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Por
LUIZ ALBERTO MONIZ
BANDEIRA
O cientista político
Luiz Alberto Moniz Bandeira é professor emérito da
Universidade de Brasília e autor dos livros "As Relações
Perigosas: Brasil-Estados Unidos de Collor a Lula, 1990-2004",
"Brasil, Argentina e Estados Unidos" e "De Martí a Fidel: a
Revolução Cubana e a América Latina". |
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O Equador e a
crise sem fim
Em 1961,
o embaixador do Brasil em Quito,
José Jobim, percebeu que
existiam
no Equador
condições propícias para a eclosão de uma revolução, como ocorrera
na Bolívia (1952) e em
Cuba (1959). A massa do povo equatoriano, composta de índios, cujo
status social era o de pária, vivia em "níveis de pauperismo
aterradores" e, sem qualquer perspectiva de progresso, não
encontraria saída para sua miséria "fora da subversão social", uma
vez que a elite demonstrava "impermeabilidade" para compreender que
uma situação como aquela não mais podia manter-se.
Com efeito, um amplo
movimento popular irrompeu, provocando a queda do José Maria Velasco
Ibarra, que resistia às pressões dos EUA para romper as relações
diplomáticas com Cuba.
A evolução dos
acontecimentos no Equador assemelhou-se, de certo modo, ao que
ocorrera no Brasil, dois meses antes, agosto de 1961, com a renúncia
de Jânio Quadros. A fim de forçar o Equador a romper relações com
Cuba, a CIA fomentara a agitação, para desestabilizar o governo de
Velasco Ibarra, embora o governo pudesse cair nas mãos do
vice-presidente Carlos Arosemena, cujas ligações com a esquerda o
tornavam tão indesejável para os EUA quanto João Goulart no Brasil.
Com efeito, foi o que
aconteceu. Velasco Ibarra caiu e quando o Congresso confrontou-se
com os chefes militares, que queriam impedir que Arosemena assumisse
o governo, as forças de esquerda mobilizaram-se e ganharam as ruas
em defesa da legalidade. As Forças Armadas cindiram-se. E o
resultado não foi o que a CIA e o Pentágono desejavam. Arosemena foi
empossado na Presidência.
O encarregado de
negócios do Brasil, Lindolfo Leopoldo Collor, em informe ao
Itamaraty, comentou que era "flagrante a dívida contraída" pelo
governo de Arosemena "com a conspiração castrista e a rebelião
esquerdista, que ajudaram a levá-lo ao poder, a preço de sangue". E
acrescentou que ele herdara "uma estrutura feudal, um país de
riqueza agropecuária presa das flutuações dos preços internacionais,
uma sociedade cheia de preconceitos contra a maioria da população de
origem indígena, um sistema de trabalho semi-escravo, uma história
responsável pela psicologia amargurada e descrente do povo",
tornando o Equador um "exemplo de processo econômico e social", que
parecia "feito sob receita para ilustrar uma ocasional perfeição de
análise marxista".
Arosemena também
recalcitrou, para não romper relações com Cuba, e foi deposto pelas
Forças Armadas, em 1963. Uma Junta Militar governou o Equador, sem
conseguir estabilizar a situação, até 1968, ano em que Velasco
Ibarra outra vez se elegeu e conseguiu completar o mandato em 1972.
A situação econômica e social do Equador, porém, não mudou muito,
desde então. Pelo contrário, agravou-se. O Equador tornou-se mais e
mais dependente dos EUA.
Abdala Bucaram, político
de Guayaquil, foi eleito presidente pelo Partido Roldosista
Ecuatoriano (PRE), em 1996, prometendo reformas econômicas e sociais
para romper o poder da oligarquia. Líder populista, personalidade
excêntrica, vangloriava-se de ser chamado "El Loco", provocou, no
entanto, enorme descontentamento e desencadeou uma onda de
protestos, após seis meses de governo, ao anunciar em 1º de dezembro
de 1996 o aumento dos preços da água, do gás, da luz e dos
telefones. O Congresso, cerca de dois meses depois, aprovou sua
destituição por "incapacidade mental", e seu presidente, Fabian
Alarcón Rivera, assumiu interinamente o governo. Jamil Mahuad, do
Partido da Democracia Popular, e Gustavo Noboa, do Partido Social
Cristão, foram eleitos pelo Congresso, em 1998.
Mahuad também não
governou muito tempo. Assessorado por economistas argentinos, tratou
de dolarizar a economia. Teve então de decretar estado de emergência
e mobilizar o Exército a fim de reprimir as intensas manifestações
da oposição, apoiadas pelos sindicatos e pela Confederación de
Nacionalidades Indígenas del Ecuador. O Banco Central do Equador
aprovou o plano de dolarização em 10 de janeiro 2000, e Mahuad, no
dia 15, apresentou-se ao Congresso para defender as leis necessárias
à sua implementação. O estado de emergência, contudo, não pôde
conter a insurreição dos indígenas (4,2 milhões em uma população de
12 milhões), à qual aderiram os sindicatos e partidos políticos, que
exigiam a renúncia de Mahuad, dos deputados e do Judiciário. E, em
21 de janeiro, um grupo de coronéis, liderados por Lucio Gutiérrez,
levantou o Exército, em apoio às comunidades indígenas. Mahuad, ao
perceber que não mais tinha condições, refugiou-se em uma base
militar, embora declarasse que não renunciaria. Os indígenas e os
militares ocuparam os edifícios públicos, as sede dos três Poderes
em Quito, e Antonio Vargas, líder indígena, proclamou a dissolução
do Congresso, bem como da Suprema Corte, anunciou a remoção de
Mahuad da Presidência, a formação de um "parlamento popular", e
instituiu uma Junta de Salvação Nacional, com a participação de
Gutiérrez.
O Conselho Permanente da
OEA logo se reuniu para a aplicar sanções previstas pela na cláusula
democrática, e os EUA ameaçaram cessar toda a assistência econômica
e militar, caso um regime inconstitucional fosse instalado no
Equador. A Junta de Salvação Nacional não pôde resistir. Os EUA, o
maior parceiro comercial do Equador, absorviam cerca de 39% de suas
exportações e forneciam pelo menos um terço de suas importações.
Em tais circunstâncias,
os militares sublevados recuaram. A pressão dos EUA compeliu a Junta
de Salvação Nacional a dissolver-se e, após intensas negociações
entre indígenas, militares e líderes políticos, com a participação
dos americanos, o Congresso, em 22 de janeiro, reuniu-se em
Guayaquil e reconheceu o vice-presidente Gustavo Noboa como sucessor
de Mahuad.
Mais de 30.000
indígenas, que entraram em Quito para reclamar a destituição de
Mahuad, voltaram aos seus povoados, nas montanhas, com as mãos
vazias. Perderam na mesa das negociações o que haviam ganho nas
ruas. Noboa confirmou o projeto de privatizações e efetivou a
dolarização da economia, em março de 2000. E o Equador, com a
economia dolarizada e o aeroporto de Manta elevado à condição de
importante base militar, tornou-se o centro das operações militares
dos Estados Unidos na Amazônia. Porém, como o general Charles E.
Wilhelm, comandante-em-chefe do Southern Command dos EUA,
reconhecera no Senado americano, no Equador como em outras nações
situadas na sua área de responsabilidade, a América do Sul, "a
democracia e as reformas de livre mercado não trouxeram resultados
tangíveis para o povo".
A eleição do coronel
Lúcio Gutiérrez para a Presidência havia acendido a esperança de que
ele realizasse um governo como Chávez na Venezuela. Ele, porém,
acomodou-se. Manteve a mesma política de seus antecessores, e caiu.
Haverá outros capítulos. |
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