Por FLAMARION MAUÉS

Bacharel em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, onde cursa o mestrado na mesma área.

 

Um livro de oposição:

Poemas do Povo da Noite, de Pedro Tierra

 

“[...] Nessa noite parada sobrevivemos.

Ficou-nos a palavra, embora reprimida.

[...] Sobreviveremos.”

(Pedro Tierra)

 

Resumo

O objetivo deste artigo é, a partir da reconstituição do modo como foi escrito e editado o livro Poemas do Povo da Noite, de Pedro Tierra, e do papel político que a obra desempenhou num determinado período, assinalar algumas das características do que são livros de oposição. Isso engloba questões relativas a: 1) conteúdo do livro; 2) condições em que o texto foi criado; 3) percurso do original ao livro publicado; 4) perfil do autor; 5) perfil da editora; 6) ligações políticas do autor e da editora; 7) difusão da obra, 8) repercussão nos meios políticos e na imprensa; 9) análise da obra como produto editorial e comercial.

Analisando como essas questões estão presentes numa determinada obra podemos definir se ela pode ser considerada um livro de oposição.

Palavras-chave

História editorial; Livros de oposição; Edição e política.

 

Capa da edição brasileira de Poemas do povo da noite, lançada em 1979 pela Editorial Livramento, de São Paulo.Escrito nas prisões pelas quais passou o seu autor entre os anos de 1972 e 1977, Poemas do Povo da Noite, de Pedro Tierra, pseudônimo de Hamilton Pereira da Silva, encarna bem o espírito, a forma, o conteúdo e o percurso do que chamo de “livros de oposição” – ou seja, livros editados nos anos 1970 e início dos anos 1980 no Brasil que tratavam de temas que punham em questão a ideologia, os objetivos e/ou os procedimentos do regime de 1964 ou, ainda, cujos autores faziam oposição ao governo. Entre estes, destacavam-se as obras escritas por ex-exilados e ex-presos políticos.

Boa parte desses livros era editada por editoras de oposição – editoras com perfil marcadamente político e ideológico de oposição ao governo militar. Compunham um universo que englobava desde editoras já estabelecidas – como Civilização Brasileira, Brasiliense, Vozes e Paz e Terra – até as surgidas naquele período – como Alfa-Ômega, Global, Brasil Debates, Ciências Humanas, Kairós, Codecri, Livramento, Vega, entre outras. Algumas destas editoras mantinham vínculos estreitos com partidos ou grupos políticos, alguns deles na clandestinidade, ou foram criadas por esses grupos. Outras não estabeleciam vinculações políticas orgânicas ou explícitas mas, por sua linha editorial, acabavam representando iniciativas políticas de oposição.

Hamilton Pereira no final dos anos 1970, em foto publicada na revista alemã Ein Neuer Himmel Eine Neue Erde.Das celas para as páginas

Hamilton Pereira da Silva, militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), foi preso em 10 de junho de 1972, quando tinha 24 anos, em Anápolis, Goiás, cidade próxima a Brasília. Era acusado de subversão e de atentar contra a segurança nacional. Submetido a longos períodos de tortura – aos quais ele costuma se referir como “interrogatórios” –, permaneceu cerca de três meses incomunicável em quartéis do Exército, em Goiânia e em Brasília.

Foi transferido de Brasília para São Paulo, onde esteve detido de março a outubro de 1973 na Oban/DOI-CODI (Operação Bandeirante/Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operação de Defesa Interna), na rua Thomaz Carvalhal esquina com rua Tutóia, um dos mais tristemente famosos centros de tortura do regime militar. Foi, então, enviado ao Presídio do Hipódromo, depois à Casa de Detenção no Carandiru, à Penitenciária do Estado de São Paulo e ao Presídio do Barro Branco. Condenado inicialmente a 12 anos de reclusão – incluindo 1 ano de “medida de segurança detentiva” –, sua pena foi fixada, após recurso, em cinco anos. Ele somente foi solto em 10 de março de 1977, após cumpri-la integralmente[1].

Desde 2003, Hamilton Pereira é presidente da Fundação Perseu Abramo, instituição vinculada ao Partido dos Trabalhadores.

Leitor e apreciador de literatura desde a adolescência em Porto Nacional (na época município de Goiás, hoje integra o estado do Tocantins), Hamilton encontrou na poesia uma maneira de se manter vivo e lúcido na cadeia, uma forma de resistência e de possível comunicação com o mundo exterior.

Como registra Emiliano José, Hamilton tinha a

capacidade de viver poesia, de mergulhar na tragédia e nas dores humanas depois de experimentá-las na própria carne. Pedro Tierra até hoje se considera um sobrevivente, e o solo fundamental de sua sobrevivência foi a poesia – é até hoje. “Era, então, a maneira de poder me olhar no espelho sem enlouquecer.” Era como se ele dissesse, de si para si: a humanidade não pode ser isso que estou vendo aqui. Os versos construíam outra humanidade, ou o faziam divisar outra face do humano, não a do terror.[2]

Seus poemas descrevem os duros momentos passados pelos presos políticos, as torturas, a morte de muitos deles e a luta pela vida dos que resistiram às sevícias. São poemas em que palavras como “sangue”, “morte”, “luta” e “companheiro” aparecem com freqüência. A homenagem a companheiros mortos é também uma tônica do livro – dos 60 poemas do volume 17 são desse tipo. O “Poema – Prólogo” é uma boa síntese de sua obra escrita na prisão:

Fui assassinado.

Morri cem vezes

e cem vezes renasci

sob os golpes do açoite.

 

Meus olhos em sangue

testemunharam

a dança dos algozes

em torno do meu cadáver.

 

[...]

Fui poeta

do povo da noite

como um grito de metal fundido.

 

Fui poeta

como uma arma

para sobreviver

                            e sobrevivi.

 

[...]

Porque sou o poeta

dos mortos assassinados,

dos eletrocutados, dos “suicidas”,

dos “enforcados” e “atropelados”,

dos que “tentaram fugir”,

dos enlouquecidos.

 

Sou o poeta

dos torturados,

dos “desaparecidos”,

dos atirados ao mar,

sou os olhos atentos

sobre o crime.

 

[...]

meu ofício sobre a terra

é ressuscitar os mortos

e apontar a cara dos assassinos.

[...]

Venho falar

pela boca de meus mortos.

Sou poeta-testemunha,

poeta da geração de sonho

                                           e sangue

sobre as ruas de meu país.

No começo, era muito difícil para ele escrever na cadeia. Além de toda a violência da prisão – não só física, mas também psicológica –, não havia lápis nem papel. “Em um intervalo de interrogatório, me deixaram sozinho na sala. Vi que havia um lápis numa mesa. Guardei-o comigo e o levei para a cela. Com ele escrevi meus primeiros poemas na prisão, em papel de maço de cigarros”, conta Hamilton.

Primeiro, tentou remeter os poemas para seus familiares e amigos por meio de cartas, mas como estas eram submetidas a censura antes de serem enviadas, os poemas acabavam não chegando a seus destinatários. Bolou então um estratagema. Nas cartas, dizia que havia lido em alguns livros que existiam na prisão certos poemas de um autor chamado Pedro Tierra – provavelmente latino-americano – dos quais gostara muito, e os reproduzia nas cartas. Nascia assim o pseudônimo com que assinaria os poemas e o livro que primeiro os reuniria, publicados quando o autor ainda estava preso: Poemas do Povo da Noite.

Depois, foi necessário outro expediente para enviar os poemas para fora da prisão: escrevia-os em papel de cigarros que eram colocados dentro de canetas, junto com a carga das mesmas.

“O advogado Luiz Eduardo Greenhalgh visitava os presos políticos quase semanalmente. Numa das ocasiões, levou duas canetas Bic escrita fina. Estas canetas, que são vendidas até hoje, são amarelas por fora, não permitindo ver a carga em seu interior. Ele deixou uma das canetas comigo. Na semana seguinte, entreguei a ele a caneta que havia ficado comigo, e enrolados na carga estavam dois poemas meus escritos em papel de cigarro, com letra bem pequena. Ele me deixou a caneta que estava com ele, para na semana seguinte repetirmos a operação. Assim saíram muitos dos poemas que compõem o livro”[3].

Isso passou a ocorrer a partir do segundo semestre de 1974[4]. Greenhalgh – na época advogado de vários presos políticos e atualmente deputado federal pelo PT de São Paulo – também recorda o caso:

Perguntei ao Hamilton se já havia feito alguma coisa com as poesias. Ele disse que não, pois não havia segurança para que elas saíssem da prisão. Então propus que ele fosse me dando os poemas aos poucos, eu os datilografaria e veríamos a possibilidade de montar um livro de poesias. E assim foi, com o recurso da troca de canetas durante minhas visitas aos presos.[5]

Greenhalgh lembra que quando retirava das canetas as folhas nas quais estavam escritos os poemas, sua esposa passava-as com ferro de engomar para que as elas ficassem planas, e depois datilografava as poesias.

A primeira edição

A primeira edição[6] dos poemas de Hamilton Pereira/Pedro Tierra, ainda artesanal e não comercial, foi feita provavelmente em 1975 e organizada pelo advogado Greenhalgh, responsável, como vimos, pela saída do presídio da maior parte dos poemas que formariam o livro Poemas do Povo da Noite. Foi ele quem primeiro reuniu os poemas em uma pasta e apresentou-os a um grupo de pessoas que apoiava os presos políticos e seus familiares em São Paulo. Este grupo tinha também como objetivo apoiar politicamente a atuação de D. Pedro Casaldáliga na prelazia de São Félix do Araguaia.

Este grupo se reunia sob a proteção de Madre Cristina no Instituto Sedes Sapientae, na rua Caio Prado[7]. Durante muito tempo foram reuniões clandestinas. Dali surgiu um dos núcleos que dariam origem ao movimento pela anistia.

“Falei para o grupo sobre as poesias, quando já tinha um certo número delas reunidas e datilografadas, e apresentei a idéia de que talvez pudéssemos fazer um livro”, recorda Greenhalgh. Segundo ele, as ilustrações de Pepe, que saíram em todas as edições do livro, surgiram neste momento, pois Pepe, um jovem artista espanhol que então viva no Brasil, era amigo de uma das pessoas do grupo, e por intermédio dessa pessoa tomou conhecimento dos poemas e fez as ilustrações. Foi Greenhalgh quem também pediu a D. Pedro Casaldáliga que fizesse o prefácio para o livro de Hamilton Pereira[8].

“A primeira edição foi feita à mão, saiu assinada com o pseudônimo Pedro Tierra e com os desenhos do Pepe feitos em papel sulfite. Fizemos xerox desse livro para distribuir. Eu tenho o original em meus arquivos”, afirma Greenhalgh.

Esta edição teve circulação reduzida e semiclandestina, xerocada ou mimeografada e distribuída de mão em mão[9]. Não obtive informação de quantos exemplares podem ter sido feitos. O autor, Hamilton Pereira, ainda estava preso quando esta edição foi publicada.

Após esta primeira edição, entra em cena um personagem que terá grande importância para a difusão dos poemas de Pedro Tierra: o padre italiano Renzo Rossi.

De acordo com Greenhalgh, o padre Renzo, que atuava na Bahia e lá dava assistência pastoral a presos políticos, iniciou contato com os presos políticos de São Paulo, pois também queria ajudá-los. Passou então a visitar os presos políticos no Presídio do Barro Branco, entre os quais Hamilton. “Quando o padre Renzo, uma pessoa de coração enorme, viu os poemas dele ficou muito impressionado e pediu para traduzi-los para o italiano”, diz Greenhalgh[10].

A primeira visita do padre Renzo em São Paulo foi a Paulo Vannuchi, no Presídio do Barro Branco, no final de 1975[11]. Mas foi a partir de julho de 1976 que essa atividade se intensificou. No dia 17 daquele mês, Renzo inicia uma série de visitas aos presos do Barro Branco, que se desenvolverão e resultarão em profundo envolvimento do padre, em particular com alguns presos. Esta visita do dia 17 de julho de 1976 está descrita em detalhes no livro As asas invisíveis do padre Renzo, de Emiliano José. É nessa ocasião que ele conhece Hamilton Pereira e seus poemas, e “fica emocionado ao ler os versos manuscritos de Pedro Tierra”[12].

Emiliano José diz que “Renzo se impressionará tanto com as poesias de Pedro Tierra [...] que passou a reproduzi-las em mimeógrafo, encadernar e distribuir Brasil afora”[13].

Ou seja, o padre Renzo parece ter começado a fazer por conta própria a reprodução e distribuição da edição já existente de Poemas do Povo da Noite, organizada por Greenhalgh, que antes era feita apenas pelo grupo de apoio aos presos políticos, dando ao volume um alcance maior no que diz respeito à circulação, inclusive levando-o para o exterior.

Não resta dúvida do papel de Renzo na divulgação dos poemas. Como lembra Hamilton Pereira, “Ele era um entusiasta, distribuía meus poemas como quem distribuía panfletos”.

“Ele virou um semeador da poesia na Idade do Terror”, diz o poeta, ao relembrar a atitude de Renzo de entregar suas poesias a militantes, amigos, familiares. Pedro Tierra se tornou conhecido nos tempos das catacumbas e pelos métodos subterrâneos próprios desses períodos, e pelas mãos de um sacerdote.[14]

Esta edição quase clandestina teve certa repercussão. O jornalista e escritor Fernando Morais – aliás autor de outro livro de oposição clássico, A Ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro, de 1976 – sugeriu que o livro fosse inscrito no Prêmio Casa de las Américas, de Cuba, na época importante fórum de divulgação da literatura política do continente latino-americano[15]. A idéia prosperou, e D. Pedro Casaldáliga, bispo de São Félix do Araguaia, fez o prefácio e a tradução do livro para o espanhol (na época, só podiam ser inscritos no Prêmio obras em espanhol). O livro recebeu em 1977 Menção Honrosa no Prêmio Casa de las Américas e obteve mais visibilidade e repercussão.

Capa do livro Le parole sepolte fioriranno: I canti della Resistenza brasiliana (As palavras sepultadas florescerão: O canto da resistência brasileira), publicada em Roma por Edizioni Borla em 1977, que traz muitos dos poemas editados no livro Poemas do povo da noite.Na Europa, a partir da divulgação feita pelo padre Renzo e da premiação na Casa de las Américas, o jornalista, militante cristão e deputado italiano Ettore Masina incluiu vários poemas de Pedro Tierra na antologia Le parole sepolte fioriranno: I canti della Resistenza brasiliana (As palavras sepultadas florescerão: O canto da resistência brasileira), publicada em Roma por Edizioni Borla em maio de 1977. Esta edição fazia parte da coleção “Voci dell’esodo”, e teve prefácio do senador socialista italiano Lelio Basso[16], um dos organizadores do Tribunal Internacional Bertrand Russell[17]. Ela trazia também textos de Thiago de Melo, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Casaldáliga, Chico Buarque de Holanda, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, entre outros – além de divulgar um emocionante poema de Janaína Telles, filha de presos políticos, escrito quando ela tinha 7 anos, em 1975[18]. Neste volume os poemas de Hamilton Pereira (Pedro Tierra) foram publicados quase de modo anônimo, uma vez que o autor fora libertado havia pouquíssimo tempo e temia-se que tal publicação pudesse lhe trazer problemas. Seus poemas, publicados da página 36 a 64 do volume, formam o maior conjunto individual da obra, e somente são identificados – pelo pseudônimo – na introdução do livro, escrita por Masina. Nesta introdução, Masina dizia: “Estes poemas, não os encontrei em livros ou jornais, mas como cartas, pedidos de SOS, [...] como documentação de delitos e de esperança”. E ressaltava: “Várias editoras brasileiras foram procuradas, mas nenhuma teve a coragem de publicar estes poemas”[19].

Capa do livro Poemas del Pueblo de la Noche, editado na Espanha pela editora Sígueme, de Salamanca, em 1978.A primeira edição em livro

O volume em espanhol premiado pela Casa de las Américas deu origem à primeira edição integral – e comercial – em livro de Poemas do Povo da Noite, que – retrato da época – não ocorreu no Brasil, mas sim na Espanha, pela editora Sígueme, de Salamanca, em 1978. Esta edição teve como “padrinho” D. Pedro Casaldáliga, que fez todos os contatos, além da já mencionada tradução, que permitiram a publicação da obra na Espanha – Casaldáliga é catalão, de Balsareny, região de Barcelona.

Poemas del Pueblo de la Noche já traz a ilustração de Manoel Cyrillo na capa e as de Pepe no miolo do livro, que farão parte também da edição brasileira, que somente surgirá em 1979, ano da Anistia.

Ainda em 1978, foi publicada na Alemanha a revista Ein Neuer Capa da revista Ein Neuer Himmel Eine Neue Erde: Von Zusammenleben der Menshen und von Ihren Hoffnugen (Um novo céu e uma nova Terra), publicada na Alemanha por Athena-Verlag, Basel) em 1978, que trazia poemas de Pedro Tierra.Himmel Eine Neue Erde: Von Zusammenleben der Menshen und von Ihren Hoffnugen (Um novo céu – Uma nova Terra) (editora Peter Hammer, Basel), organizada por Conrad Contzen e Hermann Schulz, que trazia poemas de Pedro Tierra, além de textos de Josué de Castro, D. Hélder Câmara, Thiago de Mello, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto.

“Os primeiros manuscritos de Pedro Tierra chegaram à Europa em meados da década de setenta; foram-me oferecidos por um homem que até então eu desconhecia, chamado José Ferreira. Tencionavam, com a publicação dos poemas, arranjar recursos para o movimento de oposição no Brasil, escreveu-me Ferreira de Paris; e que o autor estava preso há três anos por motivos políticos; fora tarefa extremamente difícil conseguir que os textos saíssem clandestinamente da prisão. [...] Durante o diálogo com José Ferreira nasceu a idéia de editar um outro livro, mais comercial, destinado unicamente à causa por ele defendida no Brasil; todos os honorários reverteriam em benefício da luta política.”[20]

Esta publicação foi Um novo céu – Uma nova Terra, lançada em tiragem de 35 mil exemplares. Nesta revista, pela primeira vez que se revela que Pedro Tierra é pseudônimo de Hamilton Pereira, bem como se publica uma foto sua, já em liberdade no Brasil[21].

Hamilton considera que

“Na Alemanha, foi interessante porque esta edição despertou uma percepção especial, ou seja, como os fascismos se parecem. O livro despertou em muita gente o gesto de solidariedade com movimentos sociais brasileiros, os movimentos de trabalhadores rurais, indígenas etc.”.

Em 1981, o livro foi publicado integralmente na Itália (Canti del Popolo della Notte, tradução de David Turoldo, Bologna, Editrice Missionária Italiana).

A primeira edição em livro no Brasil

Somente em 1979, após esse percurso internacional, Poemas do Povo da Noite chegou ao Brasil, “graças à abnegação e ao heroísmo do Fábio [Ortiz Jr.]”[22], dono da Editorial Livramento, de São Paulo, em tiragem de 3.980 exemplares[23] e com as mesmas ilustrações da edição espanhola e da edição original organizada por Luiz Eduardo Greenhalgh.

A Editorial Livramento era uma pequena livraria e editora que funcionava na avenida Waldemar Ferreira, no bairro do Butantã, na entrada da Cidade Universitária, em São Paulo. Editou cerca de 25 títulos. Criada por seis estudantes da Universidade de São Paulo (USP)[24] em março de 1978, no embalo da retomada do movimento estudantil em 1977, esta editora lançou alguns importantes livros de oposição[25]. Estes estudantes eram militantes ou simpatizantes de organizações políticas ou de tendências estudantis e viram na idéia da livraria e editora uma forma de dar continuidade a esta militância e de ter uma fonte de renda[26].

O livro chegou às mãos de Fábio Ortiz Jr. por intermédio do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, na ocasião um membro ativo do Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA).

Greenhalgh havia conhecido Fábio e a Editorial Livramento em virtude da publicação por esta editora do livro Memórias do exílio, vol. 1, organizado por Pedro Celso Uchoa Cavalcanti e Jovelino Ramos, feita em co-edição com o CBA – edição esta, diga-se de passagem, realizada não sem problemas. A partir desse contato e do relacionamento que se estabeleceu entre ambos, Greenhalgh sugeriu a Fábio a edição no Brasil do livro de Pedro Tierra, tendo passado às suas mãos um exemplar da edição espanhola da obra.

Fábio leu os poemas e imediatamente resolveu editá-los, surgindo assim a edição brasileira de Poemas do povo da noite[27].

Lançada em abril de 1979, ano em que a campanha pela anistia estava em seu auge – a Lei da Anistia foi aprovada em agosto de 1979 –, a obra teve forte repercussão entre os setores de esquerda do Brasil. Versos dos poemas foram usados em camisetas e em cartões postais em favor da anistia.

“Quando o livro saiu foi um sucesso. Anunciávamos o livro nas atividades do Comitê de Anistia, nas reuniões, e a repercussão era enorme. O livro passou a ser um material de aproximação das pessoas com o movimento pela anistia, com os presos políticos”, lembra Luiz Eduardo Greenhalgh.

É o próprio poeta que narra um caso singular acontecido naquele período, quando lançou o livro em algumas cidades em atos pela Anistia:

Chegamos a Salvador e fomos para a atividade, um recital marcado para a antiga Praça da Forca. Talvez por estarmos pisando o chão dos Orixás, o que ocorreu naquele dia escapa inteiramente aos domínios surrados da razão [...] Nos concentramos em torno do monumento e deu-se início ao recital. Para minha surpresa um grupo de jovens atores havia feito uma seleção de poemas, para homenagear Pedro Tierra, poeta de origem latino-americana, morto sob tortura pelo regime militar... e lá se foram desfiando no tom dos discursos veementes da época os Poemas do Povo da Noite, aos quais tiveram acesso por uma edição mimeografada que corria de mão em mão entre eles. Senti-me morto e ressuscitado, comovido pela homenagem e temendo frustrar meus entusiasmados porta-vozes por estar prosaicamente vivo, entre eles...[28]

O prefácio de Pedro Casaldáliga, que consta tanto das edições estrangeiras como da brasileira, é um importante registro do que representava a publicação do livro naquele momento no Brasil. Vale a longa citação:

Será que alguém já publicou nestes dez últimos anos de poesia e de noite, no Brasil, um livro de poemas mais verdadeiros, versos mais comprometidos com a vida, com a morte, com o Povo?

[...] O medo, a angústia, o sofrimento das distâncias ou das torturas falam, nestes versos, com a dramaticidade neurológica de “O Capuz”, para citar um exemplo.

[...] O poeta sabe, pela própria experiência esticada até o umbral da morte – nunca tão etimologicamente verdadeiro o umbral –, que “a criatura humana resiste”. Para ele – e tem o direito de afirmar o que suporta – “não importa se a colheita da luz tarda”. Ele crê que “a mão ferida semeia a surda semente da liberdade”. [...]

“Sobreviveremos”, grita. Com a experiência de um sobrevivente. [...] irmão-poeta, poeta-mártir, poeta-profeta. [...]

Um homem comprometido com o Povo até a tortura, até a morte sempre iminente, não podia cantar de outra maneira. Por isso são verdadeiros estes versos, e comprometidos, e comprometedores.

Este livro se lê e se passa como um telegrama de urgência, como um grito de guerra. Ou então se queima, covardemente, às escondidas. O fogo do suplício queimou muitas vezes a carne do seu cantor.

Ninguém pode ler estas páginas como quem desfolha mais um poema, habitualmente flor. Este não é um livro de flores habituais.

“Aqui um ato de amor é sempre um desafio”. Uma palavra de liberdade é sempre um desafio. Um gesto de comunhão é sempre um desafio. Ter simplesmente este livro nas mãos é já um desafio...[29]

O editor alemão de Pedro Tierra, Hermann Schulz, também registrou sua opinião sobre o que representavam os versos de Poemas do Povo da Noite:

O significado desses textos para centenas de milhares de brasileiros durante os anos de luta contra uma ditadura militar brutal, é inestimável. Pedro Tierra assentou com suas palavras a pedra angular da visão de um futuro melhor, baniu os pesadelos do presente e libertou o pensamento do inferno da desesperança e do desespero. A repercussão dos seus escritos transcende amplamente a sua apreciação literária; fizeram e ainda fazem parte de uma espiritualidade invejável, na qual a linguagem, a poesia e a ação política têm como destinatário o ser humano e florescem “contra todas as formas de morte”[30].

Poeta da resistência

A obra de Pedro Tierra teve certa repercussão no Brasil também na grande imprensa, com artigos que comentavam o livro, suas qualidades literárias e seu conteúdo político.

Tristão de Athayde, pensador cristão, resenhou o livro. Vale a pena reproduzir um longo trecho desse texto:

Assim como Garcia Lorca ficou gravado na história literária de Espanha como o poeta da resistência espanhola ao terrorismo franquista, esse jovem brasileiro de nome espanhol ficará provavelmente como a maior expressão poética da resistência ao terror ditatorial dos nossos últimos quinze anos. Guardadas as devidas proporções, será uma espécie de Castro Alves anti-romântico. Sua poesia será castro-alvina pela sua inspiração social e revolucionária. Mas é radicalmente anti-romântica pelo realismo patético de quem sofreu, na própria carne, tudo aquilo que canta nos seus versos, numa linguagem intencionalmente desprovida de toda loquacidade empolada ou de todo fácil sentimentalismo. Pode-se mesmo dizer que pertence à linhagem de um Murilo Mendes ou de um João Cabral de Melo Neto. [...] os poemas de Pedro Tierra ficam voluntariamente segregados entre os muros da prisão e aqueles muros, ainda mais fechados, de uma filosofia da vida, exclusivamente dedicada à luta política partidária da mais radical revolução social. Essa visão político-partidária, entretanto, é do tipo profundamente humano e personalista. Seus poemas são fotografias patéticas de companheiros e situações do sofrimento humano vivido e convivido no horror das células confinantes e das torturas sofridas e compartilhadas. Como Soljenitsin o faz das células do Gulag staliniano, pois o sofrimento humano está acima dos partidos e das ideologias.

Continua Tristão de Athayde:

[São] poemas de carnes dilaceradas e sangue derramado por um ideal de amor e de liberdade, fraternalmente convivido e compartilhado. O sofrimento contínuo que emana de cada página desse canto do povo da morte torna sua leitura quase intolerável, pois a verdade é mais corrosiva do que todas as suas representações estéticas. E nessa poesia, despojada totalmente de retórica e de ornatos, é a verdade dos torturados, dos assassinados, dos dilacerados pelas separações compulsórias, que reponta desse “navio negreiro” em terra, de negros, mulatos e brancos, de uma juventude generosa que ofereceu e continua a oferecer seu conforto e sua vida por um ideal de holocausto por uma causa social, como os cristãos dos circos romanos e os missionários de todos os tempos, por uma causa sobrenatural. Penso que, em todo esse livro de poemas só há um canto de amor, aliás dilacerante, enquanto a ternura e a compaixão transbordam de cada poema, quase todos dedicados ao rebanho de anônimos que iam ficando para trás. [...] Esses cantos de fúria, protesto e ternura fazem desse pequeno livro uma flor de sangue que faltava à vala comum de tantos anônimos que ficaram à beira dos caminhos, enquanto perdurar, entre os homens, uma falsa filosofia do ódio e da vingança.[31]

Profundamente impressionado com a obra de Pedro Tierra também ficou Cláudio Abramo, um dos principais nomes do jornalismo brasileiro. Isso está registrado em seu livro póstumo, organizado por Cláudio Weber Abramo, A regra do jogo:

[...] fui uma noite a uma livraria, em companhia de um casal amigo, e lá comprei um livro de um jovem, Pedro Tierra, um livro que me fez as lágrimas brotarem dos olhos, tal sua força. Ninguém fala desse jovem, em quem se reconhece desde logo o tom de um grande poeta da dor e do sofrimento, que grita contra a tortura que sofreu porque o Brasil me parece um país que cada vez mais dá as costas a si próprio. Gostaria de mostrar os versos de Pedro Tierra a Giuseppe Ungaretti, a T. S. Eliot, a Stephen Spender.”[32]

Um livro de oposição

Vinte e cinco anos após a primeira edição brasileira de seu livro, o autor avalia que a obra “cumpriu o papel da poesia militante, nos limites que isso possa significar, em um período em que saíamos de um Estado policial, opressivo, para uma etapa de renascimento dos movimentos sociais no país”.

Certamente por tudo isso, e por conhecer todo o percurso de Poemas do Povo da Noite, desde as celas das prisões até a edição brasileira, passando por suas edições no exterior, D. Pedro Casaldáliga escreveu em seu prefácio ao livro, como vimos: “Ter simplesmente este livro nas mãos é já um desafio [...]”. Um desafio à repressão, à tortura, à censura, ao medo, à violência política, à ditadura, enfim.

Dessa forma, o livro de Pedro Tierra ganha significado especial e se apresenta como – e se torna de fato – um elemento de intervenção política, mais além da obra de arte, da intenção de seu autor e do produto editorial/comercial. Apropriado pela realidade e pelos sujeitos que a fazem, torna-se ator político.

Estas me parecem ser características que um livro deve ter para ser considerado um livro de oposição.

 

Anexo 1 –

Seleção de alguns poemas de Poemas do Povo da Noite

 

Sobreviveremos

Perdemos a noção do tempo.

A luz nos vem da última lâmpada,

coada pela multidão de sombras.

A própria voz dos companheiros tarda,

 

como se viesse de muito longe,

como se a sombra lhe roubasse o corte.

Nessa noite parada sobrevivemos.

Ficou-nos a palavra, embora reprimida.

 

Mas o murmúrio denuncia que a vitória

não foi completa. Dobra o silêncio

e envia o abraço de alguém

cujo rosto nunca vimos e, todavia, amamos.

 

Nessa noite parada sobrevivemos.

Sobreviveremos.

Ficou-nos a crença, de resto, inestinguível,

na manhã proibida.

(74)

 

A palavra sepultada

Hoje eu queria dizer-lhe muitas coisas,

de resto, ninguém mais poderia ouvir-me.

Seu coração receba o vento de minha dor.

A porta do calabouço cerrou os dentes

sobre meus ossos.

A morte visita minha boca

num murmúrio sepultado e inútil.

Sinto enorme o peso das palavras.

 

É quando a mudez se tornou vício.

É quando o muro não cercou o corpo apenas

e há coisas necessitando explodir.

É quando a palavra dita não vem do cerne

e se perde na cinza.

 

Eu queria dizer-lhe muitas coisas,

Não há como fazê-lo.

Na cela ao lado, um companheiro morto.

Algo a dizer sobre isso?

O que pode o grito se não se perpetua?

As palavras estão gastas, mortas por dentro.

Meu corpo será meu grito,

embora hoje permaneça mudo

e sem esperança de compor um canto urgente.

 

Hoje eu queria dizer-lhe muitas coisas...

(73/75)

 

Companheira

Senti teus olhos na sombra

como diamantes mudos,

teus olhos aprisionados

como passarinhos.

 

Guardei no peito teus olhos

de madrugada rebelde,

rompendo a noite

dos corredores.

 

Tomei na sombra tuas mãos feridas

como terra semeada

e aprendi o ódio dos escravos

no instante que precede a revolta.

(74)

 

Perguntaram-me muitas coisas...

Perguntaram-me muitas coisas

mas eu estive calado, porque

é inútil falar aos inimigos

quando os inimigos são fortes.

 

Porque é inútil repetir

ao assassino de meu irmão

as cores da manhã

reconstruída sobre sua morte.

 

Eu lhes narrei apenas, nos intervalos da dor,

as promessas de incêndio,

o povo na casa dos opressores,

o muro dos justiçados.

 

Perguntaram-me muitas coisas

mas eu estive calado, porque

é inútil falar aos inimigos

quando os inimigos são fortes.

(74)

 

As mãos limpas

            Ao companheiro Alexandre Vannucchi Leme,

            Assassinado em 17 de março de 1973

 

Sobre a mesa as mãos de um homem:

Brancas, limpas, tranqüilas.

Mãos de um habitante das cidades.

Por si mesmas não dizem nada.

 

Acariciam os cabelos dos filhos,

o rosto da mulher, compram os jornais,

dirigem o automóvel,

estarão suadas ao meio-dia.

Esses, afinal, são gestos universais.

 

Contudo, neste fim de tarde, eu as vejo

Exaustas, vazias, manchadas de sangue.

O corpo de Alexandre repousa sem algemas,

(é pouco mais que um adolescente)

Da boca obstinada não fugiu palavra

e, na morte, seu rosto resplandece.

 

Daquelas mãos não se dirá:

“Estão marcadas com o sangue dos inocentes”.

Ei-las: lavadas, neutras, polidas cuidadosamente,

prontas a repetir gestos universais.

Acariciar os cabelos do filho,

o rosto da mulher,

 

passear pela cidade, insuspeitadas.

Ir ao cinema. Levar o cigarro à boca.

Confundir-se entre mãos comuns

dos homens comuns, dessa cidade comum.

(73)

 

O capuz

Cá está o capuz sobre a grade.

Traz consigo uma segura

promessa de dor. Na boca

do sentinela um meio riso.

 

Cá está uma parcela da noite

cobrindo meu rosto.

A mão de meu inimigo

determina  o caminho.

 

Pelos corredores aprendi

o jeito inseguro dos cegos.

As mãos tateando a parede.

Sob os pés a escada imprevista,

 

o degrau a mais, a queda,

o riso dos soldados,

o gesto perdido buscando

uma porta que não houve.

 

O passar dos dias

e as cicatrizes no corpo

ensinaram-me esse caminho.

Nos dedos guardei as arestas,

 

o ferro das portas,

o fio dos dínamos.

No dorso a marca

desses dias de sombra.

 

O capuz repete a dor

no corpo de cada combatente,

uma dor mercenária

recrutada a serviço da noite.

(74)

 

As mãos atadas

No hora do grito

é difícil perceber algo

no rosto dos perseguidos.

 

Alguns ganham a cor dos homens aflitos,

Outros, um cansaço de mil anos, ou ainda,

a maneira triste dos homens capazes de morte.

 

Taciturnos depois da noite de suplício.

Era voz de mulher

mas nenhum de nós lhe viu o rosto.

 

Não é preciso dizer nada

e guardo meus pensamentos:

(contra os golpes do carrasco

 

restou apenas

a força de minha crença.

Essa foi minha arma,

 

essa terá sido a sua.

Será a do último

torturado desta guerra.)

.....................................

 

Se algum dia tiveres

de enfrentar essa batalha

não contes com a morte rápida.

 

Não te espantes de estar vivo

depois do primeiro dia.

Foi apenas o primeiro dia.

 

Sobretudo não contes

com o gesto humano,

nas mãos de teu carrasco.

 

Não procures aqui

um gesto que se perdeu

na rua dos oprimidos.

 

Entre as mãos caladas do torneiro

regressando ao subúrbio,

talvez encontres um gesto humano.

(74)


[1] A documentação encontrada no Arquivo do Deops (Pasta Ordem Social 1499, Informação nº 181/77 de 9/3/1977) informa que o Alvará de Soltura de Hamilton foi expedido em 9/3/1977 e que ele foi solto às 19:30 horas daquele mesmo dia. Mas o próprio Hamilton afirma que foi libertado apenas em 10 de março. Entrevista com Hamilton Pereira da Silva realizada em São Paulo em 04/02/2004. Todas as citações de Hamilton Pereira não identificadas são reproduzidas dessa entrevista.

[2] JOSÉ, Emiliano. As asas invisíveis do Padre Renzo. São Paulo, Editora Casa Amarela, 2002, p. 159.

[3] Entrevista com Hamilton Pereira da Silva realizada em São Paulo (SP) em 4 de fevereiro de 2004.

[4] Entrevista com Hamilton Pereira da Silva em 20 de dezembro de 2004, em São Paulo.

[5] Entrevista com Luiz Eduardo Greenhalgh em 5/11/2004, em São Paulo. Todas as citações de Greenhalgh não identificadas são reproduzidas desta entrevista.

[6] Aqui entendemos edição como o “conjunto de exemplares reproduzidos sob uma mesma composição [...] entendedo-se primeira edição como a primeira publicação autorizada pelo autor”. Cf. ARAUJO, Emanuel. A construção do livro. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1995, p. 270-71.

[7] Entrevista com Luiz Eduardo Greenhalgh em 5/11/2004; entrevista com Madre Cristina em AZEVEDO, Ricardo e MAUÉS, Flamarion (orgs.). Rememória: Entrevistas sobre o Brasil do século XX. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 1997, p. 164-166.

[8] Segundo Greenhalgh, ao entregar o prefácio Casaldáliga disse: “E o dia que esse rapaz sair da prisão quero fazer com ele o texto de uma missa latino-americana”. De fato, em 1979 ambos compuseram, ao lado de Martin Coplas, a Missa da terra sem males, publicada pela Editora Livramento em 1979.

[9] Tive acesso a um desses exemplares mimeografados por meio de Hamilton Pereira. No entanto, não era um dos exemplares da primeira edição de 1975, mas sim um exemplar reproduzido após 1977, uma vez que traz também poemas datados daquele ano, o que significa que o volume foi sendo periodicamente complementado com novos textos do autor.

[10] E de fato Renzo acompanhará a edição italiana dos Poemas do Povo da Noite. Em 19 de junho de 1977 e em agosto do mesmo ano encontrou-se em São Paulo com Pedro Tierra, que saíra da prisão havia poucos meses, para combinar os últimos detalhes da edição de todas as suas poesias em italiano (JOSÉ, E. op. cit., p. 212 e 233). Emiliano José ainda registra que em 29 de janeiro de 1978 Renzo esteve em Goiânia para encontrar Hamilton, sua esposa Cristina e sua filha Ana Terra, ocasião em que “conversam sobre a edição italiana de seus poemas e também da provável edição no Brasil” (p. 268).

[11] JOSÉ, Emiliano, op. cit., p. 143.

[12] JOSÉ, Emiliano, op. cit., p. 159.

[13] JOSÉ, Emiliano, op. cit., p. 159.

[14] JOSÉ, Emiliano, op. cit., p. 149 e 159.

[15] Entrevista com Hamilton Pereira da Silva realizada em São Paulo (SP) em 04 de fevereiro de 2004.

[16] De acordo com o jornalista Elio Gaspari, o senador socialista italiano Lélio Basso também coordenava o Fronte Brasiliano D’Informazione, uma das várias organizações criadas no exterior por brasileiros exilados e estrangeiros solidários para denunciar as torturas e perseguições políticas no Brasil. GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo, Cia. das Letras, 2002, p. 273.

[17] O Tribunal Russell II foi constituído em 1973 a partir de entrevistas com exilados brasileiros. Teve como objetivo, “em nome da consciência dos povos, examinar e julgar os crimes do fascismo da América Latina e dos seus sustentadores”. Ocorreram três sessões entre 1973 e 1976 – em Roma, por duas vezes, e em Bruxelas – que expuseram detalhadamente a terrível dimensão da repressão na América Latina. MASINA, Ettore. Introduzione. In: MASINA, Ettore (org.). Le parole sepolte fioriranno: I canti della Resistenza brasiliana. Roma, Edizioni Borla, 1977, p. 11.

[18] Testemunho da brutalidade a que pode chegar a repressão política, o poema “Dói gostar dos outros”, de Janaína Telles, pode ser lido em JOSÉ, E., op. cit., p. 179-80.

[19] MASINA, Ettore, op. cit., p. 11 e 17.

[20] SCHULZ, Hermann. “O poeta Pedro Tierra”. In: TIERRA, Pedro. Zeit der Widrigkeiten: Poemas - Gedichte. St. Gallen/ Berlin/São Paulo, Edition Dia, 1990, p. 6. Na verdade, como vimos, os poemas já haviam chegado anteriormente à Itália e tinham sido editados naquele país em 1977.

[21] Idem, ibdem, p. 8.

[22] “Depoimento de Hamilton Pereira (Pedro Tierra)”. Disponível na página especial sobre os 20 anos da Anistia no site da Fundação Perseu Abramo (www.fpabramo.org.br). Acessado em 13/03/2004.

[23] Entrevista com Fábio Ortiz Jr. em São Paulo (SP) em 10 de setembro de 2004, e cópia de registro manuscrito de Fábio Ortiz Jr. A respeito dos custos de edição do livro Poemas do Povo da Noite, gentilmente fornecida por ele.

[24] Entre os quais Markus Sokol, Jorge Kaupatez, Sílvio Ernesto Bathusanski e José Bonifácio Amaral. Entrevista com Fábio Ortiz em São Paulo (SP) em 10 de setembro de 2004.

[25] Por exemplo, Memórias do exílio – Brasil 1964/19??. 1. De muitos caminhos, organizado por Pedro Celso Uchoa Cavalcanti e Jovelino Ramos (setembro de 1978); Escritos de Carlos Marighella (dezembro de 1979); e História da UNE, vol. 1: Depoimentos de ex-dirigentes, organizado por Nilton Santos (outubro de 1980).

[26] Três meses depois da criação da livraria e editora, quatro dos seis fundadores deixaram a sociedade e um novo sócio, justamente Fábio Ortiz Jr., entrou. Problemas internos e de gestão administrativa e financeira fizeram que ainda no decorrer de 1978 o novo sócio passasse a responder integralmente pela empresa, tornando-se o responsável pela gestão da livraria e da editora e pelos títulos publicados. A partir do começo de 1979, um sócio informal injetou algum capital na empresa e passou a trabalhar com Fábio Ortiz, dividindo as funções de administração e direção (este sócio prefere que seu nome não seja mencionado). Editora e livraria funcionaram de modo regular até 1981. Entrevista com Fábio Ortiz em São Paulo (SP) em 10 de setembro de 2004; entrevista com o sócio informal, São Paulo (SP), em 17 de setembro de 2004.

[27] Entrevista com Fábio Ortiz em São Paulo (SP) em 10 de setembro de 2004.

[28] “Depoimento de Hamilton Pereira (Pedro Tierra)”. Disponível na página especial sobre os 20 anos da Anistia no site da Fundação Perseu Abramo (www.fpabramo.org.br). Acessado em 13/03/2004.

[29] CASALDÁLIGA, Pedro. “Prefácio”.In: TIERRA, Pedro. Poemas do Povo da Noite. São Paulo, Livramento, 1979, p. 5-7.

[30] SCHULZ, op. cit., p. 8.

[31] ATHAYDE, Tristão. Mirantes e calabouços. São Paulo, Folha de S. Paulo, 29/11/1979, p. 3.

[32] ABRAMO, Cláudio. A regra do jogo: O jornalismo e a ética do marceneiro. São Paulo, Companhia das Letras, 1997 (1a. edição 1988), p. 265.

 

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Bibliografia e Fontes

ABRAMO, Cláudio. A regra do jogo: O jornalismo e a ética do marceneiro. São Paulo, Companhia das Letras, 1997 (1a. edição 1988), p. 265.

ATHAYDE, Tristão. Mirantes e calabouços. São Paulo, Folha de S. Paulo, 29/11/1979, p. 3.

CASALDÁLIGA, Pedro. Prefácio. In: TIERRA, Pedro. Poemas do Povo da Noite. São Paulo, Livramento, 1979, p. 5-7.

CONTZEN, Conrad e SCHULZ, Hermann (orgs.). Ein Neuer Himmel Eine Neue Erde: Von Zusammenleben der Menshen und von Ihren Hoffnugen. Basel, Peter Hammer.

CRISTINA, Madre. “Entrevista”. In: AZEVEDO, RICARDO e MAUÉS, Flamarion (orgs.). Rememória: Entrevistas sobre o Brasil do século XX. São Paulo, Editora Fundação Perseu Abramo, 1997, p. 153-171.

GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo, Cia. das Letras, 2002

JOSÉ, Emiliano. As asas invisíveis do Padre Renzo. São Paulo, Editora Casa Amarela, 2002.

MASINA, Ettore (org.).  Le parole sepolte fioriranno: I canti della Resistenza brasiliana. Roma, Edizioni Borla, 1977.

MAUÉS, Flamarion. Editoras de oposição no Brasil no período de abertura política (1974-1985). In: COGGIOLA, Osvaldo (org.). América Latina: encruzilhadas da história contemporânea. São Paulo, Xamã, 2003, p. 129-140.

SCHULZ, Hermann. “O poeta Pedro Tierra”. In: TIERRA, Pedro. Zeit der Widrigkeiten: Poemas - Gedichte. St. Gallen/ Berlin /São Paulo, Edition Dia, 1990, p. 6-10.

TIERRA, Pedro. Poemas del Pueblo de la Noche. Salamanca, Sígueme, 1978.

_______. Poemas do Povo da Noite. São Paulo, Livramento, 1979.

_______. Canti del Popolo della Notte. Tradução de David Turoldo. Bologna, Editrice Missionária Italiana, 1981.

Entrevistas e outras fontes

Arquivo do Deops, Pasta Ordem Social 1499, Informação nº 181/77 de 9/3/1977.

“Depoimento de Hamilton Pereira (Pedro Tierra)”. Disponível na página especial sobre os 20 anos da Anistia no site da Fundação Perseu Abramo. Acessado em 13/03/2004.

Entrevista com Fábio Ortiz Jr., da Editorial Livramento, realizada em São Paulo (SP) em 10 de setembro de 2004.

Entrevistas com Hamilton Pereira da Silva realizadas em São Paulo (SP) em 04 de fevereiro de 2004 e em 20 de dezembro de 2004.

Entrevista com o sócio informal da Editorial Livramento realizada em São Paulo (SP), 17 de setembro de 2004, que solicitou anonimato.

Entrevista com Luiz Eduardo Greenhalgh em 5 de novembro de 2004, em São Paulo.

Entrevista com Paulo Vannuchi em 16 de fevereiro de 2005, em São Paulo.

Entrevista telefônica com Emiliano José em 1º de março de 2005.

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