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Paulo
Prado e Monteiro Lobato:
a
crítica da interpretação - II
O
corpo, o trabalho, a língua: os espaços da varredura crítica
A
operação crítica que Paulo Prado e Monteiro Lobato procedem
assemelha-se a uma varredura crítica sobre os referentes que o símbolo
romântico recobriu, no Brasil, ao longo do século 19. Pretendendo
uma espécie de restituição da “verdadeira essência” desses
referentes, eles empreenderão uma verdadeira varredura sobre o
corpo, o trabalho e a língua do homem rural, no caso de Monteiro
Lobato, e do homem brasileiro, no caso de Paulo Prado.
A
repetição
Na
vida, no trabalho e na língua, quer do jeca quer do povo
brasileiro, tudo se repete, é sempre o mesmo, enfim, o império do
igual que se apresenta diante dos nossos olhos. Não existe um
cantinho da vida desses dois tipos que não foi recoberto pelo
movimento interpretativo da repetição, que dá impressão de um
eterno retorno existencial.
Esse
sempre igual, o retorno do mesmo, em diferentes tempos e diferentes
níveis da vida, apresenta-se, não apenas como um movimento de crítica
da interpretação mistificadora, como também uma necessidade
imperiosa da re-interpretação dessa realidade. “Rangel,
é preciso matar o caboclo que evoluiu dos índios de Alencar e veiu
até Coelho Neto – e que até o Ricardo romantizou tão lindo
(...)”,
propõe Lobato ao amigo. É preciso abolir a interpretação romântica
e afrancesada da elite e instaurar a interpretação naturalista.
Por
seu lado, Paulo Prado não é menos radical: “nesse
marasmo todo será necessário fazer tábula rasa para depois cuidar
de renovação total.”,
conclui depois da crítica que faz aos discursos, teorias, doutrinas
e práticas políticas que desvia a população da verdadeira imagem
do Brasil.
É
certo pensar que essa postura seja resultante da influência das idéias
deterministas e racionalistas européias e norte americanas, da opção
dos escritores brasileiros da época pelo realismo e pelo
naturalismo como alternativa ao romantismo desgastado, ou, ainda, o
descontentamento de determinados setores sociais com o regime
republicano.
Leituras
possíveis e procedentes, que podem até explicar por que Paulo
Prado e Monteiro Lobato interpretaram desse criticamente a realidade
brasileira. Mas que não podem dizer por que fizeram desse e não
daquele, abordaram esse e não aquele objeto, utilizaram essa e não
aquela estratégia narrativa. Enfim, não pode dizer por que eles não
se limitaram a criticar a realidade, mas foram mais longe: operaram
antes de tudo a crítica das interpretações deformadoras da
realidade como ainda reinterpretaram a realidade de modo a
apresentar novos objetos, outros conceitos e diferentes narrativas
no campo da literatura e do ensaio.
Entendemos,
outrossim, que uma análise relacional das diversas práticas
discursivas e não discursivas, bem como a descrição do campo
literário e intelectual da época possa apresentar-se mais
esclarecedora dos feitos e das obras de Paulo Prado e Monteiro
Lobato.
É
procurando descrever o campo discursivo, no que diz respeito à
dispersão dos seus objetos, dos seus conceitos, dos seus sujeitos
de enunciação, e do lugar de onde fala esse sujeito; bem da análise
das estruturas homólogas do social, da política e da literatura e
do pensamento que acreditamos encontrar elementos explicativos da
forma específica de pensamento e de escrita de Monteiro Lobato e
Paulo Prado.
Mas
retornemos análise da repetição em Velha Praga e Retrato do
Brasil. Neste, tal operação é visível na própria estrutura
maior do livro. Ele está dividido, excetuando o “Post-Scriptum”,
que entra como uma espécie de justificativa teórica, basicamente
em quatro partes: a luxúria, a cobiça, a tristeza e o romantismo.
Essas
quatro partes organizam-se de modo a operar a varredura crítica do
corpo, do trabalho e da linguagem do povo brasileiro na pretensão
de mostrá-lo, de ponta a ponta, reduzido às condições mínimas
de vida. Quer em sua materialidade orgânica, quer em sua atividade
produtiva, quer em sua linguagem o brasileiro não passa de um traço,
de uma linha, de um mínimo.
É,
por isso, que no que diz respeito ao corpo, veremos o brasileiro, em
meio à saga do descobrimento e da colonização, reduzido às
necessidades fisiológicas de satisfação do apetite sexual. Nas
palavras do autor, tudo conspirava para reforçar esse traço animal
que a todos contaminava:
“Mas
todos sofriam a sedução dos trópicos, vivendo uma vida animal e
bebendo com delícia um ar como que até então irrespirado.”
(...) O Clima, o homem livre na solidão, o índio sensual
encorajavam e multiplicavam as uniões de pura animalidade. (...)”
Na
atividade econômica, o fenômeno se repete. O brasileiro não passa
de uma insuficiência produtiva vivendo sempre de um progresso nômade
e passageiro. Como diz o autor:
“Apesar
do desenvolvimento agrícola em certas capitanias, culminando com várias
vicissitudes na exploração pernambucana e baiana da cana-de-açúcar
– e concomitantemente com o estabelecimento dos currais de gado
– o Brasil foi, entretanto, na lenda e na realidade, o país do
ouro e das pedras preciosas.”
No
corpo, no trabalho é sempre o mesmo que comparece no brasileiro. É
sempre a repetição quase neurótica do mínimo, do traço, da
caricatura que se afirma. Na vida não é diferente. Em meio à
sinfonia da natureza e da paisagem, diante da melodia ético-estética
dos vizinhos do Norte, apenas uma nota vibra na vida do brasileiro:
a nota da melancolia, da tristeza despotencializadora; fenômeno
resultante dos dois primeiros: a luxúria e a cobiça.
Segundo
o autor: “A história do
Brasil é o desenvolvimento desordenado dessas obsessões subjugando
o espírito e o corpo de suas vítimas”
Na
linguagem, ou melhor, na intimidade daquele que fala e escreve, o
elemento simplificador – mais uma vez, o traço - é o romantismo.
Que, além de dissociar a palavra da realidade das coisas, impregnou
no espírito do brasileiro sentimentos negadores da vida. A dor, a
tristeza, a melancolia, o pessimismo e a morte são os temas
recorrentes da estética e ética romântica.
Todavia,
é num extenso movimento circular, a reproduzir o mito do eterno
retorno, que a repetição da linguagem romântica se apresenta
entre nós. Assim denuncia o autor:
“Entre
nós, o círculo vicioso se fechou numa mútua correspondência de
influências: versos tristes, homens tristes; melancolia do povo,
melancolia dos poetas. A nossa primeira geração romântica já
fora triste, porque religiosa e moralizante, observou José Veríssimo;
na segunda, a tendência se acentuou pelo cepticismo e desalento dos
chefes da escola. Perseguia-os a idéia contínua da morte próxima
e, como a uma mulher desejada, lhe faziam versos amorosos.”
Como
vimos defendendo, o processo de varredura crítica do corpo, do
trabalho e da linguagem organiza as obras de Paulo Prado e Monteiro
Lobato. Apenas uma diferença se apresenta aí. Enquanto o primeiro
fala sempre do geral para o particular e deste de volta para aquele,
o segundo partirá sempre do caso particular.
Um
estuda o país, o outro o indivíduo, embora, notemos uma certa
confusão de planos: o país ganha características do indivíduo e
o indivíduo pretende-se extensivo ao país. “O
Brasil é uma jecatatuasia de oito milhões de quilômetros
quadrados”,
dirá Monteiro Lobato quase um ano depois de Velha Praga e Urupês.
No
Jeca, a varredura crítica começa pelo corpo. Mas não é a sua
morfologia física que é descrita. O jeca não é sistema orgânico
estruturado e estruturante, enfim, ser vivo reagente ao meio. É
antes uma simplificação postural. Assim ele é descrito:
“Porque
a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz,
formadora da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o
aborígine de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras,
incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna,
nada a põe de pé”
Essa
descrição do não-corpo do Jeca é retomada repetidas vezes ao
longo do texto, como que para mostrar que, a despeito do contexto em
que apareça, o caboclo será o eterno retorno do mesmo, do sempre
igual, do semelhante: “Nada
o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como
individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir,
acocora-se.”
Na
linguagem e no pensamento, o Jeca é também reduzido a uma quase
fala e a uma quase idéia. Nada nele tem materialidade quer física
quer sonora. Assim ele é descrito:
“Ei-lo
que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após
prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e
disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre
os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.
-‘não
vê que...’
De
pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não
de dizer coisa com coisa.”
No
trabalho, ele também não passa de um mínimo. Senão vejamos a
fala do cronista:
“Jéca
mercador, jeca lavrador, jeca filosofo... Quando comparece ás
feiras, todo mundo logo adivinha o que ele traz: sempre coisas que a
natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar
a mão e colher – cocos de tucum ou jissára, guabirobas,
bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas; ou artefatos
de taquara-póca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios
de caçador; ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõesinhos,
colheres de pau. Nada Mais. Seu grande cuidado é espremer todas as
conseqüências da lei do menor esforço – e nisto vai longe.
Reflexões
finais
A
nossa análise tentou mostrar como Paulo Prado e Monteiro Lobato,
comparativamente, transitavam no duplo do saber moderno. Por um
lado, eles entendiam que as palavras, as idéias, as teorias, as
ideologias e os discursos não davam conta da realidade, não
traziam uma verdade, que não passavam de interpretações que
estavam longe alcançar uma objetividade.
Falava
neles aí o hermeneuta, o crítico da interpretação que não vê
no campo do saber senão uma coleção de técnicas de interpretações
livres de hierarquias.
Por
outro lado, vão se apegar também à idéia de profundidade do
conhecimento e de densidade do objeto; idéia fundada pela
epistemologia moderna ao fornecer condicionantes externos ao
trabalho – produção -, à vida – biologia - e à linguagem -
filologia. Aqui não é mais o hermeneuta que fala em Monteiro
Lobato e Paulo Prado, mas o cientista que munido de um saber
objetivo vai esquadrinhar o objeto a procura da existência ou não
existência de evolução, de estruturas complexas, de memória.
Essa
varredura crítica será feita, por isso, no corpo, no trabalho e na
linguagem do caboclo, no caso de Monteiro Lobato, e do brasileiro,
no caso de Paulo Prado. Como o caboclo e o brasileiro que eles
estudam pertencem a um outro campo epistemológico, quiçá àquele
saber clássico das representações no qual as correspondências e
equivalências eram a chave para o entendimento do elo entre a
civilização e o homem primitivo, como pensou ou idealizou
Rousseau, então aqueles não vão encontrar nestes nada que
denuncie uma história.
Se
o corpo do Jeca e do brasileiro não estabelece uma relação ativa
com meio que o cerca; se o seu ser não está submetido à fadiga do
tempo de trabalho; se a sua linguagem não imprime no corpo das
palavras as tradições, a memória; então a sua existência será,
semelhante à natureza, reduzida pelo pensamento moderno à pura
repetição do sempre igual.
É
por isso que aos olhos de Monteiro Lobato e Paulo Prado o caboclo e
o brasileiro aparecerão, em todos os níveis da vida, como um mínimo,
um traço; dado a inexistência de uma relação vital com o entorno
e com o tempo, não possuem, eles historicidade que, para o
pensamento moderno, é o que tira o ser da inércia e o lança para
a vida.
Posto
isto, não fica difícil entender a estrutura circular dos textos Velha
Praga, Urupês e Retrato do Brasil; não vendo senão a repetição na vida do
Caboclo e do brasileiro nada mais adequado que traduzi-los
literariamente em termos do mito do eterno retorno. Pelo menos foi
assim que o pensamento moderno de Monteiro Lobato e Paulo Prado, e a
sua literatura recriou, pensou o homem e a realidade brasileira.
Por
outro lado, o pensamento deles também pensou, como vimos, a
desconfiança em relação à linguagem; desconfiança esta que os
levou, até certo momento, a pensar a realidade mais como produto de
múltiplas interpretações que uma revelação.
Mas
daí a transformar esse olhar múltiplo em discurso literário vai
um abismo que só seria mais tarde transposto por escritores
modernos como Mário de Andrade ou Guimarães Rosa.
Paulo
Prado e Monteiro Lobato, por ora, afiguram como essas poucas figuras
enigmáticas das nossas letras e da nossa cultura que se situam
entre o imperativo do fechamento e a promessa de abertura do
pensamento. O pensamento moderno ao qual se filiam colocou-os diante
dessa dualidade criadora e instrutiva.
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