|
Por
MARLI DELMÔNICO DE ARAÚJO
FUTATA
Aluna não-regular do
mestrado em Educação - Universidade Estadual de Maringá – PR. |
|
Breve análise sobre o toyotismo:
modelo japonês de produção
A
crise do final dos anos 1960 e início de 1970, que se estende até os
dias atuais, como afirma Antunes (1999) está relacionada,
fundamentalmente, à crise da estrutura do capital, que na tentativa
de recuperação de seu ciclo reprodutivo e resgate de seu processo
de dominação, deflagra intensas transformações no próprio processo
produtivo, pelas vias de novas formas de acumulação.
Nesse sentido um novo movimento político é criado quando bases da
direita tomam para si os discursos que até então eram considerados
de esquerda. Essa nova tendência é denominada por grupos que estudam
o materialismo histórico, de Nova Direita. Embutidos nesse “novo”
movimento político é possível verificar a existência de uma vertente
conservadora e uma vertente neoliberal.
A Nova Direita e sua vertente neoliberal, amplamente divulgada,
porém superficialmente discutida, são as formas encontradas para
redefinir as bases do processo de acumulação capitalista.
Esse movimento político traz consigo
postulados como, estado mínimo, livre iniciativa, consideram todas
as atividades como mercadorias, inclusive a educação e ressaltam a
incapacidade que a mesma apresenta de insuficiência quanto à
produção de bens para o mercado.
As tentativas de resolver os problemas
gerados pela crise do capitalismo, que fazem gerar esse movimento,
são responsáveis por modificações importantes no campo do trabalho,
como a introdução de novas tecnologias e aumento da exploração da
classe operária.
A concorrência intercapitalista e a
necessidade de marcar o domínio do controle das lutas sociais,
oriundas do trabalho, através das transformações do modelo de
produção fazem com que o mundo do trabalho sofra transformações em
sua estrutura produtiva, sindical e política. Nos países de
desenvolvimento tecnológico acelerado, a acumulação de capital se
fortificou, as mudanças tecnológicas foram inseridas no mundo da
produção fabril, provocando intensas modificações, e é possível
afirmar que, “[...] a classe-que-vive-do-trabalho sofreu a mais
aguda crise deste século, que atingiu não só a sua materialidade,
mas teve profundas repercussões na sua subjetividade e, no íntimo
inter-relacionamento destes níveis, afetou a sua forma de
ser”.(Antunes, 1999, p. 15).
Harvey (1989) afirma que essas
transformações surgem com a intensa recessão iniciada em 1973
quando a crise estrutural do capitalismo, gerada pela crise do
padrão de acumulação taylorista/fordista, faz com que o capital
mergulhe num processo de reestruturação para restaurar o seu domínio
societal. Nesse momento, instaura-se uma “guerra” entre os países
considerados super potências, pela acumulação de capital, e a
competitividade passa a ser a “arma” mais importante. O modelo de
produção industrial fundamentado no princípio taylorista/fordista,
de produção em massa, perde a exclusividade e iniciam tentativas
para superá-lo. Nesse contexto assistimos a uma nova fase de
expropriação da mão-de-obra, a chamada acumulação flexível - a
partir do modelo de produção criado pelos japoneses, toyotismo - e
junto com ela a degradação das condições de trabalho, dos direitos
trabalhistas e, conseqüentemente, dos trabalhadores.
Ao término dos anos
60 a empresa japonesa Toyota já estava totalmente dentro desse novo
modelo de produção flexível e o modelo era divulgado dentro e fora
do Japão. Os princípios ideológicos e organizacionais desse modelo
passaram a sustentar as práticas empresariais como modelo de
administração e, “[...] com a mundialização do capital, na década de
1980, o toyotismo tornou-se a ideologia universal da produção
sistêmica do capital”.(GIOVANI, 2001).
Sendo
assim objetiva-se, através do presente texto, aprimorar
conhecimentos acerca dos pressupostos desse modelo japonês de
produção – toyotismo – analisando-os, para compreender sua
influência no mundo do trabalho.
TOYOTISMO: ORIGEM E CARACTERÍSTICAS
Nos anos 50, relata Wood Jr. (1992), o
engenheiro japonês Eiji Toyoda passou alguns meses em Detroit
conhecendo a indústria automobilística americana, sistema dirigido
pela linha fordista de produção, onde o fluxo normal é produzir
primeiro e vender depois quando já dispunham de grandes estoques.
Toyoda ficou impressionado com as gigantescas fábricas, a quantidade
de estoques, o tamanho dos espaços disponíveis nas fábricas e o alto
número de funcionários. Para ele, naqueles moldes, seu país,
arrasado por um período pós-guerra, não teria condições de
desenvolver uma forma semelhante de produção.
Relatou isso quando
escreveu à sede de sua empresa dizendo que ia ser necessário uma
nova forma de organização do trabalho, mais flexível e que exigisse
menor concentração de estoques, pois sabia que o Japão possuía um
mercado pequeno, capital e matéria – prima escassos, “[...] a compra
de tecnologia no exterior era impossível e a possibilidade de
exportação era remota”.(WOOD JR., 1992).
Para conseguir
competir então, nos grandes mercados, a Toyota precisaria modificar
e simplificar o sistema da empresa americana Ford. Na procura de
soluções para esse encaminhamento, Toyoda e seu especialista em
produção Taichi Ohno, iniciaram um processo de desenvolvimento de
mudanças na produção. Introduziram técnicas onde fosse possível
alterar as máquinas rapidamente durante a produção, para ampliar a
oferta e a variedade de produtos, pois para eles era onde se
concentrava a maior fonte de lucro. Obtiveram excelentes resultados
com essa idéia e ela passou a ser a essência do modelo japonês de
produção.
O espaço para
armazenamento da produção era outro obstáculo para os japoneses, por
isso, as mercadorias deveriam ter giro rápido, e a eliminação de
estoques, ainda que parecesse impossível, estava nos projetos de
Toyoda. A partir de então, regras criteriosas foram incorporadas
gradativamente à produção, caracterizando o que passou chamar
toyotismo, (ou Ohnismo, devido aos nomes Toyoda e Ohno). Partiram do
princípio de que qualquer elemento que não agregasse valor ao
produto, deveria ser eliminado, pois era considerado desperdício e
classificaram o desperdício em sete tipos principais: tempo que se
perdia para consertos ou refugo, produção maior do que o necessário,
ou antes, do tempo necessário, operações desnecessárias no processo
de manufatura, transporte, estoque, movimento humano e espera.
A partir do
princípio acima citado, planejou-se um modelo de produção composto
por: automatização, just-in-time, trabalho em equipe,
administração por estresse, flexibilização da mão-de-obra, gestão
participativa, controle de qualidade e subcontratação. A seguir
serão abordados os conceitos fundamentados em Gounet.
A automatização é
considerada o primeiro elemento desse modelo. Trata-se da utilização
de máquinas capazes de parar automaticamente quando surgem
problemas. Assim o trabalhador que até então era treinado para
desenvolver seu trabalho em uma única máquina pode se
responsabilizar por várias, o que diminuiria a quantidade de
trabalhadores necessários numa linha de montagem, onde a autora teve
experiência de trabalho, como relata a seguir.
É uma fábrica de máquinas copiadoras e a
tarefa que é atribuída à autora consiste em prender inúmeros fios,
fixar quatro mil parafusos por dia (45 em cada máquina dependendo do
modelo), além de fixar gavetas e laterais.
O tempo exigido para a realização da atividade é de quatro a cinco
minutos dependendo do modelo. No interior da fábrica robôs transitam
pelo imenso espaço levando os “esqueletos das máquinas” de um posto
a outro. Um sensor faz com que ele pare no local devido. Também são
eles que repõem as peças solicitadas, pelos operários, através de um
painel eletrônico, “[...] por todos os lados sirenes piscam e os
ruídos ensurdecedores da estrutura de metal em funcionamento
misturam-se com a música sintética [...] A primeira impressão chega
a lembrar um sofisticado parque de diversões, a segunda impressão
sugere a imagem do inferno”. (OCADA, 2004, p. 172).
Um dos elementos de maior destaque
dentro do modelo toyotista é o chamado just-in-time (na hora
certa). Foi inserido, pela primeira vez, na Toyota japonesa,
em meados da década de 70 por Taichii Ohno. Surgiu da necessidade de
criar uma alternativa aos poucos espaços para armazenar estoques,
sejam eles matérias-primas, peças intermediárias ao processo
produtivo ou mercadorias já produzidas, e da escassez de recursos
para manter a produção parada. Consiste em detectar a demanda e a
produção de bens em função da necessidade específica, ao contrário
do fordismo.
Assim, toda demanda tem que ser produzida após ter sido efetivada
sua venda, mantendo um fluxo de produção contínuo. Para isso
criam-se os sistemas visuais de informação, kanban,
através deles é possível informar a quantidade de peças necessárias
para o dia.
O trabalho em equipe
é outra estratégia usada pela Toyota para racionalizar a utilização
de mão-de-obra. A idéia consiste em agrupar os trabalhadores em
equipes, com a orientação de um Rida (líder). Este
trabalharia junto com os demais operários, com a função de coordenar
o grupo e substituir qualquer um que venha faltar. Enquanto no
fordismo cada trabalhador é responsável por uma parte da produção e
após realizá-la passa adiante para que outro trabalhador realize a
parte que lhe cabe, no toyotismo vemos eliminado esse tempo entre um
trabalhador e outro, considerado “tempo morto” e que não agrega
valor à produção, adequando-se a cadeia de montagem. Na cadeia de
montagem quem se movimenta é o produto em fase de produção, através
de robôs ou de esteiras, assim são eliminados muitos segundos que
seriam gastos para que um trabalhador levasse o produto de um posto
de trabalho a outro. Além disso, cada trabalhador deveria descobrir
outros “tempos mortos” a fim de diminuir cada vez mais o tempo de
produção de determinada peça.
[...]
Dicho de outra forma, lo que el obrero realizaba em 60 segundos, a
hora lo tiene que hacer em 50 segundos [...] Pero este tipo de
racionalización alcanza límites cuando se eleva la producción. Una
fábrica en los EEUU consiguió producir 100 coches por hora, lo que
reducía las tareas a 36 segundos. Pero es mucho más duro
racionalizar el trabajo, o sea encontrar segundos de tiempos
inútiles, en 36 segundos que en 1 minuto o en un lapso de tiempo aun
mas largo. Por eso Toyota define las tareas en cuadrilla. Esto
significa que la racionalización no se hace sobre el minuto que
trabaja el obrero en un coche, pero sobre los 10 minutos que la
cuadrilla de diez hombres tienen para realizar las operaciones al
coche. Es éste principio de racionalizacion que se encuentra a la
base de la introducción del teamwork donde Toyota (GOUNET, 1998).
A racionalização é a
fábrica mínima, ou seja, com efetivo mínimo. Ao reduzir o tempo de
dez para nove minutos, sobrecarrega-se os trabalhadores e
eliminam-se postos de trabalho. O objetivo não consiste então, em
diminuir trabalho e sim, reduzir trabalhadores. O trabalho em equipe
representa, na verdade, a pressão que cada trabalhador sofre para
desempenhar sua função com qualidade, sob pena de ser rejeitado pelo
grupo, ainda que neste grupo todos se encontrem nas mesmas
condições, como se observa no relato da autora.
O trabalho consiste
em produzir fechaduras para carros. Doze mulheres, brasileiras e
japonesas, em pé, uma ao lado da outra, cada uma desenvolve uma
parte da produção e é responsável pelo controle de qualidade dessa
mesma parte. No final da linha, uma brasileira reexamina todas as
peças e imediatamente comunica qualquer defeito dando um grito. Por
exemplo, ao encontrar algum defeito na peça, em voz bem alta (até
mesmo para que sua voz ultrapasse o barulho das máquinas) diz o nome
da operária responsável pela parte defeituosa e completa dizendo:
kizú (risco). Isso irrita as trabalhadoras pois, não raro,
surgem defeitos que somente são visíveis aos olhos dela que parece
sentir prazer em gritar o dia todo, e algumas vezes “coincide” de
ser a mesma pessoa a ser chamada atenção o dia inteiro.
Gounet (1998)
reafirma as condições de estresse em que são submetidos os
trabalhadores, no modelo toyotista de produção, quando cita um
exemplo sobre o funcionamento dos trabalhos em grupos.
De acordo com as
vendas é estabelecido um objetivo de produção para cada dúzia de
trabalhadores, para os quais Ohno disponibiliza apenas 90% dos
recursos que ele deveria normalmente oferecer e desafia os operários
a atingir a produção necessária. Estes, por sua vez, discutem entre
si e descobrem maneiras de vencer o desafio. Porém, quando pensam
ter vencido, Ohno retira novamente a porcentagem de recursos, e
assim sucessivamente. “Isso para mostrar que se trata de um sistema
permanente. Na Toyota, os trabalhadores chamam a isso de ‘sistema
Oh! No!’ (do inglês Oh! Não!)”. Conhecendo o rigor desse sistema de
produção,
[..].os
trabalhadores vêm trabalhar doentes. No Japão, isso se desenvolve no
quadro do trabalho em grupo: o ausente não é substituído e o time
deve se desembaraçar sem ele [...] aquele que não se sente bem vem
para a empresa ainda assim, para evitar sobrecarregar seus colegas.
Em certos casos, esses últimos foram procurar o doente para trazê-lo
para a cadeia de montagem. Essa cadeia de caça aos doentes é
introduzida de forma geral na indústria automotiva mundial” (GOUNET,
2000).
Esse sistema foi
vivenciado pela pesquisadora e além desse, muitos outros como por
exemplo à gestão pelas lâmpadas. Coloridas e instaladas bem ao
alto, na direção da cabeça dos trabalhadores,
[...] a gestão pelas
lâmpadas permite à direção da empresa ver como se passa
concretamente a produção nas oficinas [...] parecem as das
sinaleiras: verde significa que tudo está bem na seção; laranja
indica que há um problema de sobrecarga; vermelho obriga a parar a
cadeia, porque os trabalhadores não podem mais segurar o ritmo.
Poderia-se crer que, enquanto todos os departamentos estão no verde,
a direção está satisfeita e que seu objetivo foi atingido. Mas não é
assim. Em realidade, é preciso que as lâmpadas oscilem continuamente
entre o verde e o laranja. Dessa forma, a direção está segura de que
os trabalhadores estão ocupados ao máximo. (GOUNET2000, p.103).
Desta maneira os
trabalhadores estão sempre sob pressão. O trabalho representa uma
completa servidão. O operário já não dispõe de tempo para o lazer e
para a vida familiar, pois o único tempo livre é utilizado para
repouso e recuperação. Os acidentes de trabalho passam a ser
constantes e verifica-se também um alto índice de suicídios. Nesse
sentido Ocada (2004) coloca-nos o fato de que
A realidade social
adquire o simples aspecto de relações sociais de compra e venda de
uma força de trabalho destituída de qualquer forma de subjetividade
e concebida como um corpo social assexuado, da mesma forma todas as
motivações culturais e valorativas que orientam as condutas dos
atores sociais são reduzidas ao determinismo de uma causalidade
econômica.
Esse nível de
estresse também decorre da necessidade dos trabalhadores estarem
sempre preparados para produzir o que pede a demanda, uma vez que a
produção é feita sob encomenda. Desta maneira devem adaptar-se
imediatamente para a nova produção no decorrer do dia. Também é
necessário que o trabalhador esteja disponível para incorporar à sua
rotina de trabalho árdua e desgastante, muitas horas de trabalho,
caso assim for necessário para suprir a demanda. A flexibilização da
mão-de-obra passa a ser outro requisito essencial para o trabalhador
inserido no sistema toyotista. É preciso ser polivalente para
assumir qualquer posto que se faça necessário. Baseado neste
princípio de multifuncionalidade é deflagrada nas últimas décadas a
teoria das competências, onde o indivíduo precisa desenvolver uma
série de capacidades para se inserir ou se manter no mercado de
trabalho.
Para atingir os
objetivos dento do padrão toyotista - estoque mínimo, controle de
qualidade, eliminação de tempos “mortos”, just-in-time – é
implantado um processo de qualificação da mão-de-obra através, da
educação do povo, objetivando alcançar um de seus princípios
fundamentais: a eliminação de desperdício. Para os japoneses a
função da escola deveria ser de iniciar o indivíduo nestes
princípios, sempre exigindo dele qualidade total. Isso surge na
verdade, com a implantação do toyotismo, a partir da necessidade de
utilização adequada da matéria-prima de elevado valor. É preciso um
índice zero de desperdício para o sucesso da produção, ou seja, a
lucratividade. Essa “preocupação” com a qualidade total fez o país
desenvolver um produto de alto padrão de qualidade e se inserir no
competitivo mercado dos países centrais.
Ainda com referência
aos princípios subjacentes ao modelo japonês de produção temos a
gestão participativa onde os trabalhadores são levados a se sentirem
como participantes da empresa. Assumem um posto de liderança frente
a um grupo (líderes coordenadores da linha de montagem, por exemplo)
e, com a ilusão de se tornarem “gerentes”, passam a responder pela
marcha da produção, ao mesmo tempo em que executam o processo de
controle de qualidade. É uma sobrecarga de trabalho e
responsabilidades, contudo aos olhos do trabalhador numa análise
superficial, é sinal de valorização dentro da fábrica. Esse nível de
“avanço” dentro da fábrica estimula a competitividade e a emulação –
meritocracia - o que resulta em grande produtividade, pois todo
trabalhador almeja atingir o referido avanço. Isso acaba provocando
o individualismo e solapando o trabalho organizado. Assim a
estratégia da gestão participativa traz consigo a tentativa, bem
sucedida, de eliminação da ação sindical, como esclarece Antunes
(1999, p. 16).
Vivem-se formas
transitórias de produção, cujos desdobramentos são também agudos, no
que diz respeito aos direitos do trabalho. Estes são
desregulamentados, são flexibilizados, de modo a dotar o capital do
instrumental necessário para adequar-se a sua nova fase. Direitos e
conquistas históricas dos trabalhadores são substituídos e
eliminados do mundo da produção. Diminui-se ou mescla-se, dependendo
da intensidade, o despotismo taylorista, pela participação dentro da
ordem e do universo da empresa, pelo envolvimento manipulatório,
próprio da sociabilidade moldada contemporaneamente pelo sistema
produtor de mercadorias.
Obviamente, afirma
Harvey (1989), a organização do trabalho necessita se desmantelar,
pois, a acumulação flexível de capital representa um confronto
direto com a rigidez fordista, se apóia na flexibilidade dos
processos de trabalho e não pode conviver com um sistema jurídico
que regula rigidamente a exploração da força de trabalho humana, por
legislação trabalhista.
Nesse contexto a
subcontratação passa a representar uma necessidade e um recurso
poderoso dentro do modelo japonês de produção. Para as funções
essenciais dentro da fábrica a Toyota seleciona os trabalhadores
efetivos e as demais funções são deixadas para o pessoal
subcontratado. Para estes reserva-se salário mais baixo, carga
horária maior, serviços desqualificados e nenhum vínculo
empregatício ou sindical.
No Japão, segundo
Sasaki (1999) quem mais se utiliza desse tipo de mão-de-obra, são
as pequenas empresas, que recebem encomendas das grandes empresas
montadoras e não dispõe de mão-de-obra pois, os japoneses, sobretudo
os mais jovens, formados, que ingressam no mercado de trabalho, as
recusam por não haver, nestas fábricas, perspectivas de ascensão
profissional e pelas condições precárias a que são submetidos os
trabalhadores. Sendo assim, “não conseguindo atrair os empregados
japoneses, as pequenas empresas começaram a contar com os
trabalhadores estrangeiros. A falta de mão-de-obra no Japão fez com
que as empresas comecem, nesse momento, a clamar por modificações na
política imigratória e a procurar trabalhadores fora do Japão”.(Sasaki,
1999).
Nesse momento há o
aumento de estrangeiros ilegais no país o que passa a representar um
sério problema às autoridades japonesas. Nesse sentido a política de
imigração torna-se mais rigorosa dando maior abertura ao imigrante
latino, principalmente brasileiro, pois, considera-se que, uma vez
que é onde está localizada a maior colônia japonesa fora do Japão,
será menor o choque cultural.
No Brasil, o final da década de 1980 e
início de 1990 foi marcado pela massificação do movimento dekassegui.
A posse de Fernando Collor como presidente em 1990 juntamente com as
medidas econômicas tomadas por sua equipe, provocaram uma grande
instabilidade no país e, alavancaram a migração internacional.
É nesse contexto em
que a autora chega ao Japão e vivencia, como operária subcontratada,
o trabalho em linhas de produção de produtos automobilísticos e
tecnológicos. Percebe-se rapidamente que a experiência na fábrica é
um grande desafio e o problema é acrescido por questões como a
comunicação, a alimentação e, principalmente a submissão às
empreiteiras, empresas responsáveis pela (sub)contratação de
mão-de-obra estrangeira.
Destes dois anos de
experiência, foi possível analisar algumas questões referentes ao
mundo do trabalho operário, focando o modelo japonês de produção sob
a ótica do trabalhador.
A chegada já é muito
traumática. Incluindo a autora são seis brasileiros chegando ao
Japão pela primeira vez. São recepcionados no aeroporto de Nagoya.
Após identificados pelo encarregado da empreiteira entram em um
grande carro e começam uma viagem, rumo ao alojamento, na cidade de
Toyohashi, que parece não ter fim. Depois de aproximadamente duas
horas de viagem este encarregado fez uma parada, compra latas de
café quente, incentiva um bate-papo informal e pede pra ver
passaportes e canhotos de passagem, onde há a passagem de retorno ao
Brasil. Com os documentos nas mãos revela que é preciso recolher os
documentos. Sob pena de não serem aceitos, todos entregam.
Ao chegar deparam-se
com uma construção aparentemente abandonada. As pessoas são
divididas em grupos porém, os casais permanecem juntos num
alojamento individual. No interior dos alojamentos encontram uma
pequena geladeira em péssimo estado de conservação, uma pia com
muitos insetos e um armário, para roupas, praticamente destruído.
Pela janela avistam um terreno baldio também com sinais de abandono.
O encarregado que os conduziu até ali entrega um pacote com dois
futons (acolchoados), dois macurás (travesseiros) e dois edredons.
Por esses materiais todos assinam vales no valor de 15 mil ienes
cada um (na época somavam 150 reais aproximadamente). Também é
oferecido um kit com utensílios de cozinha no valor de 21 mil ienes
(aproximadamente 210 reais) o qual todos recusam. O encarregado
despede-se e promete voltar durante a semana.
No dia seguinte, todos aproveitam para
conversar e se conhecer. Há algumas pessoas que estão ali há uma
semana e relatam aos demais que é costume da empreiteira hospedar os
“novatos” neste alojamento para uma certa “pressão psicológica”,
para que aceitem o primeiro emprego que surgir e não fiquem
colocando obstáculos, pois, só a partir de efetivados no trabalho
são transferidos para um “apto” (por pior que fosse seria sempre
melhor que aquele lugar). Após três dias de espera o tantocha (nome
dado ao encarregado da empreiteira) volta ao alojamento para
a indicação de vagas recém surgidas.
Uns são levados na hora,
outros ficam agendados para o dia seguinte e a ala feminina do grupo
é submetida a um teste com trinta cálculos matemáticos, com a
informação de que quem resolvesse todos os trinta cálculos em cinco
minutos seria indicada para a vaga daquele dia.
A autora conseguiu
resolver vinte e oito dos cálculos no tempo que foi estipulado e por
isso foi levada a uma fábrica da Suzuki na cidade de Kosai para uma
entrevista. Após uma sessão de perguntas sobre a vida profissional
teve que refazer os cálculos na presença de um japonês, chefe de
alguma coisa que não se lembra, o qual não desviava os olhos da
atividade e soube, por intermédio do tantocha, que ele dizia
que ela deveria reaprender a escrever os numerais 4 e 7, pois não
estava de acordo com o sistema do Japão. Terminando a atividade ele
mesmo conferiu os resultados e pareceu naquele momento que a vaga
estava confirmada. Chamou uma funcionária e pediu que a levasse para
provar o uniforme. Quando voltou o tantocha comunicou que a
autora não havia sido aprovada porque a fábrica não aceitava
secretárias, enfermeiras e professoras, pois, a função (trabalhar no
setor de reposição de peças) exigia que se desse 15 mil passos por
dia, e para a empresa se certificar que o funcionário estava dentro
das normas era colocado um marcador na perna – na altura do
tornozelo – e segundo eles, pelo porte físico, ela não conseguiria
desenvolver a função.
No dia seguinte, foi
indicada à outra vaga, desta vez uma fábrica que produzia
fechaduras para carros da Mitsubishi. Ao chegar recebeu o uniforme e
foi levada à linha de montagem. Não houve nenhum treinamento, apenas
orientações de como realizar a tarefa. Durante os primeiros dias
trabalhou muito preocupada em dar conta da produção exigida (950
peças por dia), as dificuldades eram grandes, pois, jamais havia
visto ou executado tal função. Ao terceiro dia de trabalho, a
tentativa para tentar conseguir acompanhar o ritmo das máquinas,
derivou problemas de saúde o que obrigou a empreiteira a levá-la
para o alojamento, sob o olhar reprovador do chefe e dos colegas de
linha. Neste dia ficou sabendo que uma colega do alojamento havia
tentado se matar, tão grande era o sofrimento pelo qual passava,
pois além da adaptação estar sendo difícil, havia o agravante de
estar no alojamento já por vários dias sem confirmação de trabalho.
Esse fato perturbador fez com que a partir desse dia, durante os
dois anos que esteve lá, a autora jamais faltasse ao trabalho, mesmo
doente, pois estar na fábrica era menos enlouquecedor do que
ficar no alojamento.
Foram necessários
dez meses de árduo trabalho para conseguir pagar todas as dívidas
contraídas com a empreiteira, resgatar os documentos e fugir do
domínio da empreiteira. Através de conhecidos foi possível outra
colocação com melhor remuneração e com maior probabilidade de horas
extras em Suzuka-shi, Província de Mie-Ken. Lá ficaram as mulheres,
onde havia demanda de mão-de-obra feminina e os homens foram para
Kwana-shi onde demandava mão-de-obra masculina. Conseqüentemente os
casais foram separados e como o trajeto de uma cidade à outra era
extenso, só era possível fazê-lo uma vez por semana, e o faziam
quando não havia shigotô (trabalho) aos domingos. Solidificar
amizades também não era possível, devido à vida nômade que todos
levavam e isso contribuía para aumentar o stress do cotidiano
envolvendo a todos num processo de solidão crônica.
A fábrica em que foi
levada para trabalhar nesse momento, produzia placas eletrônicas, os
chamados kibans. Uma verdadeira maratona envolvia o
ritual matinal. Às sete horas iniciávamos um trajeto de bicicleta de
aproximadamente, quatro quilômetros até a fábrica. No primeiro
vestiário trocávamos nossa roupa pelo primeiro uniforme, com exceção
do calçado. Após atravessar o pátio chegávamos ao local onde era
preciso trocar o calçado por um semelhante a um conga e, no
vestiário seguinte trocava–se o primeiro uniforme pelo definitivo.
Esse ritual era repetido na hora do almoço e antes de ir embora.
Num primeiro
momento, nesta nova fábrica, a atividade solicitada era tão
desqualificada que não era difícil sentir saudades da fábrica
anterior. Finalmente, após um mês, houve a transferência para outro
o setor, o de kensa (controle de qualidade). As peças eram dispostas
num aparelho que através de uma tela de computador verificava-se sua
perfeição ou seu defeito. A atividade era tão mecânica que apesar do
entendimento da língua japonesa ser pouco e de informática menos
ainda, a autora foi capaz de realizá-la sem maiores problemas.
A experiência como
operária subcontratada tornou possível ver bem de perto que o a
única diferença entre os trabalhadores, ainda que isso seja
despercebido para muitos deles, são as mercadorias que produzem. Não
fosse assim, não haveria diferença de uma fábrica para outra. Em
todas que a autora teve oportunidade de trabalhar ou apenas
conhecer, como era de se esperar, as atividades sempre seguiam a
mesma linha, extremamente repetitivas e exaustivas, onde o trabalho
se encontra totalmente alienado. “[...] Ao operário já não cabia
pensar o seu trabalho, mas apenas reagir interpretativamente aos
movimentos que o ritmo do processo de trabalho impunha ao seu corpo.
O processo de trabalho não dependia da mediação de sua interpretação
para que tivesse seqüência. Seu corpo fora transformado num
instrumento dos movimentos automáticos da linha de
produção”.(MARTINS, 1994).
Nesse sentido é
possível concordar com Antunes (1999) quando enfatiza que não se
pode atribuir ao toyotismo um caráter de novo modelo de organização
e de produção, nem ao menos é possível considerá-lo como um avanço
do sistema taylorista/fordista.
[...] a questão que
nos parece mais pertinente é aquela que interroga em que medida a
produção capitalista realizada pelo modelo toyotista se diferencia
essencialmente ou não das várias formas existentes de fordismo.
[...] a diminuição entre elaboração e execução, entre concepção e
produção, que constantemente se atribui ao toyotismo, só é possível
porque se realiza no universo estrito e rigorosamente concebido do
sistema produtor de mercadorias, do processo de criação e
valorização do capital. (p. 33).
A partir dessa breve
análise é possível concluir que o toyotismo representou, na verdade,
uma grande ofensiva aos trabalhadores, uma vez que se instalou como
um processo apenas preocupado em resgatar o domínio e o poder de
acumulação do capital. Evidenciando assim que, ainda vai longe esse
modelo de sociedade composta por exploradores e explorados.
Referências
ALVES, Giovanni.
Toyotismo e neocorporativismo no sindicalismo do século XXI.
Outubro, São Paulo, n.5, p. 47-58, 2001.
ANTUNES, Ricardo.
Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do
mundo do trabalho. 6ed. São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da
Universidade de Campinas, 1999.
________ Ricardo.
O toyotismo, as novas formas de acumulação de capital e as formas
contemporâneas do estranhamento (alienação). Disponível em: <http://www.alast.org/PDF/Walter/Tec-Antunes.PDF>.
Acesso em: 21 jun. 2004.
CATTANI, Antonio (Org.).
Dicionário crítico
sobre trabalho e tecnologia. 4. ed. Re. Ampl. Petrópolis: Vozes;
porto Alegre: Ed. Da UFRGS, 2002.
GOUNET, Thomas. El toyotismo o el incremento de la explotación.
Disponível em:<http://www.wpb.be/icm/98es/98es11.htm-23k.>.
Acesso em: 21 jun. 2004.
________________.
Fim do trabalho, fim do emprego. In: CARRION, Raul K. M. e VIZENTINI,
Paulo Fagundes. A crise do capitalismo globalizado na virada do
milênio.
HARVEY, David.
Condição Pós-Moderna. 12ª. ed. São Paulo: Loyola; 2003.
MARTINS, José de
Souza. A aparição do demônio na fábrica, no meio da produção. Tempo
Social; Rev. Sociol. USP, São Paulo: vol. 5, nov./1994.
OCADA, Fabio Kazuo.
Trabalho,
sofrimento e migração internacional: o caso dos brasileiros no
Japão. In: ANTUNES, Ricardo e SILVA, Maria Aparecida Moraes. O
avesso do trabalho. 1ª. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2004.
SASAKI, Elisa
Massae. Movimento Dekassegui. A experiência migratória e identitária
dos brasileiros descendentes de japoneses no Japão.
In:
REIS, R. R., SALES, T. (orgs.).
Cenas do Brasil
Migrante. São Paulo, Boitempo, 1999, pp. 243-274.
WOOD
JR, Thomaz.
Fordismo, Toyotismo e Volvismo. Os caminhos da
indústria em busca do tempo perdido. Revista de Administração de
Empresas. São Paulo, 32 (4): 6-18. Set./out. 1992. |
|

|