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Por
JOÃO ALBERTO DA COSTA PINTO
Professor no Departamento de
História da Universidade Federal de Goiás (UFG) |
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Uma nota sobre Guy Debord
e a Internacional Situacionista
Vivemos numa época de grave crise de perspectivas. As
lutas operárias praticamente desapareceram do cenário geopolítico de
um mundo pautado pela lógica da transnacionalização do capital. No
momento de crise há sempre a oportunidade, principalmente para os
historiadores, de revisitar experiências de lutas sociais no sentido
de, ao apresentá-las, na lógica da experiência derrotada, apresentar
também a fragilidade da vitória do capital. Mais oportuna ainda é a
revisitação de experiências derrotadas no seio dos derrotados, isto
é, estudar-se a derrota da dissidência em meio a esquerda derrotada.
O movimento Situacionista, centrado na expressão da práxis
político-intelectual de Guy Debord, nunca se apresentou em lutas por
hegemonia como projeto político. Pelo contrário, seu papel foi o de
afrontar as vicissitudes dos projetos revolucionários de seu tempo
no sentido de anunciar-lhes a derrota antecipada, já que a ontologia
política de tais movimentos apresentava-se como face da mesma moeda
das sociabilidades do projeto burguês; o comunismo
institucionalizado dos PCs aparecia historicamente como concorrente
(e quase sempre como parceiro) na mesma esfera institucional da
sociedade burguesa. O movimento situacionista punha-se não só como o
negativo da sociabilidade burguesa, mas também como o negativo
daqueles que se antepunham “formalmente” a tal sociabilidade; o
situacionismo quis-se como o negativo das negações formais (vide as
práticas políticas dos socialismos contemporâneos) da sociedade
burguesa.
A Internacional Situacionista (IS) foi fundada em
1958 e dissolvida em 1972 (o último número da revista do movimento,
num total de doze edições, é de 1969). Fundada e dissolvida por Guy
Debord, a Internacional Situacionista no período de sua existência,
não reuniu mais que setenta membros. Desses, dezenove desligaram-se
e quarenta e cinco foram expulsos (expulsos, obviamente, por
Debord). Tal característica, a de pequeno grupo, atendia bem aos
propósitos do movimento:
“a I.S. só poderá ser uma conspiração dos
Iguais, um Estado - Maior que não quer tropas (...). Nós apenas
organizamos o detonador; a livre explosão deverá subtrair-se-nos e
subtrair-se também qualquer outro controle” (Revista
Internacional Situacionista, n. 08, 1963 - in HENRIQUES, 1997:
11).
E qual foi o projeto político do situacionismo
francês? A crítica radical da vida cotidiana no capitalismo. Da
crítica da vida cotidiana propunha-se a desmontagem do capitalismo
enquanto civilização (HENRIQUES, 1999: 15). E do cotidiano a
disseminação revolucionária generalizada da autogestão conselhista,
o único termo político possível para um cotidiano livre de suas
formas reificadas.
A “sociedade - espetáculo” é o mundo das
pseudo-necessidades, o mundo da economia do consumo, o mundo do
espaço-tempo da “monotonia imóvel”, o mundo em que o viver
tornou-se uma representação caricata da própria forma-mercadoria,
enfim, o mundo em que o valor de troca das mercadorias acabou por
dirigir o seu uso (DEBORD, 1997: 33) - a mercadoria como o centro
absoluto da vida social (GOMBIN, 1972: 82). O movimento do ser para
o ter, degradando-se ainda mais, no movimento do “parecer”
ter (JAPPÉ, 1999: 19). Ou seja, o espetáculo é a afirmação ulterior
de um outro momento da reificação social, a confirmação da “baixa
tendencial do valor de uso”, em que a “fabricação
ininterrupta de pseudo-necessidades” impõe a lógica da
contemplação passiva sobre o todo social (DEBORD, 1997: 33-35). É
preciso que se ressalve que os situacionistas não negam o consumo em
si, mas a escolha condicionada das pseudo necessidades (GOMBIN,
1972: 83).
Se para Marx a vida social no capitalismo se reduz ao
valor, à economia e suas leis, para Debord, o espetáculo absolutiza
a economia à sua própria imagem e essa, tautologicamente, impõe a
circularidade da imagem-mercadoria como a entificação do
pseudo-desejo de consumo contemplativo da “geologia”
mercantil, a mercadoria no seu auto-movimento aparece à sociedade
como uma segunda natureza. Como afirma Debord:
“O espetáculo estende a toda a vida social o
princípio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebeu como o do
dinheiro: é
‘a vida do que está morto se movendo em si mesma’”
(DEBORD, 1997: 138 -139).
O espetáculo como a absolutização da mercadoria na
vida social impõe a esta não só o absoluto da reificação, mas também
a negação de um tempo histórico que veja na sua irreversibilidade
intrínseca a caracterização do sentido da experiência social. O
espetáculo paralisa o sentido social da história e da memória, o
espetáculo é a tradução da falsa consciência do tempo (DEBORD, 1997:
108).
A burguesia afirmou-se historicamente no tempo do
trabalho. Liberou a sociedade do tempo cíclico, o tempo das
sociedades “estáticas”, marcadas pelo modo agrário de
produção e determinadas pelos ciclos temporais da natureza. “A
vitória da burguesia é a vitória do tempo profundamente histórico,
porque é o tempo da produção econômica que transforma a sociedade,
de modo permanente e absoluto” (DEBORD, 1997: 98).
O tempo do trabalho, o tempo irreversível da produção
ao romper com o tempo cíclico, afirma a “vitória do tempo
profundamente histórico”, a vitória da sociedade em auto
transformação permanente e absoluta, mas, este tempo é o tempo das
coisas (DEBORD, 1997: 99) e o tempo das coisas elimina
crescentemente o sentido do tempo vivido. Isto é, no tempo cíclico
das sociedades agrárias, o tempo, mesmo naturalizado, afirmava aos
indivíduos a possibilidade real de um tempo histórico vivido. Com a
produção industrial e seu tempo irreversível, esse tempo socialmente
vivido é eliminado. Na passagem histórica das sociedades de tempo
cíclico para as sociedades de tempo irreversível, formou-se
efetivamente a consciência histórica. Mas essa consciência
eliminou-se com a disseminação do tempo das mercadorias na vida
social. A historicidade das sociabilidades passou a ser mediada pela
historicidade das coisas-mercadorias. Nesse momento, o tempo só se
diferenciará pela quantidade das coisas - o tempo como valor de
troca; esse é o tempo-espacializado, não humano, o tempo reificado.
O tempo das coisas reconstituiu o caráter cíclico no cotidiano, a
mercadoria naturalizou os homens; o novo tempo-cíclico no cotidiano
realiza-se no tempo mercadoria dos atos-mercadoria, como o consumo,
o dia do trabalho, a noite do descanso, as férias; o tempo no
cotidiano do capitalismo crescentemente perdeu o seu valor de uso,
tornando-se efetivamente valor de troca e neste momento, o tempo
irreversível dos acontecimentos é comandado pelo espetáculo; os
homens no cotidiano podem apenas contemplá-lo, mas nunca vivê-lo
efetivamente. No cotidiano do viver capitalista não existem mais
acontecimentos, deixa de existir a irreversibilidade do tempo para o
existir do falso-acontecimento do espetáculo. No cotidiano da
reificação não há história, mas o tempo cíclico das
pseudo-necessidades impostas pelo espetáculo: o carro novo, a
segunda TV, etc. O tempo é matéria-prima de novas mercadorias. No
tempo cíclico das pseudo-necessidades a história deixa de existir,
“o espetáculo deve negar a história, dado que ela (a história)
demonstra que nada é lei mas que tudo é processo e luta (...) o
espetáculo é o reino de um eterno presente que pretende ser a última
palavra da história” (JAPPÉ, 1999: 55).
Com a globalização da economia capitalista “o
tempo irreversível unificou-se mundialmente, o tempo da produção se
manifesta por todo o planeta como o mesmo dia”, e esse momento
de tempo unificado é o do mercado mundial e, corolariamente, o tempo
unificado do espetáculo (DEBORD, 1997: 101). Em 1967, Guy Debord
não só apresentava um diagnóstico - que ainda é tão atual, mas
também, como conseqüência desse diagnóstico - ao apresentar uma
sintética explicação da lógica imperialista no mundo - indicava já a
fragilidade das lutas promovidas pela esquerda mundial: “Nos
lugares onde a base material ainda está ausente [o Terceiro
Mundo - João Alberto], em cada continente, a sociedade moderna já
invadiu espetacularmente a superfície social. Ela define o programa
de uma classe dirigente e preside sua formação. Assim como ela
apresenta os pseudo-bens a desejar, também oferece aos
revolucionários locais os falsos modelos de revolução” (DEBORD,
1997: 38 - 39).
Na crítica a quase todos os programas da agenda
revolucionária que lhe era contemporânea, Debord definia a revolução
como o ato que haveria de reivindicar o viver do tempo histórico, e
isso só seria possível na revolução da vida cotidiana. Para os
situacionistas, o proletariado é o sujeito da revolução, e por
proletariado definem a imensa maioria dos trabalhadores que perderam
qualquer controle sobre sua vida. A disseminação das
pseudo-necessidades afirma a proletarização, assim, o espaço da
revolução não poderia mais ser somente o da produção mas o espaço da
vida social, o espaço do cotidiano, e não seriam apenas as condições
objetivas da materialidade desse mundo que poderiam instrumentalizar
o surgimento da revolução, mas a condição subjetiva da grande
recusa.
Os situacionistas enfatizavam a recusa em bloco das
condições existentes e faziam dessa recusa um princípio
epistemológico - “a compreensão deste mundo só pode basear-se na
contestação. E esta só tem verdade e realismo, enquanto contestação
da totalidade” (DEBORD, in JAPPÉ, 1999: 39). A recusa total, a
contestação total, passa pela “multidão de atos espontâneos
tendentes a modificar radicalmente o espaço-tempo atribuído pela
classe dominante” (GOMBIN, 1972: 92).
Os situacionistas sugerem na luta revolucionária a
larga experiência histórica do movimento conselhista, a experiência
de “correntes revolucionárias radicais”, animadas por um projeto:
“o projeto do homem total, uma vontade de viver totalmente à qual
Marx teria sido o primeiro a dar uma tática de realização
científica” (VANEIGEM, 1980: 69). A supressão do poder, do mundo
das pseudo-necessidades (esse é o poder de fato), também realizaria
a arte. Para os situacionistas a arte sempre foi a mais alta forma
do trabalho criador. E foi na crítica da arte contemporânea que o
movimento inicialmente construiu sua crítica da sociedade
espetáculo.
O movimento situacionista definiu-se em 1958 como uma
dissidência do Movimento por uma Bauhaus Imaginista, da
Internacional Letrista e do Comitê Psicogeográfico de Londres
(HENRIQUES, 1997: 11). Subtraiu desses grupos a prática negadora da
arte alienada. Recusavam-se a uma arte fechada apenas nos seus
propósitos estilísticos e formais. Queriam uma arte de ambiência,
isto é, uma arte derrisiva com o ambiente neutro e passivo de sua
exposição; queriam uma arte que negasse o sentido da própria arte,
uma arte que afirmasse aos homens as impossibilidades
contemplativas, uma arte como criação permanente e permanentemente
reconstruída. Criação sem qualquer capacidade autoreferente, que
evitasse a construção da tradição em valores específicos que aos
poucos a definiriam como alheia às realidades da vida cotidiana.
Quando Guy Debord dissolveu a I.S. em 1972, o fez
para cumprir a regra que modelava o movimento. Naquela ocasião, o
“quartel-general” começava a querer ter tropas e para evitar isso, a
liderança máxima que nunca se quis como liderança, se
auto-dissolveu. O movimento mesmo desaparecido continuou deixando
influências. Guy Debord continuou escrevendo, para reafirmar a
factibilidade e veracidade de suas proposições, apresentadas em
1967. Com câncer, suicidou-se em 1994. Hoje, é inquestionavelmente
uma referência clássica do marxismo contemporâneo, ainda que, seu
legado, ao menos no Brasil – para seu desespero, se ainda estivesse
vivo – esteja reduzido a moda intelectual em certos círculos
“radicais” de jovens bem “nutridos” da alta classe média, alocados
em certos departamentos de algumas instituições acadêmicas, que
fazem da obra de Guy Debord apenas uma expressão retórica para um
certo criticismo acadêmico sobre o universo “espetacularizado” das
mídias na sociedade contemporânea. |
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propósito do marxismo de João Bernardo

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