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As pinturas rupestres e a questão
ideológica
Estamos acostumados
a acreditar que determinados termos e conceitos são privilégios de
nosso tempo.
E
que há muito tempo atrás os humanos viviam privados destes conceitos
por nós hoje cifrados, deslindados e desmistificados. Ideologia é um
destes termos
Desde tempos
imemoriais os primeiros habitantes do país têm ideologia.
As pinturas rupestres do Brasil são um
forte indicio de que entre estes habitantes a ideologia era
transmitida e coletivizada.
Como o é hoje entre nós. Por meio de instituições sociais (como a
escola, a igreja, os cultos religiosos em geral, os partidos
políticos, sindicatos e outras agremiações sociais). Sem esquecer da
mídia e da cultura.
As pinturas representariam esta parte
para estes habitantes. A da cultura e ou da mídia daquela época.
Em todas as nossas
ações, seja elas quais forem, cotidianas há questões profundamente
ideológicas. E a ação de pintar as rochas há mais de 12 mil anos
atras não deixava de ser também. Isto porque elas são as marcas. E
fizeram isto de variadas formas, estilos e tradições. Segundo os
arqueólogos. Espalhados por todo o território nacional.
Elas
nos transmitem as idéias, os sentimentos e as emoções vividas por
humanos há milhares de anos atras. (SERVICE, 1971: 88)
As pinturas talvez sejam as marcas que
mais chamem mais a atenção. Entre os vestígios deixados pelos
humanos do período. Cientistas, leigos, amadores e curiosos de todas
as extirpes sociais e procedências econômicas já refletiram sobre
elas.
Para contribuir todos têm uma
interpretação. Interpretação que é também ideológica. Para o
momento em que foram feitas.
Os produtores/artistas e seus
acompanhantes de grupo também tinham as suas interpretações e,
consequentemente, uma ideologia a respeito do mundo que os cercava.
Apoiando suas reflexões nas pinturas.
Elas seriam, então, uma arte popular onde todos poderiam apreciar,
opinar e praticar. Pois o significado era do conhecimento de todos.
Diferente
do que ocorre hoje com as artes onde somente alguns têm acesso tanto
ao conhecimento de seus significados, quanto ao fazer e ou
opinar.(IDEM , 99) Principalmente no tocante as belas artes
eruditas (teatro, cinema, pintura, escultura, música, entre outras).
A maioria da população ainda esta excluída deste conhecimento e
participação social.
Assim reporto-me a Ciro Marcondes Filho,
quando diz que: A arte de maneira geral inclui uma mensagem.
(MARCONDES, 1997: 64) As pinturas rupestres teriam esta capacidade.
Capacidade de transmitirem mensagens por meio de suas formas. E
ainda elas reproduziriam os sentimentos dos artistas.
As pinturas também
tinham como função informar aquilo que a linguagem verbal não
conseguia. Como ocorre ainda hoje. Onde nem tudo que sabemos ou
recebemos como informação e ou conhecimento é por meio,
exclusivamente, verbal.
Elas, as pinturas,
colaboravam muito com as sociedades e ou grupos, pois com a
compreensão das informações ali plasmadas as sociedades teriam mais
condições de não sucumbirem frente aos problemas que encontravam.
(IDEM, 68)
As
pinturas, ainda, indicavam o mundo em que os artistas e seus
receptores viviam. Transmitindo as posições políticas e estéticas
dos grupos em suas imagens. Os valores filosóficos, morais e
religiosos a serem seguidos pelas sociedades. Visto que nas imagens
observamos caminhadas, cerimoniais, rituais, sexo, trocas, entre
outros motivos sociais dos grupos. (IDEM, 69)
Os artistas das pinturas já tinham uma
ideologia formada a respeito de como agir, pensar e reagir neste
mundo. Isto porque eles transmitiam seus intuitos por meio destas
imagens. Imagens que eram socialmente compartilhadas. (IDEM, 72)
Ainda segundo
Marcondes: “Não há arte sem ideologia: afirmar ao contrario seria
o mesmo que dizer que há arte sem a participação do autor.
Participação do autor significa exprimir, com linguagem artística,
sua relação com o mundo, seus conflitos e sentimentos.” (IDEM,
72/73)
Então as pinturas rupestres mostram-nos
que existiam os sentimentos dos autores em suas imagens. Elas teriam
múltiplas funções.
Elas teriam funções por exemplo:
comunicacionais, econômicas, religiosas, culturais, entre outras.
Eram de grande complexidade. O oposto do
que dizem ainda alguns especialistas sobre a funcionalidade das
pinturas. Creditam a elas apenas uma função. A religiosa, por
exemplo, que é a mais apontada.
Teriam os primeiros grupos habitantes do
Brasil menos condições mentais que nós hoje? Isto é um erro porque,
como já afirmou Richard Leakey,
“o saber e o conhecimento
tecnológico se acumulam através de tradição cultural, de forma que
a distância material que divide as sociedades afluentes do século
XX da sociedade dos antigos caçadores e coletores, ou seja 50 mil
anos, por exemplo, não é equivalente a uma distância intelectual
inata. No momento, somos o mesmo animal que éramos há 50 milênios;
simplesmente sabemos mais agora do que sabíamos antes.” (LEAKEY,
1988: 154)
Então, seria um descaso nosso acreditar
que temos mais condições mentais hoje. E que por isso interpretamos
nossas construções ideológicas melhor que eles ontem.
Provavelmente, as
pinturas foram usadas, ideologicamente, por mais de um grupo. E
também em momentos muito distantes no tempo. As vezes mais de mil
anos depois. Nestes tempos remotos tudo leva a crer que usaram as
pinturas com outras funções que nem imaginamos. Mas o importante é
que com certeza tinham um fim ideológico e pensado. (MARCONDES,
80/81) |