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As muitas faces do lobbying no
Brasil: corrupção, tráfico de influência ou um instrumento
democrático de representação de interesses?
O presente texto tem
como objetivo apresentar alguns resultados genéricos da
tese de doutorado intitulada
“Lobby e Representação de Interesses: lobistas e seu impacto sobre a
representação de interesses no Brasil”.
Essa tese avaliou
a
atuação
dos
lobistas
a
fim
de
investigar
sua
relação
com
os
poderes
Legislativo
e
Executivo,
com
seus
clientes
e,
sobretudo,
as
estratégias
de
ação
que
utilizam
para
alcançar
seus
objetivos.
Os dados apresentados, assim como a
identificação das estratégias de atuação dos tipos de lobbying,
foram fruto da análise das entrevistas e de material coletado nas
assessorias parlamentares de órgãos estatais, departamentos de
assuntos corporativos, entidades classistas e escritórios de
consultoria e lobbying.
Ao todo, foram empreendidas duas
entrevistas com representantes de assessorias parlamentares, duas
entrevistas com representantes de departamentos de assuntos
corporativos, cinco entrevistas com representantes de entidades
classistas e dez entrevistas com representantes de escritórios de
consultoria e lobbying, além de extensa pesquisa bibliográfica.
A discussão sobre o
lobbying no Brasil não consiste em tarefa simples, uma vez que,
apesar ser um tema presente na mídia e relativamente bem documentado
pela imprensa, não tem merecido estudos mais aprofundados e nem
despertado o interesse da academia (Aragão, 1994; Rodrigues, 1982;
Toledo, 1985).
O desconhecimento sobre
a atividade, o estigma de marginalidade que carrega, aliados à
ausência de dados confiáveis, muitas vezes desencorajam os
pesquisadores, contribuindo para manter a atividade de lobbying em
uma espécie de limbo teórico.
Normalmente, o termo
lobbying é usado como sinônimo de pressão simples, tráfico de
influência ou corrupção. Outras vezes, é tomado como prática
exclusiva de grandes corporações que utilizam seu poder econômico
para alcançar seus objetivos.
O objetivo de nosso trabalho é mostrar
que há possibilidades do exercício da atividade de lobbying sem se
utilizar da corrupção ou do tráfico de influência, pois encontramos
indícios fortes de um lobbying “legítimo” sendo executado em esfera
federal. Apresentando nossos dados, acreditamos poder trazer algum
esclarecimento sobre a atividade de lobbying no Brasil, contribuindo
para arrefecer o estigma de marginalidade que o envolve.
Entendemos
como lobbying o processo pelo qual os grupos de pressão buscam
participar do processo estatal de tomada de decisões, contribuindo
para a elaboração das políticas públicas de cada país.
Para isso,
os grupos de pressão utilizam-se de uma cadeia multi-facetada de
atividades que incluem
coleta de
informações, propostas políticas, estratégias apropriadas para dar
suporte a tais demandas, confecção de pesquisas e a procura por
aliados. A pressão é o último estágio do lobbying e geralmente
requer uma presença organizada no centro de decisões de cada país (Graziano,
1994).
Em uma sociedade
democrática, os tomadores de decisão são confrontados com uma
complexa rede de interesses e se valem das idéias e opiniões dos
grupos de pressão para subsidiarem suas decisões. Os grupos de
pressão fornecem informações confiáveis e comprováveis aos tomadores
de decisão e os mesmos transformam esses grupos em interlocutores,
convidando-os a emitir sua opinião quando necessário.
Apesar de presente na
vida política norte-americana desde o final do século XIX, o
lobbying inicia seu desenvolvimento no Brasil em meados da década de
70. Porém, apesar de não haver muito espaço para que os grupos de
pressão participassem, já que o Congresso foi extremamente
enfraquecido e o atendimento de demandas, assim como a formulação de
políticas públicas, havia se tornado atribuição do poder Executivo,
a mídia passou a chamar de lobbying qualquer atitude que tivesse
alguma relação com influência e convencimento, sem se importar com o
caráter da representação de interesses.
Como o
processo de tomada de decisões e as informações que subsidiariam
essas decisões eram muito centralizados, o lobbying que surgiu no
Brasil, em meados da década de 70, era aquele em que bastava
conhecer a figura do “amigo do Rei”.
O
resultado dessa prática foi a expansão da compra de acessos e
resultados. Conhecer ministros influentes ou militares em cargos
estratégicos era essencial para o sucesso do lobista. No entanto,
todo o processo se desenrolava na clandestinidade.
Aliado a esse fato,
durante aproximadamente quinze anos, o termo lobbying foi utilizado
quando a imprensa se referia à corrupção e tráfico de influência, o
que desgastou o termo, criando um estigma de marginalidade que,
hoje, longe de ter sido superado, ainda envolve a atividade.
O estigma
que o lobbying carrega está relacionado ao fato da atividade
aparecer associada a escândalos, a licitações direcionadas, propinas
e obras superfaturadas. E os protagonistas dessas histórias, no
Brasil e no exterior, têm sido na maioria das vezes empresas e
autoridades públicas.
Segundo Bezerra
(1999:219), há denúncias sobre o envolvimento de escritórios de
lobbying e consultoria em irregularidades, principalmente com
relação à liberação de verbas. O Jornal do Brasil de 17/01/1998, por
exemplo, publicou a seguinte matéria,
“Lobistas assediaram 45 prefeitos. Por carta ou telefonema, empresas
pediam percentual para apressar liberação de verba do orçamento do
Ministério da Saúde em 97” (apud Bezerra, 1999:219).
Esse tipo de denúncia
sobre a participação de lobistas em irregularidades reforça ainda
mais a face negativa do lobbying, e conseqüentemente, torna o acesso
a informações sobre seu funcionamento mais difícil, pois lhe atribui
um caráter de ilegalidade.
Como conseqüência desse
tipo de denúncia, o lobista seria sempre confundido pela mídia com o
profissional que oferece suborno, faz pressão indesejável, possui
contatos pessoais nos altos escalões dos poderes executivo,
legislativo e judiciário, e é aquele que corrompe. Sempre carregando
uma mala cheia de dólares, está às soltas no Congresso pronto a
comprar lealdades.
Afirma Bezerra (1999) que a atuação dos
escritórios de lobby e consultoria na liberação de verbas dos
Ministérios para prefeituras municipais e governos estaduais
limita-se à utilização da intermediação de parlamentares. Segundo o
autor, o que se vê são redes de relações pessoais atuando sobre o
trâmite dos pleitos, que envolvem Ministros, deputados, senadores,
assessores parlamentares, funcionários federais, técnicos, prefeitos
e governadores. O autor nos mostra também como as grandes
empreiteiras montam esquemas de influência para a liberação de
verbas, utilizando-se ou não dos serviços dos escritórios de lobby e
consultoria.
Para agilizar os pleitos, os
funcionários recebem presentes e dinheiro dos assessores
parlamentares e lobistas, que “acompanham” os processos do interesse
de seus clientes.
Mas, as atividades dos escritórios de
lobby não dizem respeito apenas ao “acompanhamento” dos processos.
Muitas vezes esses escritórios são responsáveis pela elaboração do
projeto e pelo encaminhamento das providências burocráticas
necessárias para o encaminhamento de processos ao Ministério. Ao
receber informações privilegiadas dos funcionários federais,
informam aos prefeitos e governadores quais verbas serão liberadas e
como devem proceder para ter acesso a essas verbas.
Ao iniciarmos nossa
pesquisa de campo, nos deparamos com essa resistência e só
trabalhamos com as informações fornecidas pelos agentes que se
assumiam como lobistas. É importante ressaltar que eles são exceção,
e não regra.
Uma de nossas mais interessantes
descobertas diz respeito à existência de um lobbying “legítimo”
atuando no Congresso Nacional, como já foi afirmado. Fomos
confrontados com uma realidade bastante diferente da
retratada nas manchetes de jornais: diversos agentes utilizando-se
do lobbying para participar do processo de tomada de decisões. Essa
descoberta nos fez ver que é possível participar desse processo
legitimamente, sem lançar mão, única e exclusivamente, da corrupção
e do tráfico de influência, como a mídia fez com que a maioria dos
cidadãos brasileiros acreditasse durante anos a fio.
A atividade
lobista
no Brasil pode
assumir
várias
formas
e
nós
as caracterizamos
em
quatro
tipos, levando
em
consideração
questões
como
origem dos
interesses,
tipo de
interesses representados,
organização dos
interesses e
origem dos
recursos utilizados.
Os
quatro
tipos
de lobbying
são
representados
pelos
seguintes
profissionais,
entidades
ou
departamentos:
a)
assessorias
de
assuntos
parlamentares
ou
Departamentos
de
Comunicação
Social
dos
Ministérios
(lobbying
público);
b)
executivos
de
relações
governamentais,
alocados
em
departamentos
de
assuntos
corporativos/institucionais das
empresas
(lobbying institucional); c)
entidades
classistas,
como
a CNI e o DIAP (lobbying classista) e d)
escritórios
de lobbying e consultoria (lobbying
privado).
O lobbying público diz respeito à
atuação de Ministérios, Empresas Estatais, Autarquias, Agências
Reguladoras e outros órgãos estatais, a fim de pressionarem os
poderes Executivo e Legislativo com o objetivo de assegurar seus
direitos ou pleitear novos. Geralmente, todos os órgãos estatais
possuem Departamentos de Assessoria Parlamentar com o intuito de
influenciar os tomadores de decisão sobre o que é melhor para o
próprio Estado, e isso acontece porque os órgãos governamentais às
vezes defendem interesses diversos e conflitantes, agindo como
grupos de pressão na disputa por verbas ou competências.
O lobbying institucional refere-se à
atuação dos departamentos de assuntos corporativos
ou institucionais das empresas privadas, os quais se dedicam às
relações com as diferentes esferas e níveis governamentais.
Como já possuíam larga
experiência no exterior, as empresas multinacionais foram as
primeiras a utilizar o lobbying institucional no Brasil. Os seus
departamentos de assuntos corporativos ou institucionais já atuavam
durante a ditadura militar. Com o período de distensão entre 1974 e
1978 e a redemocratização a partir de 1985, essa atuação foi
reforçada.
O lobbying classista
refere-se à atuação das entidades de classe, como a CNI
(Confederação Nacional da Indústria) e o DIAP(Departamento
Intersindical de Assessoria Parlamentar). Sua atuação tem como
objetivo pressionar e influenciar os poderes Executivo e Legislativo
com o intuito de defender os interesses de seus filiados. Ao
representar sindicatos e federações, as entidades de classe
deparam-se com interesses bastante amplos e muitas vezes
divergentes. É por isso que se restringem a defender apenas os
interesses que se mostram consensuais e majoritários entre seus
filiados.
Já o lobbying privado
refere-se à atuação dos escritórios de lobbying e consultoria. Os
primeiros escritórios começaram a ser abertos em meados da década de
70, porém, a atividade dos escritórios se intensificou com a
redemocratização a partir de 1985. Como a atividade não é
regulamentada e devido ao estigma de marginalidade que o
lobbying carrega, agências de publicidade, agências de comunicação,
agências de relações públicas, escritórios de advocacia e de
consultoria política atuam no setor, mas não se assumem como tal.
Dessa forma, o universo dos escritórios de consultoria e lobbying é
amplo e ao mesmo tempo muito difícil de ser apreendido.
Normalmente esses escritórios são
dirigidos por um só lobista, que imprime seu estilo no trato com os
clientes, os quais, na maioria das vezes, são empresas privadas
nacionais e em menor número, entidades de classe.
Ao
analisar o desenvolvimento do lobbying no Brasil, percebemos que
houve uma ampliação da influência lobista, porém, isso ocorre devido
ao processo de redemocratização do país, com o fortalecimento do
Congresso e uma maior transparência do processo decisório.
Entendemos como lobbying “legítimo”
aquele que se utiliza de saber especializado e representação
técnica. Suas principais estratégias de atuação são: a)
identificação do problema e do objetivo pretendido pelo cliente; b)
construção e compreensão do cenário político brasileiro atual; c)
monitoramento legislativo ou tracking; d) análise do
monitoramento legislativo; e) monitoramento político; f) criação da
estratégia de ação, que consiste em identificar como resolver o
problema do cliente, apresentando uma proposição, projeto de lei ou
emenda; traçar uma estratégia de comunicação, marcando audiências,
levando os tomadores de decisão a eventos educacionais ou visitas às
instalações do cliente; apresentando informação imparcial e
confiável, baseada em estudos acadêmicos e pareceres técnicos e g)
execução do corpo-a-corpo, estágio em que o lobista e seu cliente
devem procurar os aliados e inimigos de seu interesse, a fim de
convencê-los a contribuir para o alcance do fim pretendido.
É inegável que uma grande parte dos
agentes que acreditam estar defendendo os interesses de seus
clientes se utiliza da corrupção e do tráfico de influência, e
continuarão a fazê-lo, mesmo que a atividade seja institucionalizada
pelo Estado. Porém, nem toda a atividade de lobbying está
relacionada à utilização da corrupção ou do tráfico de influência.
Isso por que, aquele que pretende ver o seu interesse representado é
quem deve ditar o rumo da ação.
De nosso ponto de vista, o lobbying se
sobressai em relação à utilização da corrupção e do tráfico de
influência devido à durabilidade dos resultados alcançados que
permite.
Sendo assim, ao
grupo de
pressão cabe
escolher
qual o
melhor
caminho a
ser trilhado. Se
escolher o
caminho da
corrupção e do tráfico de
influência,
além dos
altos
custos financeiros, o
grupo de
pressão deve
ter
consciência
que,
toda
vez
que o
assunto
voltar a
apresentar
riscos
ou
oportunidades,
relações espúrias deverão
ser
retomadas e
mais
dinheiro será
gasto.
Portanto, o
uso da
corrupção e do tráfico de
influência,
apesar de
trazer
resultados
mais
imediatos, a
longo
prazo se
torna incerto e
perigoso.
Se
escolher o
caminho do lobbying,
além de
ser informado
rotineiramente
sobre a tramitação dos
assuntos de
seu
interesse, poderá
formular
propostas e
oferecer
seu
ponto de
vista, criando
um
canal de
comunicação
com o
governo.
Além de
estar
bem informado e se
transformar
em
um
interlocutor do
governo
em
seu
setor
produtivo
ou
área de
interesse, o
grupo de
pressão despenderá
recursos financeiros continuamente,
porém,
em
pouca
quantidade, a
fim de
ver
suas
demandas discutidas, aprovadas
ou rejeitadas de
acordo
com a
profundidade do
debate travado.
Ao
defender
um
interesse no
Congresso
Nacional, os
grupos de
pressão têm
grande
chance de vê-lo transformando-se em
leis,
que podem
regulamentar
todo
um
setor
produtivo, criando
oportunidades
ou
evitar
riscos
para
comunidades inteiras. O
resultado do lobbying, dessa
maneira, é
seguro e
duradouro,
além de
legítimo.
Sendo assim, diferentemente do que se
busca ao utilizar-se a corrupção, com o lobbying,
“(...) busca-se a
conversação detalhada, exaustiva, sempre que possível, já que sua
força reside na argumentação consistente, que perdure além do
efêmero contato entre as partes, dispensando qualquer forma de
“reforço de argumentação”, exceto o próprio peso das razões
alinhadas, podendo até se tratar de uma diferença sutil, mas ainda
assim, uma diferença (Lemos, 1988:75).
No entanto, ainda há um
longo caminho a ser trilhado para que se consiga arrefecer o estigma
de marginalidade que envolve a atividade. Houve uma série de
tentativas de regulamentação
do lobbying no Brasil, tanto por parte dos lobistas quanto por parte
do Poder Legislativo e Executivo. Porém, todas fracassaram. Esse
fracasso fica bastante claro quando nos deparamos com o desconforto
dos próprios profissionais da área com relação ao uso do termo.
A
resistência em assumirem-se como lobistas faz com que alguns
profissionais da área optem por designarem-se como consultores,
analistas políticos, profissionais de relações públicas ou analistas
de relações governamentais. Afirmam também a necessidade da
utilização de outros termos que não lobby para caracterizar a
atividade e sugerem os termos relações governamentais e advocacy.
Quanto menos ideologizada e mais
particularista nossa sociedade se torna, mais necessária se faz a
discussão em torno do lobbying, pois existe uma forte tendência de
sua consolidação em nosso sistema político, devido ao que autores
como Werneck Viana (1995) chamam de “americanização” da política
brasileira.
Apontada como saída para todos os males
relativos a atividade do lobbying no Brasil, a sua regulamentação,
apesar de
polêmica, é defendida
por
lobistas e
autoridades públicas.
Acreditamos que, pautado
por
regras
claras, o lobbying
poderia
contribuir
para a
transparência do
processo de
tomada de
decisões e que a
noção errônea de clandestinidade
também chegaria ao fim.
Porém, parece
não
haver
vontade
política
por
parte dos
parlamentares e a regulamentação da
atividade continua a
aguardar
debates
mais
contundentes,
tanto
por
parte do
poder
Legislativo,
quanto do
poder Executivo e também por parte da sociedade
civil.
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