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Por JOÃO FÁBIO BERTONHA
Doutor em
História e Professor da Universidade Estadual de Maringá |
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A instabilidade
política latino-americana e a problemática indígena
Uma questão problemática para qualquer
um que se dedique a estudar o espaço geográfico situado ao sul do
Rio Grande é definir o que é um “latino-americano”. É notório como
os argentinos, por exemplo, sempre se recusaram a ser colocados na
mesma categoria que bolivianos ou nicaragüenses, preferindo se
auto-identificar como “europeus transplantados”. Do mesmo modo, a
maioria dos brasileiros resiste, ainda hoje, em se identificar como
latino-americanos, preferindo se considerar simplesmente
brasileiros. Isso para não mencionar, claro, as imensas
dificuldades dos norte-americanos em criar uma categoria (como
“hispânicos” ou “latinos”) que consiga agrupar imigrantes da
Guatemala de origem maia que falam línguas indígenas com mestiços de
espanhóis com índios, mas de língua espanhola, do México, argentinos
ou brasileiros brancos de origem alemã ou italiana e negros ou
mulatos do Haiti ou de Cuba.
Numa avaliação mais ampla, tudo o
mencionado no último parágrafo é menos importante do que parece. Se
examinarmos a história da América Latina, é perceptível como a
região parece seguir ciclos econômicos e políticos – como a economia
de exportação de produtos primários nos séculos XIX e XX, a crise da
dívida externa nos anos 80 e o neoliberalismo nos 90, as ditaduras
militares e a redemocratização, etc – incrivelmente semelhantes. Tal
situação, associada aos laços culturais e geográficos, parece
indicar que falar de “América Latina” é algo adequado.
No entanto, seria um erro não levar em
conta as diferenças dentro desse imenso espaço. Pensando apenas em
termos culturais, nota-se como a América Latina se divide em várias
áreas. No Caribe e no norte da América do Sul, temos uma América
Latina negra, com fundas raízes na África e na cultura criada pelos
escravos africanos e seus descendentes. No extremo sul, na
Argentina, Uruguai e parte do Chile, uma região com forte presença
populacional e cultural de europeus e, em partes da Colômbia,
Venezuela e outros países, uma área de extrema mestiçagem entre
negros, brancos e indígenas.
No México, América Central e nos países
andinos, por sua vez, temos países com uma presença fortíssima de
mestiços e índios, formando um verdadeiro “arco indígena” no
continente. Por fim, o Brasil, bastante específico não apenas pela
língua dominante ser outra, como por conservar, no seu território,
elementos das Américas negra (Bahia, Maranhão), branca (o
centro-sul), indígena (a Amazônia) e mestiça (o nordeste e o país
como um todo), o que explica a riqueza cultural desse país.
Desnecessário ressaltar como essa
divisão é meramente teórica, com imensas subdivisões e nuances entre
essas diversas áreas e contínuos contatos e intercâmbios entre elas.
Mas ela fornece a base para compreendermos melhor os elementos
comuns e as particularidades regionais do atual ciclo de
instabilidade política da América Latina.
Tal ciclo se caracteriza,
essencialmente, pelos seguintes elementos: fragilidade dos governos,
crise dos partidos tradicionais (como os radicais na Argentina, os
blancos e colorados no Uruguai, etc.), mobilização popular e um
crescente sentimento de descrença na democracia ou, no mínimo, uma
certa nostalgia pela época das ditaduras militares. Não há indícios
de que estejamos nos aproximando de um novo ciclo de ditaduras na
América Latina (inclusive, porque os militares da região não estão
mais interessados em exercer diretamente o poder), mas que vivemos
um momento de instabilidade e pouca confiança no sistema, é algo
perceptível. A simples informação de que, nos últimos quinze anos,
dez presidentes latino-americanos não cumpriram seu mandato
constitucional pode confirmar isto.
A meu ver, a fonte central de toda a
insatisfação popular é a incapacidade do sistema democrático
latino-americano em promover maior prosperidade e qualidade de vida
na região desde o fim das ditaduras militares nos anos 80. Não
existe uma regra universal de que a democracia representativa e o
Estado de direito promovam automaticamente o desenvolvimento
econômico e a justiça social, mas havia toda uma expectativa de que
isso iria ocorrer. Quando os anos e as décadas se passaram e os
tradicionais problemas da América Latina – pobreza, violência,
corrupção, desigualdade social, estagnação econômica – não apenas
não foram resolvidos, como às vezes se agravaram, muitas pessoas se
sentiram traídas. Do sentimento de traição ao de que é necessário
fazer algo fora dos canais tradicionais, nas ruas, foi um passo.
É extremamente duvidoso se podemos
culpar a democracia pelos problemas sociais e econômicos da América
Latina, como se todas as ditaduras fossem sinônimo de progresso e
desenvolvimento (e os latino-americanos, mais do que ninguém, deviam
saber disso, dada a nossa história recente) e é difícil avaliar se
todos esses movimentos populares que pipocam agora em toda a América
Latina são positivos, no sentido de realmente apresentarem um
projeto alternativo para a sociedade. Mas não resta dúvida de que o
fracasso das democracias latinas em promover a prosperidade e conter
a corrupção e os desmandos das elites políticas foram cruciais para
levar as pessoas para as ruas. A queda de Fernando Collor de Mello,
Fernando de la Rua e outros, malgrado especificidades, se encaixam
nesse contexto.
Na América Latina indígena, contudo,
temos um outro elemento atuando, ou seja, o despertar dos
descendentes dos povos conquistados pelos espanhóis séculos atrás.
Relegados às posições mais humildes das suas sociedades, desprezados
e pobres, os povos indígenas têm demonstrado um notável ativismo
político na América Latina nos últimos anos.
De fato, a atuação política indígena tem
crescido tanto no México, como na Guatemala e em outros países, com
a eleição de deputados e outros representantes. No Chile e na
Nicarágua, por sua vez, mapuches e miskitos lutam para reaver a
terra dos seus ancestrais, enquanto movimentos políticos, e mesmo
guerrilhas, com base indígena, como a de Chiapas no México, também
têm crescido nos últimos anos. Além disso, na queda de Jamil Mahuad
no Equador em 2000 e na de Gonzalo Lopez de Lozada na Bolívia em
2003, ficou evidente a força da militância indígena. Por fim, ao
menos indiretamente, os movimentos indígenas também se envolveram na
queda de Lúcio Gutierrez no Equador semanas atrás.
Também está se desenvolvendo uma nítida
polarização racial em alguns países. Quando se assiste ao noticiário
sobre a Venezuela, por exemplo, é facilmente perceptível como os
inimigos de Chavez são ricos, brancos e de clara tradição espanhola,
enquanto seus adeptos são pobres e têm rostos indígenas. O mesmo se
percebe na Bolívia, no Equador e em outros locais. A eleição de 2001
no Peru, que colocou como rivais um “cholo” de origem indígena e
pobre, Alejandro Toledo, e uma mulher branca, rica e ultracatólica,
Lourdes Flores, foi simbólica desse novo momento.
As razões desse despertar são múltiplas,
mas deve-se destacar, a meu ver, a crescente conscientização dos
povos indígenas de que apenas a militância política pode fazer valer
os seus direitos, assim como o fato que as maiores vítimas das
políticas econômicas excludentes na América Latina são sempre os
pobres e os povos indígenas, o que induz a reações. Por fim, é de
extrema importância a atual fase democrática dos países
latino-americanos. Afinal, mesmo com seus limites, a manutenção da
democracia implica em abertura de espaços para manifestação dos
excluídos. Em outros tempos, os líderes e militantes indígenas
seriam rapidamente mortos e eliminados e suas associações fechadas,
o que não é mais possível hoje, limitando as possibilidades de
repressão e favorecendo a politização.
Também é importante notar os limites
dessa atividade dos indígenas na política. Não parece haver sinais
de que as elites de origem espanhola que dominam as sociedades
hispano-americanas há séculos estejam prestes a perder seu poder.
Afinal, mesmo com a queda de Sanchez de Lozada em 2003, quem assumiu
foi outro branco, Carlos Mesa, e Alejandro Toledo, malgrado suas
origens, tem atuado mais como um defensor das elites tradicionais
do que outra coisa. Além disso, a questão indígena não é a única
presente. Há também uma mobilização dos pobres e excluídos em geral
em defesa dos seus interesses e o fato de, por exemplo, Evo Morales,
o líder “cocalero” da Bolívia, ter suas origens no movimento
sindical é relevante.
Enfim, não estamos na iminência de uma
guerra racial entre brancos e índios no “arco indígena” na América
Latina, mas parece claro como o problema racial traz combustível ao
conflito. É possível avaliar isso negativa ou positivamente, mas que
é um elemento particular de uma região específica da América Latina
a ser levado em conta, é evidente.
Nesse ponto, o contraste com outros
países latino-americanos é relevante. No Brasil, por exemplo, as
crescentes descrenças na democracia e desesperança frente ao futuro
estão se convertendo em emigração, violência e num certo “salve-se
quem puder”. As instituições, apesar de desacreditadas, não parecem
prestes a entrar em colapso e, pelo contrário, o sistema político
brasileiro tem se demonstrado capaz de alguma estabilidade,
inclusive com fortalecimento dos partidos e transmissão regular do
poder.
A parte outros fatores, como a
tradicional desorganização política dos brasileiros (em contraste,
por exemplo, com a dos argentinos) e a capacidade das nossas elites
em continuamente mudar tudo sem alterar nada, garantindo a
governabilidade, é uma hipótese a considerar se o fato da nossa
imensa e indecente desigualdade social (entre alguns muito ricos e
outros muito pobres) não se corporificar numa racial não ajuda a
suavizar o conflito, ao torná-lo menos evidente.
Note-se que não estamos dizendo que o
Brasil vive uma situação de igualdade racial. Índios e negros, como
todos sabem, estão situados na parte de baixo da pirâmide social
brasileira e a classe dominante brasileira é essencialmente branca.
No entanto, com a pouca expressividade numérica dos índios, o imenso
número de mestiços e a existência de uma quantidade imensa de
brancos pobres, é difícil fazer, no Brasil, uma associação
automática de etnia e classe social. É verdade que a maioria dos
pobres é negra ou mestiça, mas só quem viu o nível de identificação
“branco = rico”, “não-branco = pobre” em locais como Assunção, La
Paz ou Quito pode compreender como a situação, no Brasil, é
camuflada e complexa. Se isto é realmente um fator que suaviza o
conflito entre as raças e as classes sociais no Brasil e se isso é
algo a comemorar ou lamentar, são pontos a discutir, mas parece um
elemento fundamental se queremos compreender as várias crises dentro
da crise da América Latina hoje. |
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