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Por EVA PAULINO BUENO Depois
de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino
Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em
San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do
povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland,
1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh
Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I
Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teaching in Japan
(JPGS, 2003)
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Ser índio no século XXI , ou tupi ou
não tupi, tupi e tupi, e tupi ao quadrado, no quadrado
Outro
dia, num programa noturno de televisão aqui nos Estados Unidos, do
apresentador e comediante Jay Leno, o ator Leonardo Di Caprio
comentou que, nestes dias de globalização, é impossível para ele não
ser reconhecido. Deu como exemplo uma vez que esteve no Amazonas
visitando uma tribo de índios que nem falavam português. E não é que
— disse o Leonardo no programa — os índios o reconheceram? Não sei
exatamente se ele fez este comentário para indicar o alcance da sua
fama, ou só pra indicar como o mundo está ficando pequeno,
“globalizado.”
Este pequeno incidente em um programa da
televisão americana indica que, de fato, os meios de comunicação,
assim como os filmes de Hollywood, já se intrometeram em todos os
confins da Terra. Dá pra imaginar como os índios que Leonardo
conheceu tenham entrado em contacto com a imagem dele, provavelmente
através do filme Titanic. (Como terá sido mostrado? Eles têm
eletricidade na tribo? Desde quando? Ou eles assistiram ao filme na
cidade? Que cidade?) Dá também pra imaginar que os índios — e aqui
estou fazendo conexão entre Amazonas e rio — ficaram talvez
pressurosos e com medo do afundamento de suas canoas. Talvez não.
Mas eu sei que depois do Titanic, muita gente ficou um tempo com
medo de água, de navio, estas coisas.
Mas o que esta história me faz pensar
está muito além—ou aquém, dependendo do ponto de vista — da fama do
Leonardo DiCaprio. O que importa mais aqui é a situação do índio,
ali no meio do Amazonas, sendo exposto a estas histórias esdrúxulas,
baboseiras românticas inventadas em cima de um episódio real, tais
como a contada no Titanic. Como podem eles continuar a ser
índios quando tiveram seu universo “invadido” por antenas de
televisão, filmes americanos, artefatos culturais de sociedades
muito mais populosas e tecnologicamente avançadas? Como vai o índio
se contentar com suas cabaças e gamelas depois de assistir histórias
em que os personagens bebem em taças de cristais e comem em pratos
de porcelana? Como vai se contentar em ter só um shorts quando vê
gente usando roupas elegantes? Como vai continuar comendo mandioca
com pirão de peixe sem se lembrar que, em algum lugar do mundo, as
pessoas comem carnes cozidas com temperos sofisticados, usando
talheres, guardanapos, etc? E depois dormem em camas cobertas de
colchas finas, e se banham em banheiros com azulejos? E,
considerando por um momento que estes índios que assistiram ao
Titanic também assistem ás notícias da televisão, como se sentem ao
saberem que são parte do Brasil? Eles sabem o que é o Brasil?
Tal como muitos brasileiros, a mim
também seria vedado fazer estas perguntas diretamente aos índios do
nosso país. Não é permitido a “qualquer um” visitar uma tribo no
Amazonas, ou em qualquer lugar do Brasil, que não tenha tido
contacto constante com brancos e nem fale o português. Me lembro de
uma colega lingüista, brasileira, que fazia o doutorado comigo em
Pittsburgh, contando de seu trabalho com tais grupos. O que me
lembro mais do seu relato foi a dificuldade que ela teve de obter
permissão dos órgãos governamentais brasileiros para ir às tais
tribos, mesmo para ela, que era especialista na família lingüística
da língua falada naquela tribo.
O Leonardo DiCaprio, ao que tudo indica,
não teve tal dificuldade.
O que estas presenças de estranhos nas
tribos — em pessoa ou em filme e televisão – fazem é expor, por um
lado, a extrema vulnerabilidade destes grupos culturais e étnicos,
que são literalmente invadidos pela cultura branca que os envolve;
por outro lado, elas colocam em questão nossos intuitos ao
contactá-los. Qual seria a intenção de, digamos, Leonardo DiCaprio,
ao visitar uma tribo no Amazonas? Pode ser possível que ele queria
testar os limites da sua fama. Mas, mais provavelmente, ele queria
experimentar o que muitos na sociedade branca sentem ao se depararem
com índios das tribos que não tiveram contacto com a cultura branca:
ver de perto nossos antepassados da pedra polida. É o irresistível
perfume do exótico. É o frisson do encontro com algo que já não
existe, como se fosse possível embarcar no túnel do tempo e ver o
que foi, e o que fomos. Só que tudo no presente, com gente de carne
e osso. De preferência de dentro de uma cabine com ar condicionado.
Ou, pode ser que ele queria avaliar a
situação da tribo e oferecer ajuda. Creia nesta quem quiser. Outros
artistas já se interessaram pela situação de vários grupos
subalternos e oprimidos, e o roqueiro Sting é um que vem à memória
rapidamente.
Mas, no caso daqueles índios do Amazonas
visitados pelo ator famoso, será que eles se sentiram visitados ou
olhados como animais no zoológico? Ou como plantas de estufa? Ou
será que ficaram encantados de terem a visita do rapaz bonito,
sorriso fácil, que provavelmente trouxe alguns presentes e foi
simpático? Como vamos saber? Quem pode ir perguntar aos índios o que
eles acham destas visitas, e do gerenciamento dos negócios das
tribos?
No Brasil, pelo menos que eu saiba,
estes negócios indígenas são regidos e determinados pelos órgãos
governamentais encarregados. A burocracia brasiliense rege tudo,
determina quem vai, quem não vai. Quantos membros destes órgãos
dedicados às questões indígenas são índios? Quem sabe? Quem viu?
Quem ao menos se interessa?
Para a maioria dos brasileiros, ainda,
infelizmente, a noção do indígena vem mesclada com a idéia romântica
do “bom selvagem,” aquele que povoou os romances do José de Alencar,
todos ou nobres guerreiros ou donzelas com os cabelos negros como a
asa da graúna, correndo livres pelos campos, caçando, pescando.
Estes que se vêem por aí—tal como toda uma tribo que uma vez eu vi
na rodoviária de Londrina — não se parecem em nada com o ideal
novelesco. São magros, estão sujos, as crianças são barrigudas e
choronas. Alguns esmolam! Tal como todos os brancos naquela noite
fria num junho há muitos anos em Londrina, muitos de nós não nos
aproximamos dos índios reais com que nos defrontamos. Eu também não
me aproximei. Minha vida “civilizada” me exigia, passagem na mão,
ônibus para tomar em cinco minutos. Da janela eu só vi os índios
juntados num grupinho esfarrapado e tiritante, olhos amedrontados.
Para onde iam? Chegaram lá? Quem os levou? Nunca soube. Nunca
saberei. O destino daquele grupo de seres humanos deslocados,
olhados com curiosidade, para sempre vai ser um mistério.
*
Uma coisa que talvez muitas pessoas não
saibam, é que as nações dos índios americanos – chamados Nativos
Americanos—têm relativa autonomia em relação ao governo americano.
Esta autonomia, embora relativa, é resultado de muita luta. Até os
anos de 1800, por exemplo, o governo americano adotava a política de
separação das populações nativas, sua remoção peremptória de seus
locais tradicionais, e a sua colocação em “reservas.” Para
justificar tais ações, o governo usou tratados, estatutos e ordens
executivas. Um dos episódios mais infames desta retirada forçada é
o que se chama, na história dos Estados Unidos, a “Trail of Tears” —
“O caminho das lágrimas”
("Nunna daul Tsuny” na língua Cherokee) –
que foi a retirada forçada
dos Cherokees da Georgia e sua reposição em Oklahoma. Quatro mil
pessoas morreram nesta caminhada durante o inverno de 1838-1839.
Esta política de isolamento foi mudada
em 1887, com a lei chamada General Alottment Act, ou o “Ato Dawes.”
Durante a vigência deste Ato, houve um grande esforço por parte da
população branca em “assimilar” o nativo americano. Nesta nova
política, os chefes de família recebiam 160 acres de terra, que não
poderiam vender antes de 25 anos. Neste período os nativos
americanos não teriam que pagar impostos federais, mas depois deste
tempo teriam que pagá-lo como todos os outros cidadãos. As terras
das reservas que sobraram depois desta “repartição,” foram vendidas
ao público. Como resultado deste ato, em 1934, dos 140 milhões de
acres de terras tribais, somente 48 milhões permaneceram em posse
dos nativos americanos.
Esta situação era tão drástica que, em
1934, foi aprovado o Indian Reorganization Act –Ato de Reorganização
Índia, o qual marca uma nova política. Desta vez, o interesse é em
promover a autonomia dos nativos americanos e, embora as terras
tribais ainda sejam sujeitas a impostos federais, os governos
estaduais e locais, na sua maioria, não podem aplicar impostos a
estas terras e não têm jurisdição dentro do território das reservas.
A relativa liberdade para os chefes das
reservas fez com que algumas nações e tribos individuais decidissem
dedicar-se ao negócio dos cassinos. Devido ao fato que as terras das
reservas foram consideravelmente diminuídas e muitas comunidades
“índias” não teriam terra suficiente para dedicar-se à agricultura,
a saída proporcionada pelos cassinos é muito conveniente, além de
rentável. Os cassinos não são simplesmente uma “sala de jogos,” mas
fazem parte de um complexo que contém hotéis, restaurantes, bares,
parques de diversão para as crianças e, logicamente, as salas de
jogo tradicionais com as máquinas de caça-níqueis, as mesas dos
diversos jogos de cartas, etc.
Raphael Bear, Presidente da Fort
McDowell Yavapai Nation — “Nação Yavapai do Forte McDowell,” — que
possuíam o cassino Fort McDowell Casino em Foutain Hills, Arizona,
escreve:
The most
significant change gaming has brought to the Nation is a
liberating sense of sovereignty and self-determination. Through
receipt of gaming revenue, the Nation has instilled a sense of
pride and accomplishment within the community by being able to
financially provide for the welfare of its members without federal
or state assistance, and, significantly, to be able to give back
to the public in Arizona.
A mudança mais significativa que os
cassinos trouxeram à Nação (Indígena) é um sentido liberador de
soberania e auto-determinação. Através da receita provinda dos
cassinos, a Nação trouxe um sentimento de orgulho e realização à
comunidade, já que agora é capaz de prover as necessidades
financeiras dos seus membros sem necessitar de ajuda federal ou
estadual e, significativamente, de contribuir com o próprio povo
do Arizona.
De fato, o negócio dos cassinos e hotéis
nas terras dos nativos americanos está florescendo cada dia mais. A
estatística mais recente, trazida na revista Indian Gaming em
fevereiro de 2005, nos mostra, por exemplo, que há 117 cassinos
índios com hotéis, espalhados em 24 dos estados americanos, sendo
que a Califórnia tem 18 destes estabelecimentos, seguida por
Michigan com 14, Minnesota com 13 e Wisconsin com 9. Este é um
negócio que envolve bilhões de dólares anuais, dá trabalho a
milhares de nativos americanos e também a membros de outros grupos
étnicos.
(3)
Mas, nem todas as reservas têm cassinos.
Nem todas as nações estão prosperando.
Um exemplo deste último grupo é a nação
Red Lake, de Minnesota, de onde vem o jovem Jeff Weise, que na
semana passada entrou na sua escola e matou colegas e professores, e
depois se matou com a mesma arma. Este episódio, o pior de tais
episódios desde o massacre de Columbine em 1999, chocou não só a
comunidade nativa americana, mas todo o país.
Como é possível explicar tal ato de
violência? Especialistas em psicologia juvenil, especialistas em
assuntos nativos americanos, especialistas em especistas, todos têm
aparecido na televisão, falado no rádio, escrito nos jornais e
revistas. O melhor artigo que li nos últimos dias sobre este triste
acontecimento vem de Scott Richard Lyons, e apareceu na revista
Indian Country Today do dia 23 de março de 2005 (www.indiancountry.com).
Lyons diz, em seu artigo, que não presume saber as razões pessoais
que levaram o rapaz de 16 anos a cometer tais atos, mas aponta
alguns problemas que ainda perseguem os nativos americanos, entre
eles a pobreza da reserva em que ele vivia, na qual 4 entre 5
crianças têm que receber lanche gratuito na escola. Lyons cita
também o fato de que, nesta região de Minnesota onde a Nação Red
Lake está situada, os rapazes nativos americanos são vistos com
suspeita como arruaceiros, vagabundos.
Dentre todas as razões apontadas por
Lyons, uma que me parece fundamental é o fato de que, praticamente
desde que Jeff nasceu, este país está em guerra declarada, ou
atacando outros países através da coerção. Nesta cultura de armas de
fogo, em que cada um tem o direito de ter uma (garantido pela
constituição), de soluções imediatas, de satisfação instantânea, não
é de se admirar que um adolescente já com problemas emocionais (o
pai se suicidou, e a mãe está num hospital há muito tempo) tenha
perdido o controle. Nada justifica seus bárbaros atos de violência e
a morte de inocentes. Mas, de uma certa maneira, todo o país precisa
mais uma vez fazer um exame de consciência e ver que tipo de exemplo
as atitudes do governo estão passando aos jovens.
*
De volta aos nossos índios brasileiros,
que, afinal, são o ímpeto inicial para esta coluna, ficam algumas
perguntas:
Onde está o Juruna com sua máquina de
gravar os discursos dos políticos que vivem quebrando promessas e
reescrevendo a história?
O que aconteceu com os índios de Jaru,
em Rondônia, que deram o nome à cidade, e agora não podem ser
encontrados em lugar algum?
Cadê os índios que primeiro chamaram
Curitiba de “curitiba”? Quem eram eles?
Onde estão os poéticos seres humanos que
nos deram a palavra “mandaguaçu,” “iguaçu,” e “paraná”, entre tantas
outras?
Eles vão continuar sendo somente os que
doraram vocabulário e passaram pela rodoviária de Londrina e outras
rodoviárias, em noites frias de junho, maltrapilhos, assustados, sem
saber para onde iam nem por que iam? Ou vamos tomar um pouco de
vergonha cívica e olhar mais cuidadosamente o que está acontecendo
com os índios do Brasil?
Ou vamos deixar que o Leonardo Di Caprio
venha “resgatá-los”?
Neste artigo, escrito para a revista Indian Gaming; The
National Magazine of the American Indian Gaming Industry,
fevereiro 2005, Raphael Bear discute o impacto positivo que o
negócio de cassinos trouxe à sua nação, mas adverte que
necessitam continuar diversificando seus empreendimentos e
investimentos. Um aspecto interessante deste texto, é que
Raphael Bear, um representante eleito, se apresenta
realmente como um administrador que tem responsabilidades para
com seu povo, que confiou nele e o colocou nesta posição para
que ele usasse seus talentos políticos e administrativos para
garantir o bem-estar de todos (25).
O que, por sua vez, pode dar lugar a disputas. Enquanto que
houve um tempo em que “ser índio” não era bom negócio em algumas
áreas do país (racismo, discriminação, perseguição), agora vale
a pena buscar as raízes da árvore genealógica para provar a
procedência “nativa.” Ver a fascinante discussão de Kim Tall
Bear e Deborah A. Bollnick em “Does DNA Make and Indian?” — “O
DNA faz um índio?” neste artigo, as duas pesquisadoras colocam
em questão a situação dos que querem afiliar-se às nações
indígenas e recorrem a caros testes de DNA (de $80 a $600) para
provar o parentesco.
http://shrn.stanford.edu/workshops/revisitingrace/TallBear_Bolnick.doc
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