o fator
“isolado” mais relevante que explica o coeficiente de Gini no
Brasil, como já demonstraram inúmeros estudiosos (o último dos
quais Simon Schwartzman, em As
Causas da Pobreza. Rio
de Janeiro: Editora FGV, 2004, cuja leitura eu recomendo ao meu crítico).
Sinto
desmentir cabalmente o meu crítico, mas a educação é o fator
corretivo por excelência das desigualdades, com exceção, talvez,
das políticas setoriais diretamente redistributivas, mas a eficácia
de muitas delas deixa fortemente a desejar, por não atuarem sobre o
que Schwartzman chama de “causas estruturais da pobreza” e sim
sobre os seus efeitos. Creio que meu crítico deveria estudar
seriamente economia da educação, antes de afirmar, como faz, que
“sabemos que qualquer outro meio é
muito mais rápido e eficaz do que a educação para resolver tal
problema.” Essa afirmação é desmentida por qualquer
consulta, mesmo rápida, a estatísticas comparadas de renda per
capita e grau de educação formal. Basta comparar a Coréia do Sul
e o Brasil, por exemplo.
Meu
crítico, nessa mesma rubrica da falta de educação de base como
principal fator explicativo de baixa produtividade do trabalho
humano no Brasil, insiste ainda em apontar, não um equívoco, mas o
que ele chama de “contradição” em
meu texto. Para ele “O estado catatônico de improdutividade não
se deve à baixa qualificação das massas trabalhadoras, mas muito
mais ao vampirismo do capital e daqueles que sugam o sangue e a alma
do trabalhador.”
Estou,
como se diria, sem palavras: para um estudante de nível universitário,
aliás de pós-graduação, tal grau de panfletarismo me assusta e
me deixa mesmo estarrecido. Como é possível a um cidadão
relativamente bem informado, dotado das luzes da razão universitária,
repetir tal tipo de assertiva, que já não encontra mais guarida
nem nos panfletos de ultra-vulgarização da ultra-esquerda? Então
ficamos sabendo que o capital-morcego suga o sangue e a alma dos
trabalhadores e por isso, já antes de adentrar numa fábrica, eles
são mal formados e pessimamente educados, daí assim que seu nível
de produtividade no trabalho é baixo.
É
mesmo de ficar catatônico: então é isso que se ensina nos cursos
universitários? Minha impressão é a de que meu crítico, ainda
que bolsista do governo alemão, terá um baixo nível de
produtividade universitária, mesmo sem se submeter ao “vampirismo
do capital”, do qual ele parece ter horror (mas, se for trabalhar
numa universidade privada, prepare-se, pois terá o seu sangue e sua
alma sugados pelo capitalista universitário).
No
final, ele cobra bibliografia: “O autor fala ainda de ‘evidências
estatísticas e factuais’ que contrariam todos os problemas
apontados nas discussões do Fórum (Social Mundial), mas não
apresenta sequer uma.” Há uma vasta documentação sobre a marcha
da globalização nas últimas duas décadas, isto é, desde que o
socialismo deu dois suspiros e depois morreu. Eu me contentaria em
citar os “World Development Report”, anuais, do Banco Mundial,
mas concedo em que eles não são muito conhecidos na comunidade
universitária brasileira. Se meu crítico permitir, remeto a dois
trabalhos meus, livremente disponíveis, nos quais comento a
literatura mais recente sobre os efeitos da globalização, citando
relatórios, estudos econométricos e outras análises solidamente
embasadas em dados da realidade e dotadas de metodologia rigorosa:
eles podem ser lidos nos links www.pralmeida.org/05DocsPRA/1011VivaGlobaliza.pdf
e www.pralmeida.org/05DocsPRA/1297ContraAntiGlobaliz.pdf,
respectivamente.
Não
há mais “equívocos” a comentar, pelo menos que sejam
pertinentes aos meus “pecados”, mas tão simplesmente afirmações
soltas, ao início e ao final do texto do meu crítico, que prefiro
não abordar. Isso a despeito de que o meu crítico prometeu ser
leal com meus argumentos, escrevendo expressamente: “O intuito é
fazer aqui uma crítica tendo como base, exclusivamente, as afirmações
do artigo citado.”
Ao
contrário dessas intenções, meu crítico me cobra definições e
explicações que estavam deliberada e explicitamente ausentes de
meu texto, por razões de pura economia de espaço. Assim, desde o
início, meu crítico me cobra uma definição mais acabada de
“cultura” e de “esquerda”, que me eximi de fornecer por
julgar precisamente que “cultura de esquerda” era algo
suficientemente disseminado no Brasil – a
fortiori num veículo como a EA
– para me sentir obrigado a dar maiores explicações.
E
o que seria cultura para o meu crítico? Ele tampouco fornece sua
definição, mas se refugia em Marx: “Eu fiquei à espera
(novamente) de uma definição de cultura e de cultura popular neste
contexto. Ora, a cultura sempre foi na acepção de Marx um reflexo
das relações que estão na base de qualquer sociedade. Como a
sociedade está dividida em classes há realmente uma classe que se
arroga a decisão de dizer o que é cultura e o que não é segundo
seus critérios.”
Não
tenho certeza de que Marx achava que a burguesia ditava também a
cultura popular, mas não creio que esse ponto mereça maiores
considerações de minha parte. Tampouco pretendo comentar aquelas
invectivas de meu crítico que não tomam como base os argumentos
por mim explicitados no artigo sobre os “pecados dialéticos”.
Assim, passo por cima de expressões como “desqualificação do
oponente”, “o autor escreve cerca de onze páginas sobre um tema
que está apenas na sua cabeça, ao qual concretamente falta
realidade, existência”, “medo do enfrentamento sério do
tema”, ou ainda “Jogou tudo isso como que dentro de um
liquidificador e fez um ‘milk-shake’ bem ao gosto dos
liberais”.
Estou,
mais uma vez, sem palavras. Esperava “antíteses”, encontro slogans,
acusações pouco dialéticas, argumentos ad
hominem. O fato é que meu crítico pretendia demonstrar meus
equívocos e não tenho certeza de que conseguiu. Segundo ele:
“Este mix indigesto (isto é, meu artigo sobre os “pecados dialéticos”)
não só contém uma série enorme de simplificações e
reducionismos, como graves equívocos, lacunas e preconceitos. Na
seqüência procurarei demonstrar alguns deles.”
Sinto
contradizer o meu crítico, mas não consegui obter demonstração
de meus equívocos sequer para dois dos meus argumentos, quanto mais
para sete. Gostaria de ser contestado neste ponto puramente fatual e
objetivo: os sete equívocos prometidos não foram entregues e assim
só posso me sentir mal lido e mal comentado. Tudo o que eu peço,
sinceramente, é que meu crítico refaça o seu dever de casa e
apresente argumentos contrários de maneira sistemática como
tencionei fazer listando sete “pecados dialéticos”. Do contrário
eu vou achar que o que ele me serviu não foi um “milk-shake”,
mas uma sopinha rala e pobre, com alguns nabos boiando e um osso no
fundo.
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