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Por ALTAMIRO BORGES
Jornalista,
membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate
Sindical e organizador do livro “A reforma sindical e trabalhista
no governo Lula” (Editora Anita Garibaldi) |
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Trotsky, o PSTU e a cisão na CUT
A
partir de uma leitura principista sobre a natureza “neoliberal e
pró-imperialista” do governo Lula e da avaliação voluntarista sobre
a gestação iminente de uma crise revolucionária no planeta,
o PSTU tem exacerbado o seu sectarismo entre as esquerdas
brasileiras. Tudo é feito para demarcar campos. Ninguém presta! No
auge da sua soberba, ele estigmatiza todas as demais correntes do
campo popular. “Se explodir a revolução brasileira, o que veremos da
parte desses dirigentes será mais e não menos traição... Tudo isso
ocorre porque não se trata de revolucionários confusos e, sim, de
setores ganhos pelo regime capitalista a partir dos privilégios
materiais que este lhes outorga”, esbraveja um ideólogo desse grupo
trotskista.
Sobre o
PT e o PCdoB, os rótulos já são conhecidos contra “os traidores
sociais-democratas e stalinistas”. Mas os ataques não cessam. Até o
MST, reconhecido por sua capacidade de mobilização, não é poupado
pelos donos da verdade encastelados nesse partido. “A direção
do MST
tem a estratégia de pressionar o governo pela reforma agrária, mas
mantendo o seu apoio a Lula. João Pedro Stedile, líder do MST,
considera Lula e Rosseto como aliados para a reforma agrária... Por
esses motivos, a direção do MST não poderia se somar numa marcha
contra o conjunto do governo”, critica o jornal desse grupo.
Um outro texto presunçoso é taxativo: “O apoio crítico que a direção
do MST dá ao governo é um erro fatal”.
Já o recém-criado P-SOL, que tem na sua
executiva nacional uma maioria egressa dessa facção trotskista,
disputa as mesmas bases sociais e já atraiu diversos quadros dessa
organização, é hoje o alvo predileto da língua ferina do PSTU.
Excluído da fundação desse novo partido, ele sentiu o baque e foi
para a revanche, teorizando sobre seu caráter reformista,
eleitoreiro e burocrático.
A esquerda petista, que possui várias tendências de matriz
trotskista, também é recorrentemente alvejada. A metralhadora
giratória chega a ser risível – não fossem trágicos os seus efeitos.
Com essa cegueira sectária, o PSTU incentiva a cizânia nos
movimentos sociais. “É hora de romper com o governo, com a CUT e com
a UNE”, atiça seu jornal.
Ruptura na CUT
O ataque mais virulento, porém, tem se
dado no front sindical. A partir das críticas – muitas delas justas
– à postura passiva e acrítica da CUT diante do governo Lula, o PSTU
resolveu precipitar um processo de desfiliação da central e de
criação de uma nova instância – a Coordenação Nacional de Lutas
(Conlutas). Surgida de contrabando num encontro contra a reforma
sindical, realizado em Luiziânia (GO) em março de 2004, essa híbrida
articulação reúne ex-filiados cutistas, oposições sindicais,
organizações estudantis, movimentos comunitários e até algumas
entidades antes taxadas de pelegas. Sua conformação é bastante
gelatinosa. É mais um amontoado de organizações sociais do que uma
entidade de caráter sindical!
Não há precisão sobre a sua real força.
Segundo José Maria de Almeida, ex-membro da executiva da CUT e
principal líder da Conlutas, o evento de Luiziânia teve “1.800
sindicalistas de quase 300 entidades”. Já o encontro realizado no
Fórum Social Mundial, em janeiro último, contou com 1.448
credenciados de 178 entidades sindicais, 21 organizações estudantis
e 11 movimentos populares – inclusive dos sem-terra.
Se sua representatividade é um mistério, a hegemonia interna é
inquestionável. O PSTU é o indutor dessa coordenação e deseja
ardentemente formalizá-la como central. Algumas entidades do
funcionalismo têm até garantido a sustentação da Conlutas, mas já
criticam nos bastidores à postura aparelhista desse partido.
Já algumas correntes cutistas,
desiludidas com os rumos do governo Lula e ressentidas pelo
hegemonismo da força majoritária da central (Artsind), ainda debatem
a justeza e a viabilidade desse fórum paralelo. No P-SOL, uma frente
partidária bastante heterogênea, alguns grupos já anunciaram a sua
adesão à Conlutas; outros estão reticentes. Todos, porém, usam a
mesma língua ferina para se vingar do seu concorrente. “Se o PSTU
tivesse uma linha mais democrática, não de manipulação, a Conlutas
poderia se desenvolver com força. Seu futuro, porém, está ameaçado
pelo sectarismo”, analisa uma das tendências do P-SOL.
Outra corrente interna é ainda mais
dura. Acusa o PSTU de desvirtuar a reunião de Luiziânia e de se
aliar a “setores do sindicalismo brasileiro historicamente ligados à
direita, aos patrões, à velha estrutura pelega sindical e com seus
também tradicionais métodos burocráticos e gangsteristas (Federação
dos Gráficos de São Paulo, a velha Federação dos Metalúrgicos de
Minas Gerais e a dos Rodoviários do Rio de Janeiro)”, lista um texto
assinado, entre outros, por Junia Gouvêa e Agnaldo Fernandes,
ex-dirigentes do PSTU.
Para essa tendência do P-SOL, “a visão do PSTU de construir o seu
aparelho, como forma de responder as traições da burocracia cutista,
contribui para aprofundar as barreiras e divisões entre setores da
classe”.
Guerra campal
A confusão é grande e os estragos são
maiores ainda. Para fazer vingar o seu projeto fracionista e evitar
o total isolamento, o PSTU decidiu desencadear uma verdadeira guerra
campal contra a CUT. “Levar para a base de todos os sindicatos, na
forma de campanha, a discussão sobre a necessidade de se romper com
a central”, orienta o relatório da Conlutas. Essa disputa fratricida
já atingiu diversas bases de trabalhadores e no momento mais
inoportuno possível! Ao invés de unificar forças e concentrar
energias, por exemplo, no combate à reforma sindical de viés liberal
do governo Lula, esse racha tem obrigado muitos ativistas a se
digladiarem no debate sobre ficar ou não na CUT. O clima é tenso,
inclusive com cenas de agressão.
Em alguns casos, a Conlutas tem seduzido
áreas decepcionadas com os rumos do governo Lula. A Andes, o
sindicato nacional dos docentes, acaba de aprovar a desfiliação da
CUT por 192 votos a favor, 85 contra e 12 abstenções. “Num momento
crucial de discussão sobre reformas trabalhista, sindical,
universitária, a organização mais importante dos professores
universitários se isola inapelável e irremediavelmente da grande
maioria dos trabalhadores organizados do país. Uma decisão
lamentável”, registra um conceituado intelectual. Para ele, “se a
acusação contra a direção da CUT é a de sucumbir ao partidarismo
atrelado, essa saída intempestiva também aponta o iceberg do
atrelamento partidário”.
Em outros casos, o PSTU sorve o seu
próprio veneno. Em dezembro, a assembléia dos metalúrgicos de Belo
Horizonte rejeitou a proposta de saída da CUT e, de quebra, ainda
decidiu se desfiliar da federação estadual da categoria, principal
biombo da Conlutas em Minas Gerais. Na seqüência, outros sindicatos
do setor, como os de Betim, João Monlevade e Timóteo, trilharam o
mesmo rumo, num duro revés no PSTU. No mesmo mês, a assembléia dos
trabalhadores em correios e telégrafos do Rio Grande do Sul rejeitou
a proposta da diretoria da entidade, hegemonizada por essa corrente,
de saída da CUT. Em março passado, a Conlutas também sofreu derrotas
em expressivos sindicatos de servidores, como o da capital paulista.
Até agora, segundo um levantamento
parcial, a Conlutas conseguiu desfiliar apenas 16 entidades da CUT.
Mas a baixa adesão não arrefece o “otimismo voluntarista” dos
dirigentes desse partido, que tentam escamotear as razões de suas
dificuldades e difundem a emulação de que a Conlutas crescerá na
inevitável erosão da CUT. “Esse ano não estamos filiando ninguém.
Nos nossos planos estão apenas manifestações. Vamos começar a filiar
a partir de 1º de Maio”, justifica o sempre animado José Maria de
Almeida. Nos bastidores, porém, o PSTU já reconhece os graves riscos
de seu isolamento. Até a esquerda petista e o P-SOL têm evitado a
presença desse grupo em chapas unitárias do campo da CUT.
Leitura voluntarista
A participação numa “central única”
nunca foi uma questão de princípios no sindicalismo. Após a vitória
da revolução russa e com a ofensiva da luta revolucionária, os
próprios comunistas propuseram a ruptura com as entidades
burocratizadas e reformistas. Na seqüência, diante do refluxo do
movimento operário e de seu isolamento em “sindicatos vermelhos”, os
mesmos pregaram a reconstrução de entidades unitárias. Já no pós-II
Guerra, a social-democracia européia e o tradeunionismo
estadunidense financiaram a cisão do sindicalismo para se contrapor
à crescente hegemonia dos comunistas. A Confederação Internacional
das Organizações Sindicais “Livres” (Ciosl) foi criada em 1949 com
essa triste missão divisionista.
Se a questão não pode ser tratada de
forma principista, a presença na CUT também não é algo irreversível
e indiscutível. Essa central é o maior patrimônio da luta dos
trabalhadores, forjada no combate à ditadura e na resistência à
implantação do neoliberalismo. Ela reúne o que há de mais dinâmico e
representativo no sindicalismo: conta com 3.262 entidades filiadas,
representando 21.972 milhões de trabalhadores e 7.422 milhões de
sindicalizados. Apesar disto, há muito que a CUT enfrenta graves
limitações. Muitos delas decorrem de fatores objetivos e da própria
fase de defensiva estratégica da luta dos trabalhadores; outras,
porém, derivam de distorções subjetivas, da orientação reformista
adotada por sua corrente majoritária.
Desde sua origem, a central é
hegemonizada de maneira exclusivista pela Articulação Sindical
(Artsind), que a utiliza como um aparelho para suas pretensões. Além
disso, na fase recente são visíveis os sinais de burocratização e
acomodação da central.
Com a vitória de Lula, esse problema se agravou, beirando certa
subserviência diante do novo governo. Essa limitação ficou patente
em diversas ocasiões, como na batalha contra a privatista e
fiscalista reforma da Previdência. Agora, diante dos graves riscos
da reforma sindical, ela exacerba a sua postura acrítica e ainda
cerceia o debate interno. Não é para menos que várias correntes de
esquerda e até setores rebeldes da Artsind demonstram insatisfação
com os rumos da central.
Todo esse processo, entretanto, não
justifica a atitude precipitada e sectária do PSTU. No caso
concreto, a criação da Conlutas parte de premissas equivocadas e
traz enormes prejuízos à luta dos trabalhadores. Por um lado, essa
iniciativa superestima a atual correlação de forças no país,
apostando no rápido desgaste do governo Lula e na sua iminente
ultrapassagem pela esquerda. A rearticulação da direita tucana não
pesa nessa análise. Para um partido que obteve menos de 0,2% dos
votos nas eleições de 2004 e elegeu só dois vereadores e teve 7% dos
delegados no último Concut, as condições já estariam “caindo de
maduro” para a ruptura revolucionária. Daí a sua postura de demarcar
campos e de construir artificialmente a Conlutas.
Nesse mesmo diapasão voluntarista, o
PSTU debita na “traição das direções” toda a responsabilidade pela
atual fase de defensiva do sindicalismo. Não leva em conta os
efeitos da crise capitalista, com a explosão do desemprego, da
informalidade e da precarização do trabalho; nem o amargo remédio
neoliberal; nem o destrutivo processo de reestruturação produtiva.
Na sua leitura simplista, toda a fraqueza do sindicalismo decorre
apenas de fatores subjetivos, é culpa dos reformistas e centristas.
O PSTU só não explica porque nas poucas entidades em que dirige não
há uma ofensiva dos trabalhadores, porque elas não servem de
exemplos de representatividade e porque muitas delas padecem dos
mesmos males da burocratização.
Por último, no que se refere às
premissas errôneas, esse agrupamento trata de forma homogênea a CUT
e mesmo a Artsind. Não há nuances na análise. É preto ou branco! Ele
não valoriza a disputa interna sobre os rumos da central, a cultura
cutista forjada em duas décadas e meio de lutas, os milhares de
sindicatos filiados, a presença de outras forças de esquerda e de
lideranças independentes, e nem as contradições latentes na própria
tendência majoritária. Todos são pelegos, traidores da classe. Para
um dos principais líderes do PSTU, “no governo Lula, a CUT deu um
salto em sua integração ao Estado, com acesso direto às verbas
estatais. Hoje cumpre o papel que os pelegos cumpriam no passado”.
Haja reducionismo!
Efeitos do sectarismo
Se as premissas são falsas, piores são
os seus efeitos. Entre outros prejuízos, essa postura reforça
atitudes sectárias que dificultam ações unitárias dos trabalhadores.
No momento em que se requer maior unidade para se contrapor às
pressões do capital e às dubiedades do governo, o PSTU prioriza a
disputa fratricida. Na sua pressa para derrubar o governo Lula e
para implodir a CUT, ele esquece que “o processo mediante o qual o
proletariado compreende a sua missão histórica é longo e penoso e
está repleto de contradições internas. Somente através de
prolongadas lutas, de duras provas, de muitas vacilações e de uma
ampla experiência, os melhores elementos da classe operária atingem
essa compreensão”.
Essa conduta política, que já se tornou
marca registrada do PSTU, revela “uma espécie de impaciência
artificial, uma falta de confiança no crescimento gradual da
influência do partido, um desejo de ganhar as massas mediante
manobras organizativas”.
Num cenário que ainda é de defensiva estratégica da luta do
proletariado, e não de ofensiva revolucionária, esse grupo
menospreza a real correlação de forças na sociedade e parece partir
para o desespero do tudo ou nada. Ele não percebe que a CUT surgiu
numa fase de ascenso da luta operária e, por isso, ganhou força e
prestígio nas massas; e que num contexto adverso, como o atual, essa
“ousadia” voluntarista só confunde a vanguarda e divide as bases.
Essa postura também estimula a divisão
dos trabalhadores. Ela é deflagrada no topo do sindicalismo, no
rompimento com a CUT, mas logo contamina certas bases sindicais. Os
sindicatos, como organismos de “frente única”, não ficam imunes aos
embates na cúpula. Não é para menos que a Conlutas já estimula
chapas que tenham como critério básico a “oposição à CUT”; e, como
resposta natural, que as forças cutistas, inclusive as de esquerda,
já proponham excluir o PSTU das chapas unitárias desse campo. Com o
tempo, os adjetivos e ações raivosas contra a central podem se
transformar em apelos pela criação de entidades “puras” na base – o
que reforçaria o perigoso caminho da partidarização do sindicalismo.
Na prática, essa conduta se contrapõe à
tradição do movimento comunista. Na rica e conturbada história do
sindicalismo, os revolucionários sempre zelaram pela unidade dos
trabalhadores e rejeitaram a divisão dos sindicatos. Partiram da
visão de que
“quanto mais amplas massas abarca
determinada organização, maiores são as possibilidades que se
oferecem à vanguarda revolucionária. É por isso que, geralmente,
não é a ala comunista mas sim a ala reformista que toma a
iniciativa de dividir as organizações de massa... Somente os
sectários podem preferir uma maioria segura numa confederação
sindical pequena e isolada em vez do trabalho de oposição numa
organização ampla e realmente massiva”.
Na atual fase de crise estrutural do
capitalismo e de violenta ofensiva neoliberal, o sindicalismo padece
de inúmeras limitações. Muitas decorrem de fatores objetivos, que
afetam a própria materialidade da classe; outras derivam de
problemas subjetivos. Diante dessas dificuldades,
“surge imediatamente uma idéia: não é
possível superar os sindicatos? Não é possível substituí-los por
alguma organização nova, incorrupta, algo assim como sindicatos
revolucionários? O erro fundamental desse tipo de intenção está em
que reduz o problema político de como libertar as massas da
influência da burocracia a experiências organizativas. Não basta
oferecer às massas outro lugar onde se dirigir. Deve-se ir
buscá-las onde elas estão e dirigi-las”.
“Os esquerdistas impacientes dizem às
vezes que é absolutamente impossível ganhar os sindicatos porque a
burocracia usa o regime interno das organizações para preservar
seus próprios interesses, recorrendo às maquinações mais
grosseiras... Esse argumento se reduz, na realidade, ao seguinte:
abandonemos a luta concreta para ganhar as massas, usando como
pretexto o caráter corrupto da burocracia sindical. Ele pode ser
desenvolvido: por que não abandonar também o trabalho
revolucionário em vista da repressão e da provocação da burocracia
estatal? (...) Precisamente na época atual em que a burocracia
reformista do proletariado se transformou em guardiã do capital, a
ação revolucionária nos sindicatos, realizada inteligente e
sistematicamente, pode chegar a resultados decisivos num prazo
relativamente curto”.
Auto-exílio do PSTU
A postura do PSTU ainda gera outros dois
efeitos negativos: ela desequilibra a correlação de forças no
interior da CUT e leva ao próprio isolamento dessa organização
política. Como expressão das virtudes e debilidades da luta dos
trabalhadores nos últimos 25 anos, essa central nunca foi homogênea
– diferente das centrais sociais-democratas da Europa ou da AFL-CIO
nos EUA. Em seu interior convivem diversas correntes de pensamento.
Mesmo a tendência majoritária, a Artsind, vive tensões permanentes e
públicas entre um setor mais burocratizado e cupulista e outro mais
dinâmico e combativo. Os oito congressos da CUT sempre refletiram
essa disputa intensa, com votações apertadas e maiorias frágeis.
Ao abandonar intempestivamente a CUT, o
PSTU só desequilibra esse jogo, favorecendo exatamente os setores
hegemonistas da Artsind. Isso ficou patente na votação, em 16 de
março, do projeto de reforma sindical do governo na executiva da
central, que foi aprovado por 13 votos contra 12. Na prática, a ação
precipitada e voluntarista desse partido acaba servindo aos
propósitos dos que querem desvirtuar de vez o papel da maior central
sindical brasileira, transformando-a num organismo domesticado e
burocrático. Já ao optar pela criação de uma “central pura”,
distante do nível de experiência concreta dos trabalhadores, o PSTU
decreta o seu próprio exílio social e reforça ainda mais as suas
“patologias sectárias”.
“Isolando-se cada vez mais da classe
operária, os comunistas enfrentaram os sindicatos, que abarcavam
milhões de operários, com suas próprias organizações muito
respeitosas, mas separadas por um abismo da classe operária. À
burocracia sindical não se podia fazer um favor maior”.
“A tentativa sectária de criar ou manter pequenos sindicatos
‘revolucionários’, como segunda edição do partido, significa, de
fato, renunciar à luta pela direção da classe operária. É
necessário esclarecer este princípio irredutível: o
auto-isolamento capitulador dos sindicatos de massas equivale a
uma traição à revolução”.
Ensinamentos de Trotsky
Todas as citações acima são de autoria
do revolucionário russo Leon Trotsky, principal referência teórica e
prática do PSTU e da sua seção mundial, a Liga Internacional dos
Trabalhadores (LIT). Na sua sinuosa trajetória, ele nunca tratou a
complexa questão da unidade como um “princípio puro por cima da
realidade pecadora” e sempre enfatizou que “não fazemos um fetiche
da unidade sindical. Não preterimos nada que signifique luta para
quando se consiga a unidade”. Mesmo na defesa da unidade, ele exigiu
“as garantias organizativas da democracia sindical, em primeiro
lugar, e da liberdade de critica para a minoria sindical, sempre com
a condição de que se submeta à disciplina sindical”.
Várias dessas opiniões foram formuladas
nos anos 30, num período em que certas organizações trotskistas
descambaram para posições ultra-esquerdistas, aliando-se inclusive a
setores de direita do sindicalismo, e sucumbiram no total
isolamento. Como já se precaveu o antenado intelectual e militante
Valério Arcary, elas revelariam o esforço de Trotsky para corrigir
os desvios dos seus seguidores, jovens e inexperientes.
“Interpretá-las fora desse contexto não é razoável”, apela o autor.
Mas será que estes textos seriam apenas conjunturais, datados e
descartáveis? Ou revelariam uma preocupação estratégica de Trotsky
com os destinos do movimento operário e com o futuro das próprias
organizações que se intitulam trotskistas?
Vladimir Lênin, principal dirigente da
revolução russa, polemizou com Trotsky em temas nevrálgicos da
estratégia e da tática dos comunistas. Ambos estiveram em campos
opostos na maior parte da experiência russa e não tergiversaram na
luta de idéias. “Os velhos militantes marxistas russos conhecem
Trotsky e é inútil falar-lhes dele. Mas a jovem geração operária não
o conhece e é necessário falar-lhe dele. É preciso que ela saiba com
quem tem que se haver quando certas pessoas erguem pretensões
inacreditáveis”.
Mesmo na questão sindical, os dois tiveram abissais divergências –
antes e depois do poder soviético.
Na fase final de sua militância, Trotsky
ainda radicalizou essas diferenças. É do seu famoso “Programa de
Transição”, que serve de dogma para algumas organizações
trotskistas, a caracterização simplista de que as condições já
estariam “caindo de maduras” para a revolução, que só não vingaria
devido à “traição das direções”. Num de seus últimos textos, ele
quase nega o papel do sindicalismo e arroga: “Sem a direção política
da IV Internacional, a independência dos sindicatos é impossível”.
Mas, apesar dessa posição errática, muitas das idéias de Trotsky
sobre sindicalismo precisariam ser mais estudadas, principalmente
pelos que se dizem seus fiéis seguidores. Trotsky parecia bem mais
ponderado do que muitos trotskistas! |
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