O
“NÃO” francês ao projeto de Constituição Européia
Após
a inclusão de 10 novos Estados Membros da União Européia, foi lançado
um projeto de constituição, instituído por um novo tratado em via
de adoção. Tal projeto foi elaborado por uma Convenção composta
de 105 membros designados pelo Parlamento dos Estados membros, o
Parlamento Europeu, os Governos e a comissão.
Presidida
por Valéry Giscard d’Estaing, esta convenção trabalhou de
maneira intensa durante 18 meses para que, finalmente, o projeto de
Constituição fosse adotado em 13 de junho de 2003. Em 18 de junho
de 2004, o Conselho Europeu, composto pelos chefes de estado e de
governo dos 25 Estados membros, concordou formalmente com esse
projeto que contém algumas modificações propostas por uma Conferência
Intergovernamental (CIG). Finalmente, em 29 de outubro de 2004, o
projeto foi solenemente assinado, em Roma, pelo Conselho Europeu e
aberto à ratificação dos Estados membros antes que entre em
vigor, em 01 de novembro de 2006.
Entretanto,
as coisas não estão se passando bem assim. No dia 29 de maio de
2005, o “não” prevaleceu nas urnas francesas, com uma vitória
de 54,86% sobre o “sim”. Ambíguo por natureza, o referendum é
um escrutino cujo resultado é, sempre, delicado a interpretar. Tal
assunto, agravou a situação, fazendo com que os eleitores
demorassem a manifestarem-se contra. Porém, podemos afirmar que o nível
de participação eleitoral foi satisfatório, ou seja, 70%.
Várias
são as razões alegadas para que o resultado fosse esse, entre os
quais, os mais comuns eram que o “sim” desencadearia uma guerra
econômica, sendo que a intenção prioritária seria de ordem econômica;
que seria uma Constituição totalmente liberal, e os mais
tradicionalistas citam a presença de casamento de homossexuais e de
liberação para pesquisas terapêuticas com clones, etc.; e um
esvaziamento europeu de conteúdos e valores.
No
entanto, o que podemos constatar, e que chegou a unificar ricos ou
pobres, católicos ou soberanistas, partidários da direita ou da
esquerda, foi claramente, a aversão ao Governo atual. O povo votou
contra o desemprego, contra as leis que defendem “somente os
ricos”, contra ao cinismo de Jacques Chirac que, segundo eles,
afastou-se do povo e não mantém suas promessas. Foi um voto de
revolta, de protesto, muito mais do que um “não” à União
Européia.
O
efeito foi razoável: na manhã seguinte, dia 30 de maio, o Primeiro
Ministro, Jean-Pierre Raffarin, demissionou-se, alegando que durante três
anos, tentara fazer muita coisa e pouco conseguira. Agora o povo
estava lhe mostrando isso. O ministro do Interior, que é, também,
membro da Convenção que elaborou o projeto de Constituição,
Dominique Villepin, assumiu em seu lugar, a partir do dia 31 de
maio.
O
que o povo queria, de fato, era que Jacques Chirac tivesse pedido
sua demissão. Isso não parece muito evidente, mas, mesmo a
imprensa estrangeira afirma que acabou-se a era chiraquiana, e que
certamente, ele não brigará por um terceiro mandato. Em
contrapartida, Nicolas Sarkozy, atual presidente do partido UMP (Union
pour un Mouvement Populaire – União para um Movimento Popular)
também adepto do “sim”, candidatar-se-á, certamente, com
grandes chances de chegar à presidência.
A
Europa do leste declara que os resultados do referendum
desencadearam um “tremor de terra” na escala Européia; e que
tal decisão é uma prova de fraqueza da Europa e, particularmente,
da França. Nos Países Baixos, o “não” francês, devido ao seu
poder de decisão, significa que os próximos a votarem
pronunciar-se-ão em relação a algo que não existe mais.
O
destino da Europa e da França está para ser definido, ainda não
se sabe que rumos tomarão. Se Chirac deixará a presidência ou
continuará até o final, se Sarkozy será o próximo presidente, se
o povo, com o poder do esquecimento, continuará a apoiar Chirac
daqui a uns meses. Enfim, a Europa está num período de decisões,
e cada Estado membro é responsável pelo seu futuro. O furacão do
referendum passou pela nação francesa e seguiu a outros responsáveis.
Aguardemos, assim, a avaliação das perdas e danos, esperemos a
decisão final.
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Fonte:
www.lefigaro.fr
www.europarl.eu.int/paris