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Por
JOÃO DOS SANTOS FILHO
Bacharel em
Ciências Sociais e em Turismo – Professor da Universidade Estadual
de Maringá – UEM. Professor do curso de turismo do Centro
Educacional Filadélfia de Londrina. Mestre em Filosofia e História
da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.
Aluno especial do doutorado em ciência do turismo na ECA/USP.
Fundador da Associação Brasileira de Bacharéis de Turismo de São
Paulo - ABBTUR/SP e do Instituto de Análises sobre o
desenvolvimento Econômico Social - IADES. Membro do conselho
cientifico do Boletim de Estudos em Hotelaria e Turismo – BEHT das
Faculdades Integradas da Vitória de Santo Antão. |
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A Ciência do Turismo se produz no
processo das contradições epistemológicas de seus saberes
Na academia o debate entre posições
teóricas diferentes deve ser visto como uma prática coletiva e ir
além da intenção, pois só o embate de idéias alimenta um futuro
arcabouço teórico de uma ciência do turismo.
Resumo: O objetivo
deste artigo é demonstrar que o fenômeno turístico, para ser
entendido, deve buscar, na academia e nas diferentes
epistemologias existentes de sua explicação, o respaldo para a
elaboração de políticas publicadas. Para isso, uma leitura do
turismo brasileiro demonstra erros que se repetem e persistem
até o presente, em razão da maioria das analises existentes
feitas pelo Estado não possuírem sustentação científica e por
desprezarem a história política e econômica brasileira.
Palavras-chave:
imagem do turismo, empreendedorismo, ditadura militar e turismo,
políticas públicas.
No ano de 1964, com o golpe militar,
configurou-se a “contra-revolução burguesa”, como sabiamente
descreve em sua vasta produção literária no campo da ciência
política, o amigo sociólogo e professor, Florestan Fernandes. Por
ser uns dos mais respeitados intelectuais da América Latina, junto
com outros, foram perseguidos, presos e, muitas vezes, torturados,
aposentados e forçados a deixar nossa pátria. Estudantes,
professores, intelectuais, jornalistas, políticos, compositores,
artistas e outros profissionais tiveram que procurar outros países
para continuar vivendo.
O expansionismo da repressão militar não
teve limites, atingiu a todos. Os golpistas arrasaram a
intelectualidade brasileira, expulsaram cientistas, destituíram
reitores das Universidades, colocando interventores militares ou
entreguistas civis nessas instituições:
Na Universidade de São Paulo, uma
comissão secreta formada por iniciativa do reitor Luís Antonio da
Gama e Silva produziu um documento em que propunha a punição de 44
professores e concluía “serem realmente impressionantes as
infiltrações de idéias marxistas nos vários setores universitários,
cumprindo sejam afastados daí os seus doutrinadores e os agentes dos
processos subversivos”. O sociólogo Florestan Fernandes, arrolado no
IPM da USP, escreveu uma carta de protesto ao tenente-coronel que o
chefiava na qual bradava: “Não somos um bando de malfeitores”. Como
resposta, foi preso.
Vale ressaltar que o referido reitor da
Universidade de São Paulo, no período de 27 de junho de 1963 a 26 de
junho de 1966, o professor Luís Antonio da Gama e Silva, conhecido
aliado da chamada “revolução” pelos militares golpistas, serviu-a em
dois momentos: No primeiro, como Ministro da Justiça, permanecendo
no cargo por apenas onze
dias, 4/4/1964 a 15/4/1964. No segundo, novamente como Ministro da
justiça do governo de Costa e Silva, no período de 15 de março de
1967 a 30 de outubro de 1969. Gama e Silva
ficou conhecido pela habilidade em criar os Atos Institucionais e
garantir a repressão à sociedade civil e política.
O governo militar, preocupado com a
imagem do Brasil no exterior que já era tido como país da tortura e
da violação aos direitos humanos, graças à colaboração de entidades
democráticas estrangeiras: Ongs, movimentos religiosos, partidos e
políticos de esquerda, em conjunto com a atuação de exilados
brasileiros. Criaram diversos meios de comunicação, jornais
alternativos, reportagens ilustradas com fotos sobre as torturas,
debate em rádios e televisões, como também palestras e cursos sobre
o que estava ocorrendo em nosso país, ocasionando imensa repercussão
no exterior e, naturalmente, no Brasil.
A imagem do Brasil era uma preocupação
constante dos futuros golpistas que queriam ter em suas mãos um
instrumento capaz de conter ou ocultar a crise da sociedade em todos
os seus setores. Para isso, começou-se a articular a criação de um
órgão que divulgasse a imagem do Brasil em conformidade com os
interesses do Estado, como pode ser confirmado no documento escrito
pelo primeiro presidente da Embratur:
Entre dezembro de 1960 a fevereiro de
1967, desenvolveram-se os trabalhos iniciais para implantação da
EMBRATUR. O CNTur, em pleno funcionamento, apesar da carência total
de recursos, aprovou uma série de documentos preparada pela equipe
encarregada da coordenação e implantação da EMBRATUR como empresa.
Não é para duvidar e merece pesquisa se
esse grupo acima mencionado não foi organizado no gabinete de
Golbery do Couto e Silva. Tal questionamento vem ao encontro do
quanto se tem a descobrir sobre a história do turismo brasileiro.
Paralelo a isto ou por causa disto, o movimento estudantil e os
intelectuais abraçavam os ares libertários e críticos de qualquer
processo vindo de outros continentes, o que podemos ver refletido no
excerto:
Desde 1965, começaram a se formar novos
grupos, bem fechados, no interior do movimento estudantil para
discutir as idéias de Regis Debray difundidas por Temps Modernes, a
revista dirigida por Jean Paul Sartre, e pela revista cubana Casa de
las Américas. Entre eles, os futuros criadores do jornal alternativo
Piquete, que se reuniram em torno de uma vontade comum: ser
revolucionário. Quase todos tinham origem na pequena burguesia,
sendo a maioria estudantes universitários. Fizeram-se reuniões do
agrupamento e um objetivo foi posto: ”os companheiros deveriam
conhecer a teoria e a prática das organizações de esquerda, então
existentes, ao mesmo tempo em que deveriam desenvolver sua própria
formação política e sua transformação ideológica [...].
Por isso, em 1966, o governo Federal,
atordoado com o que falavam de seus governantes no exterior, sentiu
o incomodo de ter que deixar a farda (caserna) e governar a
sociedade de civis com base na democracia e não no comando de tropas
e hierarquias, pelo menos era essa a pressão e desejo dos
brasileiros que lutaram abertamente ou na clandestinidade. Criou-se,
nesse ano, pelo decreto-lei n.º 55, de 18 de novembro do mesmo ano,
a Embratur com o objetivo explicito de coordenar o
desenvolvimento do turismo brasileiro. E, implícito de
refazer a imagem do Brasil no exterior, assim, nada melhor que uma
entidade através da qual se divulgassem as belezas naturais de um
país exótico, pró-americano cujos coronéis governantes
cinco-estrelas fossem pessoas que tivessem passado direta ou
indiretamente pelas War Colleges, dando origem à criação da
Escola Superior de Guerra – ESG.
A “contra-propaganda”, feita e divulgada
no governo militar, desencadeada pela Embratur para mudar e amenizar
a fama de país governado à base de uma ditadura fascista,
objetivava formatar a imagem da mulher brasileira, cobiçada pelos
seus atributos estéticos como a bunda, os seios e pela facilidade em
namorá-la, e mostrar as delícias do carnaval e os conhecidos
biquínis fio dental. Voltado para este aspecto, há um estudo
sobre a imagem do Brasil no exterior, desenvolvido pela professora
Rosana Bignami, em seu livro A Imagem do Brasil no Turismo.
No ano de 1970, éramos recém-nascidos no
campo do turismo profissional e acadêmico, somente em 1971, surgiu o
primeiro curso de graduação, obviamente acoplado ao ufanismo do
“milagre brasileiro”. Concomitante, as denúncias de torturas e
assassinatos de presos políticos se intensificaram e, ao mesmo
tempo, em conformidade com os militares do Brasil ame-o ou
deixe-o, uma nova nação estava surgindo.
Na verdade, um novo Brasil surgiu,
entretanto, aprofundou-se a miséria, diminui o censo – critico dos
alunos e dos professores, instalando a perseguição aos que pensavam
diferentemente dos militares. Perdemos colegas de sala de aula que
foram mortos por atuar junto à UNE; tivemos torturadores que foram
promovidos, e aqueles que perderam seus empregos de torturadores no
DOPS , em 1980, foram contratados pela FEBEM, na qual tivemos o
privilégio, junto a defensores da democracia e na defesa dos
direitos humanos, de demiti-los da entidade quando lá estava como
presidente Maria Inês Bierrenbach.
Porém, os fatos não ocorrem como se
esperava, o turismo popular era odiado o denominado farofeiro. A
elite sempre se comportou como entreguista; a classe média filha, do
golpe de 1964, propõe uma política nacional de turismo voltada
exclusivamente para o fluxo receptor de turistas estrangeiros. Para
isso, foi criada a Embratur, com a finalidade de vender uma imagem
de fetiche da realidade política, econômica e social do Brasil.
Em 2003, coadunando com a meta passada,
o governo retoma sua intenção original, transformando a Embratur num
grande “Convención Bureau, acompanhado dos cobiçados salários pagos
aos funcionários dos recém criados escritórios internacionais”.
Apesar dessas questões, avançamos
academicamente e epistemologicamente, professores e investigadores
nacionais escreveram preciosos estudos sobre o fenômeno do turismo
no Brasil. Linhas de investigação surgiram, centros de estudos foram
criados, o numero de cursos universitários se multiplicaram e esse
fenômeno se tornou objeto de estudo no meio acadêmico mundial.
Na atualidade, o Brasil já possui
quadros de pesquisadores que desenvolvem seus estudos contrapondo
epistemologias diferentes. Esse embate, quando feito com civilidade
e competência, favorece o entendimento dos saberes turístico.
Demonstrando o quanto empiricamente erramos e acertamos, de uma
coisa temos certeza, queremos nos tornar um país pólo mundial do
turismo e, para isso, a produção teórica existente sobre o fenômeno
demonstra que devemos ser audaciosos e repensar uma série de
“dogmas” que atrelam o turista estrangeiro aos perfis moldados
segundo o gosto das grandes redes hoteleiras estrangeiras. Quem
sabe, devemos ousar e propor uma Política Nacional de Turismo que
atenda e estimule o turismo interno, para, em paralelo, buscar o
turismo receptivo, Made in Brasil? E não Made in Brazil.
Para isso se tornar realidade,
necessitamos entender que a culinária nacional e “o bem-receber”, ou
seja, a hospitalidade brasileira e o processo histórico do nosso
país construíram-se em bases cosmopolitas e não necessitam de
padrões de vida importados segundo os interesses econômicos,
materiais e simbólicos dos estrangeiros. Pois, nós somos as síntese
de várias culturas como registra o imortal Darcy Ribeiro:
[...] O Brasil tem sido, ao longo dos
séculos, um terrível moinho de gastar gentes, ainda que, também, um
prodigioso criatório. Nele se gastaram milhões de índios, milhões de
africanos e milhões de europeus. Nascemos de seu desfazimento,
refazimento e multiplicação pela mestiçagem. Foi desindianizando o
índio, desafricanizando o negro, deseuropeizando o europeu e
fundindo suas heranças culturais que nos fizemos.
Nós, brasileiros, bem podemos optar pela
autonomia e pela singularidade, em razão de nossa dimensão
continental e da condição de maior das províncias neolatinas. Mas,
também, com base na democracia racial que estamos desafiados a
construir como um povo confluente de todas as raças.
Nesse sentido, lutemos para repensar um
turismo que recupere nossas raízes culturais, gastronômicas, baseado
em nossa idiossincrasia e que mostre para o mundo o jeito de ser
brasileiro em sua histórica forma de hospitalidade. Enfrentemos os
modismos importados, combatendo o estrangeirismo da forma de ser dos
hotéis que possuem a leitura de que a hospitalidade tem que ser a
mesma em todas as partes do mundo, numa globalização de um tipo de
hospitalidade que se assume universal, mas que, sufoca a diversidade
cultural, impondo uma cultura massificada, porque não dizer
etnocentrista em que o turista estrangeiro se vê obrigado a consumir
o estilo de vida Fast Food.
Pensemos numa Política Nacional de
Turismo, diferente da “existente”, cuja centralidade seja dada pelo
turista nacional e não pelo estrangeiro. Para isso, há a
necessidade de um conjunto de políticas públicas, destinado a todas
as classes sociais, em que o Estado, associado-a a iniciativa
privada, intervenha para que haja de fato oportunidades estimuladas
e o direito garantido da prática do lazer e do turismo para a
população brasileira.
A política de turismo predominante que
dá prioridade à captação de eventos internacionais, num país em que
a miséria denuncia vários tipos de fome: saúde, habitação, trabalho,
salário digno para o trabalhador, subnutrição, brasileiros que nunca
viram o mar, nunca ficaram numa pousada ou hotel ou se quer nunca
fizeram uma refeição num restaurante. Em um país, onde a classe
política pleiteia aumento salarial, na qual um trabalhador que ganha
o salário mínimo necessitaria trabalhar oito anos para obter o
rendimento mensal de um político.
Há um grande e lamentável engano na
política de turismo brasileira, então, por que não começar por
impormos nosso estilo de riqueza cultural? Que tal iniciar pelos
hotéis que seguem as preferências do Lobby americano e europeu? Quem
sabe, poderíamos iniciar por um “desmonte” no quarto de hotel, sim,
por ele, quem sabe, pelo frigorbar? Lá há de tudo, igual aos
serviços disponíveis em um hotel em Hong Cong ou em Miami:
Coca-cola, Sprite, água mineral, pequenas garrafas de Wisky,
chocolates multinacionais, batatas fritas, bolachas doces e
salgadas. Por que não substituir por produtos brasileiros como:
·
Cocadinha baiana; sucos de
marca nacional; cural, doce de goiaba e de abóbora com coco,
doce-de-leite, goiabada, assaí, queijos branco e provolone, quindim
(quem resiste a um desses?). Água-de-coco gelada, rapadura,
castanha-do-Pará, caju assado, amendoim, biju-de-coco, banana,
sorvete de frutas brasileiras, pinhão, caipirinha, pamonha, vinho
brasileiro, guaraná etc.
Tudo isso acondicionado a vácuo e
próprio para o consumo imediato com o máximo de higiene para seu
manuseio. Tecnologia estas que as empresas brasileiras possuem,
necessitando apenas aparecer a demanda.
·
Na gastronomia, esse item
é quase infinito: feijoada, acarajé, vatapá, churrasco, esfirra,
baião-de-dois, farofa-de-paçoca, cuscus, comida mineira, torresmo,
caldo de feijão, peixes de água doce, pudins, frutas tropicais,
mandioca frita, bolinho de arroz, brigadeiro, pizza, pão de milho,
carne de sol, licores de frutas, pastel, farofa etc.
É obvio que um bom chefe de cozinha, com
experiência, saberá preparar esses alimentos ao gosto do paladar do
estrangeiro e do próprio brasileiro, pois somos um país continental,
com diferentes e marcantes gostos regionais. Essa é nossa riqueza
cultural gastronômica que deve ser sentida pelo estrangeiro.
Comecemos pelo turismo do brasileiro,
dêem condições para que o povo conheça seu país e se orgulhe de ser
uma mescla de etnias que forma este imenso continente que se chama
Brasil.
Conseguimos teorizar, dentro das
universidades, sobre o turismo como uma das necessidades básicas do
homem, alcançamos produzir teorizações dentro de epistemologias
diferentes e não temos de fato um turismo voltado para os
brasileiros. Um fato pode ser constatado, ou a academia está sendo
desprezada pelo Governo ou somos ainda imaturos para criar políticas
públicas próprias que ousem ultrapassar o padrão globalizado da
hospitalidade imposta pelos grandes grupos econômicos.
As universidades públicas sofreram
materialmente e intelectualmente, e as particulares caminharam para
o mesmo jogo da inércia e desmotivação do aluno que não enxerga
facilidade no mercado de trabalho. Acrescentando um quadro de
professores mal remunerados, tudo isso cria um ciclo vicioso de
desânimo, em que doutos sábios que administram ou são proprietários
dos meios de produção das instituições educacionais, apelam para
palestras de motivação aliadas ao tônico revigorante do modismo do
empreendedorismo.
As experiências, nesse campo, demonstram
que o fator empreendedor depende da economia e políticas
governamentais para que de fato tal premissa ocorra. Entretanto, num
país em que os juros é um dos mais elevados do mundo, em que a
economia está nas mãos das transnacionais, e no qual a Embratur
caminha na contramão da história, o turismo tornou-se sinônimo de
exclusão social.
Novamente esquecemos do povo brasileiro,
e o que é mais incrível, num país governado pelo Partido dos
Trabalhadores. A quem devemos apelar, uma vez que a intelectualidade
do turismo foi excluída em quase sua totalidade e os que lá estão,
no governo, pouco podem fazer. Devemos pedir a volta do passado!
Isso nunca, pois quem por ele passou sabe que a história não se
repete, e conforme Karl Marx, quando isso ocorre, surge como comédia
e/ou tragédia. A política do turismo no Brasil sempre se repetiu,
portanto, a realidade que estamos vivendo, para uns é uma tragédia,
enquanto para outros uma comédia, a diferença consiste apenas no
estilo da peça teatral.
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