|
Por
PAULO ROBERTO
DE ALMEIDA
Doutor em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política externa do Brasil

|
|
A
cultura da esquerda
Sete pecados
dialéticos que atrapalham seu desenvolvimento
Prólogo
necessário:
Faço parte
daquilo que poderia ser classificado, à falta de melhor definição,
como “cultura de esquerda”, algo suficientemente disseminado no
Brasil para obrigar-me aqui a maiores elaborações sobre seu conteúdo
específico. Talvez eu devesse dizer que pertenço hoje bem mais à
“cultura” do que à “esquerda”, et pour cause: adjetivos desse
tipo, one-sided, são em geral reducionistas ou
simplificadores e os maniqueísmos que usamos na vida corrente não
estão adaptados aos matizes da realidade e a uma visão abrangente
dos processos sociais, sempre complexos em sua totalidade.
Dicotomias como “esquerda” e “direita” são partes de um todo, mas
relutam em abrigar as particularidades que não se encaixam em seus
moldes pré-concebidos.
Sem maiores
considerações terminológicas ou metodológicas, pretendo listar e em
seguida discorrer sobre o que considero serem os sete grandes
pecados da cultura da esquerda, características pouco defensáveis e
que parecem atrapalhar sobremaneira seu desenvolvimento e sucesso
público. Alguns desses pecados são “veniais”, como a visão
popularesca da cultura e da vida social, outros são “mortais”, como
a ojeriza ao mercado ou a objeção à democracia simplesmente formal,
mas todos eles me aparecem como “inutilidades históricas” ou
“relíquias bárbaras” que já deveriam ter desaparecido do discurso da
esquerda, se é verdade que ela pretende se colocar como alternativa
credível de poder e de administração pública.
Quais são,
afinal, esses “pecados dialéticos” que afligem a esquerda, no Brasil
e no mundo? Listei apenas sete, como os sete pecados capitais, mas
eles poderiam ser mais. Contentei-me, no momento, com estes sete,
mas aceito sugestões “amplificadoras”.
1. A esquerda é
estupidamente anti-mercado.
2. Ela é
(falsamente) igualitarista.
3. Ela se
posiciona contra a “democracia formal”, preferindo a “democracia
real”.
4. A esquerda é
geralmente estatizante (o que é, realmente, uma pena).
5. Ela é
anti-individualista, preferindo os “direitos coletivos”.
6. Ela é
tristemente populista e popularesca.
7. Também
costuma ser voluntarística e anti-racionalista.
Voilà:
feita a listagem dos pecados “dialéticos” que julgo identificar na
esquerda, certamente atribuídos a uma história de lutas que remonta
ao século XIX (mas que ela se esqueceu de atualizar para nossos
tempos de globalização), vejamos como explicar cada um deles e,
quiçá, contribuir para sua superação.
1. Anti-mercado.
Eu disse que a
esquerda é “estupidamente” anti-mercado, e tenho, infelizmente, de
reforçar o adjetivo estúpido, pois isso constitui um flagrante
atestado de incoerência e de irracionalidade da parte de um grupo
que, supostamente, cultiva as boas virtudes do método dialético.
Trata-se, porém, de uma atitude muito freqüente no meio acadêmico e
comum às várias vertentes do movimento. Ela deriva de um preconceito
original, filiado geneticamente ao velho barbudo, mas que sempre
constituiu o mais grave pecado que prejudicou terrivelmente a
carreira da esquerda em todo o mundo. Suas conseqüências foram
verdadeiramente trágicas, pois que não apenas redundaram em inúteis
sofrimentos sociais, incompreensíveis inconsistências econômicas,
além de catastróficos atentados aos direitos humanos nos vários
países nos quais experimentos de esquerda tentaram “corrigir” as
chamadas “insuficiências do mercado”, como elas continuam a
obstaculizar os progressos da esquerda em direção a uma
administração mais racional das “coisas”.
Mercados (e
moedas) são antiqüíssimas instituições humanas – ou melhor,
“societais” – que muito contribuíram para “empurrar” as sociedades a
patamares mais avançados de organização social da produção e de
distribuição de bens e serviços. São não apenas indispensáveis como
insubstituíveis, já que permitem operacionalizar, na prática, a
velha lei da oferta e da procura, sinalizando o encontro de
produtores e de consumidores, mediante esta outra instituição
intangível, mas tremendamente real, que se chama “preço”. A esquerda
pode até não gostar da lei da oferta e da procura, mas ela não tem o
direito de negar sua realidade social e sua validade histórica. Ela
pode também achar que a sociedade estaria mais bem organizada
segundo o princípio vagamente utópico que proclama, seguindo Marx na
sua “Crítica ao Programa de Gotha” (da social-democracia alemã do
século XIX), “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo
suas necessidades”.
De fato, a
ojeriza da esquerda contra os mercados deriva diretamente de Marx,
pois ela não é típica de outras correntes socialistas (como as
proudhonianas ou auto-gestionárias, por exemplo), e provavelmente se
explica pelos horrores da exploração do trabalho durante a primeira
Revolução Industrial, dos quais Marx tinha conhecimento pela leitura
de relatórios oficiais britânicos e pelo livro de seu amigo Engels
sobre a situação da classe trabalhadora na Inglaterra (não consta
que ele jamais tenha adentrado numa fábrica). O pecado original está
aí: Marx concluiu, de modo hegelianamente falso, que o vilão da
história era essa instituição singular e onipresente chamada
“mercado”, e não um fator real e diretamente responsável, chamado
“mercado laboral”, então, e ali na Inglaterra, caracterizado pelo
“excesso” de oferta de trabalhadores, o que deprimia o “preço de
mercado” dos trabalhadores em questão. Concluindo pela perversidade
natural dos mercados, Marx recomendou sua abolição, mas ele o fez de
modo puramente teórico, sem maiores conseqüências para a humanidade.
Em todo caso, mesmo em sua época, economistas como John Stuart Mill
e Vilfredo Pareto já tinham criticado as posições de Marx sobre a
“extração de mais-valia” como inexeqüíveis e irracionais, mas a
esquerda se “esqueceu” de ler esses críticos do profeta maior.
As coisas se
complicaram quando Lênin, um gênio em política mas um inculto em
economia, resolveu concretizar as poucas idéias vagas de Marx sobre
o funcionamento de uma “economia socialista”, na sua concepção
podendo prescindir dos mercados. Não deu outra: foi um desastre
completo, tanto que ele resolveu, rapidamente, voltar a aceitar o
funcionamento parcial dos mercados, na chamada NEP, a “nova economia
política”. Mas, mesmo nesse regime, as grandes fábricas foram
nacionalizadas, burgueses e latifundiários foram devidamente
expropriados e se começou a lançar as bases do “planejamento
econômico socialista”, algo que Stalin aperfeiçoaria tremendamente
alguns anos depois, com os custos humanos que se conhecem.
Desde o início,
entretanto, um economista “liberal” como Ludwig Von Mises advertia
para a impossibilidade de funcionamento de uma “economia socialista”
naquelas bases, pela ausência do mecanismo absolutamente
indispensável ao cálculo econômico: a fixação dos preços via
mercado, ou seja, a velha lei da oferta e da procura. A esquerda
também preferiu ignorar essas advertências e seguiu construindo o
socialismo a seu risco e perigo. Deu no que deu: um imenso
desperdício de “forças produtivas”, uma coerção absolutamente
inimaginável, em termos históricos, das “relações de produção”, e
uma ausência notável de progresso econômico sob aquele “modo de
produção”, em virtude dos reduzidos (ou inexistentes) incentivos à
inovação tecnológica, em vista da recusa de “riqueza proprietária”
(ou de acumulação em bases individuais).
Podemos até
compreender, e de certa forma aceitar, que tais erros tenham sido
cometidos no passado, uma vez que até mesmo “engenheiros sociais” de
espírito e vocação eminentemente capitalista (e até mesmo
aristocrática), como Saint Simon por exemplo, puderam incorrer na
ilusão de que mercados e sistemas produtivos pudessem ser
organizados pelos homens de maneira mais “racional” do que aquela
permitida pelo simples funcionamento da lei da oferta e da procura.
O inacreditável é que, ainda hoje, pessoas que se consideram de
esquerda – mantendo, portanto, certo comprometimento com o progresso
social e o bem estar das pessoas – mantenham o preconceito
totalmente equivocado contra o mercado alimentado pelos pais
fundadores do marxismo. Marx certamente cometeu um erro, Lênin
persistiu no equívoco e Stalin simplesmente acumulou crime sobre
crime, ao pretender fundar uma nova economia na ausência total de
mercado e de sinalização de preços. O fracasso só poderia ser
completo.
Tanto isso é
verdade que os primeiros experimentos de “reforma socialista”, no
pós-Segunda Guerra, inspirados por economistas que tinham vivido sob
o capitalismo como Oskar Lange, pretenderam introduzir mecanismos de
mercado na “economia planejada”, voltando a utilizar os preços como
sinalizadores do cálculo econômico. Não deu muito certo, nem naquela
época, nem posteriormente, em tempos de glasnost e
perestroika, uma vez que a autonomia operacional e gestora
requerida pelos mercados, com livre disposição dos bens em função do
custo de produção e apropriação de renda segundo as oportunidades de
mercado, revelou-se incompatível com o monopólio partidário exercido
por uma nomenklatura que se apropria do processo de decisão
sem medir a raridade relativa dos fatores de produção e organizando
ela mesma a distribuição, segundo critérios não econômicos de
“mérito”.
Esse desastre
conceitual se perpetua ainda hoje pelo simples fato de que os
principais produtores e disseminadores de “conhecimento”, que são os
professores da rede pública, em especial os universitários, mantêm a
ilusão (e o auto-engano) de viver à margem do mercado, pois que eles
recebem sua paga independentemente dos seus níveis de produtividade
relativa. Esta é uma das muitas distorções do serviço público, mas
que sempre são sancionadas pelo mercado e pelos preços (neste caso
indiretamente, via retorno social dos investimentos feitos ou gastos
incorridos no sistema de ensino público), independentemente do que
possam pensar tais “disseminadores” de cultura anti-mercado.
O preconceito da
esquerda contra os mercados, e seus sinalizadores, pode até ser
aceito no pequeno mundinho semi-produtivo da cultura universitária,
mas ele se revela absolutamente catastrófico quando transmutado para
o terreno das políticas públicas, em especial as de cunho
diretamente econômico. A pretensão de certos intelectuais, em geral
diretamente saídos do mundo universitário, de organizar a sociedade
e a economia em bases “socialmente justas”, isto é, “corrigindo as
imperfeições dos mercados”, traduziu-se em desastres incomensuráveis
do ponto de vista da riqueza social, o que geralmente se refletiu na
“desacumulação”, no “desinvestimento” e em manifestações mais
prosaicas como fuga de capitais, alocação sub-ótima (senão
totalmente errada) de recursos escassos e assistencialismo
inconseqüente do ponto de vista da produtividade do trabalho humano.
Os
“intelectuais” que assim procedem pensam que seu trabalho de
“planejador” é pago com “recursos públicos”, quando a única fonte de
riqueza, em qualquer sociedade, é o trabalho diretamente produtivo
dos agentes econômicos que possuem ou manipulam fatores de produção
(e a administração estatal não é um deles, muito menos o ensino
universitário, ainda que este possa contribuir para “acumular
conhecimento”, base do progresso tecnológico). Em todas as
instâncias de geração de riquezas, repito “em todas”, os mercados
são absolutamente indispensáveis para o bom funcionamento do
mecanismo econômico da sociedade. Pretender ignorá-los, e a seus
sinalizadores imediatos que são os preços, constitui uma atividade
de imenso risco social, como aliás já deveríamos ter descoberto aqui
no Brasil. A esquerda precisaria refletir sobre isso.
2.
Igualitarismo.
A esquerda é
igualitarista, o que é compreensível: isso faz parte de seu credo
evangelizador e legitima o discurso político pelo qual ela pretende
conseguir adeptos e ter sucesso social. O mesmo ocorre com outros
cultos ou mesmo religiões inteiras: pregar a simplicidade na vida,
uma partilha eqüitativa dos bens e um usufruto razoavelmente
equilibrado dos recursos disponíveis sempre soou como disposição de
bom senso e de inegável mérito humanitário. Mas, e sempre tem um
mas, existe um problema aqui: não existe almoço grátis, como reza
uma velha arenga, e se você está se alimentando de graça é porque
alguém está pagando por isso. Em outros termos, como não existe maná
dos céus ou uma cornucópia infindável jorrando alimentos a partir do
nada, os recursos escassos têm de ser organizados para servir a fins
socialmente úteis.
A sociedade
humana inventou uma outra instituição tão velha quanto os mercados e
as moedas para tentar organizar essa escassez relativa: a
propriedade. Ela é apropriada individualmente (sempre quando isso é
possível) porque a fonte de toda a riqueza é o trabalho humano –
como ensinavam Adam Smith e Marx – e se supõe que as instituições
estatais (que também surgem muito cedo na história das sociedades)
respeitem esse princípio da “acumulação individual”. Quando isso não
ocorre é mais do que provável que não haverá um incentivo à
acumulação e, portanto, ao aumento da riqueza social, com o que
todos serão mais pobres, mas especialmente os mais pobres dentre os
pobres, uma vez que os verdadeiramente ricos sempre distribuem um
pouco de seu patrimônio em torno de si, sob a forma de trabalho
doméstico e outros serviços “aliviadores” do seu próprio trabalho.
Mas eu disse que
a esquerda é falsamente igualitarista porque não conheço, em
qualquer parte do mundo, uma sociedade que tenha conduzido um
experimento inovador de igualitarismo radical. Aceitando-se que
alguns possam dispor de bens sem qualquer correspondência com sua
contribuição efetiva para a criação da riqueza que os sustenta, como
todas as sociedades socialistas admitem, tem-se que existe uma
igualdade para os simples iguais e um pouco menos de igualdade para
os “mais iguais”. Admitamos que estes sejam “detalhes” numa situação
distributiva bem mais complexa e tratemos daquilo que incomoda
realmente a esquerda: o excesso de desigualdade distributiva e os
absurdos da ostentação social de riqueza, por um punhado de ricos,
entenda-se, numa situação de relativa penúria para a maior parte da
sociedade.
Essa situação
realmente existe e sua origem é geralmente atribuída, pela esquerda,
ao capitalismo, aos mercados, à apropriação individual de riquezas,
ou a todos esses fatores reunidos. Passemos por cima da tremenda
simplificação que significa equacionar capitalismo a mercados,
quando o primeiro convive com os mais diferentes tipos de mercados e
se puder tenta contornar e conformar os mercados segundo seus gostos
e preferências particulares (sempre no sentido da acumulação e da
concentração). Existe, por certo, certa tensão entre “acumulação
capitalista” e distribuição de riqueza, mas as relações causais
entre uma e outra não são unívocas ou unidirecionais: um dos países
nos quais é maior o crescimento das desigualdades distributivas é
justamente a China atual, formalmente descrita como “socialista de
mercado” ainda oficialmente comprometida com a igualdade de
condições dos cidadãos. Devemos assim observar que os diferenciais
mais gritantes de distribuição de riqueza geralmente são encontrados
em sociedades muito pouco capitalistas pela sua organização e
tradição e que as sociedades plenamente ou tipicamente capitalistas
apresentam um perfil distributivo bem mais, arrisquemos a palavra,
“igualitário”.
Isto se dá
porque o capitalismo plenamente eficaz e funcional implica em
relativa “anomia” dos mercados, isto é, total “anarquia” dos
sistemas produtivos e distributivos. Em princípio, todos são livres
para produzir e vender o que desejam fabricar e distribuir, nada se
opondo à constituição de pequenas firmas ou grandes empresas que
arriscam o patrimônio de seus proprietários (e os ativos de outros
participantes, acionistas diretos ou investidores longínquos) no
livre jogo da oferta e procura de bens e serviços, triunfando apenas
o menor preço e a maior qualidade. Quando os mercados são
verdadeiramente livres, o capitalismo exerce todas as suas
qualidades de melhor sistema para criar e distribuir riquezas;
quando eles, ao contrário, são pouco livres, até o capitalismo
ostenta suas mais horrendas feições, sob a forma de cartéis e de
monopólios que distorcem a concorrência e alimentam, aí sim, o mais
iníquo dos perfis distributivos de riqueza (pois que baseado na
exploração impiedosa daqueles que foram alijados do mercado por
critérios outros que não os diretamente econômicos).
O problema da
distribuição, que está na base das vocações (e das pretensões)
supostamente igualitaristas da esquerda, deriva justamente do fato
de que ela pode ser organizada em bases que não têm diretamente a
ver com a dotação de fatores existentes num determinado sistema
produtivo. Ou seja, havendo um Estado que atua como agente regulador
e “distribuidor” de bens e serviços “públicos”, é muito provável que
os atores estatais sejam tentados a organizar a distribuição desses
bens, mesmo daqueles que não são necessariamente “públicos”, em
bases “socialmente justas”, praticando um pouco de “Robin Hood” a
serviço dos mais pobres. É até “normal” que isso ocorra e plenamente
compreensível nos termos “morais” em que o assunto é colocado pelo
discurso da esquerda (que nesse caso se confunde com as pregações
religiosas de muitos cultos). O problema começa quando se passa do
“fluxo” de riquezas para a gestão dos “estoques”.
Expliquemos mais
um pouco, pois a esquerda tende geralmente a confundir fluxos com
estoques. Os fluxos são constituídos por todo produto do trabalho
humano, sendo tanto maiores quanto forem elevados os índices de
produtividade desse trabalho. Já os estoques são simplesmente
riqueza acumulada, ativos de diversos tipos em formas por vezes não
diretamente líquidas, e que representam apropriação individual ou
coletiva. Tanto fluxos como estoques variam tremendamente, entre as
sociedades e dentro delas, dependendo da capacidade produtiva e da
maior ou menor propensão a poupar dos agentes sociais (a poupança é
uma atitude eminentemente individual, mas existem indutores estatais
de poupança “compulsória”). A poupança e o investimento são dois
elementos absolutamente indispensáveis ao crescimento da riqueza
social, e sem eles simplesmente não haveria o que distribuir, pois
que os estoques existentes seriam simplesmente dilapidados entre os
atores do jogo social.
Um dos problemas
da esquerda não é o de pretender ao igualitarismo social – o que
poderia ser até perdoado on moral grounds –, mas é o de
pretender fazê-lo atuando sobre os estoques existentes, em lugar dos
fluxos continuamente criados para aumentar a riqueza disponível. A
esquerda parece querer realmente ser “Robin Hood”, ou seja, tomar
dos ricos para dar aos pobres, quando o que ela consegue fazer, por
essa via, é incitar os ricos a esconder ou expatriar sua riqueza,
diminuindo a poupança, ou os investimentos, e em geral a ambos, o
que impede o aumento contínuo de riqueza social. Que o mundo seja
injusto e desigual, isso é conhecido desde os tempos bíblicos e até
antes disso. Que a correção dessa desigualdade – equiparada ou não a
uma “injustiça social” – possa ser feita mediante repartição dos
estoques existentes, significa que esse tipo de “engenharia social”,
quando praticada, pode teoricamente acarretar outras injustiças
individuais, irracionalidades econômicas e até mesmo certo grau de
violência social.
A melhor forma
de praticar “igualitarismo” é, portanto, atuar sobre os fluxos, isto
é, fazer com que os atores sociais possam retirar o máximo de
remuneração e de retorno social possíveis de suas atividades
diretamente produtivas (também distributivas, isto é, nas áreas que
têm a ver com a intermediação e os serviços, inclusive o ensino
público). Isto geralmente consegue-se elevando os padrões de
produtividade do trabalho humano, o que tem a ver com a capacitação
educacional e profissional dos atores sociais. Daí se conclui que a
melhor forma de se fazer uma distribuição “igualitária” das chances
de sucesso social (e de acumulação de riqueza, portanto) seria via
qualificação educacional de todos, segundo padrões universais (e
mínimos, mas quanto maiores melhor) de ensino e de aprendizado
técnico profissional. Isso se consegue por um ensino fundamental de
boa qualidade, o que geralmente é admitido pela esquerda, mas apenas
teoricamente, pois que ela prefere se dedicar ao ciclo universitário
(que pode ser tudo num país, menos universal). Quando a esquerda
admitir que a melhor forma de ajudar os “pobres”, no Brasil, seria
praticando uma revolução educacional radical (mas isso deve ser
feito essencialmente em favor dos mais pobres, que não passam do
segundo ciclo), talvez possamos começar a pensar na diminuição dos
níveis absurdamente altos (iníquos e imorais, em todos os planos) de
concentração de riqueza em nosso país.
3. A esquerda é
contra a democracia formal.
A esquerda
sempre foi contra a “democracia burguesa”, por ela considerada como
simplesmente formal, ou “vazia de conteúdo social”, com
conseqüências trágicas para as liberdades em várias épocas e
circunstâncias. O que ela pretende é uma “verdadeira” democracia,
querendo com isso dizer que todos devem dispor de igualdade de
chances, e de um patamar mínimo de subsistência, para exercer
plenamente os “direitos políticos”.
Isto é um
equívoco grave, pois é como se o conteúdo do regime político fizesse
parte de seu “envelope” social. A democracia nada mais é do que um
“método”, um conjunto de regras do jogo que se situa na esfera das
relações sociais, mas que não podem determinar, essas mesmas regras,
as formas pelas quais os membros da sociedade irão repartir as
riquezas e administrar as competências individuais, na produção de
bens e no seu consumo.
Em outros
termos, a democracia não pode ultrapassar sua vocação original, que
é a de simplesmente determinar como os cidadãos delegarão mandatos e
poderes a seus representantes para o desempenho de funções
administrativas (executivas e legislativas), técnicas (serviços
públicos), corretivas (justiça) ou defensivas. Mas todas essas
funções – e algumas outras não eventualmente compreendidas nessas
acima – são meramente redistributivas de alguma riqueza previamente
criada em outras esferas da vida social, e não podem, elas mesmas,
criar riquezas para que a “democracia” as distribua. Isso é
virtualmente impossível. Pretender o contrário seria pedir demais à
democracia.
Por isso mesmo
que a democracia deve permanecer formal, pois qualquer outra
atribuição concreta e real, no plano das desigualdades
distributivas, implicaria certo grau de “violência social” que
comprometeria as bases do regime democrático. A esquerda deveria
lutar para aperfeiçoar o regime democrático no plano da
representação – não necessariamente de tipo corporativo – e no
âmbito do controle dos recursos públicos (que são eminentemente
“privados”, como já se esclareceu) que são colocados à disposição
desses representantes para o desempenho de suas funções
eminentemente políticas (e não econômicas).
Parece óbvio,
por exemplo, que a democracia brasileira, plenamente existente no
plano das instituições, é de “baixa qualidade”, seja no que se
refere à representação – o que deriva da educação política da
população –, seja no que se refere ao exercício mesmo das funções
delegadas, muito pouco controladas pelo povo representado e,
sobretudo, se prestando a diversos abusos de forma e de conteúdo
(como o fato de que certos delegados do povo façam dessa
representação um verdadeiro negócio privado). Quanto mais formal for
a democracia brasileira, isto é, menos sujeita a injunções pessoais
e idiossincrasias das corporações em que se organiza o Estado e mais
atenta às regras da boa gestão pública, com controle social das
funções delegadas, melhor será para a população.
A democracia
brasileira não será mais ou menos “burguesa” se ela se apresentar
como simplesmente “formal”, mas ela será de melhor qualidade se esse
formalismo for capaz de diminuir ou simplesmente minimizar as
demandas particularistas – seja da burguesia, do proletariado ou de
qualquer outra categoria social – em direção de um sistema de
organização política que pretende, meramente, dispor sobre as
“regras do jogo” (na feliz definição de Norberto Bobbio), sem
avançar na definição de “direitos sociais” ou “econômicos” que podem
inviabilizar seu modo de funcionamento. A esquerda brasileira
deveria parar de pretender atribuir rótulos à democracia e
empenhar-se, tão simplesmente, em construir uma “boa democracia
formal” em nosso país.
4. A esquerda é
estatizante.
É realmente uma
pena que assim ocorra, pois que o próprio Marx não era estatizante,
pelo menos não no sentido finalista. Verdade que no Manifesto do
Partido Comunista, texto que alguns consideram a “bíblia” do
comunismo ideal – mas que não constituiu senão uma plataforma
preliminar para a tomada do poder pelos trabalhadores, escrita muito
rapidamente no início de 1848 para responder à onda revolucionária
então em curso na Europa –, várias das medidas preconizadas “para
os países mais avançados” comportam uma estatização integral de
diversos setores da economia: sistema bancário, transportes,
latifúndios e instrumentos de produção em geral. Tratava-se,
contudo, de um programa imediato de correção das desigualdades
sociais, não de uma proposta definitiva para a organização social da
produção em regime socialista, já que logo em seguida se afirmava
que “uma vez desaparecidas no curso do desenvolvimento as diferenças
de classe e concentrada toda a produção nas mãos dos indivíduos
associados, o poder público perde o seu caráter político”.
Marx certamente
não era anarquista, mas ele via o Estado como um instrumento de
dominação de classe, podendo, portanto, desaparecer uma vez superada
essa situação, como registrado nos textos posteriores à Comuna de
Paris. Ele pretendia mesmo, como confirmado por Lênin em uma de suas
últimas obras “teóricas”, o fim do Estado e, na expressão de Engels,
a “substituição do comando dos homens pela administração das
coisas”. O Estado era visto por Marx e por Engels, como também
(hipocritamente) por Lênin, como um mero expediente temporário, um
“mal necessário” na transição para uma sociedade sem classes.
Deixemos de lado essa pretendida (e ilusória) abolição da sociedade
de classes, que acarretaria a conseqüente eliminação do Estado, para
nos concentrarmos no seu papel econômico, que não é, obviamente, um
simples comitê gestor dos negócios da burguesia, como está escrito
no Manifesto.
Os socialistas
marxistas partilham, de certa forma, da boutade de Proudhon,
segundo a qual toda propriedade é um roubo. No sentido mais
especificamente marxista, a eliminação da extração de mais valia e
de sua apropriação individual pelo capitalista, por meio da
revolução proletária, deveria resultar em uma gestão coletiva dos
meios de produção, com uma administração igualmente coletiva dos
mecanismos redistributivos. Ora, não há forma mais eficiente de
fazê-lo, acredita a cultura de esquerda, do que pela intervenção
direta do Estado, uma instituição que deveria ser colocada acima das
classes e servir tão somente de instrumento temporário de
redistribuição equânime de riquezas.
Por
características próprias das sociedades modernas, o Estado acabou
assumindo um papel econômico exagerado em relação aos velhos
princípios da economia política de Adam Smith e do próprio Marx:
guerras, revoluções e outros conflitos civis, e mais freqüentemente
crises financeiras e bancarrotas industriais, acompanhados ou não de
ciclos econômicos depressivos, com alto desemprego e sofrimentos
sociais, levaram o Estado a assumir um papel incomparavelmente maior
do que o normalmente esperado numa economia de livre mercado. Por
outro lado, a forma especificamente estatizante assumida pelo
socialismo bolchevista, com a expropriação completa dos produtores
privados e o desenvolvimento do planejamento centralizado, também
contribuiu para essa concentração enorme de poderes econômicos nas
mãos do Estado moderno, algo inédito, mesmo para os padrões dos
antigos “despotismos orientais”.
Disso redundou
que, durante todo o decorrer do século XX, tanto nas sociedades
capitalistas como nas socialistas, o Estado assumiu um papel central
na organização e na gestão de diversas atividades econômicas que,
ainda que estivessem na esfera dos chamados “bens públicos”
(serviços de infra-estrutura e de comunicações são os mais típicos,
mas educação e saúde também podem ser arroladas), poderiam ser
fornecidas e garantidas em bases totalmente privadas, ou segundo a
conhecida fórmula dos mercados regulados. Com efeito, não existe
nenhuma razão racional, à exceção daqueles serviços de retorno
difuso e contabilidade aleatória – como são as atividades de defesa
e justiça –, pela qual a maior parte dos bens e serviços “públicos”
não possa funcionar em bases de mercado: a demanda por determinados
serviços, como se sabe, é desigual segundo as famílias e não há
justificativa econômica, por exemplo, para que solteiros ou casais
sem filhos paguem pela educação dos filhos de terceiros. O mesmo se
aplicaria à saúde e à maior parte das chamadas public utilities:
o critério de mercado é o que melhor se ajusta à alocação ótima de
recursos segundo a demanda, evitando desperdícios indevidos que
sempre vêm associados à chamada apropriação coletiva de serviço
públicos.
Trata-se de uma
posição absolutamente racional, suscetível de convencer aqueles que
mais deveriam prestar atenção ao bom uso dos recursos públicos, de
maneira a maximizar os ganhos de bem estar do conjunto da sociedade.
Um Estado eficiente, bom gestor dos recursos que lhe são atribuídos
pela sociedade – e sabe-se que esta possui um limite de tolerância
para a imposição tributária –, estaria em melhores condições de
prestar serviços aos verdadeiramente desprovidos de meios e
condições de prover à sua própria subsistência, ou à educação e
saúde dos familiares. Da mesma forma, uma gestão não estatal do
sistema de previdência social poderia, provavelmente, obter melhores
resultados em termos de retorno futuro, eventualmente sob a forma de
contas individuais de capitalização das contribuições recolhidas, do
que o atual sistema de fundos difusos, administrados na base do
pay-as-you-go, que coloca todos os recursos nas contas globais
do Estado, de onde eles saem segundo as necessidades momentâneas da
administração em vigor.
O culto que a
esquerda devota ao Estado, como provedor de “bens públicos”, é
absolutamente anti-marxista e, de toda forma irracional, pois que
ele não foi feito para arcar com responsabilidades gestoras que têm
uma dimensão própria e um modo peculiar de provimento, geralmente de
cunho microeconômico (como são os “mercados” já referidos,
segmentados segundo os usuários, forçosamente desiguais em suas
demandas), e que nada têm a ver com suas funções típicas –
legislativas, judiciárias ou de defesa nacional –, que seriam mais
bem desempenhadas se o Estado a elas se dedicasse de maneira mais
focada. A esquerda deveria refletir sobre essas realidades e revisar
um pensamento já por si anacrônico e responsável, nos dias de hoje,
por perdas sociais cumulativas, que só podem acarretar prejuízos
para os mais pobres, como sempre ocorre.
5. A esquerda é
anti-individualista.
Este é um axioma
do pensamento da esquerda, pelo menos desde a Revolução Francesa, ou
quiçá antes, desde alguns filósofos iluministas. Esta não é,
obviamente, a tradição do liberalismo e do utilitarismo britânicos,
dos iluministas escoceses e dos liberais ingleses. Karl Popper já
tinha feito amplos esclarecimentos sobre algumas das raízes dessa
tradição, que ele faz remontar a Platão e vem dar direto em Hegel e
Marx no século XIX. A Revolução Francesa atravessa e alimenta essa
corrente, de forma algo contraditória aliás, pois ela tinha começado
por uma proclamação sobre os direitos do homem e do cidadão, de
cunho absolutamente liberal e “burguês”. Mas a esquerda prefere
apoiar a tradição termidoriana que se manifesta com clareza em
Robespierre (seguido por Lênin quase que ipsis litteris). É a
linha dos direitos coletivos, da “razão do Estado”, que vai resultar
no Stato totale de Mussolini e outros (como Salazar, em
Portugal, com seu “Estado novo”, e nossos autoritários caboclos, que
o seguiram até meados do século XX pelo menos).
Antes disso,
Lênin já tinha manifestado sua apreciação pelos métodos de “justiça
expedita” seguidos por Robespierre. Homenageando a criação da
polícia política do novo Estado bolchevique, ele dizia, sem
hesitação: “Nós não estamos lutando contra indivíduos. Estamos
exterminando a burguesia enquanto classe. A nossa primeira pergunta
é: a que classe o indivíduo pertence, quais são suas origens,
criação, educação ou profissão? Estas perguntas definem o destino do
acusado. Esta é a essência do Terror Vermelho” (in Paul Johnson,
Tempos Modernos. Rio de Janeiro: Instituto Liberal, 1998, p.
56). Em síntese, os direitos individuais devem se anular face aos
“direitos coletivos” e a sociedade sempre tem preeminência em
relação ao indivíduo.
O problema não é
apenas filosófico ou moral, uma vez que ele tem conseqüências
práticas, segundo o tipo de política pública privilegiada pelos
indivíduos que ocupam temporariamente (por vezes de modo delongado)
o Estado. A questão é claramente exemplificada pelo caso de Cuba,
que constitui, como se sabe, um dos mais tradicionais bastiões de
luta política da esquerda brasileira. A defesa da Revolução cubana
se faz de modo integral, em bloco, sem distinguir os aspectos
meritórios da luta anti-ditatorial conduzida por Fidel Castro e seus
seguidores – contra um regime, o de Batista, enfeudado ao
imperialismo americano e praticando uma política de entrega do
interesse nacional –, de outros aspectos menos gloriosos, ligados à
repressão política indefensável contra o direito dos cidadãos
cubanos desenvolverem atividades econômicas privadas, de expressar
opiniões diferentes das do partido único ou, simplesmente, de
emigrarem, de acordo com sua consciência ou vontade própria.
O fato de alguns
expoentes da esquerda brasileira terem justificado o julgamento
sumário e o fuzilamento de indivíduos – que não eram sequer
dissidentes políticos –, simples “candidatos” à emigração, não é
apenas indefensável do ponto de vista político, mas é moralmente
abjeto e condenável sob todos os critérios. A justificativa se fez,
e se faz, a pretexto de “defesa da Revolução”, contra seus inimigos
internos e externos, ou seja, os “direitos coletivos” da sociedade
cubana – o que quer que isso queira dizer – devem se sobrepor aos
direitos individuais dos cidadãos cubanos. Triste posição essa de
expoentes da esquerda brasileira, denegando direitos humanos a
indivíduos cubanos em nome de uma ideologia e de um movimento
político.
Direitos
coletivos constituem uma categoria especial de direitos, geralmente
de natureza social ou econômica, que se somam, mas não substituem,
os direitos individuais, que são inalienáveis, segundo as
declarações universais subscritas pelo governo cubano, relativas ao
direito à vida, à liberdade de pensamento e de circulação, inclusive
o direito de dispor de sua residência. A defesa dos direitos
individuais, mesmo contra o Estado, constitui um dos mais notáveis
progressos da consciência coletiva e da própria humanidade; eles não
são simplesmente ocidentais ou “burgueses”, mas são universais. Que
novos direitos, de base coletiva, comunitária, étnica, social,
econômica ou ambiental, venham se agregar aos direitos existentes
trata-se de um progresso desejável, mas isto não pode se fazer em
detrimento dos direitos naturais dos indivíduos.
A esquerda não
pretende negar os direitos do homem e do cidadão, mas ela tende a
defender, em primeiro lugar, a soberania dos Estados e, em segundo
lugar (e a isso ligado), os direitos coletivos, que podem ser
formulados de maneira a anular os direitos individuais. Os próprios
acordos internacionais prevêem, em alguns casos, a derrogação de
alguns direitos, em caso de grave ameaça à segurança do Estado e à
defesa nacional. Sabemos, pela experiência histórica, que essa
invocação é muito facilmente feita pelas ditaduras, em casos nos
quais os direitos individuais tentam se opor ao poder discricionário
desses governos, que invocam a segurança do Estado ou algum outro
“perigo público” para denegar a observância desses direitos.
Trata-se de um claro retrocesso, que não poderia ser sancionado por
qualquer movimento político que aspira ao direito de governar um
país.
Dentre os
direitos que não são derrogáveis, segundo a Declaração Universal dos
Direitos do Homem (1948), estão o direito à vida, a prescrição da
tortura, a não-sujeição à escravidão ou servidão, a prisão por
dívida, a não-retroatividade penal, o direito de cada um ao
reconhecimento de sua personalidade, bem como a liberdade de
pensamento, de consciência e de religião. Que a igualdade, a
solidariedade, a participação no bem-estar coletivo e outros
direitos possam igualmente ser assegurados pelos Estados constitui,
sem dúvida, um grande progresso no sentido da promoção de valores
universais, mas essa promoção não pode se fazer em detrimento dos
direitos individuais.
6. A esquerda é
populista e popularesca.
Invariavelmente,
os textos da esquerda, de natureza cultural ou mesmo política, estão
repletos de frases derrogatórias das “elites” e valorizadoras das
características do povo e da cultura popular. É de certa forma
patético constatar isso, mas tudo o que vem da elite é considerado
como intrinsecamente mau, ao passo que o que vem do povo é bom, por
definição. Quando esse tipo de discurso vem das hostes da direita, é
identificado com o chamado populismo e condenado de uma penada, sem
apelação.
As culpas pelo
nosso subdesenvolvimento material, as características perversas do
modelo social brasileiro, a corrupção e o atraso são inevitavelmente
atribuídos às elites e aos seus “500 anos de dominação”. De certa
forma, isso encerra o discurso, pois que essas elites não são em
geral definidas, nem identificadas em seu perfil próprio a cada
época. Basta culpar as elites, elogiar as virtudes do povo e a
“análise sociológica” está feita. De certa forma, o antropólogo
Darcy Ribeiro foi um grande expoente desse tipo de pensamento, que
passa por progressismo de esquerda.
Ao mesmo tempo,
a esquerda não consegue perceber que ela também é de elite, ainda
que não necessariamente do poder e do dinheiro. Elites sindicais,
partidárias e intelectuais são tão elites quanto quaisquer outras,
com amplo acesso aos meios de comunicação e, eventualmente, até aos
círculos do poder, quando não conseguem, elas mesmas, assumir esse
poder, como ocorreu em outubro de 2002. Recusar essa realidade é
acreditar naquelas imagens que vêem a elite como um gordo
capitalista de cartola e charuto, sentado num monte de dinheiro, e
achar que o povo é unicamente formado por aqueles trabalhadores de
macacão com os quais a esquerda se identifica, mas, que de fato,
esse povo não se reconhece nessa outra elite, a do pensamento.
A esquerda é
dominante no establishment universitário, nos círculos
culturais, nos meios de comunicação e em vários outros ambientes
influentes na sociedade brasileira. Ela conforma, portanto, uma
elite, no sentido pleno do termo. O fato da esquerda se recusar a
ver a si mesma como elite, não lhe retira o caráter de elite, nem de
fato, nem de direito. Sua identificação com o povo é meramente
retórica, tão ou mais populista do que os discursos da direita que
pretende encarnar o “verdadeiro espírito nacional”, geralmente
centrista e conservador. Com efeito, o pensamento progressista, de
esquerda, só existe numa fração esclarecida da população, geralmente
da classe média para cima, no máximo entre alguns poucos membros da
“aristocracia operária”, que também são a elite da classe
trabalhadora.
De resto, a
condenação genérica das elites pelo discurso de esquerda é hipócrita
e mal informada, pois que não referida a uma elite concreta, mas sim
a um simulacro de elite, que só existe no pensamento da esquerda. Da
mesma forma, a exaltação dos valores do povo, de sua “genialidade”
cultural e inventividade “natural”, soa como um escárnio, aliás uma
verdadeira manifestação de elitismo cultural, pois que redundando,
igualmente, numa aceitação acrítica e condescendente dos “produtos”
populares, independentemente de seu valor intrínseco e contribuição
para o enriquecimento cultural da população. Esse tipo de atitude
termina por justificar e legitimar formas erradas de expressão oral
e letrada (por evidente incultura do “produtor popular”), que podem
até encontrar acolhimento no campo do folclore, mas jamais no campo
do conhecimento a ser promovido pelo Estado.
Ao assim fazer,
a esquerda acaba confundindo manifestações da cultura popular,
plenamente aceitáveis em seu contexto próprio e que acabam fazendo
parte do chamado “patrimônio” nacional, com a cultura formal, que
não precisa ser erudita, mas que sempre é cientificamente rigorosa e
dotada de certa lógica intrínseca, e que constitui uma condição
indispensável para a elevação cultural de qualquer povo. Os
raciocínios semi-lógicos e os exercícios de “intuição” típicos da
cultura popular, cultivados por políticos e outros demagogos, mas
que deveriam ser rejeitados por membros de uma elite intelectual e
do pensamento, como pretende ser a esquerda, constituem
contra-sensos culturais e um desserviço à causa da elevação
educacional do povo. Não há nada de mais populista ou popularesco do
que cultivar acriticamente o popular apenas pelo fato de ser
popular. Quanto à condenação genérica das elites, a esquerda deveria
olhar no espelho e fazer um sério exercício de autocrítica.
7. A esquerda é
voluntarística e anti-racionalista.
O voluntarismo,
aqui, se refere a uma suposta encarnação da vontade popular, da qual
a esquerda pretende deter o monopólio (não se sabe bem se por
direito divino). Se olharmos o registro histórico, entretanto,
veremos que as esquerdas, em suas diversas versões
político-ideológicas, estiveram muito pouco à frente de governos ou
enquanto responsáveis de políticas públicas. Esta não é uma
afirmação gratuita e sim uma simples constatação de fato: deve haver
algo de errado com um movimento que se proclama vanguarda popular,
mas que na verdade esteve muito pouco em condições de determinar
políticas que influenciaram a vida das sociedades nos últimos 150
anos, pelo menos.
Mesmo na América
Latina, que conheceu por longos períodos muitos governos de direita
que, aliás, combateram duramente (por vezes cruelmente) as
esquerdas, e onde as esquerdas finalmente chegaram ao poder ao
início do século XXI, não se observa uma mudança radical de
políticas econômicas ou mesmo de políticas sociais, em relação às
políticas e práticas anteriormente adotadas. Observa-se,
incidentalmente, nos países que elegeram dirigentes de esquerda, uma
forte retórica mudancista, mas, de fato, práticas cautelosas, quando
não conservadoras de administração da “coisa pública”. As próprias
esquerdas são conscientes desse fato, pois elas são as primeiras a
protestar contra a não-mudança, em ruidosas manifestações de rua e
em incontáveis manifestos de intelectuais.
O que acontece,
na verdade, é que se as propostas e sugestões de políticas que são
oferecidas nessas manifestações e manifestos fossem submetidas a
referendo popular elas seriam fragorosamente derrotadas. Por outro
lado, os movimentos de “esquerda” que foram eleitos tiveram sucesso
pelo fato mais prosaico de terem revertido um discurso vazio e uma
retórica oca que prometia “grandes mudanças”, em prol de uma
abordagem mais realista e cautelosa das políticas macroeconômicas e
setoriais. Como as esquerdas “intelectuais” dispõem de ampla
audiência nos meios de comunicação, elas tendem a acreditar que seu
discurso mudancista, pela via da ruptura, é aceito pela sociedade,
quando na verdade ele se move em círculos auto-concêntricos, falando
para seus próprios convertidos. Quanto às esquerdas “práticas”, elas
já se converteram, de modo subreptício, à social-democracia,
praticando, sem dúvida, um discurso mudancista, agora pela via da
reforma paulatina, mas sobre isso elas calam, têm vergonha ou
hesitam em confessá-lo.
Isso nos remete
ao segundo conceito selecionado neste sétimo (e último, até aqui)
“pecado dialético” da cultura da esquerda: o anti-racionalismo. A
esquerda se pretende aberta ao debate público e às controvérsias em
torno de questões políticas, sociais e econômicas, mas isso
habitualmente se dá no plano mais geral das questões atinentes à
própria sociedade nacional e aos problemas internacionais, ao passo
que, no terreno das idéias, ela é sabidamente autista e infensa ao
debate público sobre suas próprias posições. O que é isso senão, de
fato, anti-racionalismo?
Antes que alguém
me acuse de má-vontade em relação às idéias da esquerda, se o
conceito se aplica, gostaria de trazer dois pequenos exemplos em
apoio ao argumento. Tenho sido um leitor habitual e freqüente das
publicações da esquerda, nos últimos 40 anos, pelo menos (confesso
que com crescente cansaço em relação a certa sensação de déjà vu).
Se eu fizesse uma tabulação das matérias mais relevantes e dos temas
mais freqüentes nessas revistas (agora boletins eletrônicos) os
campeões absolutos seriam, pela ordem: a crise do capitalismo, a
agressividade do imperialismo, a nocividade das políticas sociais e
econômicas “burguesas” do ponto de vista dos interesses populares e,
mais recentemente, a condenação absoluta do “consenso de Washington”
e do neoliberalismo, ambos no mesmo saco indistinto da globalização
capitalista, excludente e assimétrica. Estarei exagerando? Não
creio, pois basta consultar os títulos das matérias dessas revistas
(que me eximo de citar para não fazer publicidade indevida e
gratuita).
Gostaria que me
indicassem quantas vezes compareceram artigos fazendo autocríticas
dos próprios erros analíticos, matérias de revisão das previsões
erradas sobre a crise geral (em alguns casos final) do capitalismo,
ensaios em torno de algum (mesmo modesto) reconhecimento pela
factibilidade nula, ou marginal, das próprias propostas da esquerda
para uma solução “inventiva” dos “graves desequilíbrios econômicos e
sociais do capitalismo”, enfim, de discussão das próprias idéias da
esquerda que foram (e são) sistematicamente derrotadas nas urnas,
mesmo quando pretendem encarnar a vontade geral do povo e a “recusa
de tudo isso que aí está”. Esses exemplos são mínimos, ou
simplesmente inexistentes, pois o tom geral é de condenação das
idéias dos outros, não de reconsideração das suas próprias idéias.
Mais uma vez: gostaria que me contestassem.
Dentre os cinco
exemplos práticos apontados como representando um avanço das idéias
da esquerda latino-americana no campo eleitoral, três pelo menos
podem ser considerados como excepcionais e não representativos. O
Chile emergiu de uma transição cautelosa da ditadura e elegeu,
primeiro, um governo democrata-cristão, depois um de cunho
socialista que, ambos, voluntariamente ou porque concluíram que não
havia outro caminho, praticaram as mesmas políticas econômicas em
vigor na fase final da ditadura militar. A Venezuela ainda não se
recuperou da grave crise de legitimidade que atingiu seu sistema
partidário, totalmente desacreditado politicamente, e enveredou pelo
caminho do populismo voluntarista, que só se sustenta economicamente
graças à renda petrolífera, um maná do subsolo que representa ao
mesmo tempo uma maldição em termos de (baixa) diversificação de sua
economia. A Argentina, por fim, mergulhou num verdadeiro abismo
econômico, também por incapacidade de suas elites políticas, não
apenas “radicais”, mas, sobretudo, peronistas, e tem ainda um largo
caminho pela frente para recuperar o terreno perdido em anos de
experimentos econômicos mirabolantes.
A rigor, apenas
o Brasil e o Uruguai poderiam ser apresentados como exemplos de
legítimas transições políticas de “esquerda”, ainda que o conceito
seja duvidoso do ponto de vista das políticas econômicas adotadas
por seus dirigentes. A retórica social progressista, que conseguiu
afastar os tradicionais partidos de centro-direita do poder, ainda
não foi capaz de realizar uma verdadeira transformação das
estruturas econômicas e sociais e é mesmo duvidoso que intentem
fazê-lo, a despeito de afirmações em contrário. Obviamente, o
balanço final dos resultados concretos ainda precisa ser feito,
sendo cedo para avaliar corretamente essas experiências desses
governos de esquerda” do ponto de vista de suas próprias idéias, tal
como expostas em programas eleitorais e repetidas em incontáveis
discursos nos meios de comunicação.
Em todo caso,
abstraindo-se os exemplos da Venezuela e da Argentina, que conformam
manifestações agudas de crises gerais de seus sistemas políticos,
alimentadas também por crises econômicas mais ou menos profundas, o
único modelo de crescimento econômico, de transformação produtiva e
de progresso social na região parece ser o do Chile, não por acaso
sistemática e sintomaticamente desprezado pelas esquerdas. A razão
parece simples: se há um exemplo de país que seguiu, de modo quase
religioso, pode-se dizer, as idéias do chamado “consenso de
Washington” e as práticas recomendadas pelos neoliberais, este país
foi o Chile. Que ele venha experimentando anos e anos de crescimento
sustentado, de estabilidade macroeconômica e conhecendo progressos
reais, embora modestos, no caminho da elevação dos padrões de vida
da população, tudo isso pode ser mera coincidência, mas o exemplo
poderia incitar, talvez, os analistas de esquerda a se debruçarem um
pouco mais de perto sobre esse modelo “neoliberal” de
desenvolvimento econômico e social.
O segundo
exemplo, finalmente, de autismo e de anti-racionalismo nas esquerdas
é representado pelo chamado movimento altermondialista, que deveria
ser chamado, mais apropriadamente, de simplesmente “anti-globalizador”,
uma vez que ele recusa de modo peremptório a globalização, mas não
conseguiu, ainda, determinar qual seria esse “outro mundo possível”.
Não se tem notícia de exemplo mais patético de recusa da realidade,
como essa assemblagem de representantes progressistas e de esquerda,
reunida sob o emblema do Fórum Social Mundial, que proclama, a cada
encontro e de modo estridente, as carências da globalização
capitalista, invariavelmente descrita como excludente e
concentradora, quando todas as evidências estatísticas e factuais
vão de encontro a esses argumentos enviesados.
Um pouco mais de
modéstia, ou de simples atenção à realidade, poderia fazê-los
constatar que a globalização é eminentemente progressista, que ela
retira, sim, milhões de excluídos da miséria mais abjeta, e que seu
caráter capitalista não constitui uma marca de opróbrio ou uma
maldição, pela simples razão de que o único “modo de produção” que
restou nos supermercados da história foi o velho e duro capitalismo,
por absoluta inexistência de qualquer modo alternativo de se
organizar a produção material e a distribuição de bens e serviços em
escala mundial. Relatórios e mais relatórios, estudos empíricos de
entidades não suspeitas de colusão ideológica com os capitalistas
triunfantes de Wall Street têm demonstrado suficientemente as
transformações benéficas – que tendem largamente a superar os
impactos negativos – da globalização capitalista, mas isso não
parece comover de nenhum modo os antiglobalizadores mais enragés.
Que um “outro
mundo” seja possível não é de se descartar, embora isso pareça pouco
provável no horizonte histórico previsível, mas os
antiglobalizadores podem até fazer um esforço teórico adicional para
expor de modo mais concreto sua configuração precisa, em lugar de
simplesmente ficar atirando pedras nas vitrines do capitalismo. Que
esses antiglobalizadores não gostem do lucro, da acumulação
capitalista e até das duras regras de mercado – como também acontece
com as “velhas” esquerdas – pode ser compreensível e mesmo esperado
em estudantes universitários dotados de indignação juvenil
anti-capitalista, mas eles estão geralmente “excluídos” da economia
de mercado pela via do trabalho direto (ainda que não deixem de ser
consumidores). Que esse tipo de crença seja alimentado também por
velhos militantes da esquerda, por sindicalistas experimentados e,
mais ainda, por políticos profissionais, aí o caso é bem mais grave,
conformando um tipo de autismo que pode ser incurável.
Voilà:
encerro por aqui meus comentários sobre a cultura da esquerda, não
sem antes lembrar que minha lista não é exaustiva. Existem, por
certo, muitos outros “pecados dialéticos” no comportamento, nas
atitudes e sobretudo nas “disposições mentais” da esquerda, mas
prefiro no momento não comentar essas outras deficiências.
Contento-me, em
contrapartida, com apontar o fato de a esquerda valorizar,
reconhecidamente, muito mais o ensino universitário do que a
educação popular, o que pode contribuir para manter o Brasil nesse
estado catatônico de indigência produtiva, dada a baixa qualificação
das massas trabalhadoras. Ora, é sabido que a única fonte de riqueza
de uma nação é a produtividade do trabalho humano, que no Brasil
apresenta índices reduzidos.
Que tal se a
esquerda operasse uma “revolução mental” e passasse a defender, de
modo resoluto, uma verdadeira “revolução” no ensino público
fundamental do Brasil? |
|

|