|
Por FLORENCE CARBONI &
MÁRIO MAESTRI
Florence Carboni
(52, italiana, lingüista)
Mário Maestri
(56, gaúcho, historiador)
Autores
de A linguagem escravizada. São Paulo: Expressão Cultural,
2003. |
|
Linguagem, Escritura e
Luta de Classes
Notas para uma
discussão
O
primata manteve-se e mantém-se como parte do mundo natural. O
hominídeo construiu-se separando-se de uma natureza que dominou
crescentemente ao tomar consciência de sua participação-oposição a
ela. A linguagem verbal constituiu e constitui um momento necessário
desse processo de tomada de consciência dos fenômenos materiais e
imateriais. Nos fatos, a consciência constrói-se através da
linguagem.
Em A ideologia alemã, Marx e
Engels lembravam: “A linguagem é tão antiga quanto a consciência – a
linguagem é a consciência real, prática, que existe também
para os outros homens, que existe, portanto, também, primeiro, para
mim mesmo e, exatamente como consciência, a linguagem só aparece
com a carência, com a necessidade dos intercâmbios entre os homens.”
Nos primórdios da evolução humana, é
provável que se tenha estabelecido profunda fusão entre o objeto
representado e sua representação verbal, que tendia a confundir o
ato de nominação com o de criação, processo no qual se apoiou o
próprio sentido mágico do ato de fala. Na Idade Média, blasfêmia e
maldição eram punidas porque se acreditava no poder de evocação da
palavra. Ainda hoje, nos negamos a verbalizar acontecimento negativo
de grande tensão afetiva – acidente, morte de ente querido, etc.
Essa confusão entre a palavra e seu referente ou entre a
verbalização e o acontecimento tem base objetiva já que a nominação
evoca-materializa na consciência o objeto ou o fenômeno verbalizado.
Mundo e representação
A consciência do mundo é uma
aproximação-apropriação do mundo; não é o próprio mundo. Expressão
da consciência, a linguagem é representação conceptual,
relativamente compartilhada pelos membros de uma comunidade
falante. A linguagem verbal é nominação mais ou menos fiel do mundo,
sem que jamais haja identificação essencial entre uma e outro. O
conceito é sempre menos rico do que o objeto conceitualizado.
Fundamentalmente social, o processo de
humanização realizou-se e realiza-se no contexto de comunidades
atravessadas por oposições de sexo, geração, classe, etc. Essas
situações-oposições diversas e contraditórias determinam
consciências diversas e contraditórias sobre o mundo e, portanto,
manifestações verbais díspares sobre ele. Não se pensa o mundo e não
se fala dele do mesmo modo em um palácio e em uma choupana.
"A cada época histórica – lembra o
lingüista soviético Mikhail Bakhtine – da vida ideológica e verbal,
cada geração, em cada uma de suas camadas sociais, possui sua
linguagem; além disso, substancialmente, cada grupo etário tem seu
'falar', seu vocabulário, seu sistema prosódico que, por sua vez,
variam segundo a classe social, o estabelecimento escolar e outros
fatores de estratificação."
Em forma mais ou menos direta, os valores e as visões de mundo dos
grupos locutores, determinados social e historicamente, determinam a
sua língua.
A língua dominante
A luta entre segmentos sociais
expressa-se também na luta consciente e inconsciente entre as
diversas, diferentes e contraditórias materializações lingüísticas
de suas diferentes visões de mundo. A dominação de classe dá-se e
consolida-se através da dominação de linguagem. Em uma sociedade
dada, a linguagem dominante tende a ser a linguagem da classe
dominante. A hegemonia de uma classe impõe-se igualmente através da
hegemonia de sua linguagem.
A revolução tecnológica da escrita
deu-se também no contexto das oposições de classe. A representação
gráfica facilitou e facilita o aprofundamento da subalternização dos
segmentos sociais explorados ágrafos através da universalização das
línguas e das visões de mundo das classes exploradoras, senhoras da
arte de escrever e difundir e universalizar o que escreve.
O domínio de classe dá-se através de
diversos níveis lingüísticos. Em uma mesma comunidade falante, a
definição, legitimação e gramaticalização de uma variedade
lingüística como padrão, considerado superior e único
correto, em oposição a variedades não padrão, vistas
como inferiores e incorretas, constitui
extensão-consolidação da depressão social e política das classes
subalternizadas, através da repressão de sua linguagem.
Reprimindo-se as formas de expressão lingüística das classes
subalternizadas, reprime-se suas formações discursivas e, portanto,
suas visões de mundo.
A língua do poder
A partir do século 19, a escrita
tornou-se importante veículo da imposição lingüística, ao ampliar
seu campo de ação através do jornalismo e da literatura de massa,
permitidos pela alfabetização crescente das populações
subalternizadas, imposta pela própria necessidade de um maior nível
cultural das classes trabalhadoras, determinada pela Revolução
Industrial. Nas últimas décadas, a mídia áudio-visual tem
contribuído em forma crescente a esse fenômeno.
Apesar de seu profundo sentido
libertador, a legitimação pela literatura operária e revolucionária
– jornais, revistas, boletins, literatura ficcional, etc. – de
algumas variações populares da língua nacional – fonética,
morfológica, sintática – constitui prática complexa jamais discutida
e jamais tentada sistematicamente no Brasil.
No Brasil, continua-se discriminando em
forma sistemática, até mesmo na própria escola, variantes fonéticas
não-padrão próprias das classes subalternizadas. Por exemplo,
entre outros:
·
redução dos ditongos [ou]
e [ei]: otro por outro; pexe por peixe;
·
vocalização das
línguo-palatais [lh]: trabaiá por trabalhar; muié por
mulher;
·
troca do [v] pelo [b]:
bassora por vassoura;
·
troca do [l] pelo [r]:
bicicreta por bicicleta; pobrema por problema;
·
assimilação de unidades
lingüísticas pela presença de outras unidades: ansim por
assim; minina por menina;
·
perda do [r] final,
sobretudo nos infinitivos: andá, dotô, etc.;
·
facilitação da transição
articulação aberta-fechada: nóis por nós; mais por
mas.
Enrolando a língua
No mesmo sentido, os aparatos culturais
institucionalizados – escola, universidade, gramáticas, mídia, etc.
– discriminam igualmente sotaques de grupos étnicos ou de
regiões socialmente não prestigiosos. Por exemplo, os sotaques
caipira e ítalo-gaúcho – caro por carro;
revoluçón por revolução – são mal vistos e reprimidos,
enquanto o chiado carioca é valorizado por ser originário de
uma metrópole e ex-capital.
Praticadas comumente pela maioria da
população nacional, muitas das variantes recém assinaladas obedecem
a tendências fonéticas universais, constituindo fenômenos
lingüísticos progressistas em relação às formas
tradicionais e conservadoras definidas como padrão e
apresentadas como as únicas corretas.
São também discriminadas variantes
morfológicas apresentadas como menos pertinentes na descrição dos
fenômenos. Por exemplo, execram-se conjugações populares: andemo
por andamos ou a simplificação da flexão dos verbos: eu fui, tu
foi, ele foi, nóis foi, eles foi. Essas
flexões verbais populares não determinam redução da pertinência
comunicativa. Em geral, constituem economia e simplificação verbal
progressista, conhecida e legitimada em outras línguas, como, por
exemplo, no inglês.
Nada de economia!
Abomina-se igualmente, apesar de seu uso
generalizado em todas as camadas sociais, a economia da flexão de
número: as casa, por as casas; dois real, por dois
reais; os home, por os homens. Essa queda da flexão de número
surge de economia de esforço provocada pela redundância das duas
marcas de plural, a primeira no artigo, a segunda no nome. No
francês, essa simplificação é norma na língua falada há várias
centenas de anos, apesar da marca de plural se manter na escrita.
Formas sintáticas populares incorporadas
plenamente na língua falada, mesmo pelas pessoas consideradas
cultas, continuam sendo execradas na escrita: me dá, por
dá-me; lhe darei, por dar-lhe-ei; levantei cedo, por
levantei-me cedo; vou pro Japão, por vou para o Japão, vou
no banheiro, por vou ao banheiro, para mim fazer, no
lugar de para eu fazer, etc. Essas formas de discriminação dão-se
através da execração arbitrária de variantes formais, às quais não
correspondem necessariamente variações de sentido. Portanto,
devem-se apenas a um autoritarismo lingüístico. Essas variantes
lingüísticas são e podem ser vetores de expressão estética, popular
ou erudita.
Em O português do Brasil:
origens, evolução, tendências, o gramático Renato Mendonça elogia,
em forma ambígua, a canção popular "De papo pro ar", que apresenta
como "hino tropical da preguiça", produzido por um "caboclo ou
jeca-tatu" qualquer, devido à lei "do menor esforço a que o clima
predispõe e a displicência ajuda".
Quando no terreiro
Faz noite de luá
E vem a saudade
Me atormentá,
Eu me vingo dela
Tocando viola
De papo pro á.
A opressão da palavra
Quase sete décadas após a publicação de
O português do Brasil, a prova do tempo manteve a tensão
expressiva da modinha popular, num registro indiscutível de sua
força. No entanto, essa força não impede o prosseguimento da
discriminação lingüística que deprime as classes populares através
da depressão da sua criatividade-expressão lingüística.
A legitimação das variantes lingüísticas
populares pela mídia operária e socialista é um dos possíveis
caminhos para impor sua dicionarização e gramaticalização, ao lado
das formas comunicacionais das elites, acabando com o monopólio de
fato e de direito dessas últimas.
O reconhecimento de uma
diversidade-multiplicidade lingüística, dentro de um mesmo código
lingüístico, enriquece e não dificulta a prática de uma língua. Em
verdade, inúmeros idiomas, como o italiano, garantem cidadania
lingüística às diversas formas da língua oficial e às
variações de origem dialetal.
A palavra nunca é neutra
A luta de classes na linguagem dá-se
sobretudo em nível de conteúdo das palavras e dos discursos. Isto
porquê, como vimos, as categorias da língua surgem mais ou menos
determinadas pelas contradições que regem o mundo social, ainda que
essas determinações se dêem em formas sutis. A proposta de uma
linguagem neutra, própria a toda a comunidade,
viabiliza a imposição permanente de conteúdos das classes
exploradoras aos segmentos subalternizadas, por sobre seus
interesses.
A palavra nunca é neutra. Sobretudo na
descrição do mundo social, ela constituí uma representação da
realidade determinada por uma percepção do mundo que adere, mais ou
menos, a ela, fundamentando assim sua função referencial. A
referência pelo gênero masculino aos seres dos sexos masculino e
feminino foi produto de sociedade patriarcal do passado que reforça
no presente a discriminação-opressão da mulher.
Sobretudo as palavras-chaves,
pertencentes a campos semânticos referentes às relações sociais,
plasmaram-se em contextos de classe, permanecendo prenhes dos
conteúdos de dominação. No processo de socialização, elas assumiram
caráter aparentemente neutro apesar de manterem mais ou menos
seus sentidos genéticos partidários.
Língua e história
Mikhail Bakhtine assinala: "Cada palavra
remete a um ou a diversos contextos, nos quais ela viveu sua
existência socialmente subentendida. Todas as palavras, todas as
formas, estão povoadas de intenções." E lembra, em forma ainda mais
precisa: "[...] a palavra do outro deixa de ser uma informação, uma
indicação, uma regra, um modelo, etc., ela procura definir as bases
mesmas de nosso comportamento e de nossa atitude em relação ao mundo
[...]."
É quase inevitável que novos conteúdos
surjam, originalmente, em grande parte dependentes das formas
próprias às essências que superam. Porém, um novo conteúdo assume
plenamente sua riqueza apenas quando constrói-encontra a forma que
lhe corresponde. Na luta pela libertação social, não importa apenas
o que se diz, e, portanto, o que se escreve, como também o como se
diz e o como se escreve.
A preocupação permanente com a
construção de uma criativa relação forma-conteúdo constitui, na
comunicação social, condição para um constante questionamento
profundo dos sentidos veiculados, dissolvendo assim tendencialmente
os pré-conteúdos e pré-conceitos determinados pela incapacidade de
penetrar a aparência, destruir a tradição, combater a inércia.
Linguagem justificadora
O enunciado "as principais classes no
passado foram o senhor e o escravo" descreve fenômeno
histórico correto. Porém, a palavra senhor possui sentido de
homem velho, naturalmente detentor de autoridade, e a categoria
escravo, de origem aristotélica, enseja a idéia de natureza
humana servil. Esse enunciado possui uma conotação justificadora,
determinada pelo uso de categorias plasmadas pela sociedade
escravista para descrever realidades propostas como naturais.
O caráter apaziguador dessa enunciação
deixa de existir quando ela é apresentada através de categorias
diversas, que circunscrevem o conteúdo que se pretende enunciar com
as formas lingüísticas que lhes correspondem. O enunciado "as
classes principais no passado brasileiro foram o escravizador
e o trabalhador escravizado" enfatiza o ato social da
escravização, realizado pelo escravizador, e a verdadeira
essência do escravo, ou seja, o fato que ele foi um
trabalhador escravizado, isto é um ser reduzido à escravidão
pelo escravizador, que se apropriou do produto de sua
força de trabalho.
O enunciado "as classes dominantes
exploram as classes subalternas", ainda que se proponha a descrever
opressão de classe, propõe sub-repticiamente natureza
degradada a classes que, em verdade, não são subalternas,
inferiores, mas "subalternizadas", ou seja, inferiorizadas. Nesse e
em outros casos, o uso do particípio passado explicita a ação social
de uma classe sobre outra, escamoteado pelo adjetivo – "subalterno".
África sem negros
"Os colonizadores massacraram os índios
do litoral" não reflete a tensão histórica já que a categoria
índio, criada pelo colonizador, sugere um ser da floresta,
indefinido, arcaico e pré-moderno. A oração aproxima-se do conteúdo
proposto com nova formulação: "Os colonizadores massacraram as
comunidades americanas do litoral". Ou, "os colonizadores
massacraram as comunidades tupinambás do litoral". No mesmo sentido,
não há identidade semântica perfeita entre a mulher "prostituta" e a
mulher "prostituída"; o homem "escravo" e o homem "escravizado"; o
"escravista" e o "escravizador"; etc.
Por falta de reflexão, utiliza-se
normalmente formas verbais prenhes de conteúdos de classe. Eugene
Genovese, em Economia política da escravidão, trabalho de
inspiração materialista de sentido germinal, publicado em inícios
dos anos 1960, escrevia: "É provável que a maior parte dos negros
importados na América do Norte fosse originária da África
Ocidental."
Na África da época, não havia negros –
categoria talhada pelos negreiros, prenhe de conteúdo racista
–, mas africanas e africanos transferidos – e não importados,
já que não eram mercadorias, ainda que fossem tratados como tal – em
forma forçada, porque eram trabalhadores produtores de bens sociais.
A seguinte oração circunscreve em forma mais precisa o conteúdo
proposto por Genovese, mas fundido em linguagem tributária do
negreiro criticado pertinentemente: "É provável que a maior parte
dos trabalhadores africanos introduzidos forçadamente na América do
Norte fosse originária da África Ocidental".
A linguagem canalha
Ontem como hoje, manipula-se também
conscientemente a linguagem para universalizar conteúdos de
dominação-alienação e criar consenso para as idéias-programas das
classes exploradoras. No Império, a autoridade discricionária de
Pedro I foi definida, quando imperava sua ditadura pessoal,
como poder "moderador". Hoje, a destruição de direitos trabalhistas
adquiridos é apresentada como "reforma da legislação" e
"flexibilização das leis" trabalhistas. A resistência armada popular
e nacional armada é definida como “terrorismo”.
Nos jornais televisivos de todo o mundo,
abranda-se o impacto dos crimes do sionismo propondo que palestinos
"morrem" – e não são mortos – durante confrontos com as
tropas israelenses. No mesmo sentido, o uso da forma passiva
escamoteia o agente, transferindo parcialmente a responsabilidade do
ocorrido para o paciente: "Sindicalista foi morto ontem"; "Jovem foi
violentada durante a noite de sábado".
Chamar o resistente iraquiano de
"terrorista", "guerrilheiro" ou "patriota" já determina sua
avaliação. A definição dos exércitos anglo-americanos como forças de
“ocupação" ou "estrangeiras" – e não como "imperialista" ou
"invasoras" – provoca neutralização e justificação, nem que seja
parcial, da própria ocupação.
Bom exemplo
Exemplo excelente é de jornalista que,
apesar um posicionamento e de um discurso aparentemente oposto à
invasão do Iraque pelo eixo USA-Reino Unido, termina defendendo
parcialmente a ação imperialista em Il Manifesto, diário italiano de
esquerda que porta ainda o dístico "quotidiano comunista". A
jornalista refere-se ao colaborador do imperialismo como
iraquiano e às tropas invasoras como estrangeiras.
Num país que conheceu a invasão e a
colaboração com o nazismo, o citado jornalista propõe, ao falar do
ataque aos colaboradores iraquianos armados que servem ao
imperialismo anglo-estadunidenses: "Nas últimas semanas, o número de
vítimas iraquianas supera pesadamente as das tropas estrangeiras.
[...] E os ataques contra os ocupantes diminuem enquanto os contra
os iraquianos aumentam." [Iraque sem saída. 12.2.2004]
O sentido de uma categoria pode ser
invertido ou manipulado através do uso de aspas. No mesmo artigo, a
jornalista serve-se desse recurso para neutralizar-desqualificar o
sacrifício da vida de combatente anti-imperialista: "Todas as outras
'ações de martírio' golpearam a Onu, a Cruz Vermelha [...]."
Exército colonial
A imprensa de classe usa igualmente
eufemismos para contornar categorias suscetíveis de desvelar o
caráter essencial de uma ação. A mesma jornalista escreve, no mesmo
diário e data: "[...] um kamikaze [...] se fez saltar no ar
quando chegou diante de um centro de recrutamento do novo
exército [...]." ["Autobomba em Bagdá". Destacamos]
A categoria "novo exército" é o
eufemismo criado pelos órgãos de comunicação social dos exércitos
imperialistas no Iraque para designar as tropas de colaboração em
formação no Iraque, sob seu controle. A palavra kamikaze
circunscreve o sacrifício do combatente como um ato de fanatismo, já
que esse foi o sentido produzido pela imprensa estadunidense e
aliada para descrever a ação dos pilotos-bombas japoneses, na
segunda guerra mundial.
Na página internacional de 13 de janeiro
de 2005 da Folha de São Paulo, o importante parágrafo inicial –
lide – de artigo sobre o Oriente Médio, "Violência azeda clima
amistoso entre Israel e palestinos", realiza com simetria quase
artística o estupro da informação, através da manipulação da
linguagem.
Soldados e terroristas
Vejamos essa pequena obra-prima da
informação a serviço da formatação subliminar a que o leitor é
habitualmente submetido: "Um terrorista palestino
assassinou um colono judeu num assentamento da
faixa de Gaza, enquanto soldados israelenses mataram, na
Cisjordânia, dois integrantes do grupo terrorista Hamas." [Os
destaques são nossos.]
Segundo o artigo, os palestinos, como
agentes e pacientes da luta armada na região – ou seja, quando matam
e quando morrem –, são invariavelmente assassinos, terroristas.
Porém, os israelenses, como agentes, são simples "soldados" que
"matam" "terroristas" e, como pacientes, são "colonos" e "judeus" de
um "assentamento", "assassinados" por "terroristas".
É desnecessário lembrar o diferente peso
semântico dos verbos "assassinar" e "matar". Matar pode até mesmo
descrever ato natural de tirar a vida. A árvore que cai sobre a rua
derrubado pelo vento pode matar o transeunte. Assassinar é a morte
produzida por ser humano com aleivosia. Porém, não deixa de ser uma
quase ironia da língua o uso desse termo pela Folha de São Paulo
para anatematizar os palestinos.
Assassinos e colonos
A palavra "assassino" chegou-nos do
persa sob forma de "hassasim", designação de "seita" ou "tribo" "do
norte do Irã" que, quando das Cruzadas inebriavam-se de "cânhamo",
nossa maconha, antes "de atacar e matar líderes sunitas e cristãos",
segundo a definição também não muito santa do Aurelião. Já na
época, esses guerreiros foram definidos como fanáticos e criminosos
tomadores de haxixe/hashish [hashishiyyin, plural de
hashishiyya].
É igualmente grande a impropriedade do
uso da palavra "colono". Sobretudo em português do Brasil, colono
enseja a associação imediata com a imagem de colonizador de
território inexplorado. Não apenas no sul do Brasil, colono foi
sobretudo o esforçado camponês sem terra alemão, italiano, polonês,
etc. chegado ao Brasil para explorar, com a família, um troço de
terra florestal, em geral desabitada.
Por outro lado, o uso da palavra
assentamento aproxima as povoações militarizadas israelenses em
terras ocupadas às pacíficas comunidades de trabalhadores rurais sem
terras, assentados pelas autoridades públicas para explorar
latifúndios reconhecidos pela lei como improdutivos. Ordeiras
comunidades criadoras de riqueza que gozam justamente com a simpatia
quase geral da população brasileira.
Judeus e colonos
Folga igualmente destacar a
impropriedade da descrição, como "judeu", do "colono" "assassinado"
pelos "terroristas", o que lhe garante parte da inesgotável simpatia
que merecem os milhões de judeus, esses sim assassinados por
terroristas nazistas, em geral no próprio território em que haviam
nascido.
A incorreção do uso do termo judeu
acresce ainda mais na medida em que, comumente, "judeu" é tido em
forma mais habitual como aquele que professa a fé judaica. Portanto,
o uso do termo israelense manteria um mínimo de neutralidade,
sobretudo porque o articulista não se refere jamais aos palestinos
mortos como "muçulmanos".
Desnecessário dizer que, em momento
algum, perde-se tempo no artigo para explicar ou ao menos sugerir as
decorrências dos dois "incidentes" terem-se dado na Cisjordânia e na
Faixa de Gaza. Ou seja, em territórios reconhecidos pela "comunidade
internacional" como indiscutivelmente pertencentes aos palestinos,
ainda que atualmente sob ocupação militar israelense.
A parte e o todo
A localização do incidente torna os
militares e os membros dos grupos para-militares de ocupação
israelenses invasores de território palestino e portanto alvos
legítimos da luta de libertação nacional palestina, segundo o
direito dos povos, reconhecido pelas leis internacionais. Uma luta
que se iguala à dos franceses, belgas, italianos, iugoslavos, etc.,
contra a ocupação nazista, ou à dos tupiniquins, tupinambás contra
os colonos e os militares portugueses.
Com a substituição da parte pelo
todo e a atribuição a seres inanimados de características
próprias a seres animados escamoteiam-se igualmente
responsabilidades sócio-políticas. O enunciado "o Brasil decidiu
pagar a dívida" esconde o fato de que aquela ação deve-se à decisão
do "governo brasileiro" e não à "nação", que não é e não pode ser
protagonista político ou histórico.
A utilização de forma verbal impessoal
serve igualmente para o mesmo sentido. Com a oração "manteve-se o
salário mínimo em 241 reais" neutraliza-se a responsabilidade dos
principais agentes reais dessa decisão, no presente caso, o ministro
da Economia e o presidente da República.
Malditas e abençoadas
Na construção de uma linguagem
classista, sobretudo na sua forma escrita, palavras-chaves são
literalmente abençoadas enquanto outras, ao contrário, são
literalmente execradas, constituindo seu uso sinal de
desatualização, falta de gosto, espírito radical e sectário. No
presente período histórico, na imprensa brasileira e mundial,
algumas palavras abençoadas são “empresário”, “marca”,
“empreendedor”, “iniciativa privada”, “organização
não-governamental”, “mercado”, “consumidor”, “cidadania”,
“governabilidade”, “flexibilidade”, “reforma”, “estabilidade”,
“propriedade”, “privado”, “privatização”, “eficiência”,
“lucratividade”, “propriedade”, “globalização”, “paz”.
São objeto de verdadeira execração e
ostracismo, palavras como “classes sociais”, “exploração”,
“comunismo”, “socialismo”, “luta de classes”, “proletariado”,
“patrão”, “planejamento”, “expropriação”, “estatização”,
“nacionalização”, “resistência”, “consciência”, “reforma agrária”,
“burguês”, “opressão”, “revolução”, “internacionalismo”, “luta de
classes”, “nacionalismo”, “imperialismo”.
A luta de classes não se dá apenas no
interior das comunidades nacionais, mas entre as nações
imperialistas e as nações subalternizadas. Nesse sentido, a língua
do capital imperialista internacional esforça-se para se impor
crescentemente sobre as línguas das nações dominadas, direta ou
indiretamente, com objetivos econômicos, políticos e ideológicos.
Língua e poder
Uma das primeiras decisões das tropas
imperialistas anglo-estadunidenses no Iraque foi determinar a
edição, também em inglês, do jornal oficial do país recolonizado,
retornando aos tempos do protetorado [sic] britânico
sobre o Iraque, desmembrado do império otomano, após a Primeira
Guerra Mundial.
Símbolo da dominação imperialista sobre
o Brasil é a substituição crescente de palavras portuguesas de uso
corrente por expressões inglesas, aportuguesadas ou não:
entretenimento, por diversão; party por festa; banda
por conjunto; shopping center por centro comercial;
atachar por anexar; deletar por apagar; close por
vestuário, paper por artigo, etc.
Na comunicação social e quotidiana, a
consciência da língua como espaço de confronto e meio de produção e
reprodução da dominação social constitui passo imprescindível na
luta pela criação de espaços de autonomia que permitam desenvolver e
consolidar os princípios, práticas, valores e estratégias do mundo
do trabalho em prol de conquista de uma sociedade onde, finalmente o
homem seja finalmente o amigo do homem. |
|

|