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Por JOSÉ APÓSTOLO NETTO
Historiador e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP) |
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Paulo Prado e
Monteiro Lobato: a crítica da interpretação – Parte I
Monteiro
Lobato e Paulo Prado talvez sejam os melhores exemplos de escritores
brasileiros do primeiro quartel do século 20 que dominaram a arte e
a prática de interpretar, o que os coloca na experiência da
possibilidade de abertura do pensamento. Mas também, em
contrapartida, os melhores exemplos de escritores da época que, a
despeito dessa consciência, assumiram o fechamento da linguagem e do
pensamento de base cientificista. Esse aparente paradoxo parece
recobrir, como um manto, todo o processo de formação de ambos
escritores.
O presente trabalho pretende mostrar que
a modernidade de Paulo Prado e Monteiro Lobato não se dá apenas,
como comumente entendemos, por meio da denúncia do atraso
brasileiro, da crítica às mazelas da primeira República, da crítica
à cultura de empréstimo, da defesa das coisas nacionais ou, enfim,
da defesa de reformas e transformações que colocassem o Brasil nos
trilhos do progresso através do aproveitamento das potencialidades
lingüísticas, raciais e naturais adormecidas no imenso território.
Quer mostrar, outrossim, que a
modernidade desses escritores está inscrita em duas práticas: na
crítica que operam na massa de interpretações, exóticas ou
indígenas, principalmente de extrato romântico, que descansam no
espaço da estrutura mental do início do século passado; e na
varredura crítica que fazem no corpo, no trabalho e na linguagem do
caboclo e do brasileiro, consciente ou inconscientemente, acaba no
desvelamento da repetição como fundamento da vida nacional.
É, portanto, como hermeneutas e
pensadores modernos que procuramos entendê-los. É como pensadores
que operaram no duplo do pensamento moderno, ou seja, que se
dedicaram tanto à análise de conteúdos à crítica dos modos de
interpretação existentes que procuramos situá-los.
Acompanhar esse trabalho de crítica de
Lobato e Paulo Prado, fora e dentro das obras, pareceu-nos mais
viável no primeiro que no segundo. Por isso que, no que se refere a
Paulo Prado, a nossa análise ressentirá mais de elementos de ordem
biográfico e/ou autobiográfico; focando o seu olhar na obra mais que
no autor.
Em Lobato, a coisa se passa um pouco
diferente. Dono de uma imensa e meticulosa biografia, que,
inclusive, esforçou-se para organizar, nos legou um imenso arquivo
de vida que nos permite um passeio mais sinalizado pelas suas obras
e pelos seus feitos. E, por isso, a leitura deste pareça mais
convincente que a realizada em Paulo Prado.
A Crítica da interpretação
A força da crítica da interpretação de
Monteiro Lobato pode ser sentida com maior intensidade nas cartas do
escritor para Godofredo Rangel escritas menos de um mês antes da
publicação de Velha Praga no jornal O Estado de São
Paulo, em 12 de novembro de 1914.
A carta, datada de 20 de outubro do
mesmo ano, trazia, além do roteiro do opúsculo, a seguinte tese:
“entre os olhos dos brasileiros cultos e as coisas da terra há um
maldito prisma que desnatura as realidades. E há o francês, o
maldito macaqueamento do francês.”
Nessa tese, Lobato, não apenas demonstra
o seu interesse em denunciar a visão distorcida e falsa que a elite
brasileira tem da realidade, como coloca em funcionamento a sua
prática de hermeneuta, ao operar, ao mesmo tempo, o desmascaramento
dessa boa consciência e o enquadramento da realidade, anterior a sua
crítica, enquanto interpretações, uma vez que é desnaturada, a
realidade, pelo romantismo e pela estética francesa.
Contudo, a idéia lobatiana da realidade
como interpretação, ou melhor, interpretações, já é percebida na
prática estudantil de colecionar e manipular teorias e teóricos de
forma livre e eclética, atribuindo ao mundo sentidos que variam ao
sabor da variação das suas leituras, opiniões, idéias e doutrinas.
É o amigo Lino Moreira quem nos informa
dessa disposição intelectual de Lobato. Na forma de brincadeira
satírica, Lino traça no jornal Minarete o perfil dos oitos
membros do Cenáculo, não excetuando ele o próprio autor. O perfil de
Lobato traz, entre outras, a seguintes características:
“(...) Espírito multiforme e versátil,
elástico e, supõe-se científico. Muda de opiniões, de idéias e
doutrinas mais ou menos filosóficas com a sofreguidão de um
comboio célere através de florestas espessas e soberbas... (...).”
Nas considerações literárias de Monteiro
Lobato também é possível visualizar tal exercício hermenêutico. Ele
reconhece, por exemplo, que cada literatura constrói uma
representação do seu país de origem. Em carta a Rangel,
na qual fala ao amigo da literatura russa, ele conclui:
“A França é um velho jardim clássico.
A Inglaterra é um gramado lindo. A Alemanha é uma horta
científica, adubada com pós químicos, bostas sintéticas, urinas de
uma Werke. A Rússia é a Grande Esterqueira onde fermenta o Futuro
– os futuros valores, os futuros valores, os futuros moldes
sociais, as futuras normas de tudo. Toda a literatura russa me dá
a impressão disso. Creio que é um dos livros de Turguenef que
termina falando simbolicamente na terra negra. A Rússia é a Terra
Negra da Humanidade.”
Nessa mesma carta, Monteiro Lobato fala
de problemas relativos às técnicas de interpretação, cujos
critérios, segundo ele, variam de acordo a exigência do objeto
analisado. Relativiza, ele:
“Não te posso dizer nada sobre
Crime e Castigo porque não ha de falar de coisas grandes com
meios pequenos – com essas pulgas gloticas que são as ‘palavras em
língua portuguesa’, esses produtinhos lá de Portugal, onde também
fazem tamancos e palitos. A nossa analise está aparelhada com
medidas francesas, decimais – um sistemazinho decimal de idéias.
Não pode, pois, não tem jeito, não consegue dar idéia das coisas
russas. Quando leio as outras literaturas, eu sinto isto e aquilo
– sentimentos analisáveis e classificáveis. Quando leio os russos,
eu pressinto. Guerra e Paz!... Crime e Castigo! – Casa dos Mortos!
– Gorki – Gogol –Turguenef – todos...”
Mesmo quando assume uma postura
intelectual fechada numa teoria ou em algum teórico ou, ainda, em
algum cientificismo, como o fará, em vários momentos, em relação ao
determinismo de Spencer, Lobato não vai deixar de fazer menção às
técnicas de interpretação. Em geral, quando argumenta favorável a
este ou aquele pensador, nunca o considera de forma isolada. Sempre
o relaciona-o com outros pensadores, o modo de pensar dele com os
modos de outros e assim por diante.
Em alguns casos, as relações
apresentam-se esdrúxula, principalmente, quando tenta aproximar
pensadores muito divergentes entre si. Mas, no todo, esse jogo de
relações de aproximação e distanciamento torna-se produtivo porque
coloca em movimento a multiplicidade de interpretações para a qual
aponta o pensamento moderno de Lobato.
Na tentativa de convencer Rangel da
definição de evolução como um processo complexo, “uma crescente
heterogeneização de estruturas e funcionamentos”, Lobato
relaciona pelo menos quatro interpretações e quatro interpretantes:
Nietzsche e a teoria do além do bem e do mal, Spencer e a teoria do
determinismo, o povo comum e a teoria da sorte, o teólogo e a teoria
do desígnio. Sem mencionar o próprio Rangel e a teoria da intuição.
Senão vejamos:
“E o fato de chegar você por mera
intuição pessoal ás mesmas conclusões de Spencer, prova a força do
teu senso filosófico. Nietzsche chama a isso (ter essa filosofia)
colocar-se além do bem e do mal, isto é, num ponto de vista
objetivo, sem perspectivas que adulterem as coisas e donde se
possa perceber a emaranhadíssima rede causas e efeitos das forças
indiferentes. Um tiro no alvo, por exemplo; se acertou foi
sorte, diz o povo comum; foi por obra e graça da entidade criadora
do Desígnio – Deus, Divina Providencia, etc., diz o teólogo. Mas o
sábio á Spencer diz que o fenômeno foi rigorosamente determinado
pelas condições do atirador, da arma e do meio ambiente; um
fenômeno, portanto é determinado por condições. Dadas aquelas
condições, o fenômeno fatalmente ocorrerá. Aconselho-te Spencer
nos first Principles. E’ uma Suma.”
Fixemos o enunciado adulterem as
coisas. Ele revela que na mente de Lobato o signo tem o seu
negativo, comporta contradições, que ele não é transparente como o
véu que deixa transparecer o referente na sua suavidade. O enunciado
lobatiano revela que existem visões deformadoras e realidades
deformadas que precisam, portanto, da força reparadora do ponto de
vista objetivo que pode ser da ciência, de um extraterrestre, de um
rio ou até mesmo de uma montanha.
Na prática forense, Lobato também fez
uso da crítica da interpretação. Como nos informa Edgar Cavalheiro,
Lobato como promotor em Areias praticou a defensoria apenas uma vez.
Tratava-se de um caso de reclamação de dívida. Nada extraordinário.
Mas que chama a nossa atenção pela forma que Lobato montou a defesa.
Ao invés de levantar provas para a justificação dos argumentos que
corroborem a tese da defesa, como é comum na prática forense, toma o
próprio texto da acusação e interpreta-o como visão distorcida da
realidade. Denomina-o de “Monstro tetralógico”.
Já no caso de Paulo Prado, não
encontramos em sua biografia elementos que sinalizem uma tal crítica
da interpretação, como ocorre com Monteiro lobato. Mesmo por quê não
analisamos essas fontes no caso do primeiro. Mas isso não impede que
observemos na própria obra Retrato do Brasil elementos que
indiquem a existência de um Paulo Prado hermeneuta.
No “Post-Scriptum” do livro, que no
fundo se trata de uma discussão teórica e metodológica sobre
técnicas de interpretação, uso das fontes etc, o autor vaticina:
“Damos ao mundo o espetáculo de um
povo habitando um território – que a lenda mais que a verdade –
considera imenso torrão de inigualáveis riquezas, e não sabendo
explorar e aproveitar o seu quinhão.”
Assim como em Lobato, existe em Paulo
Prado a preocupação de operar a crítica das interpretações que
deformam a realidade brasileira, o tal “prisma”, para restaura-lhe a
verdade. Esse prisma para Paulo Prado é fundamentalmente o
romantismo:
É interessante observar como ainda no “Post-Scriptum”,
Paulo Prado, ao justificar o modo de ser do seu trabalho, trava
diálogo, feito de escolhas e recusas teóricas e literárias, com
diversas interpretações colocadas na época. Depois de afastar a sua
interpretação do regionalismo paulista, o ensaísta procura situá-la
no espaço entre o impressionismo artístico, o romantismo e o
positivismo alemão. Acompanhemos:
“Este ‘retrato’ foi feito como um
quadro impressionista. Dissolveram-se nas cores e no impreciso das
tonalidades as linhas nítidas do desenho e, como se diz em gíria
artista, das ‘massas e volumes’, que são na composição histórica a
cronologia e os fatos. Desapareceram quase por completo as datas.
Restam somente os aspectos, as emoções, a representação mental dos
acontecimentos, resultantes estes mais da dedução especulativa do
que da seqüência concatenada dos fatos. Procurar, deste modo, num
esforço nunca atingido chegar à essência das coisas, em que à
paixão das idéias gerais não falte a solidez dos casos
particulares. Considerar a história, não como uma ressurreição
romântica, nem como ciência conjectural, à alemã; mas como
conjunto de meras impressões, procurando no fundo misterioso das
forças conscientes ou instintivas, as influências que dominaram,
no correr dos tempos, os indivíduos e a coletividade. É assim que
o quadro – para continuar a imagem sugerida – insiste em certas
manchas, mais luminosas, ou extensas, para tornar mais parecido o
retrato”
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