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Por EVA PAULINO BUENO Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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Dez maneiras de falar
sobre Don Quixote
I
O
livro já começa fazendo uma interpelação direta à sua audiência, o
“Desocupado lector,” que pode querer que este “filho” fosse mais
bonito, galante, e discreto. Tal, diz a voz no “Prólogo,” não seria
possível, porque o gênio seco do autor só poderia dar à luz um ser
semelhante ao autor. Desde que foi publicado, este livro tem feito
exatamente isto: interpelar que o lê, entrar em cumplicidade com a
pessoa que se dispõe a passar as muitas horas necessárias para
acompanhar as aventuras e desventuras do cavaleiro que, a uma certa
altura do romance, é chamado por seu escudeiro, “O Cavaleiro da
Triste Figura,” porque se encontra todo machucado, a roupa rasgada,
mas que ainda persiste em seguir seus sonhos. Tal é a história que
vem atravessando séculos, às vezes mais popular, às vezes menos, mas
sempre o mesmo personagem sonhador que inspira, faz rir, faz pensar,
até faz chorar.
Este ano se comemoram os quatrocentos
anos de publicação de Don Quixote de la Mancha. Na verdade, o
livro foi publicado em 1604 com data de 1605, provavelmente devido a
problemas com a impressão. Este foi um golpe de sorte, porque assim
podemos comemorar este aniversário do livro em dois anos seguidos.
Estas comemorações, de fato, tem sido extensivas, em vários países
do mundo. A obra, que de acordo com os estudiosos de literatura,
lançou o romance como o conhecemos, já foi traduzida para
praticamente todas as línguas do mundo que têm um sistema de
escrita. A festa tem tomado várias formas, desde leituras públicas
de passagens do romance, a concertos, exposições de arte, peças de
teatro, e mostras de filmes.
Em Alcalá de Henares, a cidade natal de
Miguel de Cervantes Saavedra, muitas festas, palestras, discussões,
estão planejadas para todo o ano. O Museo Casa Natal de Cervantes
publicou um Guía em que aparecem fotos da casa, e explicações
que tentam esclarecer algumas partes da vida do escritor.
Diferentemente da casa natal de outros autores que – por incrível
que pareça – têm sido mais queridos do público espanhol
(especialmente o poeta Lope de Vega), esta casa foi deixada em
ruínas, tratada como coisa sem valor, até que em 1956 o Ministerio
de Educación Nacional abriu as portas do edifício, depois de fazer
“restaurações” cujo valor atualmente está em questão. De todas
formas, depois de outras revisões a estas restaurações, um novo
museu for aberto em 2000, e está recebendo a cada ano mais
visitantes. Este ano deve receber um número recorde de pessoas que
querem ver de perto, ainda que sejam somente as interpretações do
ambiente doméstico onde nasceu o autor (Guía, 5)
II
Miguel de Cervantes Saavedra nasceu em
1547, provavelmente no dia 29 de setembro, dia de São Miguel. Foi o
quarto filho dos sete filhos do casal Rodrigo de Cervantes e Leonor
de Cortinas. Seu avô, Juan de Cervantes, era advogado, e dono da
casa. Mais tarde, no fim da vida, Cervantes se descreve como
“hidalgo” – fidalgo – o que indica que o avô ou tinha ou presumia
ares aristocráticos, e viveu uma vida de opulência. Mas o pai de
Miguel, Rodrigo de Cervantes, surdo desde a infância, e o filho mais
novo, acabou trabalhando como “maestro zirujano,” ou seja, barbeiro
(talvez isto explique a importância da bacia do barbeiro para o
“uniforme” de Don Quixote). Os barbeiros, naquele tempo, não só
faziam a barba e cortavam o cabelo, mas exerciam uma espécie de
medicina popular, aplicando sangrias, ou, como diz um texto do
próprio Cervantes, o entremés El juez de los divorcios, o
barbeiro é um “hombre que hace ligaduras y cura otras enfermedades,
que va a decir de esto a médico a la mitad del justo precio.” Depois
de três anos do nascimento de Miguel, a família se muda a Valladolid,
e depois a Madrid. A família claramente não tinha estabilidade
financeira.
Não se sabe nada da educação do
escritor. Tom Lathrop, em sua introdução ao romance, diz que a
educação de Cervantes deve ter sido intensa e extensa, feita em
escolas e individualmente. O único documento provando que Cervantes
freqüentou uma escola indica que ele estudou no Estudio de la Villa
de Madrid por seis meses, quando tinha já 20 anos de idade. Seu
professor foi o padre humanista Juan López de Hoyos (Lathrop xiv).
Nesta ocasião, Cervantes contribuiu quatro poemas a uma elegia que
Hoyos publicou em honra da falecida rainha Isabel de Valois.
III
Mesmo pra quem não sabe quase nada de
Don Quixote, pelo menos sabe que ele tinha um escudeiro. E quase
todos sabem que o escudeiro se chamava Sancho Panza. O que é um
escudeiro? O que carrega o escudo? Sim, carrega o escudo e muito
mais. No caso de Sancho Panza, ele carregava a comida, os remédios,
e, especialmente, aquilo que dava equilíbrio a seu amo sonhador e
idealista.
Mas vamos do começo: Sancho Panza era um
lavrador na propriedade de um fidalgo de cinqüenta anos, chamado “Quijada”,
ou “Quesada,” ou “Quejana,” e foi por este convidado a participar de
suas aventuras. Don Quijada era homem madrugador, seco de carnes, e
muito aficcionado à leitura de romances de cavalaria, e havia
decidido tornar-se cavaleiro andante, para consertar o errado e dar
justiça aos injustiçados. Seguindo o modelo dos grandes cavaleiros
andantes que ele conhecia dos romances de cavalaria, ele tinha que
ter um escudeiro. Sancho Panza aceitou seguir seu amo.
Mas Sancho Panza era o contrário de Don
Quixote. Ele era gordo, analfabeto, camponês, e prático. Quando seu
amo tinha altos vôos de imaginação, Sancho o trazia de volta à
terra. Quando Don Quixote viu exércitos de guerreiros, Sancho viu um
rebanho de carneiros. Quando Don Quixote viu gigantes, Sancho viu
moinhos. Quando, mais tarde, seu amo adota o nome de Don Quixote,
Sancho o apelida de “Cavaleiro da Triste Figura”, porque ele está
todo machucado, com a armadura arrebentada. Sancho come em demasia,
vomita, tem diarréias, bebe, faz comentários grosseiros. Ele insiste
com Don Quixote que sua amada Dulcinéia – que é a aldeã Aldonza
Lorenzo – não passa de uma camponesa analfabeta e mal-cheirosa. Ele
faz comentários sobre “la limpieza de sangre” de muitos outros
personagens, e mantém, sempre que pode, que é “cristão velho,” e não
deve ser confundido nem com judeus nem com mouros.
Mas, por outro lado, Sancho é aquele que
ajuda Don Quixote em suas empreitadas, por mais fantásticas que
sejam. É ele quem cura as feridas, cozinha a comida, leva e traz
recados. Também é Sancho, o homem do povo, quem tem muita esperteza
do mundo, e muitas vezes resolve os problemas criados pelo sonhador
amo. Ele sabe refrões da cultura popular de seu tempo, e governa a
“ilha” de Baratária com singular sabedoria. No fim do segundo livro,
Sancho se prontifica a mentir para salvar a pele de um “mouro”,
assim renegando tudo o que a sociedade espanhola ensinava, e que
era, de todas as formas, a sua única “grandeza,” o fato de ser
branco, e “cristão velho”, sem mistura de sangue.
IV
Quando Cervantes publicou o primeiro
livro de Don Quijote, a licença real dava os direitos ao
autor do livro “en todos estos nuestros Reinos de Castilla”.O
sucesso foi imediato e, já que Portugal não era mencionado nos
direitos autorais, dois livreiros portugueses, Jorge Rodríguez e
Pedro Crasbeeck copiaram e piratearam o texto, e fizeram duas
publicações em fevereiro e março de 1605. A segunda edição
madrilhenha, também de 1065, já incluía Portugal nos direitos
autorais. É possível que ninguém imaginava que o livro ia ser o
sucesso imediato que foi.
Então, este livro que já começou com
esta grande possibilidade de plágio e pirataria, continuou sua vida
desta maneira. A última linha do livro publicado em 1605, “Forse
altro canterà con miglior plectio” – “Talvez outro cante com melhor
ponta” – (aliás uma citação errada de um verso de Orlando Furioso),
está na realidade desafiando quem quer que seja a continuar a
história com sua própria pluma. No decorrer das últimas páginas
deste livro, o narrador de Don Quijote (um narrador que se
esquece de coisas, mistura datas, não tem certeza das suas fontes,
contrata um tradutor, se confunde com quase tudo) diz que tem
notícia que o herói foi em mais uma aventura a Zaragoza. Como
Cervantes, ao publicar o primeiro livro, já se encontrava “avançado
em idade” (para aquele tempo), e como parecia que ele não ia
escrever a continuação das aventuras, Alonso Fernández de Avellaneda
tomou o desafio e publicou um livro em 1614, com a continuação das
aventuras.
Cervantes não se fez de rogado: no seu
“Prólogo al lector” da Segunda Parte del ingenioso Caballero Don
Quijote de la Mancha , publicada em 1615, ele já ataca o
problema de frente, e menciona a continuação escrita por “aquel que
se dicen que se engendró en Tordesillas y nació en Tarragona.” Mais
uma vez, Cervantes está interpelando seu leitor diretamente, e
dizendo que sabe que ele/ela leu o livro de Avellaneda. Mais
adiante, ele insulta a Avellaneda, e diz que ele não sabe a
continuação da história de Don Quixote. O próprio personagem, mais
tarde, se encontra com a publicação do livro contando suas aventuras
falsas.
Desta vez, quando a Segunda Parte
termina, depois de narrar a morte do herói rodeado por amigos e
familiares, o “prudentísimo” narrador Cide Hamete diz.
¡Tate, tate folloncicos!
De ninguna sea tocada;
Porque esta empresa,
buen rey,
Para mí estaba guardada.
Cuidado, cuidado, tolos!
Que ela não seja tocada por ninguém
Porque esta empreitada, bom rei,
Para mim estava guardada.
Que Don Quixote não tenha outras
continuações espúrias. Que suas aventuras estejam encerradas em si,
para sempre.
V
Quando eu fui morar no Japão, com um
contrato para lecionar em uma universidade japonesa por quatro anos,
tive que levar em conta a exigüidade dos espaços domésticos naquele
país – trocando em miúdos, as casas e apartamentos no Japão são
muito pequenos, alguns verdadeiras caixinhas. Tive que fazer uma
seleção rigorosa entre o que levar comigo, e o que deixar com
amigos, o que colocar nos guarda-móveis. Depois de muito pensar,
decidi levar somente quatro livros: um livro de sonetos do Vinícius,
um livro de poemas do espanhol Antonio Machado, Grande sertão,
veredas, do Guimarães Rosa, e Don Quixote, uma edição
contendo a primeira e a segunda parte.
Estes quatro livros, dois em português e
dois em espanhol, me ajudaram a manter minha sanidade no Japão, e me
lembraram, muitas vezes, de onde eu vim, e a que cultura pertenço.
Ainda acho que, se tivesse que ficar
pelo resto da minha vida em uma ilha deserta, levaria os mesmos
quatro livros. Talvez uns dois ou três mais, se houver espaço.
VI
Muitos hoje em dia concordam que Don
Quixote é um livro que tende a irritar a certos tipos de
críticos, que apontam as inúmeras inconsistências, os “erros” de
aritmética, a mudança de nomes de personagens (especial caso da
mulher de Sancho, chamada às vezes Maria, às vezes Sancha),
confusões na continuação da trama, inconsistências, etc.
Em 1830, por exemplo, Clemencín anotou
uma edição do livro e disse, claramente, que o autor era um
relaxado, que não releu o que escreveu e nem sequer se deu a
trabalho de verificar as contradições mais aparentes. Hoje em dia, a
leitura de Don Quixote tem outro teor, e aquilo que os
críticos anteriores encontraram como falhas, é visto como parte do
que Cervantes se propôs ao escrever o livro, que era criticar e
fazer graça com os romances de aventuras de cavaleiros andantes, os
quais eram cheios de absurdos e incoerências. Como vemos nas
primeiras páginas do livro de 1605, Cervantes começa com poemas
louvando a vários personagens dos tais romances, cada um desde um
ponto de vista. Um dos poemas mais engraçados é o que mostra um
“diálogo” entre Babieca e Rocinante. Babieca era o cavalo de El Cid,
o herói do poema épico espanhol mais conhecido. Rocinante, como
sabemos, era o cavalo de Don Quijote. Este poema vale a pena citar:
B. ¿Cómo estáis,
Rocinante, tan delgado?
R. Porque nunca se come,
y se trabaja.
B. Pues, ¿qué es de la
cebada y de la paja?
R. No me deja mi amo ni
un bocado.
B. Andá, señor, que
estáis muy mal criado,
Pues vuestra lengua de
asno al amo ultraja.
R. Asno se es de la cuna
a la mortaja.
¿Queréislo ver? Miraldo
enamorado.
B. ¿Es necedad amar?
R. No es gran prudencia.
B. Metafísico estáis.
R. Es que no como.
B. Quejaos al escudero.
R. No es bastante.
¿Cómo me he de quejar en
mi dolencia,
Si el amo y escudero o
mayordomo
Son tan rocines como
Rocinante? (Lathrop19)
B. Por que está, Rocinante, tão magro?
R. Por que nunca se come, e se trabalha.
B. Pois, que aconteceu com a cevada e a
palha?
R. Meu amo não me deixa nem um bocado.
B. Cuidado, senhor, que está muito
malcriado.
Porque sua língua de asno ultraja seu
amo.
R. Quem é asno é asno do berço à
mortalha.
Quer ver? Olha como ele está apaixonado.
B. Amar é estupidez?
R. Não é uma grande prudência.
B. O senhor está metafísico.
R. É que eu não como.
B. Queixe-se ao escudeiro.
R. Não é suficiente.
Como vou me queixar de meus problemas,
Se o amo e escudeiro ou mordomo
São tão quatro patas como Rocinante?
VII
A história de Don Quixote é uma história
cheia de mulheres. Ao que tudo indica, o fidalgo Don Quijana era um
homem muito casto, que nunca tinha se casado. Não é ignorante dos
prazeres do sexo, e reconhece muito bem seus perigos quando seu
cavalo Rocinante se “interessa” demasiado por umas éguas e acaba
sendo espancado pelos donos.
Em sua casa vivia sua sobrinha e uma
ama, uma espécie de governanta. As duas cuidavam dele, e tinham
grandes apreensões pelo que elas acreditavam serem as péssimas
influências causadas pelos livros que ele lia. Foram as duas que
deram permissão ao padre e ao barbeiro para emparedarem a biblioteca
de Don Quixote enquanto ele jazia na cama, doente depois de um
espancamento, ao voltar à casa pela primeira vez. A sobrinha e a ama
foram as mais entusiasmadas em fazer o “auto da fé” dos livros de
Don Quixote e queimá-los em uma fogueira no quintal. Se não fosse
pelo barbeiro e o padre, todos os livros teriam sido queimados. Mas
estas duas mulheres, guardiãs da saúde corporal de Don Quixote,
ignorantes dos prazeres literários que ele obtinha em sua
biblioteca, não são representativas das demais mulheres. Algumas
delas são especialmente interessantes, grandes leitoras de histórias
de cavalaria, e indicam não só o conhecimento que Cervantes tinha
dos tipos humanos em seu tempo, mas também do que ele acreditava ser
mais valioso nas mulheres.
Maritornes: era a empregada na primeira
venda/hospedaria em que Don Quijote se hospeda, pensando que era um
castelo. Tudo indica que, além de ser a empregada, Maritornes era
uma espécie de prostituta, porque dorme com vários dos viajantes que
vêm à venda. Mas, para Don Quixote, ela é uma alta e apreciada dama,
que ele trata com mesuras e palavras escolhidas. Maritornes, embora
seja uma pobre camponesa, véia, gorda, estrábica, trabalhando em
regime semi-escravo para um vendeiro explorador, é a pessoa que
comparte com Don Quixote e Sancho sua comida. Ela é, na verdade, uma
grande e generosa dama, embora as aparências e as circunstâncias
indiquem o contrário. Don Quixote é quem descobre, para a própria
Maritornes, estas qualidades.
Marcela: moça de grande beleza, herdeira
da fortuna de um tio, que deve o infortúnio de ser cobiçada por um
jovem que se apaixonou perdidamente por ela e que não suportou sua
rejeição. Este jovem, o pastor Grisóstomo, se suicida, e deixa uma
narrativa em que acusa a Marcela da sua morte. Os amigos de
Grisóstomo, jovens igualmente levados pelos ideais pastorais
literários, querem puni-la. Mas, quando eles estão reunidos contando
a Don Quixote como ela é má e destruidora, Marcela aparece e lhes
faz um discurso em que prova que, por ser amada de Grisóstomo, ela
não tem que ceder aos seus pedidos. Por ser mulher, não tem que
necessariamente casar-se para buscar proteção. Ela afirma sua
liberdade de ir e vir, desimpedida, e de cuidar de seus afazeres, de
sua fazenda, sem ter que estar com um homem ao seu lado. Convém
lembrar que esta história foi escrita em 1605. Em muitos lugares do
mundo, ainda hoje, o que Cervantes diz, através de Marcela, ainda é
uma lição a ser aprendida.
Aldonza Lorenzo/
Dulcinea del Toboso: Aldonza Lorenzo era uma camponesa.
Dulcinea del Toboso uma grande dama. O que fez de uma a outra? O
amor de Don Quixote. Logicamente, ele nunca a havia visto, e nunca a
vê durante toda sua vida. Mas ele a ama. Ela representa aquele ideal
de pureza e grandeza a que todos aspiram: ela era a musa inspiradora
que a fé de Don Quixote alimentava. De tempos em tempos, algum
crítico diz que ela representa a Virgem Maria.
Luscinda e Dorotea: Pode-se dizer que
uma é a imagem refletida da outra. Luscinda é a jovem que é forçada
pelos pais a casar-se com Don Fernando, um nobre. Ela tem que
rejeitar o amor de sua vida, Cardenio. Dorotea é a jovem que foi
abandonada pelo mesmo Don Fernando, depois de ter aceitado dormir
com ele. Don Fernando abandona a jovem Dorotea, morena, negociante,
independente, e quer se casar com Luscinda, que era loura e pura,
dependente, chorona. Luscinda desmaia durante a cerimônia do
casamento. Depois de várias peripécias, os dois casais se
reencontram, e tudo é esclarecido, cada mulher fica com seu
verdadeiro amor. Mas, enquanto este drama se desenvolve, vemos que
Dorotea é uma mulher tão decidida como Marcela. E tem recursos e
idéias que coloca em prática para conseguir o que deseja, casar-se
com Don Fernando, ter a sua honra restabelecida. Mais uma vez, aqui
vemos uma mulher que não fica esperando que o que deseja caia do
céu. Mesmo Luscinda, com sua aparente passividade, recusa um
matrimônio que beneficiaria sua família, e sai em busca do seu
verdadeiro amor.
VIII
Neste ano, em que comemoramos os 400
anos de publicação desta grande obra, talvez muitos que não a leram
ainda consiga encontrar um tempo para ler. Não é preciso que seja
todo de uma vez. Pode ser uns dois ou três capítulos cada fim de
semana. Mas eu sinceramente acho muito difícil ler-se só uns
capítulos de cada vez.
Eu já tive a experiência de lecionar
este romance várias vezes, para universitários, em espanhol. O
princípio é sempre difícil, porque a língua espanhola mudou bastante
desde 1605, e em geral nas primeiras páginas tenho que instruir aos
alunos que abandonem o dicionário e tentem “entrar” na história.
Isso leva mais ou menos umas 20 páginas iniciais. Depois, o difícil
é segurá-los para que não leiam tudo de uma vez.
E a cada leitura, Don Quixote se
revela um pouco mais. A cada leitura, o mundo da Espanha do século
XVII se descortina, e nos deixa ver as relações humanas complicadas
pela recente expulsão dos mouros, pela hostilidade contra os judeus,
pela insistência de muitos personagens (inclusive Sancho Panza) de
que são “cristãos velhos” (uma maneira de se distinguirem daqueles
judeus que, com medo da Inquisição, se “converteram” ao
cristianismo). Vemos a vida dos camponeses, suas dificuldades, suas
relações com os senhores feudais, com a aristocracia decadente (como
Don Quixote, e como o avô de Cervantes). Desta cultura – Portugal e
Espanha sempre tiveram laços muito fortes – vieram os que nos
colonizaram no Brasil.
Em cada leitura também vemos como as
descrições são incrivelmente engraçadas, e como o livro critica
praticamente todo mundo, desde os nobres aos religiosos, às pessoas
convencidas da própria grandeza. A cada leitura, mas claramente se
vêem os dois personagens principais nas suas grandezas e
mesquinhezas, que os fazem tão humanos.
IX
Em minha universidade decidimos fazer
uma série de comemorações para os 400 anos da publicação de Don
Quixote. O clube de línguas estrangeiras promoveu uma
“read-a-thon” do romance, que culminou com o sorteio de vários
livros para os participantes. O departamento de artes, juntamente
com o departamento de línguas, organizaram em março e abril um show
de obras de arte inspiradas no romance, do qual participaram vários
artistas do Sul do Texas com obras originais feitas especialmente
para esta ocasião. Entre outros artefatos exigidos, tivemos também
vários exemplares de Don Quixote datados do século XVIII. No
outono, pensamos seguir as comemorações com palestras, apresentação
de filmes.
Minha participação no show de arte
consiste do quadro que ilustra este artigo. Trata-se de uma colagem,
chamada “Lendo Picasso Lendo Don Quixote.” Muitas pessoas que
vieram ver o show me perguntaram a razão de tal título e de tal
forma. Para mim, porque conheço a obra razoavelmente bem, pensei
inicialmente em escolher uma das muitas aventuras menos celebradas
que a dos moinhos de vento, e fazer um quadro retratando a aventura.
Mas, a cada tentativa de escolher um episódio que concentrasse
vários aspectos do romance, sempre me vinha à memória um trabalho de
Picasso, feito com tinta preta, a traços rápidos, mostrando Don
Quixote, magro e alto, montado em Rocinante, conversando com o gordo
Sancho Panza que vai montado em seu burrinho. Para mim, esta é a
melhor representação de uma relação que se desenvolve durante a
história, através dos longos diálogos entre os dois personagens
através de suas aventuras pelos caminhos de La Mancha.
Como esta figura de Picasso continuava
interpondo-se em outras que eu pensava formar, decidi usá-la,
colocando-a como o pano de fundo para o que lhe deu vida, que é o
texto, em espanhol, diretamente de Cervantes. Assim, esta é minha
homenagem ao pintor cujas imagens sempre povoaram meu conhecimento
de Don Quixote, e ao autor, Miguel de Cervantes, que nos deu
o imortal Don Quixote de la Mancha. A obra de arte é aquela que
sempre inspira muitas leituras, muitas interpretações. A julgar pela
enorme quantidade de filmes, peças de teatro, pinturas, desenhos,
instalações com o tema de Don Quixote, este é, indubitavelmente, um
dos maiores romances – senão o maior – da nossa cultura ocidental
X
Temos algumas opções:
a) consideramos Don Quixote
comemorado, e ponto final.
b) podemos parar as comemorações este
ano, e retomá-las em 2015, quando comemoraremos os 400 anos da
publicação da Segunda Parte.
c) podemos continuar comemorando daqui
até o ano 2015.
d) podemos afinal ler o livro e saber
por que Don Quixote é considerado o lançador do romance
moderno, e um dos livros mais influentes na cultura ocidental.
Observação: Nem todas as opções são
incompatíveis.
Vale* |
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