Para
Uma Réplica Inviável
Lendo
o artigo de Paulo Roberto de Almeida, na revista Espaço Acadêmico,
“A
cultura da esquerda: sete pecados que atrapalham o seu
desenvolvimento”, publicado no mês de abril de 2005, logo
vem à tona um questionamento: como responder ao artigo de um
autor que se dispensa de oferecer explicações a respeito do
significado do objeto de seu texto? “Faço parte daquilo que
poderia ser classificado, à falta de melhor definição, como
“cultura de esquerda”, algo suficientemente disseminado no
Brasil para obrigar-me aqui a maiores elaborações sobre seu
conteúdo específico. Talvez eu devesse dizer que pertenço hoje
bem mais à “cultura” do que à “esquerda” (ALMEIDA,
2005).
A
perplexidade é tamanha que, acompanhando o artigo “Milk-shake
indigesto ou sete equívocos de uma crítica à esquerda? – Réplica
a Paulo de Almeida”, de R. Santos, na edição
seguinte da mesma revista eletrônica em que P. Almeida elaborou
suas sete teses contra a cultura de esquerda (embora não saibamos
o que isso quer realmente designar), constata-se a mesma percepção:
“Em primeiro
lugar, tratar de algo ao qual falta uma definição, é vago e
impreciso e, assim sendo, será algo impossível de ser
disseminado uma vez que não se sabe bem o que é ou do que se
trata. O autor parte de uma premissa como dada sem demonstrá-la
concretamente e se auto-dispensa de tal tarefa. Em outras
palavras, o autor escreve cerca de onze páginas sobre um tema que
está apenas na sua cabeça, ao qual concretamente falta
realidade, existência” (SANTOS, 2005).
Logo,
não apenas pelo inglório exercício de oferecer críticas a um
texto cujo objeto se encontra exclusivamente na cabeça de seu próprio
autor, mas também pelo fato de já ter sido o exercício
realizado por Santos, o presente artigo não constitui
propriamente uma réplica a P. Almeida, mas parte de sua primeira
tese, demonstrando simultaneamente suas implicações (a
naturalização da sociedade burguesa), bem como os equívocos de
interpretação com relação ao pensamento marxiano, em
particular, as origens de sua valoração negativa do mercado.
A
primeira tese de Almeida é de que a esquerda é estúpida na crítica
aos mercados, que são – somos informados pelo nosso autor - indispensáveis
e insubstituíveis, “já que permitem operacionalizar, na prática,
a velha lei da oferta e da procura, sinalizando o encontro de
produtores e de consumidores, mediante esta outra instituição
intangível, mas tremendamente real, que se chama “preço”
(ALMEIDA, 2005). Sabemos, logo após a passagem citada, que não
apenas mercados possuem os referidos atributos, mas que sua crítica
pela esquerda se deve a uma “contaminação” por Marx, que,
tomando o excesso de demanda no mercado de trabalho inglês no século
XIX, teria, generalizando o argumento, prescrito a prática política
dirigida à dissolução dos mercados, um erro fatal, pelas já
razões já aludidas.
Daqui
em diante, procuraremos restabelecer alguns traços essenciais do
pensamento de Marx, desmistificando a interpretação de P.
Almeida, bem como assinalando suas implicações. Primeiro, Marx,
em vários momentos, expressou sua crítica aos clássicos da
Economia Política no que diz respeito à naturalização da
sociedade burguesa. O projeto de Marx esteve profundamente
vinculado à investigação das condições que permitiram a emergência
das relações sociais capitalistas na produção, tomadas como
produto histórico, e não como ponto de partida da história.
Marx compreendia como um traço constante da vida social o fato de
que ela se caracteriza por ser produzida por sujeitos humanos.
Contudo, o agir humano, dirigido a finalidades (e que, portanto,
atribui valor), é viabilizado pela precedência de determinações
sociais, que têm existência objetiva e fornecem aos sujeitos as
condições de sua ação, ou, em outros termos, o leque de
alternativas concretas que amparam o agir. O agir se dá sempre
com base em determinações sociais preexistentes, podendo modificá-las,
reproduzi-las, etc. Em síntese, compreender Marx pressupõe
capturar a simultânea historicidade e objetividade de determinações
sociais, predicadas a (pressupostas pela) pela agência humana
intencional. Em particular, parece interessar a Marx investigar
como a produção social toma a configuração histórica de
acumulação de capital e, em sua forma imediata, produção de
mercadorias.
A
objetividade da sociedade, conjugada com sua historicidade, nos
remete à vindicação da existência de algum sentido no
desenvolvimento do ser social. Em razão desta proposição não
se deve atribuir a Marx a qualificação de autor teleológico
(isto é, que supõe um telos para o qual necessariamente
converge o movimento da sociedade), pois o sentido histórico deve
ser entendido como tendência resultante das legalidades
predicadas ao movimento da sociedade, mas que, importa frisar, são
ativadas (ou não) pelas escolhas exercidas por sujeitos que, com
base em alternativas concretamente postas pelo desenvolvimento
social, agem finalisticamente, com efeitos, jamais dados ex
ante, sobre as determinações sociais pressupostas.
Esclarecido
o ponto, passemos ao tal sentido tendencial: segundo Marx, as relações
pré-capitalistas estão fundadas na dependência pessoal
(comunidade antiga, relação patriarcal, feudalismo, etc.),
envolvendo, pois, uma sociabilidade pouco desenvolvida. O nexo
social dos sujeitos está vinculado a laços pessoais. A dissolução
destas relações implica o desaparecimento dos nexos de dependência
pessoal, da sociabilidade esporádica, com o que emerge, como
resultado da agência humana, a sociedade burguesa, que põe/pressupõe
a troca desenvolvida como relação fundamental entre os sujeitos
humanos. Trata-se, então, de uma sociedade cuja produção
material se objetiva em valores de troca, expressos em dinheiro, e
na qual, por essa razão, a produção social toma, na superfície,
a configuração histórica de mercadoria. Assim o produtor já não
produz para si, mas para o mercado, no qual seu produto deve se
transfigurar em dinheiro. Resulta daí um sistema social em que há
dependência recíproca dos produtores e que, por isso, implica a
ampliação dos vínculos sociais, sistemática oposta àquela em
que vigiam nexos sociais fundados na dependência pessoal.
Ocorre
que, nestas relações de dependência mútua, a determinação
social do valor de troca se manifesta aos sujeitos, proprietários
privados, como necessidade do outro, meio que viabiliza a referida
transfiguração da mercadoria. Logo, se, por um lado, os vínculos
sociais são universais, já que são reproduzidos pela
necessidade imanente da realização do valor de troca, por outro,
esta reprodução está vinculada ao entrechoque involuntário de
indivíduos proprietários. Em síntese, a extensão dos nexos
sociais não resulta da deliberação dos sujeitos neles imersos,
mas da imposição da própria objetivação da atividade. São os
sujeitos, portanto, postos pelo valor de troca.
Este
sistema supõe, portanto, a dependência recíproca e indiferença
dos sujeitos, bem como a independência dos nexos sociais frente a
estes. Instaura-se, desta maneira, uma forma histórica de produção
social que submete os sujeitos a uma sociabilização sem
precedentes, ao mesmo tempo que os torna indiferentes. Esta dialética
de expansão e indiferença se origina de ser o nexo social,
resultante do entrechoque não-intencional dos indivíduos,
mediado pelo valor de troca. Com isso, é a objetivação do agir
humano na produção social – valor de troca – que impõe esta
sociabilização dilatada. Os produtores são postos pelo produto,
objetivação coisificada de sua atividade laboral. Logo, a
dissolução dos nexos sociais de dependência pessoal dá origem
à dependência objetual – ao controle dos sujeitos por aquilo
que constitui o resultado de sua práxis.
A
indiferença dos indivíduos é expressão na consciência do modo
como se manifestam determinações sociais aos sujeitos que nelas
vivem implicados. Sujeitos sociais têm, como pressuposto de sua ação,
de tornar inteligível sua vida social, e quando o nexo social não
se constitui como resultado da interação pretendida de sujeitos
humanos, mas a estes aparece como necessidade externa, à qual têm
de responder, a reprodução das referidas determinações só
pode se dar enquanto dependência e indiferença mútua dos
sujeitos a estas. “Somente ao chegar ao século XVIII, com a
sociedade civil, as diferentes formas de conexão social aparecem
ao indivíduo como simples meio para lograr seus fins privados,
como uma necessidade exterior. Todavia, a época que gera este
ponto de vista, a idéia do indivíduo isolado, é precisamente
aquela em que as relações sociais chegaram ao mais alto grau de
desenvolvimento alcançado até o presente” (MARX, 1989: 4).
Assim
sendo, Marx, tomando as relações sociais na produção material,
busca capturar algum sentido do referido movimento, que passamos a
resumir: Primeiro, segundo o autor, vigem formas sociais nas quais
os vínculos humanos são esporádicos, predicados à dependência
pessoal; uma vez dissolvidas tais formas, emergem determinações
sociais na produção que implicam a dependência mútua entre
produtores (e, junto a ela, a divisão social do trabalho
desenvolvida e a troca enquanto relação fundamental), mas também
sua indiferença enquanto produtores privados de valores de troca.
A sociabilização, devido à dependência mútua, embora
dilatada, aparece aos sujeitos como “fatalidade”,
coercitividade que lhes impõe a necessidade inequívoca do outro,
na forma de meio para a realização da sua atividade produtiva
objetivada em valor de troca (estamos falando, é claro, de compra
e venda de mercadorias). Por conseguinte, a dependência pessoal dá
lugar à liberdade formal (supressão dos vínculos de dependência
pessoal), que nada é, contudo, além de manifestação da dependência
objetual, do vínculo social reificado, expresso como valor de
troca.
Do
que até aqui fora discutido, extrai-se uma legalidade do
movimento da sociedade: o aumento do grau da sociabilidade humana.
A emergência da sociedade burguesa implica a generalização de vínculos
sociais, embora estes não sejam controlados pelos sujeitos
humanos. É claro que seria impossível vislumbrar um sistema de
metabolismo universal, fundado nas necessidades coletivas, se os
nexos sociais são apenas embrionários. Resulta daí a apreensão,
por parte de Marx, de uma tendência no desenvolvimento do ser
social: uma vez dilatados os laços sociais, Marx teoriza sobre a
possibilidade de emergência de um sistema de relações
universais não mais alicerçado na dependência objetual. Em síntese,
criados os laços sociais, um terceiro estágio consistiria do
controle destes laços pelos sujeitos, o que demandaria a dissolução
da troca enquanto relação fundamental. Trata-se aqui da supressão
do mercado enquanto esfera de socialização fundamental, ou, dito
de outro modo, da ruptura da cisão entre privado e coletivo
(produto histórico da sociedade burguesa), da qual resulta a
dependência objetual. Por conseguinte, a apreensão marxiana do
caráter objetivo e transiente da sociedade leva o autor a
estabelecer como tendência a emergência, viabilizada pela
sociedade burguesa, de um sistema fundado no desenvolvimento
universal dos indivíduos, que subordinam sua produtividade social
como patrimônio coletivo (MARX, 1989: 85), controlando seus próprios
vínculos sociais.
A
sociedade burguesa, pois, corresponderia apenas a um estágio de
desenvolvimento nas relações sociais na produção, que tomam a
configuração histórica de produção destinada à troca. “O
nexo é um produto histórico dos indivíduos. Pertence a uma
determinada fase de desenvolvimento da individualidade. A
autonomia com que esse nexo existe frente aos indivíduos
demonstra apenas que estes ainda estão em vias de criar as condições
de sua vida social em lugar de havê-la iniciado a partir destas
condições. É o nexo criado naturalmente entre os indivíduos
implicados em condições de produção determinadas e estreitas
... é absurdo conceber esse nexo como criado naturalmente,
inseparável da natureza da individualidade e a ela imanente”
(MARX, 1989: 89).
Retomando
o início do artigo, o absurdo a que Marx faz referência – a
naturalização dos vínculos sociais “coisificados” – é
praticado por P. Almeida, por exemplo, quando afirma que
“mercados são não apenas indispensáveis como insubstituíveis,
já que permitem operacionalizar, na prática, a velha lei da
oferta e da procura” (ALMEIDA, 2005). P. Almeida concebe o nexo
social estranhado como “insubstituível”, algo como uma
estrutura irrevogável. Assim fazendo, toma como naturais vínculos
sociais estranhados, que põem/repõem a dependência objetual dos
sujeitos sociais; o faz, cabe o acréscimo para finalizar, em
circunstâncias nas quais a sujeição dos sujeitos a seus próprios
nexos sociais se expressa, depois dos trinta anos gloriosos do
capitalismo fordista, numa configuração atual do mundo social em
que o capital, desregulado e flexível, circulando livremente
mundo afora (em particular, na esfera financeira), rifa massas
crescentes de sujeitos humanos tomados como descartáveis pela
modernização, ao mesmo tempo que impõe formas de trabalho
degradantes (informais, terceirizadas, etc.), resultantes, para
acompanhar a moda apologética, da “reengenharia social” em
voga. Isto, é claro, em nome do mercado, “indispensável” e
“insubstituível”.