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Por
SILVIA BEATRIZ
ADOUE
Nasceu
em Buenos Aires, Argentina. É
Mestre em Integração na América Latina, pelo
PROLAM-USP, doutoranda em Literatura
Hispano-americana, pela FFLCSH - USP, e professora do
curso de Letras do CEUCLAR
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Sobre a “neutralidade
ética” nas Ciências Sociais e a Fundação Ford, com pequena fábula de
caráter ilustrativo ou talvez elucidativo
“O dilema psicológico, político e
moral para mim aparece por causa da minha tentativa persistente de
enlaçar a Sociologia como ciência, ao socialismo, como movimento
político revolucionário [...] Não compartilho da idéia refúgio de
que a ‘neutralidade científica’ e a ‘condição profissional’
isentam o sociólogo da responsabilidade intelectual e política”.
(FERNANDES, 1985: p.15.)
A fábula
A fábula é curta: era uma vez um
cientista social “pautado pela neutralidade ética”; ele havia sido
presidente de um grande país da América do Sul e tivera enormes
dificuldades para traduzir em políticas públicas sua respeitável
produção acadêmica. É possível que essa experiência de poder é que o
tenha levado a reconhecer, com uma admiração sincera e, digamos,
“neutra”, um outro homem “de elevado intelecto”, extremamente
habilidoso nas lides de transformar o pensamento científico em
estratégias de ação.Só que, para reconhecer o admirado intelectual
foi obrigado a desconhecer o genocida. (ARBEX,
in Caros Amigos, 2005: p.15)
A fábula propõe um problema –
hipótese e corolário
Até aqui a fábula. Não me atrevo a
formular, logo de cara, uma moral da história porque a metodologia
própria das ciências sociais exigiria uma outra amostragem capaz de
permitir um melhor controle das variáveis envolvidas. Mas, mesmo que
nossa amostra não suporte resultados conclusivos, podemos, pelo
menos, formular uma hipótese: será que o cientista social, quando
isola apenas os atributos do “grande acadêmico” e esquece os do
“homem de ação”, perde a visibilidade do conjunto? O que é que teria
propiciado que o nosso sociólogo-estadista tenha perdido uma
capacidade de visão que qualquer militante das lutas sociais seria
capaz de preservar?
Impossível recalcar um corolário: se as
ciências sociais já não permitem reconhecer um genocida, fazer
ciências sociais tornou-se uma mera frivolidade! Mas, considerando
que as idéias “eticamente neutras” desse nosso sociólogo podem se
transformar em políticas públicas, fazer ciências sociais, mais do
que uma atividade inútil, corre o risco de legitimar a própria
barbárie!
Da “neutralidade axiológica” à
“neutralidade ética”
A principal referência teórica do nosso
cientista é, sem dúvida, Max Weber – para quem não cabe ao sociólogo
julgar os valores dos grupos sociais que estiver analisando. De
fato, a “neutralidade axiológica” foi uma tomada de posição
fundamental para retirar as Ciências Sociais do domínio da moral
teológica. Ainda assim, Weber não pretendia que o sociólogo devesse
eximir-se da responsabilidade ética em relação ao seu lugar
de cientista e ao seu trabalho como sociólogo pois é ela que impede
a redução do fazer científico ao exercício de uma razão instrumental
que se limitasse a valorizar procedimentos eficazes
independentemente dos fins aos quais serve (WEBER, 1974). Parece que
o sociólogo da nossa fábula, além de nos pedir que esquecêssemos o
que escreveu, encarregou-se, também, de esquecer o que ele próprio
leu já que, sem dúvida, sua avaliação do homem de “elevado
intelecto” só foi possível graças a esse deslizamento conceitual da
“neutralidade axiológica” para a “neutralidade ética”, uma astúcia
funcional à supervalorização dos procedimentos, independentemente
dos fins.
O lento processo ou “a vida é dura”
A fábula inicial talvez seja um dos
sinais mais escandalosos desse lento processo de incorporação do
campo das Ciências Sociais ao poder no Brasil. Lento e gradual
processo graças ao qual uma imensa quantidade de “quadros
recrutados” em nome da sua formação em centros de excelência acabou
colocando o prestígio obtido na produção científica a serviço da
legitimação de políticas públicas que nem sempre eram tradução fiel
ou, sequer, má tradução, da sua própria produção acadêmica. Não
poucas vezes, os mesmos quadros científicos tornaram-se produtores e
gerenciadores dessas políticas públicas.
Se a “Missão Francesa” ajudou a
construir a Escola de Sociologia sobre bases teóricas e
metodológicas sólidas, segundo a tradição européia, a aposentadoria
compulsória “de um grupo prestigioso de docentes e pesquisadores
pertencentes à Universidade de São Paulo em 1969” (MICELI, 1995:
p.360) produziu uma desestruturação desse mesmo “campo”. No bojo
desse processo, a intervenção da Fundação Ford, financiando
indivíduos e novas organizações, acabou propiciando um novo
reagrupamento do “campo” operando uma outra redistribuição do
capital de prestígio científico.
A longo prazo, os quadros intelectuais
direta, ou indiretamente, beneficiados pelos financiamentos, e que
não participavam das instâncias do poder político, terminaram
guindados a cargos governamentais, adquirindo, em circunstâncias
particulares, uma participação maior no “campo do poder”. Seu
prestígio social no “campo acadêmico” e, dentro deste, no “campo das
Ciências Sociais”, terminou dando aos governos por eles constituídos
maior estabilidade e brilho num chamado círculo “virtuoso”, ou seja,
aquele que ocorre quando um indivíduo carrega seu prestígio, como se
fosse um capital “circulante”, de um campo para o outro.
Lembremos que, na América Latina
(particularmente no México, Brasil e Argentina) havia uma elite
intelectual já constituída que produzira diagnósticos e projetos
próprios de desenvolvimento. Nesses países, não se poderia lançar
mão da política do apoio aos golpes de Estado senão
circunstancialmente e, mesmo assim, colocando em risco a
estabilidade das relações de poder e a base social local de
sustentação desse mesmo poder. Tornou-se necessário ajudar a
constituir uma elite intelectual que ocupasse o lugar de
interlocutora e que estivesse “em condições de levar a cabo o
trabalho de intermediação entre o saber técnico nas arenas de
processamento político-doutrinário das demandas sociais” (MICELI,
1995: p.365). Nesse sentido, a atuação da Fundação Ford coincidia
com uma das políticas de Estado dos EUA para a América Latina.
Na sua primeira década de atuação na
região, a Fundação Ford concedia bolsas a estudantes
latino-americanos para formação universitária nos EUA, ou fazia
doações a instituições de pesquisa. Oferecia professores,
consultores dos EUA e treinamento naquele país (MICELI, 1995: p.
349). No Brasil, preferiu aproveitar a “capacidade operacional já
instalada” (MICELI, 1995: p.362): grupos prestigiados, instituições
de excelência, em detrimento de projetos comunitários, o que
provocou uma corrida à excelência por parte de outras instituições e
disseminou os seus próprios critérios de eficácia empresarial. Nos
anos 80, os objetivos foram concentrados
“numa política de pesquisa temática
[que] passa a competir em pé de igualdade com os objetivos
tradicionais de ‘construção institucionais’ e de montagem de
comunidades científicas através de associações nacionais [...] tais
iniciativas revelam um empenho em identificar nichos estratégicos
para investimento onde se pudessem concentrar recursos capazes de
alavancar uma área de estudos, pesquisas e treinamento que
constituísse, ao mesmo tempo, uma frente de militância e de
intervenção tecnicamente competentes nos domínios adequados de
política pública. Em outras palavras, essas áreas de Ciência Social
aplicada propiciam a conciliação entre metas ‘instrumentais e
‘objetivos acadêmicos’, ampliando a própria margem de influência
exercida pela Fundação Ford.” (MICELI, 1995: p. 381-382)
Aparentemente, apostando nos quadros da
elite já constituída, reforçando os grupos com atuação prestigiada
na academia e em instituições preexistentes e, ao mesmo tempo,
impondo seus próprios critérios de avaliação, a Fundação Ford agiu
como ‘estrutura estruturada e estruturante’ bem sucedida. Conseguiu
impor sua própria matriz não apenas a esses grupos e a essas
instituições, mas a todo o campo acadêmico (pela propaganda desses
critérios de excelência sustentada pelas instituições e pelos
bolsistas clientes perante o conjunto do ‘campo’ universitário). É
nesse sentido que a Fundação Ford foi eficiente. E foi por meio
dessa estratégia que ela interveio na constituição do campo.
O modelo da “missão” de antropólogos
Não posso afastar a imagem renitente
daquela exposição de facas e de espelhinhos pendurados num barbante
em uma clareira como um investimento a fundo perdido daqueles
antropólogos que buscavam interlocutores junto à tribo chucra.
Alguns índios aproximam-se da clareira. Desses, uns poucos arriscam
pegar as bugigangas e retornam à aldeia com o recém-adquirido
prestígio de portadores e propagandistas dos benefícios do contato.
Pronto! O conjunto da aldeia mudou! Ninguém mais será o mesmo!
Do mesmo modo que as ‘missões’
antropológicas, no Brasil, a Fundação Ford apostou nas estratégias
de longo prazo, recorrendo a investimentos de fundo perdido, e
conseguiu obter uma boa colheita de lealdades já que elas não
hesitam passar por cima do rigor intelectual. Até porque a dupla
condição de “cientistas” e de “homens de ação” tornou-os
beneficiários não apenas do patrocínio das agências de fomento à
pesquisa, mas de um outro tipo de agências: aquelas que financiam as
políticas públicas por eles elaboradas. Enquanto cientistas,
converteram-se em justificadores dessas políticas. Primeiro, sob o
pretexto de aproveitar as brechas, as margens de “política social”,
que as financiadoras admitem; depois, escancaradamente.
Procedimentos de cooptação
“Talvez até, ele [o intelectual] acabe
sendo altamente racional com relação a fins, como diria Max Weber. E
o fim vem a ser a preservação e a melhoria de sua própria posição na
universidade. [...] Todavia, a cooptação não se faz só por aí. [...]
Há empregos que ainda são mais importantes que aqueles que se podem
obter nas universidades. [...] Ele fica uma peça da ordem, uma força
cultural da ordem e não pode gravitar pelos caminhos da rebelião e
da contestação, nas quais acaba tendo muito a perder. [...] Ele
pulveriza a vida intelectual comprimindo-a entre outras exigências,
nascidas das atividades mundanas, do consumo conspícuo e dos fins de
semana sedutores. Torna-se, enfim, um pobre diabo.” (FERNANDES,
1978: p. 165.)
Verdade seja dita, a fábula é, pelo
menos, ilustrativa. O foco de angústia do nosso cientista social
está nos fins não explicitados, mas sistematicamente buscados, pelas
agências que patrocinaram sua formação e garantiram o alinhamento:
ajudar a construir uma elite intelectual interlocutora “em condições
de levar a cabo o trabalho de intermediação entre o saber técnico
nas arenas de processamento político-doutrinário das demandas
sociais” (MICELI, 1995: p.365).
Retornamos àquela pergunta-problema: por
que nosso cientista perdeu essa capacidade de visão que qualquer
militante das lutas sociais soube preservar?
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