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Por
PAULO ROBERTO
DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil

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Sumário:
1.
A questão das assimetrias de poder no sistema internacional
2.
O poder é a capacidade de projetar poder militar
3.
O poder econômico como a base real do poder na atualidade
4.
A evolução do sistema internacional desde a criação da ONU
5.
A questão da democratização do poder mundial: barreiras
estruturais
6.
O mundo está pronto para a democracia?
7.
O poder do império e o império do poder
8.
Um “modo inventivo de produção” na era imperial
9.
As delícias e glórias do poder: unilateralismo e arrogância
imperiais
1.
A questão das assimetrias de poder no sistema internacional
A
noção pura de assimetria se refere a diferenças estruturais, que
podem ser naturais ou adquiridas. No sistema internacional, o
conceito aparece geralmente associado a conotações negativas, que
se traduzem nos famosos diferenciais de poder político ou de poder
econômico que separam os países do mundo. Essas assimetrias
costumam dividir os países em um grupo restrito de nações
poderosas – as superpotências –, um outro grupo intermediário
de potências médias – que poderiam ser chamados de países
emergentes, aqui com diversas qualificações – e, finalmente, o
resto, isto é, países menores e sem grande peso na comunidade
internacional, em termos políticos, econômicos ou demográficos.
Não
parece haver dificuldade em se reconhecer o grupo de nações mais
poderosas do planeta. Elas são, obviamente, os cinco membros
permanentes do Conselho de Segurança da ONU, detentores, desde
1945, da responsabilidade última sobre a paz e a segurança mundial
(com a exceção de China, que só substituiu a China nacionalista,
hoje Taiwan, em 1971). Esse foro atuou de forma muito precária na
era da Guerra Fria, em função do direito de veto concedido a cada
um dos membros e da falta de cooperação política em diversos
conflitos regionais. Esse grupo também ostenta enormes assimetrias
entre si, sobretudo nos planos econômico e tecnológico, e
comportou conflitos inconciliáveis entre alguns dos seus membros,
mas o impasse militar foi de certa forma assegurado pelo chamado
“equilíbrio do terror”, imposto pelo domínio da arma atômica,
ou por alianças estáveis ou ad hoc, como no caso da OTAN e outros
arranjos especiais.
Esse
grupo pode e deve receber a agregação de pelo menos duas outras
potências reconhecidas, o Japão e a Alemanha, que não integram
(ainda) o foro mais importante da segurança internacional, devido
justamente ao cenário de 1945, mas que hoje constituem,
respectivamente, o segundo e o terceiro maiores contribuintes
financeiros do sistema da ONU, são membros fundadores do G-7 e
ativos participantes de missões humanitárias e de peace-keeping
da ONU. Eles não foram, e ainda não são, parte ativa em operações
de peace-making (aliás,
bem raras na história do CSNU) em virtude dos arranjos especiais pós-Segunda
Guerra que resultaram na diminuição de seu status militar e na
virtual tutela exercida pelos EUA sobre sua capacidade ofensiva.
2.
O poder é a capacidade de projetar poder militar
Quando
se pensa em assimetria de poder, se está pensando, portanto, nesse
grupo de nações poderosas no plano militar, no domínio econômico
e tecnológico e, sobretudo, na capacidade financeira de prestar
ajuda ao desenvolvimento e de tomar iniciativas no plano
multilateral. O poder, em termos primários, é sobretudo a
capacidade de projetar poder, isto é, ser capaz de empreender operações
militares em territórios distantes e de impor-se pela força sobre
quaisquer adversários. Os EUA são, a esse título, o único poder
verdadeiramente hegemônico da atualidade. Todas as demais potências
não são capazes de se confrontar a seu poder incontrastável,
salvo uma coalizão inesperada e virtualmente impossível no atual
cenário internacional.
Numa
segunda linha de poder relativo, poderiam ser colocados alguns países
que acederam ao domínio do poder nuclear, por razões
essencialmente regionais ou locais, e que podem vir a desempenhar um
papel importante no cenário internacional. Nesse grupo podem ser
colocados a Índia, verdadeira potência regional, e Israel, por
circunstâncias especialíssimas que não se reproduzem em outros
contextos. O Paquistão e a Coréia do Norte também possuem
capacitação nuclear, mas essa situação foi criada por cenários
de conflitos em suas respectivas regiões e persistem dúvidas sobre
a manutenção dessa capacidade no futuro de médio prazo, assim
como sobre sua capacidade de projetar forças além de seus
respectivos territórios.
Outros
países perseguiram no passado, ou ainda perseguem, a posse da arma
atômica, ou mesmo estão em condições de fazê-lo, se assim o
desejarem, mas sua capacitação depende de várias circunstâncias
nem sempre controláveis por eles mesmos. Estão ou estiveram, nessa
condição, o Brasil e a Argentina, no cenário sul-americano, a República
da África do Sul, na África subsaárica (que renunciou à sua
capacitação no momento de transição do apartheid para o regime
de maioria negra), a Líbia, mas de maneira muito incipiente, e o Irã,
de maneira mais ativa e ainda hoje. O Iraque tentou adquirir
capacidade nuclear ofensiva, sob o regime de Saddam Hussein, mas foi
oportunamente detido pela comunidade internacional, vale dizer,
pelos EUA. A esses países, poderiam ser agregados o Canadá, a
Alemanha e o Japão, que seriam capazes, se assim o desejassem, de
se dotar de armas atômicas em poucos meses, se houvesse decisão
nesse sentido.
Esta
é, portanto, um tipo de assimetria elementar, aquela baseada numa
certa capacitação militar, mas ela é, ainda assim, muito
diferenciada em função dos atores e de seus demais vetores de
poder primário, isto é, militar. Ela é importante, decisiva mesmo
num cenário de conflitos militares e de instabilidade político-militar,
mas ela não é a única, nem a mais relevante num cenário de
crescente interdependência global.
3.
O poder econômico como a base real do poder na atualidade
Aqui,
estamos agora falando de um outro tipo de assimetria, a que emerge
do poder econômico, da capacidade financeira, da participação nos
intercâmbios globais, a que está presente nas inovações tecnológicas,
que podem ter, obviamente, aplicações militares, mas que mais freqüentemente
implicam em renda extra conseguida dos demais membros da economia
internacional em função dessa liderança tecnológica.
Nessa
situação, os EUA ainda emergem como a potência hegemônica por
excelência, com cerca de 1/5 do poder econômico mundial, mas não
existe mais aqui, a capacidade de projetar poder como no sistema
militar. Apenas um exemplo: o PIB dos EUA é similar, grosso modo,
ao da UE, esta participa mais de trocas globais, mas os EUA têm
maior projeção financeira, uma vez que o euro ainda não se
fortaleceu como moeda de reserva internacional. Os EUA, por outro
lado, acumulam enormes déficits gêmeos, no seu orçamento e na
balança comercial, que têm de ser financiados com recursos de
outros países, em especial os da Ásia, que acumularam enormes
superávits de balanço de pagamentos na última década.
As
assimetrias econômicas não deveriam ter conotação negativa, pois
são elas que sustentam o padrão de trocas internacionais, uma vez
que o comércio e o intercâmbio tecnológico só pode ser feito,
justamente, com base nas assimetrias existentes. Assim, as alegações
contra as assimetrias no Mercosul não têm muito razão de ser,
pois são elas que sustentam a integração dessas economias,
segundo um padrão de especialização que já foi resolvido
teoricamente desde David Ricardo e não recebeu ainda desmentidos práticos.
Mesmo a chamada criação, politicamente induzida, de vantagens
comparativas dinâmicas, como registrado no caso da China, não
chega a desmentir os fundamentos da teoria ricardiana, uma vez que a
base da especialização e da competitividade está sempre presente,
baseada fundamentalmente em recursos humanos, seja de baixa capacitação
produtiva – como são os salários dignos do capitalismo
manchesteriano do século XIX – seja numa escala de maior
produtividade do trabalho humano, a partir da disponibilidade de
engenheiros e técnicos de boa qualidade.
O
centro do poder econômico mundial é constituído pelo chamado G-7,
que inclui potências econômicas não nucleares, como Japão,
Alemanha, Canadá e Itália, e que se transformou em G-8 apenas pela
adjunção da Rússia, em virtude justamente de seu poder militar,
embora bastante diminuída no plano econômico-financeiro (a Rússia,
aliás, não participa das reuniões exclusivamente financeiras do
G-7, mas pode ser convidada, agora também com a agregação da
China, a certas reuniões especiais).
A
esse grupo restrito de grandes potências econômicas, pode ser
acrescentado o chamado BRIC, Brasil, Rússia, Índia e China,
justamente potências econômicas emergentes ou efetivas. Desse
grupo, o Brasil talvez seja o menos capacitado do ponto de vista
econômico, já que a China já conforma, segundo certos critérios,
a segunda ou terceira maior economia planetária. Ela já era a
primeira economia do mundo, até o século XVIII, depois auto-excluída
do pelotão de frente por razões basicamente de ordem interna e
hoje emergindo novamente nesse pelotão de inovadores tecnológicos
e grandes comerciantes globais. A Índia e a Rússia também emergem
como grandes potências econômicas, em virtude de capacitações
abundantes em recursos humanos, no primeiro caso, em energia, no
segundo, o que lhes dá uma enorme influência no padrão de trocas
característico da interdependência global. O Brasil, nesse
contexto, possui certa capacitação em energia renovável e em
abastecimento alimentar, mas, sendo um global
trader ainda eminentemente modesto – com cerca de 1% do comércio
mundial – carece de poder econômico e financeiro para influenciar
verdadeiramente o padrão de trocas internacionais. Trata-se, sem dúvida,
de uma potência regional, mas sua capacidade de projeção externa,
econômica ou militar, ainda é extremamente modesta.
4.
A evolução do sistema internacional desde a criação da ONU
Depois
de uma primeira metade marcada por terríveis guerras que dizimaram
milhões de pessoas em várias partes do mundo, o século XX
assistiu, em sua segunda metade, à conformação de uma nova ordem
internacional fundada antes no direito do que na força bruta, como
tinha sido o caso até então. Na primeira metade do século XX, o
mundo assistiu a uma tentativa frustrada de multilateralização da
ordem política, a partir da criação da Liga das Nações, mas
esta nunca teve condições de efetivamente garantir a paz e a
segurança internacionais. Desde as invasões da Manchúria e da
Abissínia, pelo Japão e pela Itália no início dos anos 1930, em
menor escala no caso da guerra civil espanhola (que foi um conflito
essencialmente interno, ainda que envolvendo grandes potências
européias), mas sobretudo na tragédia da amputação da Tchecoslováquia
pela Alemanha nazista, em 1938, o sistema da Liga provou sua inoperância
e ineficácia para lidar com ameaças à paz ou com agressões
efetivas à segurança dos Estados, inclusive de países membros,
como era o caso da Abissínia (antigo nome da Etiópia) e da República
Tchecoslovaca.
A
ONU surgiu em 1945 para evitar uma repetição dessas tragédias, e
de certa forma o conseguiu, ainda que de forma apenas parcial e
limitada. A paz e a segurança internacionais não foram garantidos
pela ONU, que nunca chegou a dispor de uma comissão militar como
lhe autoriza a Carta de São Francisco, mas sim foram asseguradas de
fato pelo relativo equilíbrio do poder militar entre as grandes potências.
Não voltamos mais a ter guerras totais, tão destruidoras como
foram a primeira e a segunda guerra mundiais, mas tampouco
conseguimos estabelecer um sistema de plena segurança que seja
capaz de garantir um ambiente tranqüilo em todos os cenários
geopolíticos. Mas a falha aqui não incumbe tanto à ONU e sim ao
sistema de soberania absoluta segundo o modelo westfaliano, que
permite a existência dos chamados estados vilões, ou agressores.
No
início do século XXI, o sistema internacional ainda não constitui
uma ordem eqüitativa, segura e, sobretudo, estável, que garanta um
padrão de vida condigno a todos os habitantes do planeta, ou que os
coloque ao abrigo de possíveis ameaças de rupturas indesejáveis
nos domínios da ordem política, do bem-estar econômico e da
segurança pessoal. Ameaças latentes ainda existem, seja em termos
de garantias de paz, seja no terreno da democracia política, seja
ainda no estabelecimento de condições materiais mínimas para a
preservação de níveis aceitáveis de desenvolvimento humano, em
especial nos países menos desenvolvidos. Se o espectro de guerras
globais entre as principais potências parece felizmente afastado,
conflitos regionais, guerras civis, instabilidade econômica e política
e desigualdades sociais persistentes ainda constituem realidades
freqüentes no cenário atual, com uma incidência mais aguda nos
chamados Estados falidos.
Esses
problemas constituem a nova fronteira institucional e política do
início no novo milênio. O sistema internacional evoluiu
positivamente, ao longo do último meio século, no sentido da
construção tentativa de uma ordem política mais estável e previsível
e de uma arquitetura institucional tendencialmente mais democrática.
Esse sistema precisaria fazer, agora, novos progressos materiais e
organizacionais na direção da superação desses problemas
“residuais” – muitos deles de origem estrutural – que
afligem grande parte da população mundial. Um diagnóstico
realista das perspectivas que se oferecem nesse terreno indicaria
que o sistema de relações internacionais precisaria caminhar para
a construção de uma arquitetura política e econômica que possa
se basear na governança global e na democracia preventiva.
Como
sistema de governança global eu não proponho um sistema de
controle supranacional baseado na ONU ou qualquer outro órgão político
de caráter intergovernamental, mas sim um espaço de
desenvolvimento interestatal que leve em consideração as novas
realidades criadas pela globalização e as estenda a todos os países
do planeta, sem distinção de fronteiras políticas. A democracia
preventiva pode ser entendida como um sistema que ultrapassa as
restrições atuais da soberania absoluta dos Estados, realidade que
comanda um respeito total e irrevocável ao princípio da não-intervenção
nos assuntos internos. Ela significaria um processo coletivo de
tomada de decisões que tenha no respeito aos direitos humanos e na
adoção da forma democrática de governo os critérios básicos de
participação na comunidade internacional. A questão da
democratização do poder mundial constitui, portanto, uma fronteira
de trabalho que mereceria considerações de ordem histórica e de
natureza institucional, que me proponho agora abordar de forma
sucinta.
5.
A questão da democratização do poder mundial: barreiras
estruturais
Voltemos
por um instante à questão do poder, para colocar a questão de
saber se existe, ou não, um poder mundial que poderia ser
democratizado. Em minha opinião, não há poder
mundial, ou pelo menos não no sentido da sociologia clássica,
ou seja, uma autoridade legitimamente estabelecida, reconhecida
enquanto tal pelas partes constituintes de uma societas
universalis hipotética e dispondo, com o consentimento de todos
os representados, do monopólio do uso da força enquanto mecanismo
de cumprimento e sanção de normas estabelecidas
constitucionalmente.
A
ordem política identificada com o convívio harmônico entre
sociedades diversas, tal como acordado em Vestfália, nunca deixou o
plano regional para se projetar internacionalmente e, mesmo nesse
caso, não se tratava de um poder mundial visando à paz estável
como objetivo em si, mas tão simplesmente de um arranjo de convivência
e de mútua conveniência no quadro de uma difusa ordem superior
cuja legitimidade era dada pelos princípios cristãos mutuamente
compartilhados, aos quais aderiam, de modo diferenciado, os príncipes
reconhecidos da sociedade civilizada da época. Mencione-se, por
outro lado, os impérios com pretensão universal, na Ásia ou na
Europa pré-modernas, muito mais baseados na imposição de um poder
externo do que no consentimento dos governados.
Os
arranjos feitos em Viena, em 1815, depois renovados em Versalhes, em
1919, e novamente ao cabo da Segunda Guerra Mundial, entre um seleto
número de potências vencedoras, também entram na vertente histórica
da paz imposta, não uma negociada entre iguais. Sabemos,
entretanto, que a Carta de São Francisco contém princípios democráticos,
estabelecidos semi-constitucionalmente, dotados de pretensões à
legitimidade universalista. Também sabemos, porém, que ela convive
com uma realidade assimétrica, caracterizada pela existência de
alguns membros “mais iguais” do que outros, o que seria
dificilmente aceitável em qualquer ordem política legitimamente
estabelecida no plano nacional.
Em
outros termos, não há poder
mundial e, em conseqüência, qualquer intenção de democratizá-lo
seria tão inócua quanto impossível. Isso não quer dizer que não
haja um poder mundial de fato,
de tipo militar, econômico e até político, mas aí já seria
tarefa totalmente desprovida de validade heurística discutir os
fundamentos, condições e etapas de um processo de democratização
da ordem mundial, uma vez que tal poder de fato não está
identificada com o princípio abstrato da chamada vontade geral, que
toma inspiração em Rousseau. Esse poder
mundial de fato existe, é exercido na sua plenitude possível e
tem conseqüências para a maior parte dos habitantes do planeta,
que, incidentalmente, não decidiram, aberta e democraticamente,
pela extensão, limites e controle desse tipo de poder. Trata-se de
uma realidade histórica, não de um arranjo livremente consentido
entre os membros de uma mesma comunidade.
Existiria,
em contrapartida, uma “comunidade universal”? Talvez, na medida
em que o mundo vem sendo lenta e penosamente unificado desde as
primeiras viagens de Colombo até as últimas conquistas da
globalização, num processo desigual e descontínuo de avanços e
retrocessos que tem a ver com a força relativa de determinados pólos
da economia mundial e de certas civilizações particulares. A
“comunidade universal” se expressa em certos instrumentos de
validade aparentemente não questionada no plano mundial, como a
Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 1948. Entretanto,
pode-se perguntar se um instrumento moderadamente propositivo e
modestamente implementável como a Declaração de 1948, adotada em
circunstâncias que podem ser tidas como excepcionais no final da
Segunda Guerra Mundial, teria condições, hoje, de ter sido aceita
na forma como está, tamanhos são os condicionantes que se colocam
para a aceitação de novos instrumentos de promoção dos direitos
humanos, inclusive no plano do gênero e dos direitos econômicos e
sociais.
Em
face dessas ponderações, pode-se questionar se a democratização
do poder mundial (algo
inexistente a princípio, ou dotado de uma realidade muito difusa)
seria possível, realizável, imaginável ou simplesmente desejável.
Para não tornar a discussão muito abstrata, ou puramente
conceitual, vejamos quais seriam os componentes de uma ordem mundial
democrática para examinarmos em seguida como os atores relevantes
no plano mundial estão atuando para tornar aquele objetivo atingível.
6.
O mundo está pronto para a democracia?
Falar
de “atores relevantes” não é incongruente com o princípio
democrático, que tem como fundamento a teoria da representação,
ou seja, a delegação de poderes para a consecução de objetivos
socialmente desejáveis. Na sociedade moderna, esses atores
relevantes são os partidos políticos, as instituições de
interesse público, determinadas forças sociais ou morais, como as
próprias religiões constituídas ou as ONGs, cada vez mais
importantes no plano societal. No plano mundial, se trata dos
grandes estados (pois não há como deixar de reconhecer-lhes o
papel de atores relevantes no plano da política mundial), das
organizações intergovernamentais a vocação universal, a começar
pela ONU e suas agências especializadas, assim como as entidades de
interesse setorial ou de âmbito geograficamente restrito, a exemplo
dos blocos regionais, como a OEA, a OTAN ou o próprio Mercosul, sem
esquecer as ONGs, que também vêm adquirindo crescente relevância
universal.
Quais
são as bases do poder democrático no plano nacional? O exercício
do poder político geralmente em forma indireta, pelo mecanismo da
representação, mas segundo um sistema no qual o processo decisório
é assegurado segundo o princípio do voto majoritário, respeitados
os direitos das minorias. O poder da maioria, em todo caso, é
exercido segundo regras constitucionais mais ou menos detalhadas,
prevendo a divisão desse mesmo poder em função de competências
legislativas, executivas ou judiciais, com mecanismos de controle e
de limitação desses poderes setoriais. Quais são, ou deveriam
ser, os objetivos fundamentais de todo poder democrático digno
desse nome? A garantia da segurança individual, do respeito ao ser
humano e ao cidadão (o que compreende o livre exercício do direito
de expressão, de religião e de propriedade), a expansão contínua
das franquias democráticas e do bem-estar de todos os membros da
comunidade, o que implica a promoção de chances iguais para todos,
independentemente das desigualdades distributivas existentes
estruturalmente na sociedade como um todo.
Este
último elemento traz a tona um velho dilema da democracia, qual
seja, a tensão existente entre a liberdade política, base
essencial do regime democrático, e a liberdade econômica, que
determina a garantia sobre os direitos de propriedade, dos quais
derivam a acumulação e, portanto, a concentração de riqueza.
Ainda que alguns teóricos defendam a noção de democracia econômica
ou social, em contraposição ao que seria sua simples expressão
formal, de direitos e deveres iguais para todos, mesmo em face de
desigualdades distributivas derivadas da propriedade privada (a
chamada “democracia burguesa”), não parece ser missão da
democracia promover o igualitarismo, ainda que ela possa, e deva,
contribuir para a minimização das piores iniqüidades sociais que
emergem de forma natural no curso do processo histórico.
Em
todo caso, as desigualdades distributivas, nos planos nacional e
internacional, constituem um dos maiores e mais renitentes desafios
ao regime democrático, desde os tempos da antiga Grécia até hoje.
Um teórico como Milton Friedman argumenta, por exemplo (in Capitalism
and Freedom, 1962), que a história sugere que o capitalismo é
uma condição necessária, ainda que não suficiente, para o exercício
da liberdade política. Ele o faz com base na descentralização ou
atomização natural de poderes provocada pelos mecanismos de
mercado, o que reduz a amplitude de decisões que os governos têm
de tomar em bases puramente políticas e, portanto, sujeitas a
interpretações diversas quanto às “regras do jogo”. Não
precisamos entrar nesse tipo de debate sobre as virtudes dos
mercados livres e sua influência na constituição das sociedades
livres, mas apenas registrar esses vários elementos conceituais e
estruturais para organizar nossa própria discussão sobre a
democratização do poder mundial.
Vejamos,
portanto, como transpor esses princípios da ação democrática, do
plano puramente nacional, ou doméstico, para o âmbito mundial, ou
universal. A regra da maioria, em primeiro lugar, o que
significaria? Cada cidadão um voto, certo? Perfeito no plano
nacional, mas pensemos duas vezes na sua aplicação em âmbito
universal.
O
que existe hoje como “assembléia política mundial” não
corresponde ao “corpo eleitoral nacional”, mas tão simplesmente
a um “ajuntamento” de estados legitimamente reconhecidos no
plano mundial, alguns deles velhos de vários séculos, outros tão
jovens como Timor Leste, e cujo número total já passou hoje de 192
“entidades individuais”. No plano doméstico se exige que o
cidadão faça 16, 18 ou 21 anos para o pleno exercício das
franquias democráticas, o que é considerado um requisito de
maturidade política. Tal não existe no plano internacional e, uma
vez aceito no convívio da ONU, o mais jovem estado passa a votar
como qualquer outro membro fundador daquele corpo político.
O
mais importante não está aí, contudo, pois que o princípio de
cada voz um voto não tem a mesma equivalência nos dois planos. O
princípio da representação assegura a proporcionalidade ao exercício
do poder político, o que simplesmente não existe no plano
internacional. Tomemos apenas os dois países mais populosos do
planeta, China e Índia: combinados, eles têm uma população
superior àquela de mais de dois terços de países membros da ONU,
sendo alguns estados verdadeiramente minúsculos nesse aspecto.
Pode-se considerar democrática uma decisão que obriga, da mesma
forma, 2,5 bilhões de pessoas concentrados em apenas duas nações,
em face, por exemplo, de cem outros estados que não respondem por
10% desse número?
Assim
como o notável crescimento demográfico em países em
desenvolvimento representou tremendo desafio de incorporação
social para suas frágeis democracias, a expansão do número de
estados coloca um problema equivalente no plano mundial. No Brasil,
por exemplo, o incremento populacional redundou numa certa deterioração
das instituições públicas, notadamente no aspecto educacional,
com um processo de exclusão social daqueles cidadãos unicamente
dependentes das escolas públicas de primeiro e de segundo grau. O número
de países membros das Nações Unidas cresceu 370% desde 1945, para
algo superior a 190 Estados atualmente, o que coloca o terrível
problema do equilíbrio entre a participação e a eficácia.
Por
causa desse tipo de disparidade, determinadas agrupações
regionais, como a União Européia, por exemplo, resolveram
introduzir o mecanismo do voto ponderado no seu processo decisório,
objetivando levar precisamente em conta esse tipo de assimetria
demográfica e também o peso diferenciado das economias nacionais.
Aqueles que não se cansam de sugerir que o alegado “déficit
democrático” do Mercosul deriva da falta ou ausência de
institucionalidade, querendo isso significar a supranacionalidade ao
estilo da União Européia, já pararam para pensar que, em termos
equivalentes, o pequeno Uruguai tem uma população equivalente a um
bairro da cidade de São Paulo? Nesse caso, seria democrático que o
Uruguai exerça seu direito de veto sobre determinadas decisões do
Mercosul que podem ter, teoricamente, impacto sobre a vida de 170
milhões de outros habitantes nesse seu grande vizinho que é o
Brasil?
A
democratização do poder mundial é confrontada, portanto, a esse
enorme problema estrutural da representação democrática, e que não
tem absolutamente nada a ver com as assimetrias estruturais
derivadas da desigualdade na distribuição de poder militar e de
riqueza econômica no plano mundial, ou seja, intersocietal.
Poder-se-ia pensar numa representação proporcional em termos de
população mundial? Talvez, mas os problemas daí decorrentes
seriam tão ou mais complicados que aqueles hoje derivados da
assimetria de poder econômico entre as nações.
Observe-se
que nem todos os organismos internacionais atuam com base no princípio
democrático de uma voz um voto, o que, como vimos, deixa muito a
desejar em termos de representação efetiva. Daí a razão, por
exemplo, de determinados processos decisórios serem bem mais rápidos
em determinadas “sociedades por ações” como o FMI ou o Banco
Mundial – nas quais os sócios “mais importantes” detêm maior
poder de voto – do que na Assembléia Geral da ONU, conhecida por
seu processo lentíssimo de tomada de decisões, com o resultado
adicional de que nem sempre tudo o que foi decidido tem impacto ou
relevância real para a vida diária dos cidadãos dos países
membros. O processo decisório em organismos como o FMI e o BIRD é,
de fato, eficiente e rápido, mas seria ele democrático? Não no
sentido formal do termo, mas, como dissemos, se trata de sociedades
por ações, não de entidades igualitárias. Nesse plano, temos a
OMC, que é formalmente consensual, ainda que na prática nada se faça
contra os desejos ou interesses dos parceiros mais iguais, isto é,
Estados Unidos e União Européia em primeiro lugar.
7.
O poder do império e o império do poder
Se
traçarmos mapas estilizados das relações reais de poder e riqueza
no mundo, esses mapas seriam bastante diferentes de seus
equivalentes cartográficos ou puramente geográficos. Começando
pelo eixo vertical do poder, veríamos que o peso estratégico da
“massa atômica” dos EUA seria absolutamente descomunal em relação
à massa territorial e populacional desse país e que a distribuição
da capacidade efetiva das demais grandes potências em projetar
poder – isto é, levar a guerra a outros cenários – é
totalmente desproporcional, concentrada em favor dos mesmos EUA.
Ainda assim, nesse vetor, países como Rússia e China ainda
aparecem como competidores credíveis, ao passo que o Brasil, quinto
maior país do mundo em extensão e população, simplesmente
“desaparece do mapa”. Nesse eixo, apenas contam aqueles países
capazes de projetar poder, o que sempre foi apanágio dos grandes
impérios. Na atualidade, essa capacidade encontra-se totalmente
desequilibrada, em razão da supremacia de apenas um deles, na
verdade o único império remanescente da história da humanidade.
No
eixo horizontal do desenvolvimento, as assimetrias são igualmente
dramáticas, uma vez que “massas atômicas” relativamente
importantes como o Brasil, a Índia e a própria China, diminuem
significativamente se o critério se torna renda per capita,
registro de patentes e licenciamento de know-how próprio ou disponibilidade de comunicações e acesso à
Internet. Países pequenos como Uruguai ou Costa Rica, ou a minúscula
Cingapura, apresentam desempenho bem superior ao desses gigantes do
Terceiro Mundo.
Diferenças
estruturais à parte – e essas assimetrias vão estar conosco por
gerações ainda – o processo de democratização do poder
mundial, lento como era a despeito do peso dessas estruturas da
desigualdade, encontra-se sobremaneira dificultado em função do
novo cenário internacional que emergiu após o 11 de setembro de
2001, refletido na teoria da guerra preventiva e da ação
unilateral, como consubstanciada na chamada doutrina Bush. Trata-se
de uma nova explicitação política do Império, cuja essência
geral pode ser definida nos seguintes termos. Trata-se da única
superpotência hegemônica da atualidade, depois do afastamento do
outro competidor estratégico durante cerca de meio século, a
finada União Soviética. A superioridade tecnológica e militar
parece evidente e está revelada num simples dado bruto da
realidade: os EUA são único ator global da história da humanidade
que consegue projetar poder militar simultaneamente em diferentes
terrenos estratégicos em pontos distantes de seu próprio território.
Do ponto de vista econômico e financeiro, essa hegemonia é menos
evidente, mas ainda aqui um dado é revelador do diferencial de
poder entre os principais atores: o orçamento de defesa dos EUA é
superior à soma dos orçamentos militares de vários outros aliados
ou competidores estratégicos, a começar pela Rússia, China e os
principais países da OTAN.
Tal
disparidade – que pode ser classificada como “estrutural”, ou
seja, não é apenas quantitativa – tampouco tinha sido
manifestada historicamente em qualquer era anterior, provavelmente
desde os tempos da Pax Romana. O alegado poder naval absoluto da
Royal Navy, durante os tempos áureos da Pax
Britannica, não guarda senão uma pálida relação com a
presente situação de domínio incontrastável das forças armadas
dos EUA. Na origem de tal defasagem de poder de fogo encontra-se não
apenas a simples capacitação tecnológica – que poderia ser
eventualmente suprida no caso dos europeus ou mesmo, com um pouco de
imaginação e de “empréstimos involuntários”, no caso das
duas grandes economias em transição para o capitalismo – mas uma
organização superior de administração militar, que consegue
aproveitar ao máximo os ganhos de produtividade revelados em um
longo ciclo de crescimento econômico baseado em certa medida nas
virtudes inovadoras da “nova economia” (informação, comunicações,
processamento digital de insumos os mais diversos e combinando-os em
novos tipos de armas).
O
contraste entre o know-how
superior dos EUA em “levar a guerra”, quando comparado ao poder
militar apenas relativo dos demais competidores estratégicos, é
provavelmente devido à aplicação dos mesmos modelos
organizacionais e produtivos que determinaram, historicamente, a
preeminência de seu tipo específico de capitalismo desde o final
do século XIX e início do século XX. Nessa mesma época, talvez não
por acaso, um historiador naval americano, Alfred Thayer Mahan,
proclamava a superioridade do poder naval na condução das operações
militares. Hoje, Mahan estaria obviamente privilegiando a preeminência
do poder aéreo, como revelado na Guerra do Golfo e com maior ênfase
nas operações conduzidas no Afeganistão e no Iraque. Essa
superioridade aérea nada mais representa senão o poder econômico
concentrado dos EUA, sua eficiência relativa e mesmo absoluta no
confronto com os demais contendores do jogo estratégico.
8. Um “modo inventivo de produção” na
era imperial
Como
resultado de um desempenho econômico extraordinariamente bem
sucedido nos últimos dois séculos, os EUA desenvolveram um “modo
inventivo de produção” – para usar um conceito de extração
marxista – e o aplicaram com notável persistência e coerência
em sua própria arte de fazer guerra. A guerra não é concebida
como uma operação unicamente militar e nisso os EUA também são o
mais “aroniano” dos poderes modernos, no sentido em que os
soldados e os diplomatas trabalham de modo muito mais integrado do
que ocorre normalmente nos demais países. Nessa unidade de estratégia
e diplomacia reside o elemento decisivo da superioridade dos EUA em
relação a outros poderes.
Com
efeito, podemos mobilizar novamente o conceito marxista de “modo
de produção” para explicar as razões pelas quais os EUA
lograram construir a sociedade industrializada mais avançada do
planeta (ainda que não a socialmente mais moderna ou mais homogênea
em termos de repartição da renda), que continua a exibir um enorme
potencial de crescimento, embasado não necessariamente em seus
recursos próprios, mas na mais ampla e diversificada rede de
“captação de cérebros” do resto do mundo em favor do seu
sistema produtivo e de pesquisa básica. Isto pode ser comprovado,
por exemplo, por uma consulta às listas anuais de prêmios Nobel:
cada vez mais os nomes se referem a cientistas ou pesquisadores
estrangeiros trabalhando nos EUA, o que revela a força do brain
drain operado em favor dos EUA.
Nas
pegadas abertas pelos EUA em direção de uma sociedade desenvolvida
e “futurística”, outros países e grandes economias – como a
União Européia, a China, a Rússia, eventualmente o Brasil e a Índia
também – poderão eventualmente tornar-se núcleos hegemônicos
regionais, não da espécie militar, mas enquanto centros de poder
econômico e tecnológico, distribuindo bens, serviços e capitais
em redes interconectadas de cooperação e de competição. Esse
novo mundo interdependente exibirá certos traços “americanos”
no sistema produtivo, ainda que não no plano cultural ou ideológico.
Esse, certamente não de todo, “admirável mundo novo” não
conforma exatamente o padrão ideal de democratização do poder
mundial que gostaríamos ou desejaríamos ver surgir no cenário
internacional, ou que poderíamos legar a nossos filhos, mas é o
desenvolvimento possível que pode ser visto a partir dos dados da
realidade atual.
Por
mais contraditório que isso possa parecer, essas transformações
que vêm sendo implementadas de maneira unilateral – os sociólogos
adeptos do modelo barringtoniano de mudança social falariam de uma Revolution
von Oben, ou seja, pelo alto – representam uma das faces da
democratização contemporânea, uma vez que os EUA conformam
igualmente a mais democrática das sociedades modernas. O paradoxo,
justamente, é que esse processo de modernização-democratização
liderado pelos EUA não se restringe aos (ou não é contido pelos)
avanços materiais e inovações tecnológicas apenas. Trata-se,
antes de mais nada, de um modo de organização social, de uma
estrutura “societal”, o que significa: democracia, educação
contínua, estabilidade institucional e o conhecido rule
of law. Reproduzir esses traços é obviamente um pouco mais difícil
do que simplesmente importar (ou copiar) os produtos made
in USA ou, sobretudo, os processos inovadores modelados no
sistema americano.
Por
outro lado, o sucesso do processo de globalização conduzido pelos
EUA nos planos econômico e tecnológico contrasta com os percalços
da globalização que se tenta impulsionar nos planos político e
jurídico, aqui também em grande medida devido à ação obstrutora
dos EUA. Com efeito, a superestrutura política do direito
internacional público – uma construção que remonta a Grócio,
pelo menos – vinha (vem) sendo penosamente construída por todos
aqueles atores – estados, organizações, indivíduos –
sinceramente engajados na tarefa civilizatória de substituir o
direito da força pela força do direito, de colocar a solução pacífica
das controvérsias antes da justiça algo arbitrária dos poderosos.
9. As delícias e glórias do poder:
unilateralismo e arrogância imperiais
Essa
lenta construção do multilateralismo contemporâneo – que, aliás,
muito deve à visão progressista dos dirigentes americanos de
meados do século XX e seu compromisso com a arquitetura onusiana
então criada –, vem sendo ameaçada por uma série de atitudes
sucessivas da nova administração dos EUA que todas elas confirmam
uma relutância de princípio e uma recusa de fato em assumir novos
compromissos que redundariam, direta ou indiretamente, na diminuição
da margem de liberdade alocada aos EUA enquanto grande potência não
contida pelo direito internacional.
Naquilo
que é por eles considerado como essencial à segurança nacional,
os EUA atuam segundo um padrão unilateralista, o que e próprio de
todo poder hegemônico que não se vê limitado por qualquer outro.
Para todos os efeitos, os EUA dispõem do monopólio do poder no
plano mundial e se revelam indiferentes aos interesses e preocupações
de outros países, sobretudo se eles não representam alguma
utilidade do ponto de vista do próprio império.
Os
EUA detêm um poderio econômico e militar superior aos dos impérios
da antigüidade ou mesmo da era moderna. Essa hegemonia não
apresenta, porém, o mesmo caráter de ocupação e exploração
diretas como nos casos precedentes, podendo ser considerada como
relativamente benevolente. Trata-se de um imperialismo relutante,
mais preocupado com sua própria segurança do que com a “extração
direta” de recursos de sua vasta periferia, de resto mais virtual
do que real.
A
despeito, portanto, das demonstrações de arrogância imperial e de
unilateralismo na atualidade, vistos de uma perspectiva histórica
mais ampla, os EUA são, de fato, a mais poderosa força
transformadora da humanidade desde o início do século XX e assim
deverão permanecer no futuro previsível. Essas mudanças não se
conformam necessariamente ao padrão que gostaríamos de ver
prevalecer no plano internacional, isto é, um modelo vagamente
kantiano de paz durável e de respeito mútuo pelas soberanias dos
estados nacionais num quadro de democracias estáveis voltadas, não
para a afirmação de seu próprio poderio, mas para a cooperação
entre os povos e o desenvolvimento econômico e social. Pouco a
pouco, esse padrão mais kantiano emergirá gradualmente, sepultando
com ele os elementos mais brutalmente hobbesianos que ainda possam
subsistir no comportamento do Leviatã benevolente com que nos
confrontamos atualmente.
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