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Por
ROBINSON DOS
SANTOS
Doutorando em
Filosofia na Universidade de Kassel – Alemanha. Bolsista do
Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) |
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“Milk-shake”
indigesto ou sete equívocos de uma crítica à esquerda?
Réplica
a Paulo de Almeida
Os
homens sempre tiveram de escolher entre submeter-se à natureza
ou submeter a natureza ao eu. Com a difusão da economia
mercantil burguesa, o horizonte sombrio do mito é aclarado pelo
sol da razão calculadora, sob cujos raios gelados amadurece a
sementeira da nova barbárie.
(Adorno
e Hokheimer)
A crítica ao
pensamento socialista não é coisa recente. Um certo
recalque e verborragia, pretensiosamente, autodenominado ou
disfarçado de crítica também sempre existiu. De qualquer
modo, ao longo da história as diferenças ideológicas e políticas
sempre existiram e (oxalá) sempre existirão. Muitas obras políticas
significativas surgiram justamente dos confrontos de perspectiva, do
exercício da crítica mútua (crítica e não apenas desqualificação do
oponente), do estudo minucioso e do esforço de muitos estudiosos
preocupados em compreender e transformar a sociedade. E a crítica,
quando qualificada, sempre possibilita um olhar para aspectos
ignorados ou omitidos em uma exposição teórica. Sem rodeios, vou
direto ao assunto: gostaria de retomar e comentar alguns aspectos
que chamaram minha atenção ao ler o texto do colunista Paulo Roberto
de Almeida, intitulado “A cultura da esquerda: sete pecados que
atrapalham o seu desenvolvimento”, publicado no mês de abril de
2005, neste mesmo periódico eletrônico. O intuito é fazer aqui uma
crítica tendo como base, exclusivamente, as afirmações do artigo
citado.
O primeiro aspecto que chama a atenção é
a afirmação de Almeida: “Faço parte daquilo que
poderia ser classificado, à falta de melhor definição, como ‘cultura
de esquerda’, algo suficientemente disseminado no Brasil para
obrigar-me aqui a maiores elaborações sobre seu conteúdo específico.
Talvez eu devesse dizer que pertenço hoje bem mais à ‘cultura’ do
que à ‘esquerda’ ”. Em primeiro lugar, tratar de algo ao qual falta
uma definição, é vago e impreciso e, assim sendo, será algo
impossível de ser disseminado uma vez que não se sabe bem o que é ou
do que se trata. O autor parte de uma premissa como dada sem
demonstrá-la concretamente e se auto-dispensa de tal tarefa. Em
outras palavras, o autor escreve cerca de onze páginas sobre um tema
que está apenas na sua cabeça, ao qual concretamente falta
realidade, existência. Que existe esquerda e direita em política,
isso até pode ser considerado, mas falar de uma cultura que as
distingue é exagero e mau uso do termo cultura, dada a riqueza e
complexidade que possui (vide Antropologia, Sociologia etc.).
Segundo aspecto: Almeida se define como pertencente à cultura, mas
não à esquerda. Neste aspecto, novamente me vem a pergunta: o que o
nobre intelectual define como cultura e o que define como esquerda?
Procurei em seu texto mas não encontrei uma resposta suficiente e
consistente, isto é, argumentos que fundamentem uma resposta. Não
obstante a crítica ao modelos “pré-concebidos” e dicotômicos como
esquerda e direita o autor envereda por um modelo (próprio) também
pré-concebido, uma pequena, mas não desculpável, incoerência. Além
disso, Almeida prossegue em seu texto admoestando que o fará “sem
maiores considerações terminológicas ou metodológicas”. Esta
auto-dispensa não estará escondendo o medo do enfrentamento sério do
tema? Entretanto, foi assim mesmo que ele procedeu: colocou palavras
como esquerda, cultura, Karl Marx, Lênin, Stálin, Fórum Social
Mundial, e outras sem proceder a qualquer esclarecimento conceitual,
sem recorrer à qualquer distinção e diferenciação e, portanto,
“pecando” no que há de mais elementar enquanto cientista social,
algo que exibe ao lado de seu nome. Percebe-se, ainda, grande
carência de diplomacia, ofício com o qual se ocupa e faz questão de
demonstrar, nos adjetivos e desqualificações que faz. Jogou tudo
isso como que dentro de um liquidificador e fez um “milk-shake” bem
ao gosto dos liberais. A propósito, a palavra liberal, quer
identificar uma tendência política tipicamente classificada como
direita, cujos fundamentos filosóficos são a liberdade individual
aliada à propriedade privada e, atualmente, à defesa da primazia do
Mercado sobre o Estado, o que teoricamente ainda é defendido por
muitos intelectuais e chamado de neoliberalismo. Este mix indigesto
não só contém uma série enorme de simplificações e reducionismos,
como graves equívocos, lacunas e preconceitos. Na seqüência
procurarei demonstrar alguns deles.
O primeiro pecado que
Almeida levanta seria de a esquerda ser “estupidamente anti-mercado”
e isto estaria “geneticamente filiado ao velho barbudo”. Para começo
de conversa é um tanto deselegante da parte do nobre intelectual e
diplomata colocar todos os que defendem uma sociedade regulada por
outro critério que não a economia capitalista no mesmo saco,
chamá-los de estúpidos e atribuir esta estupidez ao velho barbudo,
no caso, Marx. Me parece mais uma ignorância dialética fechar os
olhos para tantos estudos sérios e para a atualidade das idéias do
velho barbudo. Aliás, se suas idéias nada significassem, creio que
dedicar tempo e energia em distorcê-las para depois criticá-las me
parece um tanto contraditório. Mesmo sabendo que no espaço que ocupa
(sua coluna mensal), a possibilidade de aprofundar ou discutir um
tema com profundidade é algo complicado, penso que seria mais
produtivo tomar algumas teses ou conceitos para debater. O texto
procura estabelecer uma crítica mas o alvo está confuso. Assim, como
dizia Platão, vamos enchendo o mundo de doxa, ou seja, de
opiniões, deixando pouco lugar para a episteme, isto é, para
o conhecimento. Como doutor em Ciências Sociais e defensor de uma
revolução na educação, por que não defender o estudo minucioso, o
debate sério das idéias de um autor? Esta atitude demonstraria uma
postura esclarecida do autor, mesmo quando discordasse desta ou
daquela tendência política e filosófica. Afirmava Hans-Georg Gadamer
que educar é, antes de tudo, se auto-educar.
Em outra passagem é
flagrante a imagem de um capitalismo bonzinho e inofensivo: “Em
princípio, todos são livres para produzir e vender o que desejam
fabricar e distribuir...”. Pergunta: onde se verifica esta
liberdade, de fato, em todas as pessoas? Todos são teoricamente
livres para, mas possuem as mesmas condições? Aqui Almeida esquece
ou omite um detalhe importantíssimo: se não houver igualdade ou
eqüidade, esta liberdade é pura falácia. Outro conto de fadas é o de
que “Quando os mercados são verdadeiramente livres, o capitalismo
exerce todas as suas qualidades de melhor sistema para criar e
distribuir riquezas...”. Ora, se o capitalismo até agora não exerceu
todas as suas qualidades de melhor sistema para criar e distribuir
riquezas o que ele está esperando? Afinal, uma justa distribuição é
o que todos almejamos e nunca houve tamanha liberdade de mercado!
Sabemos e experimentamos no dia-a-dia o que esta liberdade de
mercado ocasiona e de quanta miséria ela é capaz de produzir
diariamente, tornando pessoas, objetos, idéias, o ecossistema em
algo para o simples consumo e para jogar fora na próxima esquina. A
dura constatação de Adorno e Horkheimer (1985, p. 49) já apontava
para o fato de que “Na medida em que cresce a capacidade de
eliminar duradouramente toda a miséria, cresce também
desmesuradamente a miséria enquanto antítese da potência e da
impotência”.
Outro ponto do texto que
merece nota é a crença no poder corretivo da educação ou numa
educação como fator de ascensão social e econômica. Isso já está
mais do que ultrapassado e é uma grande ingenuidade. A educação, sem
dúvida, pode ser um dos fatores de mudança sócio-cultural, mas
isolada é pouco eficaz e só faz reproduzir a desigualdade. Não é a
toa que em concursos para qualquer serviço público que não requerem
formação superior já sobram diplomados como candidatos. Almeida
afirma ainda que “Quando a esquerda admitir que a melhor forma de
ajudar os “pobres”, no Brasil, seria praticando uma revolução
educacional radical (mas isso deve ser feito essencialmente em favor
dos mais pobres, que não passam do segundo ciclo), talvez possamos
começar a pensar na diminuição dos níveis absurdamente altos
(iníquos e imorais, em todos os planos) de concentração de riqueza
em nosso país.” Aqui dois aspectos são, no mínimo, equivocados:
primeiro que os pobres devem ser ajudados, como se fossem um grupo
social e politicamente incapaz de se organizar e lutar por seus
direitos, o que demonstra um grande desconhecimento sobre os
movimentos sociais no Brasil. Ou seja, novamente está inserida nesta
visão uma relação vertical, senhor – servo, tipicamente elitista e
burguesa. A “esquerda”, aqui entendida como governo, deveria ser
como um patrão bonzinho. O segundo aspecto é que não consegui
entender o que seria uma revolução educacional radical e que poder
ela teria de, misteriosamente, diminuir os níveis de concentração de
riqueza. Além disso, sabemos que qualquer outro meio é muito mais
rápido e eficaz do que a educação para resolver tal problema. Isso
também conduziria para uma instrumentalização da educação, o que
seria uma enorme contradição, pois a educação estaria sendo posta a
serviço de algo e não sendo vista como fim em si mesmo, digno de
apreço e promovedora da emancipação humana.
Almeida afirma, ainda,
sobre a tal “esquerda” que “É de certa forma patético constatar
isso, mas tudo o que vem da elite é considerado como intrinsecamente
mau, ao passo que o que vem do povo é bom, por definição” e,
continua, “Basta culpar as elites, elogiar as virtudes do povo e a
‘análise sociológica’ está feita. De certa forma, o antropólogo
Darcy Ribeiro foi um grande expoente desse tipo de pensamento, que
passa por progressismo de esquerda.” Não sei onde ele leu isto ou
constatou, mas não está errado porque para qualquer cidadão só há
motivos para condenar mesmo as elites. Neste trecho, mesmo
caricaturado, ele demonstrou uma grande verdade. Contudo, exagera ao
afirmar que “a esquerda” é dominante no estabelecimento
universitário, pois se assim fosse, a hegemonia já estaria a um
passo de ser concluída. Falta muito ainda, mas devagar se atingirá
também este alvo. “A esquerda” só não é mais forte porque o
monopólio ainda está com “as elites”, as quais só se preocupam em se
fortalecer e se firmar pois querem um mundo só para poucos enquanto
“a esquerda” quer um mundo para todos. E, de novo, dispara o
diplomata “De resto, a condenação genérica das elites pelo discurso
de esquerda é hipócrita e mal informada, pois que não referida a uma
elite concreta, mas sim a um simulacro de elite, que só existe no
pensamento da esquerda.” Só consegui perceber uma condenação
genérica e mal informada: nos tais “pecados dialéticos” da esquerda.
Entretanto, uma das
passagens mais preconceituosas e que confirma uma visão elitista por
parte do autor, na minha interpretação é a que segue: “Da mesma
forma, a exaltação dos valores do povo, de sua ‘genialidade’
cultural e inventividade ‘natural’, soa como um escárnio (...), pois
que redundando, igualmente, numa aceitação acrítica e condescendente
dos ‘produtos’ populares, independentemente de seu valor intrínseco
e contribuição para o enriquecimento cultural da população. Esse
tipo de atitude termina por justificar e legitimar formas erradas de
expressão oral e letrada (por evidente incultura do ‘produtor
popular’), que podem até encontrar acolhimento no campo do folclore,
mas jamais no campo do conhecimento a ser promovido pelo
Estado.(...) Não há nada de mais populista ou popularesco do que
cultivar acriticamente o popular apenas pelo fato de ser popular.”
Eu fiquei à espera (novamente) de uma definição de cultura e de
cultura popular neste contexto. Ora, a cultura sempre foi na acepção
de Marx um reflexo das relações que estão na base de qualquer
sociedade. Como a sociedade está dividida em classes há realmente
uma classe que se arroga a decisão de dizer o que é cultura e o que
não é segundo seus critérios. Esta não é exatamente uma crítica à
“esquerda”, mas a confirmação de que existem classes sociais em
combate e que a classe dominante ainda quer se dar certos luxos como
o arbítrio sobre a cultura. Creio que a “condenação genérica das
elites” é uma prática tão disseminada quanto a exploração histórica,
é a resistência mínima ao opressor num contexto em que a
desigualdade é tanta que quase obriga à paralisia.
O que Almeida acusa
ainda injustamente de anti-globalizador e que na verdade é um dos
poucos frutos positivos, se é permitido assim expressar, da
globalização é o Fórum Social Mundial. Talvez por que nunca tenha
comparecido a um deles, mas a afirmação denuncia completa ignorância
a respeito do que lá se discute. Provavelmente é uma acusação
construída a partir das “grandes” coberturas e dos espaços que a
mídia elitista (e radicalmente contra) deixa para o evento. Se o
Fórum Social Mundial, no qual a sociedade civil discute de igual
para igual os problemas sociais políticos e econômicos mais graves
em escala mundial, é recusa da realidade, então o que sugere
Almeida como aceitação da realidade? Aliás, é exatamente isso que os
movimentos conservadores querem: aceitação apática e ingênua da
realidade. O autor fala ainda de “evidências estatísticas e
factuais” que contrariam todos os problemas apontados nas discussões
do Fórum, mas não apresenta sequer uma.
E ao final mais uma
contradição: “Contento-me, em contrapartida, com apontar o fato de a
esquerda valorizar, reconhecidamente, muito mais o ensino
universitário do que a educação popular, o que pode contribuir para
manter o Brasil nesse estado catatônico de indigência produtiva,
dada a baixa qualificação das massas trabalhadoras.” Antes o popular
foi reduzido a chulo e desqualificado, agora é relembrado com
carinho. O estado catatônico de improdutividade não se deve à baixa
qualificação das massas trabalhadoras, mas muito mais ao vampirismo
do capital e daqueles que sugam o sangue e a alma do trabalhador. O
atraso social funciona como o motor e o combustível para o sistema
atual e isto agrada os liberais, que podem ainda achar-se no direito
de dizer ao trabalhador que a culpa é dele mesmo. É muito
confortável e fácil fazer estas análises panfletárias sem qualquer
conhecimento. Basta botar a culpa em Marx e tudo está resolvido e,
para usar as palavras de Almeida, “a análise sociológica está
feita”. Fico imaginando o velho barbudo se revirando no túmulo
quando tantos, sem um mínimo de seriedade e rigor intelectual,
repetem palavras ou coisas que ele sequer um dia imaginou ou afirmou
e só o espectro do preconceito ronda a opinião publicada.
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