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Por JOSÉ DE SOUZA MARTINS
Professor titular
aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo
e fellow de Trinity Hall e professor titular da Cátedra
Simon Bolívar da Universidade de Cambridge (1993-1994). Foi aluno
de Octavio Ianni na USP (1961-1964) e seu colega na antiga Cadeira
de Sociologia I, de Florestan Fernandes. Dentre outros livros,
autor de Florestan - Sociologia e consciência
social no Brasil, Edusp - Editora da Universidade de São
Paulo/Fapesp, São Paulo, 1998
Ianni, a poesia na sociologia
Uma
escola com o nome de Florestan |
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A
USP
no tempo das trevas
Caros
Amigos divulgou em seu número de março exaltada reação a artigo
que publiquei em O Estado de S.Paulo (6/2/2005) sobre a
decisão do MST de dar o nome de Florestan Fernandes à sua Escola
Nacional, em Guararema. A autora faz contra mim acusações graves e
infundadas, apoiadas num espantoso ressentimento, que nada tem a ver
com a matéria comentada, e que descambam para a desqualificação
pessoal e profissional. Não posso admitir que ela ou quem quer que
seja me faça as descabidas acusações que faz, baseada em deturpações
de fatos.
Fui aluno, assistente e amigo de
Florestan Fernandes até o fim de sua vida. Ainda poucos dias antes
de sua morte, numa visita, ouvi dele, uma vez mais, em sua própria
residência, palavras de amizade, apreço, respeito e confiança. Nem
teria sido outra a razão do pedido da família para que, na ausência
de Antonio Candido, fosse eu a falar em nome da Faculdade de
Filosofia da USP no velório de Florestan.
Durante o período mais difícil da
ditadura, ficamos mais próximos ainda. De 1972 a 1975, Jaime Pinsky,
Florestan Fernandes e eu organizamos e dirigimos a revista de
ciências sociais Debate & Crítica. Fechamos a revista quando
a Polícia Federal quis nos impor a censura prévia e a reabrimos
pouco depois com o nome de Contexto. A revista circularia até
1978. Estabelecemos ali, em encontros na casa de Pinsky, o espaço em
que se reuniam a universidade legal e a universidade cassada, além
de Florestan, Octavio Ianni, Fernando Henrique, Paul Singer e outros
mais. Mais tarde juntou-se ao núcleo dirigente Tamás Szmerecsányi.
Um espaço que não tínhamos, e os cassados não tinham, no recinto
proibido e burocratizado da Faculdade de Filosofia da USP.
A autora ignorou os fatos, desmontou meu
artigo, leu-o pelo avesso e remontou-o como bem entendeu para
justificar, com inacreditável má fé, a interpretação não só do que
escrevi, mas de minha própria vida e de minha obra. Cobra de mim
relações de vassalagem, que nunca tive com ela ou com quem quer que
seja.
É um insulto que ela me atribua opinião
diversa da que tenho sobre educação popular e exprimi no artigo.
Insulto porque nega minha obra e minha própria história. Eu venho da
escola pública de roça, de uma família operária e pobre, trabalhei
desde criança durante o dia para estudar à noite e não foi para
ouvir lições elitistas e reacionárias como a que ela pretende me
dar.
Durante vinte anos, na Amazônia e em
outras regiões do país, juntei-me aos poucos intelectuais que,
através da Pastoral da Terra, se dedicaram à formação de lideranças
camponesas e indígenas, semeando a idéia da universidade popular e
levando a pessoas que, não raro, nem alfabetizadas eram, as idéias e
concepções sociológicas de autores como Florestan Fernandes. Esse
trabalho contribuiu poderosamente para abrir o caminho que libertou
o protesto dos trabalhadores rurais das crônicas limitações do
messianismo e do banditismo social, criando as condições para que
finalmente se transformassem em sujeito político. Sem esse trabalho
não teria havido a Escola Nacional Florestan Fernandes.
Ela diz que em 1978 rompi com Luiz
Pereira e com isso eu rompera com o que restara da sociologia de
Florestan Fernandes. Nada mais falso. A herança de Florestan não era
simplesmente de Florestan e isso ele sempre deixou claro. Ele
herdara de Roger Bastide, como outros herdaram, a missão de
consolidar a Sociologia na USP e no Brasil. E isso ele fez
maravilhosamente bem, formando o grupo de seus assistentes, também
eles contribuintes notáveis do que veio a ser essa herança. A
ruptura que afetou profundamente a herança ocorreu dez anos antes,
em 1968, em conseqüência do movimento pela reforma universitária,
que propunha o fim da cátedra, e do movimento estudantil que também
elegera a cátedra como um de seus alvos. Apesar de suas posições
políticas claras, Florestan, catedrático, acabaria sendo
indiretamente atingido pelo duplo movimento.
Nos poucos meses entre o fim do
movimento e as cassações, a base institucional da autoridade
acadêmica de Florestan, a cátedra, já estava destroçada. Ainda houve
um esforço para construir um departamento de ciências sociais que
preservasse a autoridade dos professores e assegurasse a
continuidade do trabalho docente e de pesquisa, tudo interrompido e
arruinado, sem prejuízo das reformas necessárias. Florestan não foi
o escolhido para dirigir o departamento informalmente criado.
Houve mágoas, mais tarde indevidamente
apresentadas como expressões de divergências ideológicas e
partidárias entre quem ficou de um lado e quem ficou do outro. Não
eram. As cassações não surpreenderam ninguém, mas deixaram essas
pendências. Luiz Pereira tomou partido num conflito que já não
existia, superado pelo ato truculento da ditadura. Ele imaginou
equivocadamente que tomar partido era defender a herança de
Florestan. Mas a herança de Florestan estava nas mãos do próprio
Florestan, de seus antigos assistentes e dos muitos alunos que eles
formaram e que nós estávamos formando na Universidade depois das
cassações, em nome, sem dúvida dessa herança.
Num momento de amargura foi Florestan
quem escreveu sobre a “morte do pai”, um tema clássico. A ruptura de
gerações não alcançou só a ele. Marialice Mencarini Foracchi, que
faleceria em 1971, e Luiz Pereira, também foram alcançados por ela.
E todos nós seremos algum dia. Já não se fala na obra deles,
infelizmente, apesar da sua imensa atualidade. A obra de Marialice
sobre a juventude é brilhante e ainda não foi superada. O
pioneirismo competente de Luiz Pereira no estudo da marginalidade e
da condição feminina ainda não teve sua qualidade igualada.
Prefiro falar em “segunda cassação”. Os
cassados da ditadura também foram cassados na Universidade. É
espantoso que as pessoas esqueçam que a ditadura prendia
arbitrariamente, torturava e matava impunemente. Alunos e
professores foram seqüestrados no recinto da escola. Alcagüetes
anotavam nossas aulas para municiarem a repressão, nos intimidando e
cerceando o nosso trabalho. Todos tínhamos medo e tínhamos que nos
acautelar. Mas havia estilos de medo e estilos de cautela. Luiz
Pereira desentendeu-se com Marialice e comigo porque achava que não
devíamos apoiar o Cebrap, a instituição que os cassados organizaram
para trabalhar. Chegou a acusar-me de irresponsável quando incluí o
nome de Octavio Ianni, cassado, na lista dos possíveis examinadores
do meu primeiro aluno de pós-graduação a defender tese. Achou que eu
estava fazendo provocação e pondo em risco nada mais nada menos do
que o grupo que ele liderava em nome da herança de Florestan.
Chegamos ao mencionado ano de 1978, ano
do concurso de efetivação dos docentes de Sociologia da Faculdade de
Filosofia da USP com essas pendências e desencontros. Foi com
espanto que recebi a nomeação de Luiz Pereira para a banca
examinadora do concurso. Meses antes ele se abstivera no conselho
departamental de votar pela renovação de meu contrato de trabalho,
alegando que não tinha condições de opinar sobre meu desempenho
durante a vigência do vínculo e, portanto, sobre minha competência.
Um fato insólito na história da escola. Como poderia ele fazer
parte, então, da banca que iria examinar e avaliar o meu desempenho,
o meu trabalho, a minha competência, o meu memorial, as minhas
provas? Apresentei por escrito à Congregação um pedido de impugnação
de seu nome. Era meu direito e meu dever. Pensei em favor dele. Era
injusto que aceitasse uma posição em que por conta própria se pusera
sob suspeita. A pedido da Congregação retirei posteriormente o
pedido, mas ele renunciou, reconhecendo, pois, que não tinha
condições de avaliar e comparar o desempenho dos concursantes com
isenção e objetividade. Aparentemente, fui a única pessoa que o
homenageou, quando de seu falecimento, com um necrológio enviado à
Folha de S. Paulo e publicado por interferência de Florestan
Fernandes.
Não pude dar o nome de Florestan a
pontes e pinguelas, como pede a articulista, porque nunca tive
poder. Mas fiz palestras e conferências sobre sua obra e publiquei
um livro em sua homenagem: Florestan – Sociologia e Consciência
Social no Brasil. Para mim, Florestan está vivo: ele fala comigo
todos os dias através do que generosamente me ensinou e através de
sua obra densa e competente. É essa fala que para mim importa. |
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