Por FLORENCE CARBONI & MÁRIO MAESTRI

 

Florence Carboni (52, italiana, lingüista)

 

Mário Maestri (56, gaúcho, historiador)

Autores de A linguagem escravizada. São Paulo: Expressão Cultural, 2003.

 

Linguagem, Escritura e Luta de Classes

Notas para uma discussão*

 

 

O primata manteve-se e mantém-se como parte do mundo natural. O hominídeo construiu-se separando-se de uma natureza que dominou crescentemente ao tomar consciência de sua participação-oposição a ela. A linguagem verbal constituiu e constitui um momento necessário desse processo de tomada de consciência dos fenômenos materiais e imateriais. Nos fatos, a consciência constrói-se através da linguagem.

Em A ideologia alemã, Marx e Engels lembravam: “A linguagem é tão antiga quanto a consciência – a linguagem é a consciência real, prática, que existe também para os outros homens, que existe, portanto, também, primeiro, para mim mesmo e, exatamente como  consciência, a linguagem só aparece com a carência, com a necessidade dos intercâmbios entre os homens.”[1]

Nos primórdios da evolução humana, é provável que se tenha estabelecido profunda fusão entre o objeto representado e sua representação verbal, que tendia a confundir o ato de nominação com o de criação, processo no qual se apoiou o próprio sentido mágico do ato de fala. Na Idade Média, blasfêmia e maldição eram punidas porque se acreditava no poder de evocação da palavra. Ainda hoje, nos negamos a verbalizar acontecimento negativo de grande tensão afetiva – acidente, morte de ente querido, etc. Essa confusão entre a palavra e seu referente ou entre a verbalização e o acontecimento tem base objetiva já que a nominação evoca-materializa na consciência o objeto ou o fenômeno verbalizado. [2]

Mundo e representação

A consciência do mundo é uma aproximação-apropriação do mundo; não é o próprio mundo. Expressão da consciência, a linguagem é representação conceptual, relativamente compartilhada pelos membros de uma comunidade falante. A linguagem verbal é nominação mais ou menos fiel do mundo, sem que jamais haja identificação essencial entre uma e outro. O conceito é sempre menos rico do que o objeto conceitualizado.

Fundamentalmente social, o processo de humanização realizou-se e realiza-se no contexto de comunidades atravessadas por oposições de sexo, geração, classe, etc. Essas situações-oposições diversas e contraditórias determinam consciências diversas e contraditórias sobre o mundo e, portanto, manifestações verbais díspares sobre ele. Não se pensa o mundo e não se fala dele do mesmo modo em um palácio e em uma choupana.

"A cada época histórica – lembra o lingüista soviético Mikhail Bakhtine – da vida ideológica e verbal, cada geração, em cada uma de suas camadas sociais, possui sua linguagem; além disso, substancialmente, cada grupo etário tem seu 'falar', seu vocabulário, seu sistema prosódico que, por sua vez, variam segundo a classe social, o estabelecimento escolar e outros fatores de estratificação." [3] Em forma mais ou menos direta, os valores e as visões de mundo dos grupos locutores, determinados social e historicamente, determinam a sua língua.

A língua dominante

A luta entre segmentos sociais expressa-se também na luta consciente e inconsciente entre as diversas, diferentes e contraditórias materializações lingüísticas de suas diferentes visões de mundo. A dominação de classe dá-se e consolida-se através da dominação de linguagem. Em uma sociedade dada, a linguagem dominante tende a ser a linguagem da classe dominante. A hegemonia de uma classe impõe-se igualmente através da hegemonia de sua linguagem.

A revolução tecnológica da escrita deu-se também no contexto das oposições de classe. A representação gráfica facilitou e facilita o aprofundamento da subalternização dos segmentos sociais explorados ágrafos através da universalização das línguas e das visões de mundo das classes exploradoras, senhoras da arte de escrever e difundir e universalizar o que escreve.

O domínio de classe dá-se através de diversos níveis lingüísticos. Em uma mesma comunidade falante, a definição, legitimação e gramaticalização de uma variedade lingüística como padrão, considerado superior e único correto, em oposição a variedades não padrão, vistas como inferiores e incorretas, constitui extensão-consolidação da depressão social e política das classes subalternizadas, através da repressão de sua linguagem. Reprimindo-se as formas de expressão lingüística das classes subalternizadas, reprime-se suas formações discursivas e, portanto, suas visões de mundo.

A língua do poder

A partir do século 19, a escrita tornou-se importante veículo da imposição lingüística, ao ampliar seu campo de ação através do jornalismo e da literatura de massa, permitidos pela alfabetização crescente das populações subalternizadas, imposta pela própria necessidade de um maior nível cultural das classes trabalhadoras, determinada pela Revolução Industrial. Nas últimas décadas, a mídia áudio-visual tem contribuído em forma crescente a esse fenômeno.

Apesar de seu profundo sentido libertador, a legitimação pela literatura operária e revolucionária – jornais, revistas, boletins, literatura ficcional, etc. – de algumas variações populares da língua nacional – fonética, morfológica, sintática – constitui prática complexa jamais discutida e jamais tentada sistematicamente no Brasil.

No Brasil, continua-se discriminando em forma sistemática, até mesmo na própria escola, variantes fonéticas não-padrão próprias das classes subalternizadas. Por exemplo, entre outros:

·                   redução dos ditongos [ou] e [ei]: otro por outro; pexe por peixe;

·                   vocalização das línguo-palatais [lh]: trabaiá por trabalhar; muié por mulher;

·                   troca do [v] pelo [b]: bassora por vassoura;

·                   troca do [l] pelo [r]: bicicreta por bicicleta; pobrema por problema;

·                   assimilação de unidades lingüísticas pela presença de outras unidades: ansim por assim; minina por menina;

·                   perda do [r] final, sobretudo nos infinitivos: andá, dotô, etc.;

·                   facilitação da transição articulação aberta-fechada: nóis por nós; mais por mas.

Enrolando a língua

No mesmo sentido, os aparatos culturais institucionalizados – escola, universidade, gramáticas, mídia, etc. – discriminam igualmente sotaques de grupos étnicos ou de regiões socialmente não prestigiosos. Por exemplo, os sotaques caipira e ítalo-gaúcho caro por carro; revoluçón por revolução – são mal vistos e reprimidos, enquanto o chiado carioca é valorizado por ser originário de uma metrópole e ex-capital.

Praticadas comumente pela maioria da população nacional, muitas das variantes recém assinaladas obedecem a tendências fonéticas universais, constituindo fenômenos lingüísticos progressistas em relação às formas tradicionais e conservadoras definidas como padrão e apresentadas como as únicas corretas.

São também discriminadas variantes morfológicas apresentadas como menos pertinentes na descrição dos fenômenos. Por exemplo, execram-se conjugações populares: andemo por andamos ou a simplificação da flexão dos verbos: eu fui, tu foi, ele foi, nóis foi, eles foi. Essas flexões verbais populares não determinam redução da pertinência comunicativa. Em geral, constituem economia e simplificação verbal progressista, conhecida e legitimada em outras línguas, como, por exemplo, no inglês.

 

Nada de economia!

Abomina-se igualmente, apesar de seu uso generalizado em todas as camadas sociais, a economia da flexão de número: as casa, por as casas; dois real, por dois reais; os home, por os homens. Essa queda da flexão de número surge de economia de esforço provocada pela redundância das duas marcas de plural, a primeira no artigo, a segunda no nome. No francês, essa simplificação é norma na língua falada há várias centenas de anos, apesar da marca de plural se manter na escrita.

Formas sintáticas populares incorporadas plenamente na língua falada, mesmo pelas pessoas consideradas cultas, continuam sendo execradas na escrita: me dá, por dá-me; lhe darei, por dar-lhe-ei; levantei cedo, por levantei-me cedo; vou pro Japão, por vou para o Japão, vou no banheiro, por vou ao banheiro, para mim fazer, no lugar de para eu fazer, etc. Essas formas de discriminação dão-se através da execração arbitrária de variantes formais, às quais não correspondem necessariamente variações de sentido. Portanto, devem-se apenas a um autoritarismo lingüístico. Essas variantes lingüísticas são e podem ser vetores de expressão estética, popular ou erudita.

Em O português do Brasil: origens, evolução, tendências, o gramático Renato Mendonça elogia, em forma ambígua, a canção popular "De papo pro ar", que apresenta como "hino tropical da preguiça", produzido por um "caboclo ou jeca-tatu" qualquer, devido à lei "do menor esforço a que o clima predispõe e a displicência ajuda".[4]

Quando no terreiro

Faz noite de luá

E vem a saudade

Me atormentá,

Eu me vingo dela

Tocando viola

De papo pro á.

A opressão da palavra

Quase sete décadas após a publicação de O português do Brasil, a prova do tempo manteve a tensão expressiva da modinha popular, num registro indiscutível de sua força. No entanto, essa força não impede o prosseguimento da discriminação lingüística que deprime as classes populares através da depressão da sua criatividade-expressão lingüística.

A legitimação das variantes lingüísticas populares pela mídia operária e socialista é um dos possíveis caminhos para impor sua dicionarização e gramaticalização, ao lado das formas comunicacionais das elites, acabando com o monopólio de fato e de direito dessas últimas.

O reconhecimento de uma diversidade-multiplicidade lingüística, dentro de um mesmo código lingüístico, enriquece e não dificulta a prática de uma língua. Em verdade, inúmeros idiomas, como o italiano, garantem cidadania lingüística às diversas formas da língua oficial e às variações de origem dialetal.

A palavra nunca é neutra

A luta de classes na linguagem dá-se sobretudo em nível de conteúdo das palavras e dos discursos. Isto porquê, como vimos, as categorias da língua surgem mais ou menos determinadas pelas contradições que regem o mundo social, ainda que essas determinações se dêem em formas sutis. A proposta de uma linguagem neutra, própria a toda a comunidade, viabiliza a imposição permanente de conteúdos das classes exploradoras aos segmentos subalternizadas, por sobre seus interesses.

A palavra nunca é neutra. Sobretudo na descrição do mundo social, ela constituí uma representação da realidade determinada por uma percepção do mundo que adere, mais ou menos, a ela, fundamentando assim sua função referencial. A referência pelo gênero masculino aos seres dos sexos masculino e feminino foi produto de sociedade patriarcal do passado que reforça no presente a discriminação-opressão da mulher.[5]

Sobretudo as palavras-chaves, pertencentes a campos semânticos referentes às relações sociais, plasmaram-se em contextos de classe, permanecendo prenhes dos conteúdos de dominação. No processo de socialização, elas assumiram caráter aparentemente neutro apesar de manterem mais ou menos seus sentidos genéticos partidários.

Língua e história

Mikhail Bakhtine assinala: "Cada palavra remete a um ou a diversos contextos, nos quais ela viveu sua existência socialmente subentendida. Todas as palavras, todas as formas, estão povoadas de intenções." E lembra, em forma ainda mais precisa: "[...] a palavra do outro deixa de ser uma informação, uma indicação, uma regra, um modelo, etc., ela procura definir as bases mesmas de nosso comportamento e de nossa atitude em relação ao mundo [...]." [6]

É quase inevitável que novos conteúdos surjam, originalmente, em grande parte dependentes das formas próprias às essências que superam. Porém, um novo conteúdo assume plenamente sua riqueza apenas quando constrói-encontra a forma que lhe corresponde. Na luta pela libertação social, não importa apenas o que se diz, e, portanto, o que se escreve, como também o como se diz e o como se escreve.

A preocupação permanente com a construção de uma criativa relação forma-conteúdo constitui, na comunicação social, condição para um constante questionamento profundo dos sentidos veiculados, dissolvendo assim tendencialmente os pré-conteúdos e pré-conceitos determinados pela incapacidade de penetrar a aparência, destruir a tradição, combater a inércia.

Linguagem justificadora

O enunciado "as principais classes no passado foram o senhor e o escravo" descreve fenômeno histórico correto. Porém, a palavra senhor possui sentido de homem velho, naturalmente detentor de autoridade, e a categoria escravo, de origem aristotélica, enseja a idéia de natureza humana servil. Esse enunciado possui uma conotação justificadora, determinada pelo uso de categorias plasmadas pela sociedade escravista para descrever realidades propostas como naturais.

O caráter apaziguador dessa enunciação deixa de existir quando ela é apresentada através de categorias diversas, que circunscrevem o conteúdo que se pretende enunciar com as formas lingüísticas que lhes correspondem. O enunciado "as classes principais no passado brasileiro foram o escravizador e o trabalhador escravizado" enfatiza o ato social da escravização, realizado pelo escravizador, e a verdadeira essência do escravo, ou seja, o fato que ele foi um trabalhador escravizado, isto é um ser reduzido à escravidão pelo escravizador, que se apropriou do produto de sua força de trabalho.

O enunciado "as classes dominantes exploram as classes subalternas", ainda que se proponha a descrever opressão de classe, propõe sub-repticiamente natureza degradada a classes que, em verdade, não são subalternas, inferiores, mas "subalternizadas", ou seja, inferiorizadas. Nesse e em outros casos, o uso do particípio passado explicita a ação social de uma classe sobre outra, escamoteado pelo adjetivo – "subalterno".

África sem negros

"Os colonizadores massacraram os índios do litoral" não reflete a tensão histórica já que a categoria índio, criada pelo colonizador, sugere um ser da floresta, indefinido, arcaico e pré-moderno. A oração aproxima-se do conteúdo proposto com nova formulação: "Os colonizadores massacraram as comunidades americanas do litoral". Ou, "os colonizadores massacraram as comunidades tupinambás do litoral". No mesmo sentido, não há identidade semântica perfeita entre a mulher "prostituta" e a mulher "prostituída"; o homem "escravo" e o homem "escravizado"; o "escravista" e o "escravizador"; etc.

Por falta de reflexão, utiliza-se normalmente formas verbais prenhes de conteúdos de classe. Eugene Genovese, em Economia política da escravidão, trabalho de inspiração materialista de sentido germinal, publicado em inícios dos anos 1960, escrevia: "É provável que a maior parte dos negros importados na América do Norte fosse originária da África Ocidental." [7]

Na África da época, não havia negros – categoria talhada pelos negreiros, prenhe de conteúdo racista –, mas africanas e africanos transferidos – e não importados, já que não eram mercadorias, ainda que fossem tratados como tal – em forma forçada, porque eram trabalhadores produtores de bens sociais. A seguinte oração circunscreve em forma mais precisa o conteúdo proposto por Genovese, mas fundido em linguagem tributária do negreiro criticado pertinentemente: "É provável que a maior parte dos trabalhadores africanos introduzidos forçadamente na América do Norte fosse originária da África Ocidental".

A linguagem canalha

Ontem como hoje, manipula-se também conscientemente a linguagem para universalizar conteúdos de dominação-alienação e criar consenso para as idéias-programas das classes exploradoras. No Império, a autoridade discricionária de Pedro I foi definida, quando imperava sua ditadura pessoal, como poder "moderador". Hoje, a destruição de direitos trabalhistas adquiridos é apresentada como "reforma da legislação" e "flexibilização das leis" trabalhistas. A resistência armada popular e nacional armada é definida como “terrorismo”.

Nos jornais televisivos de todo o mundo, abranda-se o impacto dos crimes do sionismo propondo que palestinos "morrem" – e não são mortos – durante confrontos com as tropas israelenses. No mesmo sentido, o uso da forma passiva escamoteia o agente, transferindo parcialmente a responsabilidade do ocorrido para o paciente: "Sindicalista foi morto ontem"; "Jovem foi violentada durante a noite de sábado".

Chamar o resistente iraquiano de "terrorista", "guerrilheiro" ou "patriota" já determina sua avaliação. A definição dos exércitos anglo-americanos como forças de “ocupação" ou "estrangeiras" – e não como "imperialista" ou  "invasoras" – provoca neutralização e justificação, nem que seja parcial, da própria ocupação.

Bom exemplo

Exemplo excelente é de jornalista que, apesar um posicionamento e de um discurso aparentemente oposto à invasão do Iraque pelo eixo USA-Reino Unido, termina defendendo parcialmente a ação imperialista em Il Manifesto, diário italiano de esquerda que porta ainda o dístico "quotidiano comunista". A jornalista refere-se ao colaborador do imperialismo como iraquiano e às tropas invasoras como estrangeiras.

Num país que conheceu a invasão e a colaboração com o nazismo, o citado jornalista propõe, ao falar do ataque aos colaboradores iraquianos armados que servem ao imperialismo anglo-estadunidenses: "Nas últimas semanas, o número de vítimas iraquianas supera pesadamente as das tropas estrangeiras. [...] E os ataques contra os ocupantes diminuem enquanto os contra os iraquianos aumentam." [Iraque sem saída. 12.2.2004]

O sentido de uma categoria pode ser invertido ou manipulado através do uso de aspas. No mesmo artigo, a jornalista serve-se desse recurso para neutralizar-desqualificar o sacrifício da vida de combatente anti-imperialista: "Todas as outras 'ações de martírio' golpearam a Onu, a Cruz Vermelha [...]."

Exército colonial

A imprensa de classe usa igualmente eufemismos para contornar categorias suscetíveis de desvelar o caráter essencial de uma ação. A mesma jornalista escreve, no mesmo diário e data: "[...] um kamikaze [...] se fez saltar no ar quando chegou diante de um centro de recrutamento do novo exército [...]." ["Autobomba em Bagdá". Destacamos]

A categoria "novo exército" é o eufemismo criado pelos órgãos de comunicação social dos exércitos imperialistas no Iraque para designar as tropas de colaboração em formação no Iraque, sob seu controle. A palavra kamikaze circunscreve o sacrifício do combatente como um ato de fanatismo, já que esse foi o sentido produzido pela imprensa estadunidense e aliada para descrever a ação dos pilotos-bombas japoneses, na segunda guerra mundial.

Na página internacional de 13 de janeiro de 2005 da Folha de São Paulo, o importante parágrafo inicial – lide – de artigo sobre o Oriente Médio, "Violência azeda clima amistoso entre Israel e palestinos", realiza com simetria quase artística o estupro da informação, através da manipulação da linguagem. [8]

Soldados e terroristas

Vejamos essa pequena obra-prima da informação a serviço da formatação subliminar a que o leitor é habitualmente submetido: "Um terrorista palestino assassinou um colono judeu num assentamento da faixa de Gaza, enquanto soldados israelenses mataram, na Cisjordânia, dois integrantes do grupo terrorista Hamas." [Os destaques são nossos.]

Segundo o artigo, os palestinos, como agentes e pacientes da luta armada na região – ou seja, quando matam e quando morrem –, são invariavelmente assassinos, terroristas. Porém, os israelenses, como agentes, são simples "soldados" que "matam" "terroristas" e, como pacientes, são "colonos" e "judeus" de um "assentamento", "assassinados" por "terroristas".

É desnecessário lembrar o diferente peso semântico dos verbos "assassinar" e "matar". Matar pode até mesmo descrever ato natural de tirar a vida. A árvore que cai sobre a rua derrubado pelo vento pode matar o transeunte. Assassinar é a morte produzida por ser humano com aleivosia. Porém, não deixa de ser uma quase ironia da língua o uso desse termo pela Folha de São Paulo para anatematizar os palestinos.

Assassinos e colonos

A palavra "assassino" chegou-nos do persa sob forma de "hassasim", designação de "seita" ou "tribo" "do norte do Irã" que, quando das Cruzadas inebriavam-se de "cânhamo", nossa maconha, antes "de atacar e matar líderes sunitas e cristãos", segundo a definição também não muito santa do Aurelião. Já na época, esses guerreiros foram definidos como fanáticos e criminosos tomadores de haxixe/hashish [hashishiyyin, plural de hashishiyya].

É igualmente grande a impropriedade do uso da palavra "colono". Sobretudo em português do Brasil, colono enseja a associação imediata com a imagem de colonizador de território inexplorado. Não apenas no sul do Brasil, colono foi sobretudo o esforçado camponês sem terra alemão, italiano, polonês, etc. chegado ao Brasil para explorar, com a família, um troço de terra florestal, em geral desabitada.

Por outro lado, o uso da palavra assentamento aproxima as povoações militarizadas israelenses em terras ocupadas às pacíficas comunidades de trabalhadores rurais sem terras, assentados pelas autoridades públicas para explorar latifúndios reconhecidos pela lei como improdutivos. Ordeiras comunidades criadoras de riqueza que gozam justamente com a simpatia quase geral da população brasileira.

Judeus e colonos

Folga igualmente destacar a impropriedade da descrição, como "judeu", do "colono" "assassinado" pelos "terroristas", o que lhe garante parte da inesgotável simpatia que merecem os milhões de judeus, esses sim assassinados por terroristas nazistas, em geral no próprio território em que haviam nascido.

A incorreção do uso do termo judeu acresce ainda mais na medida em que, comumente, "judeu" é tido em forma mais habitual como aquele que professa a fé judaica. Portanto, o uso do termo israelense manteria um mínimo de neutralidade, sobretudo porque o articulista não se refere jamais aos palestinos mortos como "muçulmanos".

Desnecessário dizer que, em momento algum, perde-se tempo no artigo para explicar ou ao menos sugerir as decorrências dos dois "incidentes" terem-se dado na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Ou seja, em territórios reconhecidos pela "comunidade internacional" como indiscutivelmente pertencentes aos palestinos, ainda que atualmente sob ocupação militar israelense.

A parte e o todo

A localização do incidente torna os militares e os membros dos grupos para-militares de ocupação israelenses invasores de território palestino e portanto alvos legítimos da luta de libertação nacional palestina, segundo o direito dos povos, reconhecido pelas leis internacionais. Uma luta que se iguala à dos franceses, belgas, italianos, iugoslavos, etc., contra a ocupação nazista, ou à dos tupiniquins, tupinambás contra os colonos e os militares portugueses.

Com a substituição da parte pelo todo e a atribuição a seres inanimados de características próprias a seres animados escamoteiam-se igualmente responsabilidades sócio-políticas. O enunciado "o Brasil decidiu pagar a dívida" esconde o fato de que aquela ação deve-se à decisão do "governo brasileiro" e não à "nação", que não é e não pode ser protagonista político ou histórico.

A utilização de forma verbal impessoal serve igualmente para o mesmo sentido. Com a oração "manteve-se o salário mínimo em 241 reais" neutraliza-se a responsabilidade dos principais agentes reais dessa decisão, no presente caso, o ministro da Economia e o presidente da República.

Malditas e abençoadas

Na construção de uma linguagem classista, sobretudo na sua forma escrita, palavras-chaves são literalmente abençoadas enquanto outras, ao contrário, são literalmente execradas, constituindo seu uso sinal de desatualização, falta de gosto, espírito radical e sectário. No presente período histórico, na imprensa brasileira e mundial, algumas palavras abençoadas são “empresário”, “marca”, “empreendedor”, “iniciativa privada”, “organização não-governamental”, “mercado”, “consumidor”, “cidadania”, “governabilidade”, “flexibilidade”, “reforma”, “estabilidade”, “propriedade”, “privado”, “privatização”, “eficiência”, “lucratividade”, “propriedade”, “globalização”, “paz”.

São objeto de verdadeira execração e ostracismo, palavras como “classes sociais”, “exploração”, “comunismo”, “socialismo”, “luta de classes”, “proletariado”, “patrão”, “planejamento”, “expropriação”, “estatização”, “nacionalização”, “resistência”, “consciência”, “reforma agrária”, “burguês”, “opressão”, “revolução”, “internacionalismo”, “luta de classes”, “nacionalismo”, “imperialismo”.

A luta de classes não se dá apenas no interior das comunidades nacionais, mas entre as nações imperialistas e as nações subalternizadas. Nesse sentido, a língua do capital imperialista internacional esforça-se para se impor crescentemente sobre as línguas das nações dominadas, direta ou indiretamente, com objetivos econômicos, políticos e ideológicos.

Língua e poder

Uma das primeiras decisões das tropas imperialistas anglo-estadunidenses no Iraque foi determinar a edição, também em inglês, do jornal oficial do país recolonizado, retornando aos tempos do protetorado [sic] britânico sobre o Iraque, desmembrado do império otomano, após a Primeira Guerra Mundial.

Símbolo da dominação imperialista sobre o Brasil é a substituição crescente de palavras portuguesas de uso corrente por expressões inglesas, aportuguesadas ou não: entretenimento, por diversão; party por festa; banda por conjunto; shopping center por centro comercial; atachar por anexar; deletar por apagar; close por vestuário, paper por artigo, etc.

Na comunicação social e quotidiana, a consciência da língua como espaço de confronto e meio de produção e reprodução da dominação social constitui passo imprescindível na luta pela criação de espaços de autonomia que permitam desenvolver e consolidar os princípios, práticas, valores e estratégias do mundo do trabalho em prol de conquista de uma sociedade onde, finalmente o homem seja finalmente o amigo do homem.

 

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* A redação original deste artigo foi escrita em janeiro de 2004 a pedido de semanário do movimento popular para discussão sobre linguagem e comunicação.

[1] MARX & ENGELS. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 26.

[2] Cf. MAESTRI, Mário. Por que Paulo Coelho teve sucesso. Porto Alegre: AGE, 1999. p.32.

[3] BAKHTINE, M. Esthétique et théorie du roman. Paris: Gallimard, 1999, p.112.

[4] MENDONÇA, Renato. O português do Brasil: origens. Evolução. Tendências. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1936. p. 316.

[5] Cf. CARBONI & MAESTRI. A linguagem escravizada. São Paulo: Expressão Popular, 2003. p. 56.

[6] BAKHTINE. Esthétique [...]. Ob.cit. 161,

[7] GENOVESE, E. D. Économie politique de l´esclavage. Paris: Françolis Maspero, 1968. P. 75. [Traduzimos]

[8]  Cf. MAESTRI, Mário. “Prezado ombudsman da Folha de São Paulo”. LA INSIGNIA, 14 de janeiro de 2005

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