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Por
CELUY ROBERTA HUNDZINSKI DAMÁSIO
Doutoranda
no Institut Catholique de Paris e Université Marne-la-Vallée
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Secularização na
Europa
O
problema da secularização persiste em toda a Europa e vem, cada vez
mais, tornar-se assunto de primeira ordem. Para compreendermos
melhor a forte secularização européia é interessante olharmos a
historia: o espírito das luzes e da Revolução Francesa do século
XVII. A Europa conheceu um anti-clericalismo violento que,
enfaticamente na França, deveria “esmagar a Igreja”, como disse
Voltaire. Os meios intelectuais propagaram essas idéias voltadas,
sobretudo, para a economia. Quando a escola tornou-se obrigatória,
sendo função do Estado central, as crianças foram encharcadas dessa
inteligência secularizada.
O termo “secularização” já aparecia nos
escritos néo-testamentários do apostolo Paulo designando sob o
aspecto “saeculum”, o século:
trata-se da temporalidade deste mundo, a dimensão mundana da vida
humana, associada à dimensão do pecado. Compreende-se assim, que a
expressão “retornar ao século” significa retornar ao mundo profano,
identificando-se desta forma, com a laicização. Mais globalmente, a
secularização designa o processo visível desde o final da Idade
Média que vê atividades ou dimensões da vida humana ligados à esfera
religiosa como a Arte, a Ética, a Moral ou a Política cortar-se de
toda referência ao sagrado ou transcendência. Hoje, a expressão
secularização é usada para definir um processo no qual o mundo e a
história humana se compreendem a partir deles mesmos, de maneira
propriamente imanente.
Foi, em 1922, na obra Teologia
Política de Carl Schimitt que o termo “Säkularisation”
aparece pela primeira vez: um neologismo alemão baseado no francês “sécularisation”,
indicando a translação política moderna de noções provindas da
teologia e reinvestidas no vocabulário da vida política. Em 1941,
Martin Heidegger começou, também, a fazer uso desse termo,
estimulando sua propagação.
Desde que os homens conquistaram o mar e
começaram a fazer grandes viagens, as sociedades puderam ser
comparadas umas às outras, fazendo com que houvesse um maior
questionamento sobre sua organização. Os séculos XVII e XVIII foram
herdeiros dessa racionalização progressiva do pensamento social.
Nessa época, triunfam a filosofia das luzes e o pensamento
racionalista e individualista moderno; as artes e as ciências
emancipam-se progressivamente da tutela da Igreja. O estado moderno
se constrói centralizado e burocrático.
Com essa mudança epistemológica,
filosófica, política e social, a religião se torna um objeto a ser
pensado, podendo ser representada como uma realidade positiva,
relativa, histórica, como uma construção institucional ligada a um
conjunto doutrinal abstrato, controlando as práticas, impondo
normas.
Esse processo desenrolou-se lentamente,
com elementos que influenciaram desde o século XIV, relativizando
valores que caracterizam nosso universo racional e intelectual no
qual as religiões – na Europa, sobretudo o cristianismo – foram
perdendo sua credibilidade.
Segundo o sociólogo D. Hervieu-Léger, a
secularização é o impacto da modernidade – em diferentes níveis:
econômico, social, político, intelectual, simbólico, etc. – sobre a
religião ou mais exatamente, sobre a configuração tradicional das
relações entre a religião e a sociedade.
Ela envia, primeiramente, a um fenômeno
jurídico-político: a separação das Igrejas e do Estado. Com todas as
transformações, o Estado moderno, temendo perder a soberania, não
tolera o domínio da instância religiosa, mas quer estreitar
juridicamente, suas relações com ela, a fim de proteger sua
independência. A secularização designa igualmente, a localização da
religião fora da esfera pública, e seu limite ao domínio privado.
Enfim, ela remete a um processo de laicização pelo qual as diversas
instituições sociais conquistam sua autonomia dotando-se de
ideologias, referências e regras próprias.
Não importa em que domínio, a religião
entra em concorrência com uma nova visão do lugar do homem num mundo
a conquistar e a organizar. Como a Igreja, que era a peça mestra do
dispositivo de socialização e do controle social das sociedades do
passado, perde essa função, aí, o conceito de secularização pode,
extensivamente, designar a perda de influência da religião na
sociedade.
Com isso, foram-se criando movimentos
religiosos, que desvinculavam-se, total ou parcialmente, dos grandes
sistemas religiosos tradicionais. Pois, houve uma liberação formal
de profissões da fé. Juntamente com o enfraquecimento da
religiosidade clássica veio o retorno ao sagrado, por essas novas
correntes que ao invés de contradizer o movimento geral de
secularização das sociedades vêm atuar como seu prolongamento:
exprime ao mesmo tempo um protesto contra a incerteza devida à crise
da mudança, e um tipo de religiosidade compatível com a nova
sociedade.
Félicité de Lammennais (1782-1854)-
juntamente com Louis de Bonald e Joseph de Maistre – já questionava
se a Igreja deveria ou não adaptar-se à sociedade em torno dela, e
em seu conjunto sua resposta era, preferencialmente positiva,
entretanto suas idéias foram condenadas por excesso, em 1832, pelo
papa Gregório XVI; decepcionado, ele abandona a Igreja. Isso
ocasionou a “descristianização” do mundo operário, mas suas idéias
com relação à liberdade, independência e pobreza, foram mais tarde,
retomadas por seguidores mennaisianos.
O que houve, durante todo esse percurso,
foi a descentralização do poder das instituições religiosas
clássicas, não significando o desaparecimento das Igrejas
tradicionais. Esse poder foi transferido para o Estado, que
denomina-se leigo. Aí cabem os questionamentos mais difíceis de
serem respondidos: como pode o Estado ser leigo se não é constituído
100% por pessoas leigas? Quero dizer com isso que há uma profissão
de religiosidade persistente nas pessoas que constituem o Estado,
ainda que essa profissão seja dissimulada ou personalizada: 63% dos
suecos designam-se “cristãos à sua maneira”, essa realidade
estende-se por toda Europa e não atinge, somente, o cristianismo.
Há uma dificuldade geral em separar o
cultural do religioso, o que não devemos estranhar, pois o homem é
um todo e não partes. Assim sendo, o parlamento, para ser laico,
deveria ser composto somente de pessoas laicas, o que ocasionaria um
processo discriminativo. Somente suprimir os signos religiosos em
lugares públicos não interfere na formação individual de cada ser
humano. Não proporcionando, desta maneira, a verdadeira laicidade
estatal.
Porém, penso que o grande problema
hodierno, mas fruto de todo esse processo, é a secularização ou a
laicização por conveniência. Há um grande número de atitudes tomadas
em nome da secularização que atinge interesses próprios de cada
linha política. E há, também, o lado anti-secularização que atua em
benefício próprio. Não quero afirmar, aqui, que todas as resoluções
ou causas têm esse intuito, mas temos vários exemplos disso.
Estamos, na França, em plena discussão
sobre o feriado de pentecostes. Foi suprimido o dia de folga sendo
alegado que a lei que instaura um dia de solidariedade – adotada
pelo parlamento em 30/06/2004 – permitirá financiar os cuidados às
pessoas idosas pela “Sécurité Saciale” – Segurança Social
(Saúde Publica). Entretanto, várias empresas privadas conservarão o
feriado, compensando com um minuto a mais de trabalho por dia.
No início, a discussão para a abolição
do feriado era que fosse suprimida uma comemoração religiosa, por
causa da laicidade. O foco, agora, converteu-se para o dinheiro
público, e as discussões sobre o assunto, não abordam somente a
secularização. Além do mais, falava-se na época em que a lei foi
votada, em um feriado para outras profissões religiosas.
O que seria a laicidade, nesse caso?
Sabemos que em toda essa problemática,
mora o risco de transformar ciência em cientificismo, laicidade
(sentido nobre do reconhecimento da divergência dos sistemas de
crenças) em laicismo (utilização do espaço público para desvalorizar
ou ridicularizar as crenças), da mesma maneira que pode-se degenerar
o Estado em estadismo. Todos esses desencadeamentos voluntários
descartam as religiões, tentando mesmo, destruí-las.
O problema não está na separação da
Igreja e do Estado, mas na maneira como se faz e nos objetivos que
levam a isso. Há uma acomodação em cima de teorias, até bem
fundadas, que levam os poderes a fazer o que bem quiserem de acordo
com o que lhe é mais conveniente. Esse lado da questão deve ser bem
tratado, averiguado e detectado por todo cidadão para que seja, no
mínimo, denunciado. Sobretudo, não devemos ignorar que o ser humano
não é somente composto pela sociedade ou pela religião, pelo
intelecto ou pelo sentimento, e que tanto uma faceta quanto à outra,
compõem o Estado, bem como a Igreja. Não há discordância que não
possa ser discutida e superada, desde que ambos os lados estejam
despojados da ganância e do interesse próprio. Utópico? Eu diria:
difícil, mas não impossível.
Fonte:
http://fr.wikipedia.org
http://membres.lycos.fr
www.sezame.info
www2.cnrs.fr
www.geocities.com
www.fespinal.com
www.lefigaro.fr |
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