Por AUGUSTO C. BUONICORE

Historiador, doutorando em Ciências Sociais/Unicamp, membro do Comitê Central do PC do Brasil, do conselho de redação das revistas Debate Sindical e Princípios, do conselho editorial da revista Crítica Marxista e diretor do Instituto Maurício Grabóis (IMG)

O camponês e a história

A construção da Ultab e a fundação da Contag nas memórias de Lyndolpho Silva

Paulo Ribeiro da Cunha (Org.)

São Paulo: Instituto Astrojildo Pereira: 2004, 296 p.

Pedidos: Instituto Astrojildo Pereira


 

Uma Memória das Lutas Camponesas

 

Em 1928 o Bloco Operário – frente política de esquerda hegemonizada pelos comunistas - se transformou em Bloco Operário e Camponês – BOC. Esta mudança de nome era uma forma de expressar a importância estratégica da aliança entre operários e camponeses no processo da revolução brasileira. Pouco tempo depois o BOC foi desfeito sem que pudesse, de fato, ter cumprido a missão que seu nome buscava expressar. Por longos anos a “unidade operária e camponesa” não passou de um projeto de difícil realização.

Apenas no início da década de 1950 esta situação começou a ser alterada com a fundação da União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (Ultab). Neste processo coube ao Partido Comunista do Brasil um papel de extrema importância. No entanto, sua atuação na organização e constituição dos camponeses enquanto classe só muito recentemente começou a receber um tratamento mais adequado. Mesmo assim, podemos dizer, que este é um tema ainda pouco estudado. Um fenômeno, aparentemente, estranho tendo em vista a importância que os camponeses têm na estratégia da maioria das organizações da esquerda no país.

O livro O Camponês e a história – A construção da ULTAB e a fundação da CONTAG nas memórias de Lyndolpho Silva, organizado por Paulo Ribeiro da Cunha – lançado pelo Instituto Astrojildo Pereira – nos ajuda a ir preenchendo as lacunas existentes na história das lutas camponesas no Brasil. A obra foi montada a partir de uma série de entrevistas realizadas com Lyndolpho Silva. Infelizmente, o agravamento do seu estado de saúde impossibilitou que pudessem ser completadas.

Um dos problemas encontrados pelos historiadores que desejam reconstituir o passado das lutas sociais é que, através da história oral, os acontecimentos acabam sendo filtrados pela memória do depoente. Fatos são esquecidos, outros realçados – e mesmo reformulados. Isto é ainda mais grave numa organização como o Partido Comunista – que atravessou várias fases e inúmeros e dolorosos processos de autocríticas, nos quais a história foi reescrita em cada nova fase. Apesar destes limites as entrevias continuam sendo, em muitos casos, a única forma de reconstituir parte da rica história de luta dos trabalhadores.  

Lyndolpho Silva foi um dos principais dirigentes comunistas na área de trabalho no campo nas décadas de 1950 e 1960. Ele ingressou no Partido Comunista em 1946, quando o partido ainda estava na legalidade. Iniciou sua ação entre os posseiros no Rio de Janeiro. Em março de 1953 participou como delegado na I Conferência Nacional de Camponeses, organizada por entidades vinculadas ao PCB. No final do ano foi designado como um dos delegados a I Conferência Internacional dos Sindicatos de Trabalhadores na Agricultura, realizada em Viena.

Em 1954 realizou-se a II Conferência Nacional na qual foi fundada a Ultab. Ele foi eleito primeiro-secretário. Desde então passou a atuar em São Paulo e colaborar com o jornal Terra Livre – periódico comunista voltado, especialmente, aos camponeses. É ele próprio que nos conta os problemas enfrentados na organização dos trabalhadores rurais: “havia uma dificuldade muito grande (...) porque eles não eram devidamente registrados, então era muito fácil mandar embora, isso acontecia com muita freqüência. Não cumpriam nem sequer direitos que já estavam assegurados na CLT”. 

Apesar do decreto-lei de 1944 que garantia a sindicalização rural, no início da década de 1950 apenas seis sindicatos rurais conseguiram ser reconhecidos. À repressão dos latifundiários somavam-se os entraves impostos pelo Ministério do Trabalho. Afirmou ele: “aquilo era burocrático, tinha que fazer aquela papelada e solicitar pedido de reconhecimento dessa entidade no Ministério do Trabalho (...) Eles não dava o reconhecimento porque diziam que não estavam preenchendo a legislação. Então às vezes o processo ficava lá anos a fio e não se conseguia nenhum pronunciamento sobre eles”. A saída encontrada foi a criação de associações de caráter civil que não teriam a necessidade de serem reconhecidas pelo ministério.

Após o XX Congresso do PCUS e as denúncias do chamado “culto a personalidade” de Stálin, ocorridos em 1956, abriu-se uma grave crise no interior do PCB. A Ultab foi atingida em cheio e ficou praticamente paralisada. Em 1959 Lyndolpho foi indicado para a presidência da entidade. No início dos anos 1960 convocou o I Congresso de Trabalhadores Agrícolas que se realizou em Belo Horizonte. Este foi marcado por uma disputa acirrada entre as diversas correntes presentes no ascendente movimento de trabalhadores rurais. Ocorreram choques entre as entidades vinculadas ao PCB e a grupos mais à esquerda, influenciados por Francisco Julião.

Quando do grande cisma do movimento comunista brasileiro entre 1961 e 1962 – que deu origem a dois partidos comunistas no Brasil – Lyndolpho Silva ficou com a maioria comandada por Prestes e optou pelo Partido Comunista Brasileiro - PCB. Uma minoria expressiva de revolucionários, liderada por João Amazonas e Maurício Grabóis e Pedro Pomar, ficou com o Partido Comunista do Brasil – PCdoB.

Poucos anos mais tarde Lyndolpho estaria à frente do processo de fundação da CONTAG, que ocorreu em dezembro de 1963. A hegemonia coube ao PCB, que estabeleceu uma aliança com a Ação Popular – organização de esquerda católica. A Ultab tinha 21 federações e a segunda força a AP possuía apenas nove. As federações hegemonizadas pela igreja conservadora recusaram-se a fazer qualquer aliança com os comunistas. Cerca de um mês depois a entidade era reconhecida pelo governo Jango. Lyndolpho foi eleito seu primeiro presidente.

No grande comício pelas reformas de base na Central do Brasil, ocorrido em 13 de março de 1964, acabou sendo indicado para falar em nome do CGT. “Deu um pouco de discussão, afirmou ele, mas acabou sendo eu”. Continua a narração da sua participação naquele memorável evento: “Sabe quem redigiu o discurso? O Morena e o Miguel Batista, que eram da direção do PCB. Não dei palpite em nada (...) o Morena me chamou (...) Então ele leu o discurso que tinham redigido (...) Terminado o discurso, seu Pacheco me chama: - Lê isso aí agora para eu ouvir. Achava que eu era camponês e não sabia merda nenhuma, queria saber se eu sabia falar, fazer discurso. Aí o desgraçado era tão grande que ainda me botou em algumas dificuldades. Quando fui falar, já tinha falado tanta gente (...) e o discurso era um pouquinho grande. Então a massa já não queria ouvir (...) e depois da quinta página começaram: - Ah ...ah... vaias (..) eu não mia ler esse negócio todo. Peguei e fiz um encerramento. Aí entra o Jango, era a vez dele”.

Depois do golpe militar de 1964, o governo interviu na CONTAG e Lyndolpho foi obrigado a entrar na clandestinidade. Mudou-se para São Paulo e passou a compor a direção clandestina do PC brasileiro na capital paulista. Teve seus direitos políticos cassados e foi condenado à revelia a mais de 10 anos de prisão. Quando houve o racha no PCB, capitaneado por Carlos Marighela, então secretário político da organização no estado, ele novamente ficou com o grupo de Prestes.

No início da década de 1970, com o recrudescimento da repressão ao PCB, foi obrigado a abandonar o país e se refugiar na Tchecoslováquia, indo trabalhar na União Internacional dos Sindicatos dos trabalhadores na Agricultura, ligada a FSM. Foi eleito terceiro-secretário da entidade e nesta condição viajou para vários países da América Latina e da antiga África portuguesa, que acabavam de se libertar do julgo colonial. Participou, também, como representante da União nas conferências da Organização Internacional do Trabalho.

Embora tivesse sido presidente de entidades camponesas importantes, continuou sendo por longos anos um quadro partidário intermediário. Esta é outra das contribuições deste trabalho, pois grande parte das biografias se concentra nos dirigentes nacionais de maior expressão. É claro que existem honrosas exceções como a biografia do líder camponês Irineu Luís de Moraes, o Índio.

Apenas no exílio Lyndolpho passou a fazer parte da direção nacional do PCB. Regressou ao país após a anistia em 1979. No confronto entre Prestes e a maioria da direção partidária, ele novamente ficou com a última. A sua posição em relação à unidade do partido reflete as virtudes e os limites deste importante ativista comunista. Um exemplo disto foi a sua posição em relação às resoluções do VIº Congresso do PCB em 1967. Afirmou ele: “eu achei que aquilo era um negócio ruim. Mas para mim (...) é o que o Partido quer e vamos cumprir (...) essa mania eu sempre tive, ser disciplinado (...) o que ficar decidido dentro do Partido, cumpre-se”. Esta visão esquemática e doutrinária do centralismo-democrático o conduziu, já no fim da vida, a aceitar a liquidação do PCB e a sua transformação em PPS.

 

Informações pelo site:: www.institutoastrojildopereira.org.br

 

 
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