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Por JOSÉ DE SOUZA MARTINS
Professor titular
aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
e fellow de Trinity Hall e professor titular da Cátedra
Simon Bolívar da Universidade de Cambridge (1993-1994). Foi aluno
de Octavio Ianni na USP (1961-1964) e seu colega na antiga Cadeira
de Sociologia I, de Florestan Fernandes. Dentre outros livros,
autor de Florestan - Sociologia e consciência
social no Brasil, Edusp - Editora da Universidade de São
Paulo/Fapesp, São Paulo, 1998 |
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Educação
rural e o desenraizamento do educador
P
- No Brasil ainda há um grande movimento de migração da zona
rural para as cidades?
R
– No Brasil, é necessário ter cautela na definição de cidade
como lugar de destino de populações originárias do campo.
Conheci, na Amazônia, na época mais intensa e crítica da expansão
da fronteira agrícola, povoados com mais de dez mil habitantes,
casas de adobe ou pau-a-pique, sem nenhuma característica
propriamente urbana, nem instituições urbanas, cuja população se
dedicava, na quase totalidade, à agricultura. E normalmente se
considera um aglomerado humano de cinco mil pessoas como localidade
urbana e seus moradores como migrantes que se deslocaram do campo
para a “cidade”.
Os
especialistas brasileiros estão cada vez mais em dúvida a respeito
do que já foi quase que uma verdade oficial: um vertiginoso
crescimento das cidades em conseqüência de maciças migrações
oriundas da zona rural e da agricultura. Recentemente, pesquisadores
que estão trabalhando criticamente sobre os dados censitários,
como José Eli da Veiga e José Graziano da Silva, vem constatando
que é preciso rever essas interpretações. Aparentemente, o rural
se transforma e se revigora ao mesmo tempo.
É
evidente que as migrações rural-urbanas continuam ocorrendo, mas
ultimamente tem se observado também o movimento contrário. Nas últimas
décadas, difundiu-se uma poderosa ideologia agrarista, de
revalorização do campo e de quem vive no campo, sobretudo a partir
das ações e interpretações da Igreja Católica e da Igreja
Luterana, por meio da Pastoral da Terra, e também a partir das ações
e dos projetos do MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem
Terra. Ao mesmo tempo, a partir de outras fontes, em especial da mídia,
difundiu-se forte desprestígio da cidade como lugar para viver.
Portanto, estamos em face de um imaginário que já não favorece
nem valoriza as migrações para a cidade como projeto de vida para
quem vive no campo.
Isso
não quer dizer que a migração do campo para a cidade não
continue sendo um movimento demográfico importante e que não
predomine sobre o movimento contrário, que também existe, que é o
do retorno ao campo, sobretudo em função de políticas sociais que
vão nesse sentido.
P
- A reforma agrária é suficiente para fixar o homem no campo?
R
– A preocupação em fixar o homem no campo é uma preocupação
antiquada e superada. Não é hoje a preocupação do Estado, como já
foi no passado. Essa não é, portanto, a função da reforma agrária.
O objetivo da reforma é fazer da agricultura familiar um meio de
vida e um instrumento de criação de emprego que assegure o bem
estar e eleve o nível de vida de populações que, sem a reforma,
estariam condenadas à miséria e à indigência na cidade. A
reforma tem, como um de seus objetivos, trazer os pobres do campo
para o mundo moderno. A reforma agrária, portanto, é também, numa
certa medida, uma reforma urbana, no sentido de que abre e amplia a
alternativa de uma vida rural urbanizada e moderna para populações
que há gerações foram confinadas nos espaços residuais do atraso
econômico e social. Ao mesmo tempo em que livra a cidade da condição
de depósito de excedentes populacionais sem destino e atenua as
tendências patológicas da nossa tumultuada urbanização.
Certamente,
a reforma não tem por objetivo impedir ou cercear as migrações,
embora essa possa ser uma das suas conseqüências.
P - A escola, ou a falta dela é um fator
para as pessoas não permanecerem na zona rural?
R
– Nas últimas décadas, observou-se, especialmente no que seria,
tendencialmente, uma baixa classe média rural, que muitas pessoas
optavam por mudar para a cidade para assegurar aos filhos o acesso
à escola e para escapar, também, da escola rural cheia de limitações
e de improvisos, mais uma escola para alfabetizar do que para
educar. Portanto, tanto a falta quanto a presença desse tipo de
escola na zona rural tem aparecido, com freqüência, como um fator
de migrações. Isso nos põe diante do fato de que as populações
rurais demandam uma escola rural diversa da que conhecemos, menos
para permanecer no campo do que para integrar-se de modo apropriado
nas promessas da sociedade moderna e desenvolvida.
P
- O ensino na zona rural deve ser diferente da cidade?
R
– O ensino deveria ser mais flexível e culturalmente adaptado do
que é, tanto no campo quanto na cidade. A educação básica na
cidade é quase que apenas projeção da ideologia de classe média
do educador. O mesmo acontece no campo. Prevalece ainda entre nós a
concepção de que o educador não precisa ser educado, não precisa
ser ressocializado para a sua missão de educar. Houve muitas mudanças
na sociedade brasileira nas últimas décadas, no campo e na cidade,
que exigem uma ressocialização do educador. Não só o campo de
algum modo vem se urbanizando, como a cidade vem,
surpreendentemente, se ruralizando.
Não
são poucos os moradores das cidades, especialmente nas periferias
pobres, que tem uma relação tensa com a confusa cultura urbana que
temos, mais produto da degradação da cidade do que, propriamente,
do desenvolvimento urbano. Em conseqüência, transformam, adaptam e
reafirmam sua cultura rural de origem. Essa é uma técnica social
auto-protetiva, auto-defensiva, que grupos culturalmente ameaçados
costumam adotar. Nos últimos anos, em cidades como São Paulo,
ganham vida grupos folclóricos como bumbas-meu-boi, grupos de
samba-lenço, folias-do-divino e folias-de-reis, grupos de violeiros
etc.
Nesse
sentido, quase que se pode considerar a escola urbana, inadaptada,
como um campo de concentração onde se realiza o trabalho forçado
da aculturação compulsória dos educandos, tendo por referência
uma cultura urbana em grande parte postiça, mais ficção do ideário
urbano do professor e da política educacional do que expressão da
realidade urbana em que o aluno vive.
O
mesmo acontece no campo e, talvez, de modo agravado em conseqüência
de uma ideologia educacional que desvaloriza o mundo rural e o
trabalho rural. A ideologia do educador, no campo, é via de regra a
ideologia que considera a cultura, os costumes, o saber da população
que ele quer educar como cultura primitiva de povos ignorantes,
formas incivilizadas de conhecer a vida e interpretar o mundo. Não
raro, o educador é o grande responsável por abrir um amplo abismo
cultural entre as gerações do mundo rural.
Por
tudo isso, prefiro dizer que o ensino que atualmente se ministra
tanto na zona rural quanto na cidade deveria ser diferente. A escola
deveria ser uma instituição do diálogo cultural com sua
clientela, com os circunstantes, e deveria considerar clientela não
só o aluno burocraticamente matriculado, como preferem os
educadores burocratas, mas também a comunidade de referência, a
que pertencem os alunos. Para isso é necessário voltar ao
professor de tempo integral na mesma escola, que inclua entre os
seus deveres o dever de conhecer os saberes daqueles que procura
ensinar, aos quais procura transmitir e, não raro, até impor o seu
próprio saber.
No
Brasil, o educador, sobretudo no ensino básico, legitima
unilateralmente sua própria cultura de classe e usa a autoridade da
função pedagógica para impor sua ditadura cultural, não raro uma
tirania dessocializadora, que mais destrói do que constrói. Com
isso, o educador se fecha à possibilidade e à necessidade de sua
própria ressocialização a partir do processo interativo com seus
alunos.
Fui
aluno na roça. Na roça, uma criança sabe geralmente mais do que o
seu professor urbano a respeito do mundo em que vive: as matas, os
animais, as plantas, as falas, o imaginário. É claro que o
professor tem o que ensinar e é justamente isso que esperam tanto
os alunos como suas famílias: ensinar aquilo que ainda não é
sabido. Um professor que só fala e é culturalmente surdo, é de
fato um deficiente, como é deficiente a escola em que ele ensina.
Essa
escola em geral se baseia no amplamente falso pressuposto de que uma
pessoa analfabeta é também ignorante. Conheço pessoalmente sábios
analfabetos, muitos dos quais, no campo, e mesmo na cidade, tem na
cabeça uma verdadeira biblioteca de livros transmitidos através
das gerações pela tradição oral.
Mário
de Andrade e outros pesquisadores do folclore recolheram de pessoas
assim literatura da Idade Média que sobreviveu graças a esses
analfabetos. A fascinante e complicada fala literária que atravessa
toda a obra de Guimarães Rosa é, com poucas variações, a própria
fala do povo do sertão, não raro analfabetos. Não por acaso, fez
ele pesquisa de campo para recolher evidências e identificar as
matrizes, o código, de uma fala ancestral forte e dramática.
Além
disso, há analfabetos que escrevem livros, ditando-os. O camponês
Manuel da Conceição “escreveu”, isto é, ditou um belo livro
autobiográfico, Essa Terra é Nossa,
um precioso documento sobre os seres humanos do mundo sertanejo.
Outros, na cidade, não tão analfabetos, escreveram livros que se
tornaram “best sellers”, como é o caso de Quarto de Despejo, da favelada negra Carolina Maria de Jesus,
traduzido em vários países. Muitos professores, muitos de nós, não
teriam condições de escrever livros assim.
P
- Que tipo de qualificação e de formação escolar deve ter o
trabalhador rural?
R
- A categoria “trabalhador rural” dessa pergunta, provavelmente,
esconde a pressuposição, também antiquada, de que quem vive no
campo ou trabalha na agricultura é apenas trabalhador e mais nada.
Raramente se pensa no homem do campo como preservador e criador de
cultura, como agente dinâmico do processo social e cultural. É
quase sempre concebido como um passivo à espera do messias cultural
que vai educá-lo, “civilizá-lo”.
Ninguém
faz essa pergunta em relação a quem vive na cidade. Ninguém
pergunta “que tipo de qualificação e de formação escolar deve
ter o trabalhador urbano?” E não o faz porque essa pergunta
perdeu o sentido há muito tempo na cidade e está rapidamente
perdendo sentido no campo. Na zona rural, como constataram
pesquisadores de nossas universidades, que mencionei, o trabalho já
não é necessariamente agrícola. E o próprio trabalho agrícola
se desdobra e se complica num conjunto de atividades correlatas que
dizem respeito à ampla modernização que vem tendo o processo de
trabalho na agricultura.
De
certo modo, as demandas de educação no campo são culturalmente
mais complexas do que na cidade, o que se choca com a ideologia
educacional que considera simples o mundo rural, quando de fato não
o é e será cada vez menos. De modo que a educação rural, deveria
perder o qualificativo rural para ser apenas educação e educação
do diálogo com a diversidade cultural, as peculiaridades sociais, e
não só do trabalho. A educação deveria ser pensada como ponte de
acesso à complexidade da sociedade moderna, que vem se tornando,
também, social, cultural e politicamente, e até economicamente, a
sociedade da diferença, da diversidade. O campo deixou de ser o
passado para ser o contemporâneo e sua diferença deixou de ser o
atraso para ser o singular e diferente num mundo de diferentes e do
direito à diferença, direito proclamado pelo sociólogo e filósofo
francês Henri Lefebvre.
P - Como combater o trabalho infantil no
campo se muitas crianças evadem da escola para ajudar os pais na
agricultura?
R
– Combater o trabalho infantil no campo, e na cidade, é obsessão
da classe média e da elite cheias de privilégios e de culpas.
Trabalho desde criança, e trabalhei na roça e na fábrica. Desde
criança já preferia ir à escola do que ir ao trabalho. Mas, ao
mesmo tempo gostava muito do meu trabalho. Eu me civilizei numa fábrica,
foi lá que aprendi as regras do comer, por exemplo, e foi lá que
aprendi a valorizar a educação como meio de emancipação da
pessoa. Creio que muitas crianças que trabalham podem ter preferência
pela escola sem desgostar do trabalho e do que o trabalho ensina.
Para as classes sociais que “não trabalham”, o trabalho é,
equivocadamente, apenas sofrimento e privação. Negam o trabalho,
sua importância e até sua beleza porque, sociologicamente falando,
vivem às custas de quem de fato trabalha. Muitos grupos políticos,
que se dizem socialistas e de esquerda, estão nessa.
Nós
reduzimos o trabalho à sua concepção fabril e teórica. No campo,
em particular, mas também em não poucas atividades econômicas da
cidade, o trabalho, mesmo do adulto, é muito mais do que isso. Tem
remota tradição o estar junto no trabalho como modo de trabalhar
que reúne pais e filhos em diversas funções de uma mesma
atividade. Pode-se ver isso celebrado em famosa escultura de barro
do Mestre Vitalino, de Pernambuco: “Casa de farinha”. Ali há
uma divisão do trabalho que reúne adultos na maturidade, mas também
velhos e crianças. Simbolicamente, estes últimos estão no centro
de uma seqüência de trabalho, numa espécie de círculo imaginário,
participando mais do que trabalhando. Essa é a forma como se educa
e protege a criança no campo, ainda hoje.
Descobri
que em áreas assim, como vi em diferentes regiões do país, ir à
escola é considerado pelos pais como trabalho e a condição de
estudante como profissão, simplesmente porque a criança se
distancia da casa e da família no momento de aprender. Porque para
essas populações só o trabalho transforma – a semente em planta
e fruto ou a ignorância em saber. Para elas, educar é fazer o
trabalho de transformar, coisas e pessoas. E isso não é atributo
exclusivo da chamada escola. No campo, e nas classes subalternas em
geral, o educar não está separado, nem pode estar, do viver. A
escola burocrática, não raro odiada pelas crianças e pelos
jovens, é a escola que abre na vida o abismo entre aprender e
viver.
Esse
familismo protetivo e educativo se deteriora também onde entra o
grande capital, o trabalho se converte em trabalho assalariado, precário
e ocasional, exigindo que se mobilize toda a família em funções
estritamente econômicas para assegurar o sustento de todos.
Conviver já não educa, a família já não é uma escola.
Há
alguns anos, quando se mudou o critério de remuneração do
trabalho no corte de cana de açúcar, era impossível a um
trabalhador adulto, ao fim da jornada, cumprir as tarefas necessárias
à formação do salário. Os pais levavam os filhos pequenos para
os auxiliarem no corte da cana e, como diziam, “completar o salário”.
Ou, em outros termos, um trabalhador inteiro, pelas leis do mercado,
era um ser humano incompleto e mutilado porque incapaz de cortar num
dia toda a cana que lhe permitisse a miserável reprodução, sua e
de sua família. Cabia à criança pagar o preço da exploração
que o capital cobra de quem trabalha. Era o filho criança que
completava o braço economicamente mutilado de seu pai.
O
problema da criança que trabalha deveria ser encarado do ponto de
vista do conjunto de privações que ela sofre, não só enquanto
privações materiais, mas também enquanto privação de acesso ao
saber que poderia lhe chegar através da escola, mas também através
da família e dos vários agentes educadores da comunidade. O
trabalho que socializa e educa deveria ser considerado à parte no
conjunto das preocupações da sociedade com a criança.
Portanto,
se quisermos falar de soluções, temos que falar de soluções práticas
e imediatas, sem desdenhar as de longo prazo. No curto prazo, o
correto seria uma substancial melhora nos ganhos dos trabalhadores
rurais, no oferecimento à população de uma rede significativa de
escolas e na instituição de estímulos que assegurem a ida das
crianças à escola e que façam da escola um objetivo de vida
convincente. Na situação literalmente de emergência em que nos
encontramos, a política de bolsas compensatórias para as famílias
que mantiverem seus filhos na escola é uma boa opção. O governo
de Fernando Henrique Cardoso, quando Raul Jungmann estava no Ministério
do Desenvolvimento Agrário, também introduziu em seu programa de
reforma agrária um prêmio aos pais que mantivessem seus filhos na
escola. Para cada filho na escola, até três filhos, havia uma
proporcional e substancial redução no que devia ser pago pela
terra recebida do programa. A própria escola tinha que atestar a
freqüência de cada criança junto à autoridade fundiária para
que o abatimento fosse feito nas parcelas a serem pagas. De certo
modo, estudando, a criança pagava, com seu estudo e sua freqüência
à escola, parte da terra de trabalho de sua família.
P - Em sua opinião, quais as principais
dificuldades para melhorar a qualidade do ensino na zona rural?
R
– Creio que em minhas respostas anteriores já mencionei quais as
dificuldades que vejo. A resistência cultural do educador (e do
sistema educacional) ao educando é certamente uma das grandes
dificuldades. Mas, também o é o caráter postiço das escolas na
zona rural. É um equívoco imaginar que colocar vídeos e
computadores nas escolas, rurais ou urbanas, melhora o seu
desempenho. Porque só os seres vivos podem dialogar culturalmente.
Máquinas, apesar da ideologia que as cerca, não dialogam nem
interagem, são apenas mediações técnicas. São invasores
culturais, instrumentos de dominação, a menos que possam ser
integrados nesse universo de diálogo e troca cultural que menciono.
Mas, a dificuldade maior é a falta de uma mística da educação
entre os educadores, uma utopia, ou aquilo que Ecléa Bosi chama de
comunidade de destino. Sem ela, tudo o mais é inútil. E ela não
nasce nem na sementeira do sindicalismo nem na sementeira do
burocratismo oficial.
P - Para melhorar as condições de
atendimento ao aluno as escolas do campo deveriam ser nucleadas?
R
– Isso depende muito do lugar, das distâncias, do modo de vida
das famílias e das crianças. A
priori seria um absurdo indicar uma coisa ou outra. Certamente,
sendo possível, os moradores do campo, até porque suas exigências
educacionais mudaram e se ampliaram, preferem uma escola mais
completa, com uma sociabilidade escolar mais definida do que nas
escolas isoladas.
P - Por que existe o preconceito, por parte
de muitas pessoas, de que quem vive no campo é atrasado, quando nos
grandes centros urbanos a existência de analfabetos também é
grande?
R
– Esse é um preconceito histórico que herdamos do trabalho rural
na escravidão. O trabalho na roça, no tempo do cativeiro, foi
amplamente depreciado porque associado à pessoa do cativo. O
trabalho agrícola se tornou uma marca de inferioridade social. Os
educadores incorporaram esse estereótipo. Mas, essa mentalidade está
mudando em função da revalorização do campo e da natureza, como
nos movimentos ecológicos, nos grupos que propugnam formas
alternativas de vida rural e de trabalho agrícola.
P
- A formação do professor da zona rural deve ser a mesma dos que
atuam na zona urbana?
R
– Eu não dividiria o mundo em rural e urbano. Pois, seguindo essa
lógica, eu poderia perguntar se a formação do professor da
periferia urbana deteriorada deveria ser a mesma do professor que
vai trabalhar nas regiões mais afluentes das cidades. Pessoalmente,
acho que todos os professores do ensino básico, sem distinções,
deveriam receber uma formação sociológica e antropológica. De
modo que eles próprios tivessem condições de se reciclar e
ajustar em face das situações cambiantes de trabalho educativo que
encontram pela frente, na cidade e no campo.
P
- As escolas dos assentamentos rurais devem oferecer uma educação
diferenciada como acontece, por exemplo, em alguns assentamentos do
MST?
R
– Para evitar equívocos, lembro-lhe que não há assentamentos do
MST. Só o Estado tem condições de fazer assentamentos no Brasil.
E aí a responsabilidade pela educação é do governo. Talvez você
esteja falando em acampamentos. É verdade que ativistas do MST
podem continuar e tem continuado a atuar nos assentamentos, em áreas
como a da educação. Mas, do que conheço da proposta pedagógica
do MST, e do que já ouvi de educadores nela envolvidos, sua
pedagogia é tão invasiva culturalmente quanto a da oposta proposta
pedagógica do Estado.
Se
elas forem a escola do diálogo e da troca cultural que mencionei
antes, certamente oferecerão uma educação diferençada, não
porque devem, mas porque podem. E é isso que conta.
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Versão
integral de entrevista publicada, com reduções, cortes e reordenações,
em Fundescola, Boletim Técnico 53, Ano VI, Ministério da
Educação/Fundo de Fortalecimento da Escola, Brasília, novembro de
2001, p. 9-11. Publicado em Revista USP, Nº 64,
Coordenadoria de Comunicação Social, Universidade de São Paulo,
Dezembro 2004-Fevereiro 2005, p. 29-49.
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Enviado
pelo entrevistado e publicado a pedido do mesmo.
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