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Por
JOÃO DOS SANTOS FILHO
Bacharel em
Ciências Sociais e em Turismo – Professor da Universidade Estadual
de Maringá – UEM. Professor do curso de turismo do Centro
Educacional Filadélfia de Londrina. Mestre em Filosofia e História
da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Aluno especial do doutorado em ciência do turismo na ECA/USP.
Fundador da Associação Brasileira de Bacharéis de Turismo de São
Paulo - ABBTUR/SP e do Instituto de Análises sobre o
desenvolvimento Econômico Social - IADES. Membro do conselho
cientifico do Boletim de Estudos em Hotelaria e Turismo – BEHT das
Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão. |
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Por que a ação da
Embratur se torna preocupante para a formulação de Políticas
Públicas internas em Turismo?
Hoy en dia ser
<<moderno>> significa tener acceso a los circuitos industriales del
comercio, las finanzas, las inmobiliarias y la industria turística.
Ser <<marginal>> hoy significa ser nacional, regional, local. Las
élites internacionales son las que hacen la historia; los marginales
son los objetos de esta: objetos de explotación, objetos típicos o
sexuales del turismo, un emplazamiento para la apropiación y la
inversión. (James Petras. Modernidad versus comunidad. In:
Interrogantes de la modernidad. Cuba: Ediciones Tempo. s/d. p. 25.)
A
lógica do capital determina, também, a lógica do fenômeno
turístico em sua dimensão histórica, entretanto esse fato é
percebido e entendido por poucos, pois a maioria dos estudos do
fenômeno turístico descreve-no dentro da visão neopositivista
cuja dimensão teórica e empírica está explicita no interior dos
planos das políticas públicas de turismo elaborado pelo Estado
brasileiro desde a criação da Embratur, no de 1966.
Na verdade, a escola filosófica do
empirismo lógico, denominada neopositivismo, deu guarida às
concepções de cunho positivista, isto é, aceitou o empirismo como
fonte condutora de sua logicidade, expressa em uma linguagem
formatada segundo as regras da lógica formal. Georg Lukács, em um de
seus textos de reflexão sobre a ontologia marxiana, favorecemo-nos
com a seguinte afirmação:
Todos sabem que nas últimas décadas,
radicalizando as velhas tendências gnosiológicas, o neopositivismo
dominou de modo incontrastado, com sua recusa de princípio em face
de toda e qualquer colocação ontológica, considerada como não
científica. E esse domínio se deu não apenas na vida filosófica
propriamente dita, mas também no mundo da práxis. Se analisássemos
bem as constantes teorias dos grupos dirigentes políticos,
militares e econômicos de nosso tempo descobririam que elas –
consciente ou inconscientemente – são determinadas por métodos de
pensamento neopositivistas. (LUKÁCS, 1978, p. 1-2)
O processo ideológico que alimenta este
movimento de convencimento do capital vem sendo elaborado
pela elite governante durante décadas e possui como premissa
sinalizadora, compreender a realidade nacional pela ciência
positivo-empirista em que os dados engraxam os mecanismos de
submissão aos serviços e interesses do grande capital
multinacional, mais modernamente denominado globalização.
Conseguindo, com isso, neutralizar possíveis potencialidades
revolucionárias de governos progressistas que existiam na América
Latina, por isso o período do nacionalismo e do populismo se esgota
a partir dos golpes militares e das operações secretas elaboradas
pelo Serviço de Inteligência dos Estados Unidos da América - CIA,
como a Operação Condor,
há pouco tempo descoberta e colocada a público pelos setores
nacionalista, progressista e de esquerda latino-americana.
Padronizou-se a idéia positivista de que
o turismo só existe quando aparece o turista estrangeiro. E quando o
turista é nacional este pode ser abusado, usado, desconsiderado, mas
deve permanecer compreensivo e submeter-se ao consumo dos serviços
de custo dolarizado, sendo sempre preterido em diversas situações
quando da presença do estrangeiro. Não estou, contudo, estimulando
nenhum xenofobismo, alerto, sim, para o fato de que tal procedimento
está implícito em grande parte do trade, em razão de que ele
sempre foi estimulado a preparar seus serviços para o turismo
receptivo. Tal realidade pode ser demonstrada empiricamente por meio
dos dados fornecidos pela própria Embratur, que foram, muitas vezes,
de difícil acesso ao domínio da sociedade,
dados indicam de que o fluxo quantitativo de turista ao Brasil nunca
foi ascendente, por diferentes razões conhecidas, porém, nos
discursos oficiais e em palestras públicas, os presidentes da
Embratur demonstravam que o fluxo de turistas aumentava ano a ano.
Dizem e afirmam ainda hoje que o
brasileiro não possui poder aquisitivo e, quando viaja, fica na casa
de parentes e amigos, o que corresponde a um descaso com o turismo
interno, pois gasta-se valor dólar, mas não se paga em dólar;
desconsiderado nas estatísticas, é esquecido na tônica da maioria
das falas contidas nos documentos oficiais. As pessoas que ainda
duvidam deste processo, devem refletir as seguintes afirmações
expressas por aqueles que tiveram a possibilidade de governar o
turismo brasileiro.
Desastre na elaboração de políticas
públicas em turismo, planejamento impróprio e utilização da Embratur
como instrumento político foram práticas corriqueiras. Do que
pessoas da política se aproveitavam, usando o referido órgão para
intermediar verbas para o setor turístico!
UM PEQUENO ESBOÇO DAS POLÍTICAS
PÚBLICAS DE TURISMO NO BRASIL
Como primeiro presidente da Embratur,
à frente deste órgão no período de 1966 a 1971, tivemos com
indicação feita pela influente Associação Comercial do Rio de
Janeiro, o carioca Joaquim Xavier da Silveira, secretário de
Comércio do Ministério da Indústria e Comércio. Sua administração
passou pelos governos de Humberto Castelo Branco (15/04/1964 a
15/03/1967), Costa e Silva (15/03/1967 a 31/08/1969) e pela junta
militar, que durou dois meses, e parte do governo de Emilio G.
Médici (30/10/1969 a 15/03/1974).
Foi na referida gestão que o governo
classificou a atividade do turismo como indústria, com o seguinte
comentário:
Por isso, hoje pode-se afirmar que o
turismo como indústria, como atividade econômica, já oferece
resultados no contexto da economia nacional, mercados de trabalho,
e apresentando índices de crescimento que permitem prever sua
consagração a médio prazo, como importante indústria do país.
(XAVIER DA SILVEIRA, s/d, p. 17-18)
Essa visão economicista e salvadora da
própria economia prevalece na leitura do turismo e domina grande
parte da literatura produzida principalmente pelos órgãos oficiais
nacionais e internacionais de controle e organização da demanda do
fluxo turístico e também presente em alguns centros de investigação.
Com isso, podemos afirmar que os Estados nacionais incorporaram em
sua balança comercial o turismo como gerador de divisas, porém na
sua essência ontológica isto ajudou a restringir o avanço de seu
estudo episteme, empobrecendo a discussão acadêmica.
Em uma outra fala o presidente da
Embratur, ele tenta dizer que a ênfase sempre foi para o turismo
interno, mais adiante, em decorrência do ufanismo instalado pelos
militares para poder obter o controle geral do Estado, acaba se
contradizendo como fica explícito abaixo:
Dar ênfase ao turismo interno sempre
foi a tônica da política traçada pela EMBRATUR, mas sem que essa
ênfase implicasse em descurar-se do estímulo ao turismo
internacional, denominado de “turismo receptivo”.
Aparelhar o Brasil para o turismo
receptivo é uma tarefa ingente, mas que se torna imperativo, pois
uma nação que se agiganta em todos os setores de atividade não
pode ignorar esse imenso manancial de riquezas, abandonando uma
oportunidade de gerar divisas e criar novos empregos. (XAVIER DA
SILVEIRA, s/d, p. 34-35)
Não podemos esquecer que Xavier passou
por basicamente três gestões sob as diretrizes de o governo militar,
desenvolvendo uma política inserida em uma ditadura fascista e com
preocupação pragmática e não nacionalista, pois o que estava em jogo
era colocar o Brasil no processo de desnacionalização de sua
economia, submetendo-a aos interesses dos Estados Unidos e
reenquadando a ampliação da mais valia. Para que isso se
viabilizasse, o governo militar “[...] implanta uma ditadura tão
regressiva no plano social que teve de fazer-se cada vez mais
repressiva no plano político.” (Ribeiro, 1985: ref. 1815 ). Nesta
perspectiva, cassa os direitos políticos de possíveis candidatos
civis à presidência da República, fecha o Congresso Nacional,
executam-se prisões em massa. Segundo Darcy Ribeiro:
Os militares da Sorbonne Reiúna que
assaltaram o poder, depois de rasgarem a Constituição, caíram em
verdadeira obsessão legiferante. Editaram duas
“constituições” que juraram cumprir fielmente, mas alteraram,
depois, com nada menos que vinte e cinco Atos Institucionais e
trinta e cinco Atos Complementares. Nessa fúria, emitiram mais de
dois mil decretos-leis, inclusive os que regulamentam o sigilo de
Estado e o que institui o decreto secreto, para legalizar,
clandestinamente, ilegitimidades inconfessáveis. Mais tarde,
inventam, ainda, a aprovação de verdadeiras “leis” pelo Congresso
por decurso de prazo, e inscrevem na Constituição e em seus
penduricalhos exorbitâncias e excessos, tais como o estado de
sítio vigente, as salvaguardas constitucionais, o
estado de emergência e outras barbaridades da doutrina de
segurança nacional que armam o Estado de superpoderes
discricionários e incontroláveis como nunca se viu em tempo algum,
nem em lugar nenhum. (RIBEIRO, 1985, ref. 1820)
A expressão máxima desse período de
gestão da Embratur se identifica com a política desenvolvida pelos
militares que inculcaram à nação a idéia do inimigo interno e do
anticomunismo, pois os mesmos salvariam o país do caos da
estatização, implantando uma democracia liberal moderna e ocidental.
Abrir o mercado para o capital estrangeiro e no livre jogo
mercado sem fronteiras capitalista e aderir ao bloqueio político e
econômico para com os países socialistas são as premissas desse
“novo” governo.
A Embratur, unidade administrativa que
pertencia ao Ministério da Indústria e Comercio, alcançou realce na
sua atuação internacional, pois, querendo influir junto aos órgãos
internacionais, a fim de poder influenciar nos fluxos do turismo
receptivo para o Brasil, participou de uma série de encontros
internacionais, conseguindo:
No campo internacional, a posição do
Brasil logo começou a se fazer sentir. Essa ação foi coordenada
com o Ministério das Relações Exteriores. O Brasil se filiou aos
organismos internacionais de turismo, passando a figurar em corpos
eletivos e executivos dessas organizações. Em 1967, o Brasil
conquistou a vice-presidência da SATO e compareceu às reuniões da
ASTA e da COTAL.
Em 1968, dois diretores da EMBRATUR
foram eleitos membros do Conselho da UIOOT e recaiu no nome de um
brasileiro, o Dr. Pedro de Magalhães Padilha, a escolha unânime de
Presidente da Comissão Multinacional encarregada de promover o Ano
Latino Americano de Turismo de 1972.
A Embratur, órgão de ponta para a
organização do turismo nacional, abriu diversas frentes dentro dessa
cadeia produtiva, uma vez considerado a “indústria sem chaminés,
indústria da paz e a salvação da crise dos países capitalistas e
socialistas”. O Brasil fez também a apologia ao “milagre
brasileiro”, sendo o turismo a solução para o desenvolvimento do
país, sem perceber que essa “onda” é dada pelo maremoto do
capital que, para se auto-reproduzir, necessita agitar suas
águas em prol da ampliação da mais-valia.
Nesse sentido, o avanço do turismo, no
mundo e no Brasil deve-se ao interesse do capital e não do
capitalismo, obviamente que o mesmo surge como sendo preocupação dos
golpistas, mas estes não entendem que a orquestração já fora dada
por interesses da lógica do capital. Tal entendimento
limitado acaba com a preocupação do turismo interno e coloca o
turismo receptivo como a base de todo e qualquer planejamento
turístico, por isso o tempo livre que pode ser usufruído pelo lazer
e/ou turismo torna-se uma mercadoria a ser oferecida no mercado para
ser consumida e paga em dólar.
Pelo estágio de nossos estudos, ainda
preliminares, tudo indica
que os planos de turismo elaborados pela Embratur, de 1966 até 2003,
pecam pela mesma tentação: dar prioridade e privilégios para o
turista estrangeiro. Estes ditam as regras e a hospitalidade exigida
pelo capital em detrimento ao turista nacional que se submete
a uma hospitalidade globalizada, na qual a idiossincrasia do
brasileiro simplesmente não participa com nada.
O governo Médici, em seu programa “Metas
e Bases para a Ação do Governo”, em suas diretrizes dos chamados
“programas impactos”, afirma com toda a ênfase que:
I - Incrementação, quando ao turismo
internacional, da participação do Brasil nas correntes de turismo,
tanto de renda alta como média. Isso significa dispor de
infra-estrutura sob a forma de certo número indispensável de
hotéis de categoria internacional (luxo ) e de número considerável
de hotéis de categoria média (boa qualidade). Significa,
igualmente, esforço de redução substancial das tarifas de
transporte aéreo com a Europa e Estados Unidos; e dispor de
roteiros turísticos prioritários, em nível nacional e no quadro da
América Latina. (MAGALHÃES PADILHA. 1972, P. 16)
Mais uma vez, a proposta inicial dos
planos nacionais destaca o turismo receptivo como a ênfase principal
e de importância fundamental para qualquer política de turismo. A
idéia de vender uma imagem de fetiche sobre o Brasil para os
estrangeiros faz a Embratur desenvolver e priorizar uma publicidade
focada para a mulher brasileira e sua beleza estética, como podemos
perceber nos estampados dos posters da Embratur, de 1966 até 1986,
conforme pesquisa que estamos desenvolvendo com material de arquivo
particular de um pesquisador da área.
Como exemplo, contentamo-nos
exemplificar com a imagem de um cartão postal conseguido, que
retrata o erotismo da imagem feminina que o Brasil atualmente ainda,
com menos intensidade, divulga no exterior:
Podemos, de forma preliminar, concluir
que as políticas de turismo, no Brasil, de acordo com o
desenvolvimento de nossas pesquisas, vêm sinalizando, em sua
essência, que o turismo interno é considerado sempre de forma
secundária.
No Plano Nacional do Turismo de 2003 a 2007, do governo do Partido
dos Trabalhadores, na mensagem do Senhor Presidente da República,
fica evidente a preocupação com o turismo receptivo, quando este
afirma:
Além dessas perspectivas, o turismo
pode cumprir um papel importante no equilíbrio da balança
comercial, com o ingresso de novas divisas, por meio do aumento no
fluxo de turistas estrangeiros e da atração de investimentos para
a construção de equipamentos turísticos.
Por todos esses motivos, já em
campanha havíamos assumido o compromisso de criarmos o Ministério
do Turismo e de profissionalizarmos a EMBRATUR, voltando o seu
foco para a promoção, marketing e o apoio à comercialização do
produto turístico brasileiro no mundo.
Novamente, a prioridade para o
desenvolvimento do turismo brasileiro é considerada de fora para
dentro, o que explicita a noção de dependência de um tipo de forma
colonialista. Vender a imagem do Brasil deve ser função do Estado,
porém, deve estar pautado na realidade concreta, no conjunto das
praticas de lazer e turismo do povo brasileiro. Nas palavras do
Presidente, “O turismo quando bem planejado, dentro de um modelo
adequado, onde as comunidades participam do processo, possibilita a
inclusão dos mais variados agentes sociais”. (PLANO NACIONAL DO
TURISMO – 2003 a2007 )
Temos que pensar num turismo de inclusão
social que seja pautado na idiossincrasia do povo brasileiro como
afirma Darcy Ribeiro e não em um turismo de elite transnacional que
impõe uma determinada hospitalidade alienígena, para posteriormente
pensarmos no turismo receptivo que venda a imagem real do Brasil.
O que vem ocorrendo de fato é uma
política desenvolvida pela Embratur que cria uma falsa ansiedade
junto às prefeituras e à sociedade civil, pois cidades de pequeno e
médio porte estão reivindicando a criação dos Convention Visitors
Bureaux, como forma de se tornar centros de captação de eventos.
Isso tudo em nome do turismo receptivo e da insensibilidade da visão
de turismo de quem é responsável pela Embratur. O festival da
criação dos escritórios internacionais da Embratur, cujos salários
são em euros, reforça nossa idéia de que o turismo no Brasil é
Made in Brazil e não Made in Brasil.
BIBLIOGRAFIA
LUKÁCS, Georg. As bases ontológicas
da atividade humana. In: Revista Temas de ciências
Humanas. São Paulo: Ciências Humanas, 1978. P. 1-2.
XAVIER DA SILVEIRA, Joaquim.
Turismo Prioridade Nacional. Rio de Janeiro: Record, s/d. |
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