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Por JOÃO FÁBIO BERTONHA
Doutor em
História e Professor da Universidade Estadual de Maringá |
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Wessis e ossis: os
dilemas da reunificação da Alemanha quinze anos depois
Já se passaram quinze anos desde a
memorável noite de 9 de novembro de 1989, quando caiu o Muro de
Berlim. Só quem teve o privilégio de viver aquele momento, seja ao
vivo, seja pela televisão, pode saber a emoção que foi ver os
alemães – do leste e do oeste – bebendo vinho e dançando encima do
muro, enquanto multidões do lado oriental o atravessavam para
visitar seus primos do Ocidente.
Um ano depois, a União Soviética
cessava de existir – outro acontecimento que ninguém vivo à época
poderá esquecer – e, ainda em 1990, as duas metades da Alemanha se
fundiram, finalizando uma separação de quarenta e cinco anos. A nova
Alemanha federal, maior e mais populosa, surgia então.
O surgimento desse gigante teutônico
assustou mais uma vez a Europa. O temor, ao menos em alguns círculos
intelectuais e políticos, era de que os alemães, agora
reunificados, iriam tentar novamente conquistar a Europa, seja pela
força, seja pelo talão de cheques. Também se acreditava que a
reunificação seria simples, devido ao relativamente alto grau de
desenvolvimento econômico da Alemanha Oriental e à homogeneidade
cultural. Claro que se imaginavam algumas dificuldades, mas nada que
não pudesse ser resolvido. Afinal, dos dois lados da fronteira, o
que havia eram alemães, com a mesma língua, ética de trabalho e
experiências culturais e históricas.
Quinze anos depois, percebe-se que o
medo europeu da nova Alemanha era totalmente injustificado e que a
Alemanha atual não é a Alemanha dos Kaisers e muito menos a de
Hitler, estando plenamente satisfeita com a sua inserção na União
Européia e no mundo ocidental. Percebe-se, também, como as
dificuldades dentro do processo de unificação das duas Alemanhas
foram subestimadas, e muito.
Em termos econômicos, observou-se logo
que a Alemanha Oriental, apesar de ter uma economia desenvolvida
pelos padrões do Leste, era imensamente pobre quando comparada à
Ocidental. As comunicações e o sistema de transporte eram
ineficientes e quase toda a sua indústria era incapaz de competir
com sua equivalente ocidental. Também a sua força de trabalho,
apesar da competência técnica, estava completamente desacostumada ao
estilo de produção e à competitividade do Ocidente, o que gerou
problemas.
Como resultado dessa situação, e da
decisão de Berlim de privatizar toda a estrutura econômica herdada
do Leste, a indústria da Alemanha Oriental quase deixou de existir
nos anos 90, com a conseqüente geração de milhões de desempregados.
Esperava-se que a iniciativa privada preenchesse a lacuna, o que
efetivamente ocorreu e continua ocorrendo, mas com imenso vagar.
Afinal, com várias dificuldades para implantar suas empresas no
Leste e podendo suprir o novo mercado através da capacidade
instalada no Ocidente, não havia motivos para o capital privado
seguir para lá, o que só se alterou com o decorrer do tempo.
Coube ao Estado alemão, assim, pagar a
conta do processo. Um volume inacreditável de dinheiro foi
transferido do lado oeste para o leste, de forma a financiar a
recuperação da infra-estrutura, pagar pensões e outros benefícios
aos desempregados e subsidiar empresas para se instalarem além da
antiga fronteira. Tal soma chega a cerca de US$ 1,5 trilhão em
valores de hoje, o que significa quase cem mil dólares para cada
habitante do antigo lado oriental. Se isso fosse repetido no Brasil,
por exemplo, significaria a transferência de uns 18 trilhões de
dólares para o país em quinze anos, o que é inimaginável.
Esse fluxo de dinheiro transformou a
paisagem oriental. Estradas e ferrovias foram recuperadas e
ampliadas; o sistema de comunicações da parte oriental da Alemanha
se tornou um dos mais modernos do mundo; monumentos e museus foram
recuperados; a poluição do meio ambiente (problema sério da obsoleta
indústria oriental) foi revertida e a antiga capital, Berlim, foi
quase que totalmente revitalizada.
No entanto, o processo também teve
problemas. O colapso e destruição da antiga ordem foi tal que não
espanta que, ainda hoje, o desemprego nas áreas orientais da
Alemanha seja muito maior do que na parte ocidental e que as
províncias orientais sejam ainda muito pobres em comparação com as
ocidentais. Uma prova disto, aliás, é que, mesmo com seguro
desemprego e subsídios do governo alemão, muitos ex-alemães do Leste
emigraram para o Ocidente, o que fez a população da antiga Alemanha
oriental diminuir em cerca de 1,6 milhão de pessoas desde 1990.
Se pensassem unicamente com o estômago,
contudo, talvez os antigos alemães-orientais devessem estar mais
contentes. O seu nível de vida cresceu e a disponibilidade de bens
de consumo e serviços foi multiplicada várias vezes. Além disso,
eles vivem em um Estado democrático e numa das economias mais fortes
da Europa. Com absoluta certeza, poloneses, russos ou ucranianos
adorariam que existissem uma Polônia, uma Rússia ou uma Ucrânia
ocidentais para apoiá-los na traumática transição do sistema
comunista para o capitalista.
No entanto, não é o que ocorre. Creio
ser difícil encontrar muitos alemães-orientais que anseiem pela
volta da ditadura do partido único, da Stasi, da proibição de viajar
para o exterior ou das máquinas de escrever ou geladeiras toscas e
de baixa qualidade. A maioria, creio, deve reconhecer as imensas
vantagens auferidas com a unificação. Não obstante, muitos se
sentem infelizes e até com uma certa nostalgia do passado.
Em primeiro lugar, isso ocorre porque
eles saíram de um sistema onde, apesar das poucas perspectivas de
progresso ou melhorias materiais, um mínimo estava garantido para
todos e havia segurança, especialmente quanto à emprego e moradia.
Agora, no sistema capitalista, essas pessoas têm que lidar com o
mercado imobiliário e disputar empregos no mercado de trabalho, o
que é uma experiência dificilmente agradável.
Leste e Oeste também tiveram
experiências históricas diversas nas últimas décadas e isso
dificulta o seu relacionamento. Integrados ao mundo ocidental desde
1945, os alemães da RFA se acostumaram à influência cultural
americana, reformularam sua identidade alemã de forma a articulá-la
com a européia e se acostumaram a viver em um Estado democrático.
Já os alemães do Leste saíram do nazismo diretamente para a ditadura
comunista e mantiveram muito das tradições da velha Alemanha. De um
lado, uma Alemanha ocidental e européia, frente a outra pertencente
a um mundo, o comunista, extinto, e que conservou traços da cultura
autoritária e nacionalista da Prússia e de outras regiões orientais
da Alemanha. Os choques de mentalidade são inevitáveis.
Por fim, o próprio processo de
unificação acabou por deixar, depois da euforia inicial, muitos dos
orientais descontentes. O desejo de união existia e ainda existe,
mas a maneira como o processo foi conduzido acabou por gerar um
sentimento de revolta entre os antigos alemães do Leste.
Realmente, tudo o que era oriundo da
antiga Alemanha Oriental (como, por exemplo, licenças especiais para
as mães cuidarem dos filhos doentes) foi simplesmente descartado.
Algo inevitável, talvez, mas que revoltou muitos alemães do Leste,
que sentiram-se diminuídos no processo, como se eles não tivessem
nada a oferecer à nova Alemanha, tendo que se limitar à copiar o
Ocidente.
Essa situação afetou a vida e a
sociedade oriental das mais variadas maneiras. O Exército alemão
oriental, por exemplo, foi absorvido pelo ocidental e seus estoques
de armas foram quase que totalmente descartados e/ou vendidos. Toda
a cultura militar da Alemanha oriental, grandemente herdeira da
tradição prussiana, assim como as técnicas e métodos de guerra
soviéticos, em uso no Leste por décadas, foram abandonados e os
oficiais e soldados remanescentes tiveram que se reciclar para o uso
de técnicas, métodos e armamento ocidental, além de se adaptarem à
maneira ocidental de controlar as Forças Armadas.
Nas Universidades, por sua vez, cursos
inteiros, especialmente nas ciências humanas, foram extintos e/ou
totalmente reorganizados. Professores de matérias prestigiadas pelo
regime anterior, como de teoria marxista-leninista, foram
simplesmente demitidos e/ou obrigados a se reciclar. O fenômeno se
repetiu nas escolas de nível médio, onde os professores de História
e línguas tiveram que se familiarizar com os novos currículos
escolares, que traziam uma nova visão do passado alemão e incluía
inglês e francês, em detrimento da língua russa.
O mesmo processo se repetiu nos mais
variados setores, das leis de trânsito aos direitos sociais. Nesse
sentido, podemos até dizer que não houve, na verdade, uma
unificação, mas uma anexação do Leste alemão à República Federal da
Alemanha, que, não por acaso, conservou o seu nome e bandeiras
originais.
É difícil acreditar que, após a
reunificação, muitos alemães-orientais quisessem ainda estudar o
marxismo-leninismo, ver seus filhos aprenderem história alemã pelo
antigo viés do Partido Comunista ou dirigir carros Trabant. O
problema é mais psicológico. Afinal, os orientais foram desprovidos
de todo o seu modo de vida anterior e viram o estilo de vida
ocidental se impor em toda a sua antiga terra. Assim, depois da
euforia da reunificação, muitos alemães-orientais começaram a se ver
como cidadãos de segunda classe dentro da Alemanha.
É dentro desse processo que se explica a
chamada Ostalgie, bem representada pelo recente filme “Good
Bye Lenin”, de Wolfgang Becker. É um sentimento de nostalgia do
tempo comunista na Alemanha do leste que afeta pessoas nessa
região. Hoje, roupas, uniformes, carros Trabant, motos IWL e outros
produtos são colecionados e apreciados pelos antigos moradores da
Alemanha comunista. Não parece que eles acreditem ser melhor viajar
num carro tão tosco e feio como um Trabant do que numa BMW. Mas
consumir e utilizar esses produtos é uma forma de recordar o passado
e também de auto-afirmação frente aos ocidentais.
Ao mesmo tempo em que os do Leste se
sentem desprestigiados, os antigos alemães ocidentais também se
perguntam se o preço da reunificação não foi alto demais. Afinal, a
economia alemã sofreu (especialmente via aumento da dívida pública)
para subsidiar o leste e são os alemães do Ocidente que pagam, com
seus impostos, a transformação do Oriente. Depois, os migrantes
orientais que se dirigem ao Ocidente disputam creches, serviços
sociais e empregos com os antigos moradores, o que gera atritos
inevitáveis. Os ocidentais também se queixam que os orientais são
acomodados e pouco gratos pelos imensos sacrifícios feitos por eles.
Como prova dessas tensões dentro do povo
alemão, podemos citar dados como os que indicam a segregação
espacial entre os oriundos do Leste e do Oeste em Berlim ou que é
mais provável um berlinense ocidental se casar com um estrangeiro do
que com um berlinense oriental. Também os choques e conflitos
cotidianos de orientais e ocidentais por toda a Alemanha indicam a
tensão latente dentro da nova Alemanha.
A meu ver, não é necessário superestimar
o problema. Ninguém de bom senso diria que a situação dos
alemães-orientais na nova Alemanha é a de uma minoria discriminada
ou que eles sofrem preconceitos raciais, como os imigrantes
africanos ou asiáticos. Além disso, a sua situação econômica e
social, apesar de complicada para os padrões alemães, seria um sonho
para, por exemplo, um brasileiro.
Alem disso, o tempo tende a acalmar
esses problemas. Os indicadores econômicos mostram como, apesar das
províncias orientais ainda demandarem imensos recursos públicos nos
anos vindouros e da necessidade de décadas para que elas atinjam o
nível das ocidentais, esse processo acabará ocorrendo. Do mesmo
modo, a medida que novas gerações de alemães, totalmente educadas e
socializadas na nova Alemanha e que não terão lembranças da antiga
divisão, crescerem, o choque cultural tende a diminuir. Com o tempo,
ossis (orientais) e wessis (ocidentais) voltarão a ser simplesmente
alemães e, provavelmente, europeus.
De qualquer modo, a experiência da
reunificação alemã indica como ampla disponibilidade de recursos
financeiros e econômicos permite a transformação radical de uma
economia e de uma sociedade, mas não (ao menos não em curto prazo)
de mentalidades e perspectivas. Ela também demonstra como nem sempre
as pessoas raciocinam sempre com o econômico em primeiro plano e
que, muitas vezes, o orgulho e a dignidade pessoal vêm antes de
carros novos ou viagens a Paris. Por fim, ela demonstra como a
Europa, e o mundo, não precisam ter mais medo da Alemanha,
totalmente integrada na Europa e que, por muito tempo ainda, estará
mais voltada à si mesmo e aos seus problemas do que ao mundo
exterior.
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