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Por ANTONIO OZAÍ DA SILVA
Docente
na Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo
de Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP),
do Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor
em Educação pela Universidade de São Paulo
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Anotações sobre a modernidade na obra
de Anthony Giddens
Tradição
e modernidade: continuidade e descontinuidade
O que é a tradição? “A tradição, digamos
assim, é a cola que une as ordens sociais pré-modernas”, afirma
Giddens. A tradição envolve, de alguma forma, controle do tempo.“Em
outras palavras, a tradição é uma orientação para o passado, de tal
forma que o passado tem uma pesada influência ou, mais precisamente,
é constituído para ter uma pesada influência para o presente”.
(GIDDENS, 1997: 80)
Porém, a modernidade teve que “inventar”
tradições e romper com a “tradição genuína”, isto é, aqueles valores
radicalmente vinculados ao passado pré-moderno. A modernidade, neste
sentido, expressa descontinuidade, a ruptura entre o
que se apresenta como o “novo” e o que persiste como herança do
“velho”. A modernidade expressa:
a) ruptura com a idéia de comunidade
(una e corporificada no dirigente) e passagem à idéia de sociedade
(dividida em interesses conflitantes, classes antagônicas e grupos
diversificados);
b) ruptura
com a idéia e a prática teológico-política do poder político
encarnado na pessoa do dirigente e passagem à idéia da dominação
impessoal ou da dominação racional, isto é, nascimento da idéia
moderna de Estado.
Na sociedade moderna nos encontramos
permanentemente vinculados a sistemas abstratos, isto
é, sistemas com os quais interagimos cotidianamente e que não se
dependem diretamente de um conhecimento aprofundado da nossa parte
sobre o seu funcionamento (o sistema bancário, a informática, os
recursos que envolvem uma viagem de avião são exemplos). Nestes e
noutros casos, confiamos em peritos, especialistas.
Giddens (Id.:35), define-os: “Por sistemas peritos quero me referir
a sistemas de excelência técnica ou competência profissional que
organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que
vivemos hoje”.
Nas sociedades tradicionais,
pré-modernas, a autoridade reside no território dos guardiães – os
quais fornecem as interpretações fundadas na verdade formular.
“A pessoa detentora do saber ou sábia é o repositório da tradição,
cujas qualidades especiais originam-se daquele longo aprendizado que
cria habilidades e estados de graça”, afirma Giddens (1997:104) A
legitimidade do especialista também se funda no saber, mas
este já não é seu monopólio e nem pode estar seguro de que a posse
deste garante-lhe, de maneira automática, a confiança; e, muito
menos, que sua verdade será incontestável. Sua posição enquanto
perito advém basicamente do desequilíbrio entre as suas habilidades
e informações e as do leigo. Porém, nas condições modernas, a
especialização é sempre uma possibilidade para o leigo e, de
qualquer forma, os recursos disponíveis e a circulação de
conhecimento coloca este numa posição mais vantajosa do que o
não-iniciado na sociedade pré-moderna. Como resume Giddens (Id.:
105):
1) a
especialização é desincorporadora
(abandono do conteúdo tradicional), não tem um local restrito (mas
vários), é descentralizada e se baseia em princípios impessoais;
2) não está vinculada à verdade
formular, mas à crença na possibilidade de que um saber “x” é
correto;
3) o
acúmulo de conhecimento especializado envolve processos
intrínsecos de especialização;
4) a
confiança em sistemas abstratos, sistemas peritos, não é gerada
mecanicamente pelo saber em si, pelo saber esotérico;
5) a especialização interage com a
reflexividade institucional crescente, o que pressupõe processos
cotidiano de perda e reapropriação de habilidades e conhecimentos.
O saber do especialista está ligado a um
conhecimento universalizante. Os especialistas tendem a discordar
entre si e a crítica é essencial para o seu empreendimento. Popper
observou que a ciência está edificada sobre a areia movediça, isto
é, ela não tem fundamento estável e o ceticismo metódico é o
seu princípio. A ciência precisou se impor enquanto uma verdade,
pelo menos em seus primórdios, quase tão sagrada quanto o saber com
quem ela rivalizava. Porém, com o passar do tempo, ela perdeu em
muito a áurea de autoridade que chegou a possuir. “De certa forma,
isso provavelmente é resultado da desilusão com os benefícios que,
associados à tecnologia, ela alega ter trazido para a humanidade”,
ressalta Giddens (Id.:109)
De fato, a ciência não se mostrou tão
certa e segura das suas afirmações – o que parecia verdadeiro num
determinado contexto histórico, revelou-se falso em outras
condições. Ela teve que levar em conta as incertezas e o próprio
questionamento à sua verdade, elaborados fora e dentro do seu
âmbito. Nas condições modernas, e esta é uma das conseqüências da
modernidade, essa incerteza, que gera insegurança, atinge o âmago da
experiência vivenciada, o cotidiano das pessoas. “Nas condições
sociais modernas, todos os experts são especialistas. A
especialização é intrínseca a um mundo de alta reflexividade, onde o
conhecimento local é informação reincorporada, derivada de sistemas
de um ou de outro tipo”, assinala Giddens (Id.: 110). Nos sistemas
peritos, a confiança se funda na suposição da competência técnica; é
um saber passível de revisão.
“O conhecimento especializado está
aberto à reapropriação a qualquer pessoas com tempo e recursos
necessários para ser instruída; e a prevalência da reflexividade
institucional significa que há uma contínua triagem de teorias,
conceitos e achados especializados em relação à população leiga”.
(Id.: 113)
Quem confia tem, em geral, uma atitude
fundada no ceticismo metódico, ou seja, pode retirar a sua confiança
a qualquer momento. O especialista vê-se, assim, constantemente
inclinado a reforçar o seu saber diante do leigo. Seus recursos
variam desde o preço cobrado numa consulta até a reinvenção da
tradição: Giddens (Id.: 111) observa, não sem ironia, que “os
títulos e os diplomas dependurados na parede do consultório de um
psicoterapeuta são mais que meramente informação; são um eco dos
símbolos com os quais se cercam de figuras de autoridade
tradicionais”.
Reflexividade Institucional e o
Carro de Jagrená
A metáfora do Carro de Jagrená
indica que a modernidade produziu um mundo perigoso, como um veículo
desgovernado, o qual não podemos controlar, mas também não temos
como “pular fora”. A sociedade atual é identificada a sentimentos de
desorientação e mal-estar. Estamos num período de transição, de
liminaridade.
“A modernidade é inerentemente
globalizante”, afirma Giddens. (1991: 69) A era da globalização
impõe transformações universalizantes que reconfiguram a tradição,
seu abandono ou desincorporação. O local encontra-se
de tal forma conectado ao global que influencia e é
influenciado por este. A tradição vivenciada no locus do
cotidiano, no espaço específico, é colocada em questão pela
experiência vivenciada do indivíduo no tempo e espaço global. Por
outro lado, o local também problematiza o global.
Como nota Giddens:
“Poucas pessoas, em qualquer lugar do
mundo, podem continuar sem consciência do fato de que suas
atividades locais são influenciadas, e às vezes até determinadas,
por acontecimentos ou organismos distantes”. (1997: 74)
“O reverso da medalha é menos evidente.
Hoje em dia, as ações cotidianas de um indivíduo produzem
conseqüências globais. Minha decisão de comprar uma determinada peça
de roupa, por exemplo, ou um tipo específico de alimento, tem
múltiplas implicações globais”. (Id.: 75)
Há uma interdependência cada vez maior
entre o espaço global e o local. O global tem
influência sobre as vidas individuais nos espaços locais; mas também
as decisões dos indivíduos em seu cotidiano podem influenciar sobre
os resultados globais. Esta inter-influência incide sobre as
coletividades e grupos de todos os tipos, incluindo o Estado. Todos
têm que levar em consideração essa realidade, o que pressupõe
repensar os papéis, sua reorganização e reformulação.
A modernidade nas condições da
globalização amplia tanto as oportunidades quanto as incertezas e os
perigos. Daí a sensação de mal-estar e de desorientação. O mundo
tornou-se cada vez mais um lugar inseguro e essa insegurança é
sentida pelo indivíduo em sua mais remota comunidade. A experiência
da modernidade em tempos globais colocou por terra as certezas: as
surpresas e os riscos estão sempre à espreita e o futuro parece uma
impossibilidade se pensado enquanto construção histórica a partir do
passado e do presente. A modernidade na globalização se assemelha a
uma grande e perigosa aventura, à qual, independente da nossa
vontade, estamos presos e temos que participar:
“A experiência global da modernidade
está interligada – e influencia, sendo por ela influenciada – à
penetração das instituições modernas nos acontecimentos da vida
cotidiana. Não apenas a comunidade local, mas as características
íntimas da vida pessoal e do eu tornam-se interligadas a relações
de indefinida extensão no tempo e no espaço. Estamos todos presos
às experiências do cotidiano, cujos resultados, em um
sentido genérico, são tão abertos quanto aqueles que afetam a
humanidade como um todo. As experiências do cotidiano refletem o
papel da tradição – em constante mutação – e, como também ocorre
no plano global, devem ser consideradas mp contexto do
deslocamento e da reapropriação de especialidades, sob
o impacto da invasão dos sistemas abstratos. A tecnologia, no
significado geral da “técnica”, desempenha aqui o papel principal,
tanto na forma de tecnologia material da especializada
expertise social”. (GIDDENS, 1991: 77)
As experiências do cotidiano na
modernidade globalizada vinculam-se às questões fundamentais
relativas à identidade, à percepção do “eu” e do “outro”; e, por
outro lado, envolvem múltiplas mudanças e adaptações na vida
cotidiana. Em tais circunstâncias, os indivíduos “sentem-se no ar”
e, inseguros, se apegam à tradição. Os indivíduos resistem
localmente à globalização e, simultaneamente, não podem
desconsiderá-la.
A modernidade solapa a confiança fundada
nos valores tradicionais e pressupõe um novo ambiente em que possa
se desenvolver a “segurança ontológica”, isto é, o
“ser no mundo”. A segurança ontológica “se refere à
crença que a maioria das pessoas têm na continuidade de sua
auto-identidade e na constância dos ambientes de ação social e
material circundantes”. (Id.: 95) Ela diz respeito ao sentimento que
temos sobre a continuidade das coisas e das pessoas; um sentimento
inculcado desde a infância e que se vincula à rotina e à influência
do hábito. A necessidade de “segurança ontológica” produz um novo
ambiente de confiança, como podemos observar no quadro abaixo (Id.:
104):
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