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Por
PAULO ROBERTO
DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil

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O Plebiscito
Impossível
Treze más razões para
opor-se à Alca e uma boa para dizer não
1.
Uma introdução necessária
Circula na Internet um documento
anônimo, mas cuja autoria fica evidente pelo seu conteúdo,
intitulado “Plebiscito: Treze razões para dizer não à Alca”, que
pretende oferecer argumentos para que o cidadão brasileiro recuse,
num hipotético plebiscito nacional, um possível acordo hemisférico
envolvendo 34 países das Américas, a Alca. Sua autoria é obviamente
de opositores da Alca, cujo objetivo seria o de obter uma estrondosa
rejeição, por parte do eleitorado brasileiro, desse ainda incerto
acordo, mas a versão que recebi, transcrita in fine, não
comporta assinatura dos responsáveis por sua redação ou
responsabilidade intelectual por sua divulgação.
Não é difícil presumir quem ou quais
sejam os responsáveis pelo texto, uma vez que a maior parte das ONGs
que circulam na órbita do Fórum Social Mundial têm na Alca um de
seus principais cavalos de batalha, junto com o FMI, a OMC, o
capitalismo globalizador, os transgênicos e outros tantos elementos
simbólicos vinculados de perto ou de longe à economia de mercado. No
caso da Alca, creio afirmar que existe uma unanimidade nacional
quanto à sua indesejabilidade para o Brasil e para o Mercosul:
aliás, seria virtualmente impossível encontrar qualquer grupo
político, econômico ou social que se posicione a favor da Alca. Se
houver, descontando um grupo inexpressivo de economistas liberais,
gostaria de ser avisado, pois estaríamos em face de tipos raros.
Gostaria de oferecer alguns comentários
tópicos, e outros gerais, sobre cada um dos “argumentos” oferecidos
pelos “autores” da peça em questão, pois acredito que, a despeito da
imensa cacofonia e da estridência verbal que caracterizam o “debate”
sobre a Alca no Brasil, ainda assim vale a pena dialogar com
cidadãos interessados em problemas relevantes para o futuro do
Brasil, como são os das negociações comerciais em geral e, em
particular, o de um possível (até aqui hipotético) novo bloco
comercial no hemisfério.
Coloquei alguns dos conceitos acima
entre aspas e já explico por que: não me parece que as afirmações
abaixo destacadas possam ser consideradas como “argumentos”,
verdadeiramente, pois na maior parte dos casos eles não se submetem
a testes de validação empírica, nem vêm acompanhados de
demonstrações efetivas sobre a realidade que pretendem descrever.
Trata-se, em grande medida, de invectivas políticas, sem critérios
objetivos que os coloquem no mesmo plano dos debates acadêmicos bem
fundamentados. Ainda assim, vou procurar responder honestamente e
com toda a objetividade possível aos “argumentos” alinhados no
texto.
Quanto aos “autores”, será difícil
individualizá-los todos, uma vez que se trata, provavelmente, de uma
construção coletiva, na verdade uma assemblagem feita a partir das
tradicionais invectivas anti-Alca a que já estamos acostumados desde
que esta surgiu no horizonte político do hemisfério, em 1994. Sendo
uma assemblagem, pode-se honestamente designar seus “autores” como
sendo simplesmente “anti-alcalinos”, pois é isto que eles são e como
tal se apresentam. De minha parte, devo esclarecer que não sou a
favor da Alca, como não sou por princípio a favor de nenhuma medida
ou política que não ofereça a maior racionalidade possível em termos
de políticas públicas ou que não representem aquilo que os
economistas chamam de “melhor situação de bem-estar”.
Ora, os grupos econômicos restritos, e
aqui se incluem os blocos comerciais, são, por definição,
discriminatórios e restritivos, conduzindo àquilo que esses mesmos
economistas chamam de “second best solution”, na ausência do “first
best”, que seria supostamente uma liberalização unilateral, ou o
livre comércio universal. Este significaria o que a liberdade de
trocas representa no plano nacional: ausência de barreiras à
entrada, informação ampliada, concorrência de mercados, regulação
não intrusiva etc. Minha postura, portanto, não é a de ser, a
priori, a favor ou contra a Alca, mas a de buscar a melhor
solução possível aos nossos problemas de competitividade
internacional, situação que possa aumentar o grau de bem-estar do
povo brasileiro (sinto muito mas não tenho condições de me ocupar da
humanidade em geral, ou de outros povos e fico só no Brasil).
Por fim, também coloquei debate entre
aspas, porque não creio que esteja ocorrendo um verdadeiro debate
nacional (e racional) sobre os dilemas da Alca para o Brasil, e
certamente não a partir de textos como esse, que tangenciam os
problemas e se limitam a lançar invectivas de natureza mais política
do que econômica. Em todo caso, pretendo de minha parte contribuir
para esse debate da forma mais objetiva possível.
2. Acordos comerciais não podem ser
reduzidos a “sim” ou “não”
Começo, antes de comentar topicamente os
“argumentos”, pela própria questão do “plebiscito”, apenas referido
no título, mas em nenhum momento justificado ou legitimado,
inclusive porque não é certo que ele venha a ser realizado, pelo
menos não no plano institucional. Existiram, bem sabemos, dois
“plebiscitos” no período recente, um sobre a dívida externa, outro
sobre a Alca, justamente, ambos conduzidos por entidades da chamada
sociedade civil e já antecipados quanto a seus resultados totalmente
previsíveis: os dois resultaram na total rejeição da dívida externa
e da Alca à razão de 99% dos votantes, que já estavam induzidos
pelos organizadores a fazê-lo dessa forma. Eles não têm, portanto, a
validade política que se requer dos processos democráticos,pois que
não corresponderam, em nenhum momento, a uma escolha real entre
opções válidas, de resto não explicadas em sua dimensão própria.
Não creio que um plebiscito, instrumento
próprio para responder a questões claramente colocadas que se trata
de validar pelo método da consulta popular, seja o mecanismo
adequado para uma consulta social e nacional sobre um problema como
o da Alca, por demais complexo e multifacetado para ser respondido
num tipo de escolha de “sim” ou “não”. Colocar a Alca sob a
dependência de um plebiscito é simplesmente errado, pois os aspectos
positivos e negativos de um acordo comercial desse tipo, seu
desenvolvimento progressivo e seu impacto diversificado na economia
nacional não se prestam para tal instrumento redutor. Deve-se
descartar o mecanismo de consulta, mas reter a possibilidade de
abrir um amplo debate sobre os problemas da Alca, em especial
mediante textos menos simplistas como o que agora passo a examinar.
Venho agora aos elementos textuais do
libelo contra a Alca, alinhando-os sistematicamente e agregando meus
comentários ao tema em questão.
“A ALCA representa maior dependência e
vulnerabilidade econômica externa e a re-colonização política e
militar de todo o continente sob controle dos Estados Unidos da
América. “Nós queremos vender mercadorias, tecnologia e serviços
estadunidenses, sem obstáculos ou restrições, para um mercado único
de 800 milhões de pessoas, com uma renda total de 11 trilhões de
dólares anuais, num território que irá do ártico até o cabo de Horn”,
declarou o general Colin Powell, Secretário de Estado do governo
Bush.”
PRA: A Alca, se existir, será um
mero acordo de liberalização comercial, nem pior, nem melhor do que
o atual acordo do Nafta, e como tantos outros já registrados na
longa história do comércio internacional. Pretender ver na Alca um
empreendimento de re-colonização significa politizar exageradamente
essa iniciativa de caráter econômico, sem oferecer, de resto,
elementos credíveis que permitam validar a tese da re-colonização. A
frase do então Secretário de Estado Powell nada mais representa do
que a pura expressão da verdade: os EUA estão de fato interessados
em fazer comércio num mercado hemisférico, como aliás está o Brasil
no âmbito da América do Sul e outros países em escala regional ou
internacional. Não há nada de negativo nisso. Os conceitos de
“dependência” e de “vulnerabilidade” são sempre relativos a
determinadas situações concretas: países com muito comércio, e
portanto “interdependentes”, são em geral menos vulneráveis do que
aqueles autárquicos ou introvertidos, na medida em que dispõem de
uma soma de mercados nacionais que é, por definição, superior ao
seu.
“Os Estados Unidos possuem 240 milhões
de habitantes e 9 trilhões de dólares, de PIB. Os demais países
americanos: 560 milhões de habitantes e 2 trilhões de dólares de
PIB. O Brasil, 170 milhões de habitantes e 800 bilhões de dólares de
PIB.”
PRA: Os autores do texto deveriam
revisar seus números e atualizar seus dados, pois que os EUA há
muito tempo passaram dos 11 trilhões de dólares como PIB,
aproximando-se já dos 12 trilhões. De resto, o PIB nominal do Brasil
há muito deixou a casa dos 800 bilhões (que era na época da
valorização do real) e desceu para menos de 500 bilhões. Ele voltou
a subir, mas os dados nominais são bem inferiores à cifra citada.
3. Treze más razões para dizer não à
Alca
“1) O Acordo da ALCA vai submeter a
produção e os mercados latino-americanos e caribenho às necessidades
do grande capital dos Estados Unidos, elevando sua taxa de lucro,
mantendo o monopólio tecnológico; a economia de escala; o controle
dos preços e do mercado estadunidense à concorrência internacional.”
PRA: Há aqui uma assemblagem de
conceitos econômicos que não encontram resguardo na realidade de um
acordo comercial, nem correspondem à realidade de uma eventual Alca.
O capital existe em todos os países do hemisfério, grande, médio e
pequeno, e achar que apenas o grande capital americano vai ter taxas
de lucro elevadas significa ignorar por completo a realidade da
concorrência entre sistemas nacionais dispondo de vantagens
comparativas diversas. Se não fosse assim, torna-se incompreensível
a oposição ferrenha das grandes centrais sindicais dos EUA ao acordo
do Nafta e agora à Alca: é porque os trabalhadores americanos têm a
consciência de que eles podem perder empregos com um acordo de
liberalização. Monopólio tecnológico é fruto de pesquisa e
investimentos em processos produtivos e não há nenhuma razão para
pensar que ele possa ser mantido numa situação de liberalização
comercial: mais até do que bens, o que circula são idéias, e estas
constituem a base da disseminação tecnológica que ocorre
inevitavelmente em toda e qualquer situação de comércio ampliado. O
resto da frase não faz nenhum sentido, nem econômico, nem sequer
gramatical.
“2) O Acordo da ALCA anulará a soberania
das nações latino-americanas e caribenhas, sobre a política
econômica e social; acelerando a subordinação e a desnacionalização
das empresas e mercados latino-americanos ao grande capital dos
Estados Unidos, incorporando as grandes empresas nacionais e
subjugando as pequenas e médias empresas.”
PRA: O acordo da Alca, se e
quando existir, não terá esse poder, pois ele se refere tão somente
ao comércio, não aos demais aspectos das políticas econômicas.
Considerar que não possam existir, sobreviver e prosperar empresas
nacionais nessa situação contraria toda a experiência acumulada até
aqui de processos de liberalização comercial, como o da Europa, por
exemplo, que aliás foi muito além do simples livre-comércio, já que
evolvendo, aí sim, aspectos de renúncia de soberania ao implicar na
formulação “desnacionalizada” de políticas macroeconômicas e
setoriais comuns. O argumento tem uma visão catastrofista que não
encontra respaldo na história e na economia.
“3) O Acordo da ALCA reorganizará a
economia latino-americanas e caribenha na função apenas de
exportadora de matérias-primas e de mão-de-obra barata e como
importadora de capital, tecnologia e bens de consumo sofisticados.”
PRA: Justamente o contrário: se
houver um acordo, ele permitirá a instalação de empresas americanas
nesses países, transferindo tecnologia e permitindo a elevação dos
padrões de produtividade e de competitividade internacionais desses
países, libertando-os da ditadura da exportação baseada de forma
predominante em poucas matérias-primas. O diferencial do custo da
mão-de-obra é suficientemente atrativo do ponto de vista das
empresas para evitar essa deslocalização. Afirmar o contrário
representa não apenas desconhecer a economia, mas ignorar as lições
da história.
“4) O Acordo da ALCA estimulará a adoção
do dólar como moeda nacional e do continente, extinguindo
paulatinamente as moedas nacionais. A dolarização aprofundará e
acelerará a perda de autonomia dos Estados para gerirem as políticas
monetárias. E o monopólio da emissão do dólar por parte do governo
dos Estados Unidos transferirá o peso de seu déficit comercial sobre
os povos dos países latino-americanos e caribenhos.”
PRA: O dólar já é, de fato ou de
direito, a principal moeda utilizada nas trocas e nos fluxos
financeiros internacionais e isso se deu sem qualquer acordo
comercial. A adoção de uma moeda estrangeira como moeda nacional de
fato representa perda de soberania e limitação na formulação e
execução de políticas macroeconômicas nacionais, em especial da
política monetária. Mas, esse processo se deu em alguns países em
circunstâncias excepcionais de perda de “soberania interna” por
intenso desregramento da vida econômica nacional, por fatores que
têm muito pouco a ver com acordos comerciais ou abertura ao
exterior. A solução a esses problemas está no fortalecimento das
bases da economia nacional, o que paradoxalmente pode ser logrado
com uma maior inserção nos circuitos comerciais internacionais,
normalmente provedores de capitais, tecnologia, capitais de
empréstimo ou investimentos.
Os EUA e Canadá possuem um comércio
intenso, aliás consolidado no Nafta, e nem por isso o Canadá perdeu
soberania monetária ou cogita abandonar sua moeda. Etapas mais
avançadas de integração econômica, como evidenciado na experiência
européia, justificam a adoção concomitante de uma moeda comum, mas
isso se faz no quadro de um processo administrado, que em geral
fortalece as bases das economias nacionais, não o contrário.
“5) O acordo da ALCA implicará em maior
abertura financeira e, portanto, provocará maior vulnerabilidade
externa das economias latino-americanas e caribenhas, frente às
instabilidades, crises e pressões externas.”
PRA: O acordo, em seu formato
atual (pós-conferência ministerial de Miami, em novembro de 2003),
não contempla liberalização financeira estrito senso, mas isso pode
vir a ocorrer, num processo negociado. Abertura financeira sempre
traz certa instabilidade, mas ela pode ser controlada via regulação
bancária e financeira adequadas e pela adoção de medidas prudenciais
que devem existir em qualquer sistema financeiro bem administrado.
Em última instância, a liberalização dos movimentos de capitais
trará, numa etapa futura de integração financeira, alguns ganhos de
bem-estar que não caberia desprezar. Mas o processo deve ser
paulatino e muito bem monitorado.
“6) O Acordo da ALCA trará o domínio do
comércio agrícola por parte das grandes empresas estadunidenses, que
imporão preços e controlarão o mercado local. Esse acordo afetará
também a soberania alimentar de cada país, pois o abastecimento dos
principais produtos será controlado por grupos transnacionais.”
PRA: Essa visão determinista não
corresponde à realidade do comércio e dos mercados agrícolas hoje,
nem deve realizar-se no futuro. Não há a mínima hipótese de que os
grupos transnacionais afetem qualquer forma de “soberania
alimentar”, pois a lógica desses grupos corresponde à dos mercados,
e estes sempre existirão para todo e qualquer produto que entre na
pauta alimentar e comercial de qualquer país. A contrário, um acordo
comercial liberalizador conduz, necessariamente, a uma diversidade
ainda maior de abastecimento e ampliação dos circuitos de
comercialização, o que ipso facto reduz qualquer vulnerabilidade
alimentar.
“7) O Acordo da ALCA aprofundará o
domínio da biotecnologia e a tentativa de impor sementes
transgênicas no agro latino-americano e caribenho, por parte das
empresas de capital norte-americano, com gravíssimas conseqüências
para a natureza e para a saúde humana.”
PRA: O “argumento” parte do
pressuposta da nocividade da transgenia e da biotecnologia, o que é
simplesmente apriorístico e inadequado como abordagem de uma questão
importante, tratada de forma passional pelos opositores ideológicos
(isto é, não respaldados em argumentos científicos) da
biotecnologia. De resto, sementes transgênicas não vêm sendo
impostas, mas procuradas pelos agricultores locais, que vêm nelas um
elemento redutor de custos e de maior produtividade. Não aceitar
esse argumento econômico significa desconhecer a realidade. Por fim,
empresas nacionais, como a Embrapa, participação desse mercado, que
não está necessariamente condenado a ser reserva de mercado de
multinacionais. Pesquisa agronômica de boa qualidade está ao alcance
de qualquer universidade digna desse nome.
“8) O Acordo da ALCA aprofundará e
acelerará o controle e domínio da biodiversidade continental pelas
empresas transnacionais norte-americanas - com destaque à Amazônia.
E determinará a generalização, ampliação e uniformização das leis de
patentes e de propriedade industrial, aprofundando o domínio pelo
grande capital norte-americano da ciência e da tecnologia,
inclusive, através da apropriação do patrimônio humano, animal e
vegetal americano.”
PRA: A biodiversidade é um
patrimônio dos países, mas também é campo de experimentação
científica, nacional e internacional. Não há nenhuma razão para
supor que a comunidade nacional não consiga explorar os seus
próprios recursos, a menos que ela seja incapaz de fazê-lo, caso no
qual eles permanecerão inexplorados e não criarão riqueza. As
sociedades devem determinar o justo equilíbrio entre proteção e
domínio público, conscientes, porém, de que a não-proteção tem
atuado, no mais das vezes, como um desincentivo à pesquisa e
desenvolvimento nacionais desses recursos.
“9) O Acordo da ALCA acelerará e
aprofundará a formação de um mercado internacional de bens, serviços
e da cultura, uniformizando de acordo com os interesses do grande
capital, e ensejando uma empobrecedora padronização de gostos,
costumes, tradições e idiomas.”
PRA: Isso não é simplesmente
verdade: em nenhum dos processos nacionais conhecidos, a
globalização da cultura eliminou as manifestações locais de
folclore, música ou outros aspectos tradicionais, mas ao contrário,
permitiu que eles fossem veiculados em escala mais ampla, para
mercados (inclusive nacionais) antes inatingíveis. O interesse do
“grande capital” está no lucro e na maximização dos ganhos: todo
produto cultural é, em princípio, suscetível de encontrar um mercado
mais amplo e mais diversificado, e para isso a globalização também
serve. Manifestações populares locais não estariam sendo acessadas
caso não tivesse ocorrido, nas últimas décadas, uma intensa expansão
dos meios globais de comunicação e de informação.
“10) O Acordo da ALCA restringirá a
circulação legal de pessoas e de mão-de-obra pelo continente. Os
trabalhadores terão rebaixados seus direitos trabalhistas e sociais,
e as empresas impedirão que os níveis de salários do norte cheguem
ao sul. O acordo do Nafta já provocou a migração ilegal de mais de
oito milhões de mexicanos rumo ao norte.”
PRA: Não mais do que hoje. A
circulação legal é hoje restrita, e com um acordo comercial
verdadeiramente liberalizador ela tende a se ampliar, ainda que em
escala reduzida, tendo em vista as enormes disparidades existentes,
e as preocupações de ordem social (e orçamentária) que os países
mantêm. É fato sabido e notório que as migrações, tanto internas
quanto internacionais, levam os miseráveis de regiões pobres para os
grandes centros afluentes, onde estão as possibilidades de emprego e
habitação. Pretender liberalizar tais fluxos no plano internacional
significa retirar soberania dos Estados na determinação do acesso a
seu próprio território,o que pode até ser bom do ponto de vista dos
“exportadores” líquidos de mão-de-obra, mas geralmente incômodo dos
países de acolhimento. Por certo, grandes países, como os EUA,
dotados de economia dinâmica, conseguiriam absorver fluxos
respeitáveis de trabalhadores migrantes, legais e ilegais, mas o que
pensar de pequenas nações, como o Uruguai, que dispõem de condições
razoáveis de vida para os seus cidadãos, mas que provavelmente não
conseguiriam acomodar centenas de milhares de entrantes, num total
populacional (3,4 milhões de uruguaios) que constitui uma pequena
parte de uma cidade grande como São Paulo?
Que o acordo da Alca reduza direitos
trabalhistas é improvável, pois que, a pretexto justamente de evitar
o “dumping social”, os EUA estão exigindo que o acordo contenha
cláusulas de respeito mínimo a certas regras laborais e sindicais, o
que encontra resistência em países como México e Brasil, que vêem
nisso uma indisfarçável tendência a querer elevar artificialmente o
preço da mão-de-obra (uma de suas vantagens comparativas), ademais
de abrir o flanco a possíveis retaliações cruzadas em caso de
concorrência baseada no custo do trabalho, justamente.
Por outro lado, soa como absurda e
manifestamente irracional, a afirmação de que “O acordo do Nafta já
provocou a migração ilegal de mais de oito milhões de mexicanos rumo
ao norte.” Ora, é justamente o contrário: o Nafta já permitiu que um
número superior a 8 milhões de mexicanos emigrasse para os EUA, uma
vez que conseguiu reter, via investimentos americanos ao sul do Rio
Grande, alguns milhares de empregos no próprio México, sem os quais
seriam outros tantos candidatos à imigração clandestina nos EUA. Que
o Nafta não contemple livre migração entre os países membros é a
pura expressão das assimetrias existentes entre os três países: o
México é um potencial “exportador” de mão-de-obra não especializada,
o que deprimiria ainda mais os salários nos EUA, o que dizem querer
combater aqueles que são opostos aos acordos comerciais, nos EUA e
fora dele. Como não atentar para a manifesta contradição inscrita
neste texto dos “anti-alcalinos”?
“11) O Acordo da ALCA facilitará a
extensão das leis e do sistema judiciário e penitenciário
estadunidense para as nações latino-americanas e caribenhas. E
certamente haverá uma tentativa de maior criminalização e
penalização das pessoas e militantes sociais que se revoltarem
contra esse sistema de dominação. Qualquer revolta ou problema
social em um determinado país, será acionado o acordo da OEA para
ingerência dos demais, e em especial dos Estados Unidos.”
PRA: Os autores do manifesto
anti-Alca parecem estar singularmente mal informados sobre o alcance
efetivo do acordo em negociação: ele não contempla, em absoluto
normas jurídicas ou harmonização dos judiciários nacionais.
Simplesmente não existe acordo da OEA com esse teor. Trata-se de um
caso de desinformação ou de má-fé, ou ambos, pois os argumentos não
poderiam ser mais absurdos.
“12) O Acordo da ALCA facilitará a
integração e subordinação plena dos exércitos nacionais ao
imperialismo estadunidense, reservando-lhe exclusivamente a função
de polícias contra seus próprios povos. E ao Exército estadunidense
caberá então a missão “salvadora”de proteger o hemisfério e suas
fronteiras.”
PRA: A má-fé “argumentativa”
continua neste parágrafo, pois é evidente que o acordo da Alca
sequer toca em problemas de segurança ou de integração militar. Ou
os autores estão tremendamente mal-informados sobre o que é, e o que
pretende ser, o acordo da Alca, ou eles pretendem tão somente fazer
terrorismo político, a partir de afirmações manifestamente falsas ou
inconsistentes.
“13) O Acordo da ALCA propiciará uma
crescente perda de autonomia dos Estados sobre seus territórios e
populações, colocando em questão, a médio prazo, sua própria
existência como nações independentes.”
PRA: É verdade, mas isso é válido
para os Estados Unidos, também. Qualquer acordo comercial, ou
melhor, qualquer acordo internacional implica, automaticamente, a
redução da soberania estatal, na medida em que espaços econômicos ou
obrigações políticas são estabelecidos no plano multilateral,
geralmente com perda conseqüente da capacidade dos estados nacionais
de atuarem de forma autônoma ou independente. Ou melhor, a
independência política dos Estados se mantém, mas no quadro de uma
interdependência crescente entre os países. Que os Estados percam
soberania para mudar leis e regras ao arbítrio dos governantes do
momento é, em si, uma boa coisa, na medida em que os cidadãos ficam
resguardados de mudanças bruscas nas regras do jogo, com o que se
ganha em previsibilidade e estabilidade nas condições gerais de
exercício das atividades econômicas (pois é disso que se trata num
acordo do tipo da Alca). Um eventual acordo da Alca estabelecerá, se
implementado, regras de abertura comercial, que não poderão, salvo
denúncia do tratado e retirada do país (o que parece impensável,
numa abordagem utilitarista), serem modificadas mais adiante. Ou
seja, aumenta o horizonte de planejamento e de previsibilidade para
as empresas, que poderão fazer seus investimentos e criar empregos
sem temer mudanças bruscas de uma hora para a outra. Quem se
posiciona contra esse tipo de “perda de soberania”, provavelmente
não está preocupado como ambiente de negócios e com a estabilidade
das regras do jogo.
4. Uma boa razão para dizer não à
Alca
Estes são, portanto, meus comentários
aos trezes “argumentos” dos “anti-alcalinos”. Espero ter demonstrado
a incoerência social, a irracionalidade econômica, quando não o
absurdo político e o lado inverídico dessas afirmações, totalmente
ideológicas e sem qualquer fundamento na realidade. As treze
“razões” não são razões nem a favor nem contra a Alca, pois que elas
estão, simplesmente, desfocadas em relação ao objeto próprio da
Alca, que não se parece em nada ao “monstro metafísico” que costuma
ser apresentado como “Alca” (que só parece existir na imaginação dos
seus opositores, guardando pouca conexão com a realidade). Eu
recomendaria que os opositores da Alca procurassem ler o texto
preliminar do acordo (ele está disponível no site www.ftaa-alca.org),
e retornassem com o dever de casa bem feito, apresentando argumentos
econômicos para se opor à Alca.
Eu ofereço um bom argumento para se opor
à Alca, mas ele não tem nada a ver com o amontoado de colocações
ideológicas oferecidas no texto transcrito abaixo. Trata-se,
simplesmente, de examinar as promessas de acesso a mercados e as
novas regras para o exercício de atividades econômicas no caso de
implementação de um acordo minimamente abrangente de liberalização
comercial de bens e serviços. O Brasil deve examinar o impacto da
sua própria abertura no quadro de um hipotético acordo da Alca e
medi-lo em função da abertura prometida e real dos demais mercados a
seus produtos competitivos. A partir daí, um cálculo de
custo-oportunidade poderá ser feito - altamente incerto, obviamente
-, abrindo-se então espaço para uma discussão racional em torno de
sua conveniência ou não para a sociedade brasileira.
Se no cômputo global de ganhos e perdas
- os dois aspectos devem ser vistos ao mesmo tempo, uma vez que a
Alca, como todo acordo comercial, traz ambos os efeitos -, o balanço
revelar-se negativo, o Brasil poderia dizer não à Alca, com total
consciência de que efetuou a melhor barganha possível para os
interesses nacionais. Ele deve ter consciência, porém, de que os
custos da “não-Alca” podem igualmente ser significativos, em termos
de perdas de oportunidades de exportação para novos mercados ou
desvio de seus próprios produtos de mercados já ganhos, com efeitos
substituição por parte daqueles países contemplados com os novos
termos da abertura.
Certamente que existirão custos sociais
na Alca - como em qualquer outro acordo comercial, inclusive do
Mercosul com a China, com a Índia e com outros países -, mas eles
devem ser comparados com os custos da “não-Alca”, que também
representará ganhos para nossas indústrias e agronegócio
competitivos (se não fosse assim, os sindicalistas americanos não
estariam tão preocupados com o acordo).
O debate sobre a Alca precisa avançar em
nosso país. Espero apenas que esse avanço se faça com base em
argumentos coerentes, dotados de sólido embasamento econômico, não a
partir de uma série de afirmações carentes de respaldo na realidade.
O simplismo econômico e a leviandade política nunca foram boas
conselheiras em matéria de políticas públicas.
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(Texto de referência)
Plebiscito: Treze razões para
dizer não à ALCA
A ALCA representa maior
dependência e vulnerabilidade econômica externa e a
re-colonização política e militar de todo o continente sob
controle dos Estados Unidos da América. “Nós queremos vender
mercadorias, tecnologia e serviços estadunidenses, sem
obstáculos ou restrições, para um mercado único de 800 milhões
de pessoas, com uma renda total de 11 trilhões de dólares
anuais, num território que irá do ártico até o cabo de Horn”,
declarou o general Colin Powell, Secretário de Estado do
governo Bush.
Os Estados Unidos possuem 240
milhões de habitantes e 9 trilhões de dólares, de PIB. Os
demais países americanos: 560 milhões de habitantes e 2
trilhões de dólares de PIB. O Brasil, 170 milhões de
habitantes e 800 bilhões de dólares de PIB.
1) O Acordo da ALCA vai submeter a
produção e os mercados latino-americanos e caribenho às
necessidades do grande capital dos Estados Unidos, elevando
sua taxa de lucro, mantendo o monopólio tecnológico; a
economia de escala; o controle dos preços e do mercado
estadunidense à concorrência internacional.
2) O Acordo da ALCA anulará a
soberania das nações latino-americanas e caribenhas, sobre a
política econômica e social; acelerando a subordinação e a
desnacionalização das empresas e mercados latino-americanos ao
grande capital dos Estados unidos, incorporando as grandes
empresas nacionais e subjugando as pequenas e médias empresas.
3) O Acordo da ALCA reorganizará a
economia latino-americanas e caribenha na função apenas de
exportadora de matérias-primas e de mão-de-obra barata e como
importadora de capital, tecnologia e bens de consumo
sofisticados.
4) O Acordo da ALCA estimulará a
adoção do dólar como moeda nacional e do continente,
extinguindo paulatinamente as moedas nacionais. A dolarização
aprofundará e acelerará a perda de autonomia dos Estados para
gerirem as políticas monetárias. E o monopólio da emissão do
dólar por parte do governo dos Estados Unidos transferirá o
peso de seu déficit comercial sobre os povos dos países
latino-americanos e caribenhos.
5) O acordo da ALCA implicará em
maior abertura financeira e, portanto, provocará maior
vulnerabilidade externa das economias latino-americanas e
caribenhas, frente às instabilidades, crises e pressões
externas.
6) O Acordo da ALCA trará o
domínio do comércio agrícola por parte das grandes empresas
estadunidenses, que imporão preços e controlarão o mercado
local. Esse acordo afetará também a soberania alimentar de
cada país, pois o abastecimento dos principais produtos será
controlado por grupos transnacionais.
7) O Acordo da ALCA aprofundará o
domínio da biotecnologia e a tentativa de impor sementes
transgênicas no agro latino-americano e caribenho, por parte
das empresas de capital norte-americano, com gravíssimas
conseqüências para a natureza e para a saúde humana.
8) O Acordo da ALCA aprofundará e
acelerará o controle e domínio da biodiversidade continental
pelas empresas transnacionais norte-americanas - com destaque
à Amazônia. E determinará a generalização, ampliação e
uniformização das leis de patentes e de propriedade
industrial, aprofundando o domínio pelo grande capital
norte-americano da ciência e da tecnologia, inclusive, através
da apropriação do patrimônio humano, animal e vegetal
americano.
9) O Acordo da ALCA acelerará e
aprofundará a formação de um mercado internacional de bens,
serviços e da cultura, uniformizando de acordo com os
interesses do grande capital, e ensejando uma empobrecedora
padronização de gostos, costumes, tradições e idiomas.
10) O Acordo da ALCA restringirá a
circulação legal de pessoas e de mão-de-obra pelo continente.
Os trabalhadores terão rebaixados seus direitos trabalhistas e
sociais, e as empresas impedirão que os níveis de salários do
norte cheguem ao sul. O acordo do Nafta já provocou a migração
ilegal de mais de oito milhões de mexicanos rumo ao norte.
11) O Acordo da ALCA facilitará a
extensão das leis e do sistema judiciário e penitenciário
estadunidense para as nações latino-americanas e caribenhas. E
certamente haverá uma tentativa de maior criminalização e
penalização das pessoas e militantes sociais que se revoltarem
contra esse sistema de dominação. Qualquer revolta ou problema
social em um determinado país, será acionado o acordo da OEA
para ingerência dos demais, e em especial dos Estados Unidos.
12) O Acordo da ALCA facilitará a
integração e subordinação plena dos exércitos nacionais ao
imperialismo estadunidense, reservando-lhe exclusivamente a
função de polícias contra seus próprios povos. E ao Exército
estadunidense caberá então a missão “salvadora”de proteger o
hemisfério e suas fronteiras.
13) O Acordo da ALCA propiciará
uma crescente perda de autonomia dos Estados sobre seus
territórios e populações, colocando em questão, a médio prazo,
sua própria existência como nações independentes.
(Fim de transcrição) |
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