A destruição do meio ambiente
– uma tendência irreversível?
A
entrada em vigor, no último dia 16 de fevereiro de 2005, do
Protocolo de Kyoto – o acordo internacional que pretende reduzir
as emissões dos gases (principalmente o gás carbônico, CO2, e o
metano, CH4) que levam ao aquecimento terrestre –, proporciona o
ensejo de passar em revista a trajetória da questão ambiental nas
últimas três décadas.
Um breve
retrospecto, desde a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre
Meio Ambiente, realizada em Estocolmo (Suécia) em 1972, até a 10ª
Reunião das Partes das Nações Unidas (CPO – 10), realizada em
Buenos Aires em dezembro do ano passado, revela parcos resultados
concretos conseguidos à luz do imenso esforço retórico e dos
inúmeros documentos escritos e publicados sobre o tema. Essa
situação vem, indubitavelmente, criando um clima de pessimismo
entre os “tomadores de decisão” e a opinião pública quanto à
eficácia do processo internacional de seminários, conferências,
projetos e políticas de meio ambiente.
Decorreriam vinte anos entre Estocolmo
e a Segunda Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e
Desenvolvimento Sustentável – a CNUMAD ou Rio- 92 –, considerada o
maior momento e apoteose do ambientalismo mundial. A conferência
do Rio de Janeiro contou com a participação maciça de chefes de
Estado e milhares de representantes de organizações não
governamentais (ONGs) reunidos em um clima caracterizado pelo
multiculturalismo e voluntarismo dos representantes da sociedade
civil dos quais emanava uma onda de otimismo contagiante referente
aos avanços possíveis no caminho do desenvolvimento sustentável.
O conceito de sustentabilidade havia
sido cunhado no relatório da Comissão Brundtland, divulgado em
1987, sob o título “Nosso Futuro Comum”. Os representantes dos
países concordaram com a elaboração da Agenda 21 na qual se
listavam metas e estratégias para superar os principais obstáculos
ao desenvolvimento, desde o nível local, regional, nacional e
internacional.
Passados outros cinco anos, aconteceu
a Rio+ 5 e nesse mesmo ano (1997) se realizou também a reunião de
chefes de Estado e ministros, em Kyoto, Japão, ao final da qual
foi oficialmente firmado o Protocolo de Kyoto cujos signatários se
comprometeram a reduzir suas emissões de CO2 em 5% quando
comparados aos níveis registrados em 1990. Curiosamente, tal como
em 1919, quando, sob inspiração do presidente Woodrow Wilson, foi
criada a Liga das Nações, os Estados Unidos se recusaram a
participar, também desta vez. O presidente G.W. Bush recusou-se a
assinar o Protocolo, alegando que a redução de emissões iria
prejudicar a economia norte-americana.
O recuo dos EUA enfraqueceu o
movimento ambientalista em todo o mundo, adiando por vários anos a
entrada em vigor do Protocolo de Kyoto. O texto do acordo
estipulava que ele só se tornaria efetivo quando fosse ratificado
por, pelo menos, 55% dos países signatários e que somassem 55% das
emissões totais. Como os EUA são responsáveis por 25% do total das
emissões de gases de efeito-estufa foram precisos anos até que
esses requisitos mínimos fossem cumpridos, graças à
adesão da Rússia, outro grande poluidor.
De 1997 para cá, a emissão de gases
efeito-estufa continuou aumentando aceleradamente, impulsionada
pelo crescimento econômico dos países “emergentes”,
particularmente a China e a Índia, ambos grandes consumidores de
carvão mineral.
Os alarmes periodicamente levantados
pelo Painel Internacional de Mudança Climática (IPCC), composto
por centenas de cientistas e pesquisadores não parece ter afetado
governantes e empresários. Em que pese a tentativa do Primeiro
Ministro britânico, Tony Blair, que convocou uma conferência
internacional, em março de 2005 em Londres, para chamar a atenção
do mundo para a situação dramática das mudanças climáticas e os
problemas urgentes do meio ambiente.
A contaminação do ar, das águas e do
solo, seja pela queimada de florestas, pela emissão de gases
tóxicos das indústrias químicas e de beneficiamento de minerais,
ou pelas toxinas geradas na decomposição do lixo urbano, todos
afetam profundamente os ecossistemas e o estado de saúde das
populações, mormente as pessoas idosas e as crianças. Entretanto,
a questão do bem-estar e de qualidade de vida não pode ser
reduzida aos problemas ambientais apenas. Estes estão ligados
inextrincavelmente aos problemas de saúde pública e coletiva, às
condições inadequadas de moradia e falta de saneamento, de água,
energia e outros serviços básicos.
Devemos considerar o meio ambiente
como o espaço produzido e transformado, muitas vezes destruído e
reconstruído pelos atores sociais, em nível local, nacional e
internacional. Por ser um processo que permeia todas as atividades
humanas, despertando acirradas discussões e conflitos de
interesses, repercute no cenário social e político das nações e
nas relações internacionais.
O estudo recentemente divulgado pelo
IPCC apontou para um cenário apocalíptico em conseqüência do
aquecimento global. O efeito estufa estaria estreitamente ligado
ao aumento da ocorrência e intensidade de inundações e secas,
ambas resultando em redução das reservas de água potável. O
aquecimento da atmosfera provoca também o aumento da mortalidade
de idosos e crianças em decorrência do crescimento dos casos de
doenças pulmonares e do aparelho digestivo. Contudo, a maioria dos
governos, pressionados por poderosos interesses econômicos,
procura postergar e protelar a adoção de medidas de precaução e de
prevenção, baseadas em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias
alternativas.
No Brasil, continua a ocupação
predatória da floresta amazônica, estimulada pela produção e
exportação de soja, carne, milho, algodão e, sobretudo de madeira.
Poderosos interesses corporativos e seus grupos de pressão
(madeireiros, criadores de gado, donos de frigoríficos) se aliam
para pressionar o governo no sentido de relaxar a fiscalização e
as exigências de licenciamento ambiental, argumentando que estes
constituem obstáculos ao crescimento econômico e das exportações.
Enfim, ao desenvolvimento do país.
Na COP–10, em dezembro passado, cada
um dos países participantes apresentou um inventário de suas
emissões de gás carbono na atmosfera. No Brasil, conforme vimos, a
maior parte dessas emissões se deve à derrubada e queimada da
floresta amazônica para dar lugar a supostos projetos em grande
escala de desenvolvimento da pecuária e de cultivo da soja. A
dificuldade de lutar contra o desmatamento decorre, entre outros
motivos, dos generosos financiamentos conseguidos pelos grandes
plantadores de soja no Mato Grosso do Sul junto ao Banco Mundial,
sob a argumentação o agronegócio contribue para o desenvolvimento
brasileiro.
Os custos sociais e ambientais das
atividades extrativistas e agrícolas não são compilados, muito
menos compensados A poluição de rios, lagos e águas litorâneas por
agrotóxicos, mercúrio, chumbo leva à deterioração da qualidade de
vida de pequenos agricultores, pescadores e populações indígenas,
expulsos de seu habitat natural, sem possibilidades de retorno.
Embora tenha assinado o Protocolo de
Kyoto, em 1987, o Brasil não foi incluído no grupo Anexo I – os
países industrializados que precisariam reduzir suas emissões de
gases causadores de efeito-estufa durante o primeiro período de
vigência do acordo. Entretanto, junto com a China, Índia e África
do Sul, países “emergentes” de industrialização recente, o Brasil
está sendo pressionado a adotar medidas mais concretas para
reduzir suas emissões, durante o segundo período.
Uma grande interrogação pesa sobre o
comportamento desses países “emergentes” que pleiteiam o direito
de poluir mais, acima da quota de 5% sobre as emissões de 1990. O
argumento é falacioso porque se, de um lado, confere às empresas o
“direito” de poluir sem incorrer em sanções, por outro condena as
populações a sofrimentos intermináveis.
Os primeiros dois anos de governo Lula
revelaram um enfraquecimento do Ministério do Meio Ambiente no
seio do próprio governo e perante a opinião pública. Devido a uma
campanha bem orquestrada na mídia, os ambientalistas e suas
exigências de licenciamento ambiental prévio de projetos e da
apresentação do EIA/RIMA antes de se concederem financiamentos a
projetos de infra-estrutura e de “desenvolvimento” são
considerados um estorvo ao crescimento econômico e ao “progresso”.
A realidade nua e crua deste progresso
é retratada pela cadeia infernal de desmatamentos e queimadas,
seguidos de plantio de soja e algodão geneticamente modificados e
criação de gado para exportação de carne. As queimadas de vastas
extensões da floresta amazônica e do cerrado, e as quase 200
milhões de cabeças de gado são responsáveis pela maior parte de
emissões de CO2 e de CH4 (metano), principais causas do
efeito-estufa e do aquecimento global.
Estudos e pesquisas com base em
modelos matemáticos indicam que mesmo se houvesse estabilização da
emissão e concentração de dióxido de carbono na atmosfera no nível
atual, os efeitos destrutivos seriam irreversíveis nas próximas
décadas...