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Por
HELOÍSA
FERNANDES SILVEIRA
Professora aposentada do Departamento de
Sociologia da USP. |
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Florestan Fernandes, universidade e
MST
Agora
em janeiro, houve a festa de inauguração da Escola Nacional
Florestan Fernandes, do MST, em Guararema. Tenho fugido, por
dolorosas, dessas homenagens e é provável que nem tivesse
comparecido não fosse a insistência, amorosa mas decidida, de minha
mãe, pois ele não merecia, dizia ela, que eu não estivesse lá para
agradecer, como se fosse “em nome dele”. Compareci para ter o
privilégio de conhecer a dedicação extraordinária dos que decidiram
derrubar a muralha que tem se encarregado de isolar os despossuídos,
mas com maior selvageria ainda, os camponeses, do acesso ao saber.
Na festa bela e fraterna, li um pequeno
discurso onde afirmei acreditar que ali meu pai retornava às suas
três casas, àquelas que habitou e ajudou a construir, a casa do
saber e a casa do socialismo, mas, também, à sua casa primeira, à
casa dos seus ancestrais, à casa dos camponeses.
Homenagem do MST e discurso teriam
suscitado tantos comentários que José de Souza Martins sentiu-se
instigado a publicar o artigo “Uma escola com o nome de Florestan” (O
Estado de S. Paulo, 6/2/2005) onde pergunta se Florestan
concordaria com o “uso do seu nome”. Embora reconheça que
intelectuais mortos “não deixam porta-vozes que por eles falem, ou
que verifiquem a ortodoxia do que em seu nome é dito”, nem por isso
deixa de arrogar-se o lugar de verdadeiro representante da
felicidade ou infelicidade do meu pai: “Penso que ele não se
sentiria feliz como patrono de uma orientação em completo desacordo
com tudo o que escreveu e ensinou (...)”. Se eu falo de “retorno”
Martins prefere “segundo funeral”.
Ora, cada um pode pensar o que quiser do
MST, da escola, do nome, de Florestan e sua obra. O que não é
possível aceitar é que os argumentos partam da má-fé sobre meu pai e
seu trabalho intelectual. A principal argumentação de Martins –
contra a idéia de retorno e a favor da idéia do segundo funeral –
finca-se toda na distinção que faz entre o Florestan do “apogeu de
sua carreira como cientista” e defensor intransigente do “rigor
científico” e o articulista de jornal e dos livros de militância,
daquele que já não escreve como “cientista” mas como “consciencioso
cidadão”. Pois bem, para Martins, é esse segundo Florestan que, ao
ser homenageado, permite que o primeiro seja “usado”. “Que o nome de
Florestan Fernandes está sendo usado e manipulado por razões
político-ideológicas, eu não duvido”. Ora, prossegue, como não houve
“ruptura epistemológica” na obra de Florestan e como ele “nunca
disse para esquecermos o que escreveu”, somos obrigados a concluir
que o Florestan válido, verdadeiro, é o dele, Martins, o
“cientista”, e esse, ”não se sentiria feliz como patrono”, embora,
talvez, possa aceitar a homenagem se o MST não “ideologizar” com
sociologia militante mas prometer discutir os livros do sociólogo
científico. Para se fazerem merecedores do nome Florestan, exige
Martins, “professores e alunos” da Escola deverão ler, “de cabo a
rabo”, A organização social dos tupinambá e Os Fundamentos Empíricos
da Explicação Sociológica. Seja como conselho, advertência,
recomendação ou penitência, o que Martins já não consegue dissimular
é o próprio preconceito: “vocês (professores e alunos) que não
sabem, que ousam querer saber, vejam bem o que vão precisar saber”!
Felizmente, Martins esqueceu-se de
estender a mesma “recomendação” a muitos outros que têm ousado
homenagear Florestan Fernandes: centros acadêmicos, escolas
públicas, biblioteca, teatro, conjunto habitacional, Escola de
Sociologia e Política, Câmara e Senado Federal, etc. O que importa é
que essa própria e infinita diversidade suscita outra questão: será
que elas invocam o jovem autor do mestrado e doutorado sobre os
tupinambá, ou o professor em pleno “apogeu” da sua carreira, aos 39
anos de idade, quando escreveu Os Fundamentos, como pretende
Martins? Será que seria o “consciencioso cidadão”? Não seria o
sociólogo que publicou e militou, com dignidade e coragem, em
inúmeros movimentos libertários, especialmente, mas não apenas,
quando proletários e socialistas? Por alguma razão há de ser, mas
pouco tem a ver com os tupinambá, e nem mesmo com o
marxismo-leninismo, o fato de o seu nome sempre vir associado à
idéia de transformação social, como se o nome fosse capaz de dar voz
a um sem número de aspirações de mudança da sociedade brasileira,
essa que ele costumava batizar de capitalista selvagem.
Homenagem de um outro estatuto,
acadêmica, essa que seria mais do gosto do Martins, está sendo
realizada com as inúmeras pesquisas e dissertações sobre Florestan e
sua obra; diversas e plurais, são indicativas de que seu pensamento
continua a instigar a produção universitária. Discutível, porém,
penso eu, será concordar que a transformação da sua vida e obra em
“objeto” justifique a pretensão de preservar sua “pureza sociológica
acadêmica” tornando-o um prisioneiro do campus universitário, logo
ele que precisou lutar para se construir um destino fora da
universidade!
Florestan foi um sociólogo acadêmico de
carreira, tendo alcançado seu ápice, a cátedra. Por isso mesmo, não
se pode esquecer, nem escamotear, como faz Martins, que, após 25
anos de dedicação plena e integral à docência e à pesquisa, foi
premiado com sua expulsão da universidade, e, por isso, foi
premiado, também, com um sofrimento pessoal cuja profundidade só foi
do conhecimento e solidariedade dos amigos, como Antonio Candido,
Octavio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Pereira, mas não José
de Souza Martins. Na verdade, depois de 1969, só foi mesmo professor
da PUC de São Paulo, graças a D. Paulo Arns. Com a expulsão, houve
sim um longo e penoso período de ostracismo em que amigos mesmo, de
biblioteca ou não, além dos já nomeados, são poucos: Miguel Urbano
Rodrigues, Jaime Pinsky, Carlos Guilherme Motta, Tamás Szmrecsány,
Bárbara Freitag, Annez Troiano, Miguel Chaia, Elide Rugai Bastos e
alguns outros, mas o que importa é que o diálogo intelectual já não
ocorre a partir de uma irradiação uspiana ou, melhor ainda, não está
norteado pelo grupo da Maria Antônia, ou da chamada “escola
sociológica de São Paulo”, que, aliás, sumiu!
Da experiência do isolamento, Florestan
privilegia esse momento em que, para ele, ocorreu sua redução “ao
valor zero” quando “realmente sofri um processo de desabamento na
minha relação com o mundo intelectual” (Nova Escrita Ensaio, 1981).
Desabamento que o leva a reconhecer ter vivido, na universidade,
“uma carreira estruturalmente dividida. Num plano, fiz um tipo de
trabalho bastante avançado; no outro, fui obrigado a engolir a
saliva e o ódio. Essa visão” – estruturalmente dividida – “vai
diminuir no futuro. E não vai diminuir porque o intelectual terá
mais talento, vai diminuir porque a sociedade abre outras
oportunidades ao inconformismo político”.
Expulsão, isolamento e ostracismo – esse
sim um verdadeiro “funeral em vida” – mais que alguma “ruptura
epistemológica”, é de onde emerge o intelectual que vai publicar uma
parte considerável da sua obra, inclusive A Revolução Burguesa,
que vai mergulhar decidido na sua orgulhosa leitura das obras
completas de Lênin, para não mencionar o trabalho do articulista,
especialmente da Folha de S. Paulo, do conferencista, e da
exaustiva mas gratificante atuação como deputado constituinte,
especialmente na Comissão de Ensino da Câmara, e mais um segundo
mandato, ainda pelo PT. Se essa é obra do “apogeu” ou do “declínio”
eis aí uma de/cisão que coube ao Martins assumir.
No texto, Martins recorre a palavras
fortes como uso, antropofagia, funeral, que bem podem retornar
àquele que as utilizou. Na Faculdade, rompeu com Luiz Pereira e com
o que ainda restara da Sociologia de Florestan, em 1978; mais tarde,
com a anistia, acomodou-se muito bem à posição assumida por
Florestan e Ianni de se recusarem a requerer burocrática e
isoladamente o retorno ao Departamento de Sociologia. Ademais, se é
necessário homenagear o Florestan verdadeiro, por que não fazê-lo no
campus, onde, segundo Martins, ele esteve no “apogeu de sua
carreira”? Afinal, já se vão dez anos e José de Souza Martins nunca
se lembrou de sugerir a indicação do seu nome para alguma praça,
rua, sala ou salinha da Universidade de São Paulo!
Pena que artigos como esse de Martins só
sirvam mesmo para alimentar preconceitos pois nada querem saber
sobre a Escola Nacional Florestan Fernandes. Quem sabe ela possa
começar a realizar uma das mais fortes aspirações da vida de
Florestan: a de romper “o velho espírito elitista” que faz com que o
intelectual “tenha se acostumado a servir às elites. A universidade
prendeu-se às necessidades políticas e intelectuais das elites, das
classes possuidoras. Eles – os intelectuais – não sabem ver outra
saída, do que decorre uma simulação enorme. Isto é, uma pessoa se
apresenta como ‘muito avançada’, mas é ‘avançada’ só no terreno
verbal ou da verbalização fácil (...). No terreno prático, nem
sequer a carreira está prevalecendo, são interesses mesquinhos, de
dominação, de destruição dos outros”. |
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