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Por
ANTONIO OZAÍ
DA SILVA
Docente na
Universidade Estadual de Maringá (UEM), membro do Núcleo de
Estudos Sobre Ideologia e Lutas Sociais (NEILS – PUC/SP), do
Conselho Editorial da Revista Margem Esquerda e Doutor em
Educação pela Universidade de São Paulo |
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BARSKY,
Robert F. Noam Chomsky: A Vida de um Dissidente. São
Paulo:
Conrad Editora,
2004 (271 p.)
Noam Chomsky:
o significado pedagógico da dissidência
“As coisas acontecem no mundo devido aos esforços de pessoas
dedicadas e corajosas, de cujo nome ninguém ouviu falar, e que não
passam para a História. Eu só dou palestras e escrevo devido a
seus esforços de organização, para os quais consigo contribuir do
meu jeito”.
Noam Chomsky
Nas livrarias e sebos salta aos olhos a
quantidade de biografias à disposição do leitor-consumidor. Há
histórias de vidas para todos os gostos: política, ídolos da
juventude, livros que alimentam a curiosidade sobre a vida alheia
etc. Afinal, por que se escrevem tantas biografias? Do ponto de
vista mercadológico a resposta deve estar na possibilidade de
atender a expectativa de consumo e, é claro, concretizar o lucro.
Mas de onde vem esta expectativa? Por que os indivíduos, mesmo os
não dados a leituras cotidianas, são tão fascinados por este gênero
literário?
A verdade é que estas vidas,
sintetizadas em palavras, transformadas em livros, valor de uso
e valor de troca, são vidas modelares. São vivências que
extrapolam o viver comum da maioria dos indivíduos; vidas virtuosas
que se destacam. Portanto, do ponto de vista do leitor, a biografia
cumpre uma função modelar. É o exemplo a ser admirado e, se
possível, seguido. Mas é também o exemplo a ser recusado e
criticado. Em ambos os casos, para o bem ou para o mal, cumpre uma
função pedagógica, tem uma potencialidade educativa e configura uma
pedagogia do exemplo.
O paradoxo é que a biografia é una, singular e intransmissível. Por
mais elogios que o biografado mereça, a sua vida não poderá ser
assumida por outro, este não pode vivê-la à sua maneira. Talvez a
sua força resida neste paradoxo...
Que o leitor me perdoe por estas
digressões. Mas, como aprendi com Paulo Freire, a leitura dialógica
pressupõe uma atitude ativa e crítica, isto é, uma interação entre o
leitor e o autor, através do seu escrito.
Vale a pena ler uma obra quando esta acrescenta algo, quando esta é
instigante, quando dialogamos com o lido. O leitor passivo toma o
lido enquanto a verdade consubstanciada em palavras. Esta atitude
nega a riqueza do diálogo e despreza a necessidade da dúvida
metodológica.
Os dissidentes são, em essência,
indivíduos insatisfeitos, instabilizadores da ordem, críticos
das certezas absolutas. Seria, portanto, um desrespeito, e também a
demonstração de nada ter aprendido, se a leitura de um livro sobre a
vida de um dissidente se resumisse apenas à passiva atitude de
maravilhar-se. A biografia de Noam Chomsky permite este diálogo; não
é o tipo de obra a ser lida passivamente. A vida de um dissidente é,
em si, ativa, polêmica e instigante.
Noam Chomsky: a Vida de um Dissidente,
de Robert F. Barsky, é dividido em duas partes: os três primeiros
capítulos tratam do meio que formou Chomsky; os dois últimos, do
meio que ele ajudou a criar, isto é, da sua influência sobre as
pessoas nos espaços em que conviveu. Na primeira parte, o autor
analisa a influência da família, da cultura e política judaicas, dos
primeiros passos no mundo acadêmico e o impacto do pensamento
cartesiano e racionalista sobre o desenvolvimento intelectual de
Noam Chomsky no campo lingüístico. Na segunda, ele enfatiza a
carreira universitária e o ativismo militante do biografado. Por
fim, o autor contempla a atualidade, o trabalho de Noam Chomsky em
relação ao cenário sóciopolítico contemporâneo.
Escrever sobre a vida de um intelectual
à altura de Noam Chomsky não é uma tarefa fácil. O autor a define
com “assustadora”. Por que? Eis seu argumento:
“Chomsky é uma das mais importantes
figuras deste século e é descrito como um daqueles que serão para as
futuras gerações o que Galileu, Descartes, Newton, Mozart e Picasso
foram para a nossa. Ele é o ser vivo mais citado do mundo – 4 mil
citações de sua obra estão relacionadas no Arts and Humanities
Citation Index (Índice de Citações de Artes e Humanidades) de
1980 a 1992 – e é o oitavo numa lista, que inclui Marx e Freud, das
figuras mais citadas de todos os tempos”. (p.15)
O autor continua a exibir dados
estatísticos sobre citações, publicações e se refere aos inúmeros
prêmios recebidos pelo biografado. È mesmo “assustador”. A
responsabilidade do biógrafo não é pequena. Ao tratar de um
intelectual desta envergadura, qualquer autor corre o risco de fazer
a apologia. Este é um dos dilemas das obras biográficas –
excetuando, é claro, aquelas de cunho declaradamente crítico. Como
escreve Carino (1999: 155):
“Embora as apologias proliferem, seus
autores preferem tentar esconder-se (sem êxito) por detrás de uma
pretensa neutralidade. Quando a admiração pelos biografados é forte
a ponto de tornar-se incontrolável, os biógrafos preferem renunciar
a qualquer distanciamento crítico e deixam-se levar pelas ondas
arrebatadoras de sua paixão, tornando-se cegos (como qualquer
apaixonado) e chegam muitas vezes a naufragar no ridículo. Em
verdade, o que fazem são “hagiografias”, cuidando, eles mesmos, de
canonizar seus biografados”.
Não é o caso desta biografia. A própria
personalidade do biografado não o permite. Chomsky não admitiria o
culto à personalidade e ele tem claro que a biografia de um
indivíduo está vinculada à vida de inúmeras pessoas que não aparecem
e que não são objetos dos biógrafos. Seu biógrafo está atento a este
aspecto, mas sua biografia se mostra simpática ao biografado. Por
outro lado, é importante ressaltar a sua premissa de que “as idéias
de Chomsky, e em particular suas idéias políticas, não podem ser
totalmente entendidas sem algum conhecimento acerca das
organizações, dos movimentos, grupos e indivíduos com os quais ele
teve contato”. (p. 17)
Dessa forma, a leitura da obra nos
permite não apenas conhecer a vida de um dissidente, mas
também a história, a cultura e sociedade contemporânea, bem como os
movimentos políticos judaicos e no âmbito norte-americano.
Permite-nos, ainda, aprender sobre o sistema educacional, o campo
acadêmico e a intelectualidade norte-americana. O leitor interessado
pela lingüística também encontrará farto material sobre o tema.
A vida de Noam Chomsky atualiza alguns
problemas candentes para os intelectuais responsáveis diante do
mundo. Sua vida é um desafio ao intelectualismo individualista dos
que se isolam em suas torres de marfins e, assim, filosofam sobre o
mundo sem arriscarem a assumir compromissos práticos que coloquem em
xeque as possibilidades de angariar as benesses prometidas pelo
status quo. É um desafio à hipocrisia que reina no campo
acadêmico, onde os interesses egoísticos solapam qualquer
perspectiva de compromisso social e político, em nome de uma
pretensa cientificidade e neutralidade axiológica. Chomsky aceita o
dilema de agir segundo a vocação dual do cientista e do político e,
simultaneamente, respeitar as particularidades de cada espaço:
“Há um terreno intermediário que eu
gostaria de ocupar e acho que as pessoas vão ter de achar meios para
isso: isto é, tentar manter um compromisso sério com os valores
intelectuais e problemas intelectuais e científicos que realmente as
preocupam e, ao mesmo tempo, fazer uma contribuição séria e,
espera-se, útil para as enormes questões extracientíficas. O
compromisso com o trabalho acerca dos problemas de racismo,
opressão, imperialismo e assim por diante, nos Estados Unidos, é uma
necessidade absoluta”. (p. 149)
Isto não é simples nem fácil. Aceitar o
compromisso de responsabilidade política e social e manter a
atividade do cientista, exige dispêndio de tempo nem sempre
disponível, sacrifícios no âmbito familiar e individual e pressupõe
um conflito pessoal permanente. Isto é ainda mais complexo quando o
indivíduo, como exemplifica Chomsky, torna-se uma voz dissidente no
campo acadêmico e extra-acadêmico.
Noam Chomsky é o tipo de intelectual que
não faz o sacrifício do intelecto. Descendente de família
judaica, polemiza com os judeus sobre o sionismo, o Estado de Israel
e a liberdade da crítica; influenciado pelo pensamento libertário,
entra em rota de colisão com a esquerda vinculada à tradição
marxista; intelectual reconhecido em sua área, confronta a
autoridade instituída e desafia a ortodoxia; cidadão
norte-americano, não poupa críticas às políticas governamentais, mas
também não aceita as justificativas de certa tradição esquerdista
para quem o equivocado é sempre o outro e nunca os que estão nas
próprias fileiras. Em sua obra, Robert F. Barsky, expõe as
atividades de Chomsky enquanto cientista e intelectual engajado,
suas influências intelectuais e as polêmicas em que se envolveu.
A vida de Noam Chomsky é modelar. E os
modelos podem ser “negativos” ou “positivos”, a depender da
interpretação do leitor. Porém, não esqueçamos que o leitor não se
encontra suspenso no ar, isto é, sua atitude e posicionamento
político diante da ordem instituída – dentro e fora da academia – é
um fator de profunda influência sobre a sua postura. Em qualquer dos
casos, é preciso ter a ousadia intelectual para confrontar nossas
certezas e, então, podermos aprender. Só por isso, já vale a pena
ler esta obra.
Referências Bibliográficas
BARSKY, Robert F. Noam Chomsky: A Vida
de um Dissidente. São Paulo: Conrad Editora, 2004
FREIRE, Paulo. Considerações em torno do ato de estudar.
Revista Espaço Acadêmico, nº 33, fevereiro de 2004. |
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O AUTOR
Robert F. Barsky
é professor assistente do Departamento de Inglês da Universidade
de Western Ontario. É autor de Introduction à la Théorie
Littéraire, Constructing a Productive Other: Discourse Theory
and the Convention Refugee Hearing e co-editor, com
Michael Holquist, de Bakhtin and Otherness.

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